QUESTÕES FINANCEIRAS E DE INVESTIMENTO
4.3. OBJECTIVO ESTRATÉGICO 3: Instalar e Equipar
4.3.1 Introdução
Para que se possam desenvolver actividades que consolidem um Plano de Gestão de Resíduos Hospitalares, é forçoso, que existam condições práticas e condições no terreno, que procedam à recolha, tratamento, transporte e eliminação dos resíduos nas melhores condições possíveis. Sem instalações e sem equipamentos não são possíveis quaisquer intervenções nas unidades de saúde no âmbito dos resíduos hospitalares.
Este terceiro objectivo estratégico, consiste na análise das tecnologias disponíveis a nível internacional e na apresentação das sugestões mais adequadas para cada caso na
4.3.2 Recolha, Transporte e Armazenagem intermédia
A triagem na fonte é a chave para o sucesso de um Plano de Gestão de Resíduos Hospitalares.
Para esse efeito, as estruturas sanitárias deverão ser dotadas de equipamento de recolha para os resíduos contaminados ou potencialmente contaminados, resíduos cortantes ou perfurantes, resíduos radioactivos e resíduos de carácter urbano. Desta forma, deverá ser adoptado um sistema de 4 contentores/sacos distintos e facilmente identificáveis, quer através de um código de cores quer através de uma simbologia adequada.
TIPO DE RESÍDUOS TIPO DE CONTENTOR CORES SIMBOLOGIA RESÍDUOS
EQUIPARADOS A URBANOS
Saco Preto _____
RESÍDUOS
CONTAMINADOS OU POTENCIALMENTE CONTAMINADOS
Saco Amarelo
RESÍDUOS CORTANTES
OU PERFURANTES Contentor rígido, imperfurável e capaz de
conter líquidos
Amarelo
RESÍDUOS
RADIOACTIVOS Contentor rígido,
imperfurável e capaz de conter líquidos
Vermelho
Tabela 9: Símbolos e Código de Cores
Equipamentos de Protecção individual.
Figura 32: Ilustração dos Equipamentos de Protecção Individual necessários ao manuseamento dos Resíduos hospitalares por parte de pessoal de limpeza e varredores.
Em cada departamento hospitalar, terá de ser providenciado um local adequado à armazenagem intermédia, os postos de saúde e as unidades sanitárias básicas procederão da mesma maneira. Este local de armazenagem intermédia deverá ser unicamente acessível ao pessoal designado para manusear os resíduos hospitalares.
Os resíduos hospitalares, deverão ser aqui armazenados em contentores rígidos de grandes capacidade e com o mesmo código de cor e simbologia utilizado para os equipamentos de recolha, para que a sua triagem se mantenha.
4.3.3. Eliminação
4.3.3.1 Quadro comparativo das tecnologias disponíveis
As tecnologias de eliminação/tratamento de resíduos hospitalares, são hoje muito diversificadas.
Opção Descrição Vantagem Desvantagens Forno ou estufa de
secagem, tambor rotativo
Forno rotativo com uma câmara de
pós-combustão assegurando uma incineração entre 1200 e 1600ºC.
Adequado para todos os resíduos infecciosos e farmacêuticos
Elevado investimento e elevados custos de operação
Incineração pirolítica (Incinerador de dupla câmara)
Incineração em dupla câmara (a temperatura média de combustão da 1º câmara é de 800-900ºC e da 2ª câmara de 1300 ªC) , produzindo cinzas sólidas e gases.
Os gases podem ser incinerados na câmara de pós combustão a alta temperatura
Elevada eficiência de desinfecção.
Redução drástica da massa/volume de resíduos.
Adequado para todos os os tipos de resíduos.
.Resíduo não identificável após o tratamento
.Potencial recuperação de calor
Destruição incompleta de resíduos citológicos Custos de
investimento/exploração elevados
.Formação de dioxinas e furanos
.Elevados custos de manutenção, controlo e de reparação
Desinfecção química Adicionamento de químicos aos resíduos para exterminar ou inactivar os agentes patogénicos através de um processo de fragmentação antes do tratamento
Desinfecção de alta eficiência sob boas condições de operação.
Boa redução no volume de resíduos químicos e alguns tipos de resíduos infecciosos Autoclave Desinfecção térmica
húmida baseada na exposição de resíduos triturados a altas temperaturas (121ºC no mínimo), vapor de alta pressão (até 6 bars)
Ambientalmente sustentável
Redução no volume dos resíduos.
Investimento e custos de operações relativamente reduzidos
Os trituradores estão frequentemente sujeitos a quebras, avarias e fraco funcionamento. A operação requer técnicos qualificados. Inadequado para resíduos
anatómicos farmacêuticos e químicos Radiação microondas Aplicação de radiação
microondas a uma frequência de 2450 MHz aquecendo rapidamente a água contida nos resíduos e destruindo os resíduos infecciosos por combustão calorífica
Ambientalmente sustentável
Boa eficiência de desinfecção sob boas condições de operação.
Boa redução no volume de resíduos
Elevados custos de investimento e de operações. Problemas potenciais de operação e de manutenção. Os trituradores estão frequentemente sujeitos a quebras, avarias e fraco funcionamento.
Incineração em câmara única, tipo Montfort
Incineração a baixa temperatura 300-400ºC em incinerador simples
Boa eficiência de desinfecção.
Redução drástica do peso e volume dos
Emissão significativa de poluentes atmosféricos.
Ineficiência na
destruição de químicos e medicamentos
termicamente resistentes
reduzidos Mau cheiro.
Destruição de apenas 99% dos
microrganismos. Não existe destruição de muitos resíduos químicos e farmacêuticos Encapsulação Enchimento de
contentores com resíduos adicionando um material imobilizante e selando o contentor
Simples de custo reduzido e seguro. Pode ser usado para resíduos farmacêuticos
Não recomendado para resíduos infecciosos.
Enterro seguro (aterros) Enterramento de resíduos dentro do espaço hospitalar, numa cova forrada com material de baixa permeabilidade
Baixo custo.
Relativamente seguro se a infiltração natural do local for limitada e o acesso restrito
Seguro apenas caso o acesso ao local seja restrito e sejam tomadas certas precauções
Inertização Mistura de resíduos com cimento e outras substâncias antes da eliminação de forma a minimizar o risco de que substâncias tóxicas contidas nos resíduos vertam
Não é dispendioso Não aplicável a resíduos infecciosos
Fonte: Gestão segura de resíduos hospitalares. OMS, 1999
Tabela 10: Quadro Comparativo das Tecnologias de Eliminação Disponíveis
4.3.3.2 Análise de Cenários Tecnológicos e de Gestão
Perante o contexto socio-económico de Angola e o carácter de urgência da intervenção na questão da Gestão dos Resíduos Hospitalares, a escolha da tecnologia de eliminação deve recair numa tecnologia, que respondendo aos mais elevados critérios de sustentabilidade, seja radical na eliminação dos resíduos com custos de investimento e manutenção razoáveis.
A utilização de tecnologias como forno ou estufa de secagem, tambor rotativo, desinfecção química, autoclave, ou radiação microondas, são inadequadas pelos elevados custos de investimento ou pela especificidade dos requisitos de manutenção. A inertização e a encapsulação dos resíduos, não são adequadas por não serem tecnologias
No que diz respeito à incineração, existem três tecnologias distintas que são:
Incineração em câmara única, tipo Montfort, incinerador de tambor cilíndrico e incineração pirolítica ou de câmara dupla.
Estas tecnologias com diferentes consequências ambientais, têm custos de investimento e de manutenção distintos, pelo que se devem utilizar de forma criteriosa.
Cenário Descrição do Cenário Vantagens Desvantagens Cenário 1 Utilização de outros
processos tecnológicos (..)
Elevados critérios de sustentabilidade,
Não são radicais na eliminação dos resíduos ou tem custos elevados de investimento e manutenção Cenário 2 Utilização de uma
incineradora de dupla câmara e grande capacidade por Província junto da US com maior produção de resíduos; Os resíduos das restantes US seriam transportados para a incineradora
Menor investimento;
Gestão mais próxima e mais fácil;
Número restrito de fontes de poluição atmosférica;
Infraestruras rodoviárias deficientes;
Riscos de Saúde provocados pelo transporte;
Custos transporte elevados;
Poluição atmosférica mais acentuada junto à US;
Cenário 3 Utilização de maior número de incineradoras de dupla câmara em todas as Províncias.
Apesar disso haverá ainda transporte de resíduos de alguns postos de Saúde
Gestão menos complexa;
Menor número de fontes de poluição atmosférica;
Maior investimento;
Maiores custos de instalação e manutenção;
Infraestruras rodoviárias deficientes;
Riscos de Saúde provocados pelo transporte;
Custos transporte elevados;
Cenário 4 Utilização de uma incineradora de dupla câmara e grande capacidade por Província (em Luanda e em Cabinda utilização das incineradoras já existentes);
Utilização de
incineradoras simples e de baixo custo junto das pequenas US
Menor investimento;
Inexistência de transporte de resíduos;
Facilidade no aterro seguro das cinzas;
Facilidades de utilização e de manutenção;
Gestão mais complexa;
Maior número de fontes de poluição atmosférica;
Nas US mais pequenas utilização de tecnologias mais poluentes;
privada mista US/Municíp
partenariados entre as Unidades de saúde
- Gestão privada - Criação de emprego - Criação de matrizes do fluxo de resíduos
das Unidades de saúde - Dificuldade de aplicação dos aspectos institucionais
- Custos mais reduzidos para as US;
- Experiência na gestão de resíduos;
- Criação de emprego;
- Transporte dos resíduos fora das Unidades de saúde, e possivelmente durante o trajecto dos resíduos urbanos;
- Não há criação de matrizes do fluxo de resíduos;
- Gestão menos eficiente;
Gestão
- Eliminação de resíduos centralizada;
- Gestão mais eficiente;
- Criação de emprego;
- Facilidade de rescisão de contrato;
- Custos acrescidos para as US - Transporte dos resíduos fora das Unidades de saúde;
Gestão interna Gestão da responsabili dade da US
- Não há transporte dos resíduos fora das Unidades de saúde
- Gestão rigorosa dos
desperdícios pelas autoridades hospitalares
- Criação de matrizes do fluxo de resíduos
- Investimento muito elevado para as US
- Multiplicação das fontes de incineração;
Tabela 12: Vantagens e Desvantagens dos Diversos Cenários de Gestão
4.3.3.3. Sugestão de soluções
A melhor solução para Gestão de Resíduos Hospitalar em Angola passa pela instalação e uso de equipamentos utilizando tecnologias ecologicamente sustentáveis. No entanto tendo em conta o contexto socio-económico de Angola e a urgência de uma intervenção na área da gestão dos resíduos hospitalares e controlo de doenças transmissíveis como o HIV/SIDA e a tuberculose sugere-se intervenções a dois tempos: (1) a curto/médio prazo com carácter de urgência a solução passa pela instalação de incineradoras de média/grande dimensão nas capitais de Província e de pequena dimensão junto das
mais indicados.
A incineração é um método de eliminação de resíduos radical que destroi os resíduos e elimina a perigosidade destes limitando desta forma consideravelmente a transmissão de doenças por via dos resíduos hospitalares. A incineração não é no entanto a melhor forma de tratar e eliminar resíduos pois provoca fumos e cinzas que acarretam problemas tanto ecológicos como de saúde.
Numa segunda fase de implementação do Plano de Gestão de Resíduos Hospitalares haverá oportunidade de instalar unidades de processamento e eliminação de resíduos ecologicamente mais viáveis., bem como o de alargar estas iniciativas a um maior número de unidades de saúde. O controlo de todos os resíduos hospitalares em todo o país de grande dimensão como é Angola, deverá ser atingido de uma forma faseada aproveitando-se as “boas práticas” adquiridas ao longo do tempo.
Desta forma sugerimos dotar cada Província com uma instalação incineradora de dupla-câmara e em cada município com uma incineradora de pequena dimensão do tipo Montfort.
A decisão de instalar uma incineradora do tipo Montfort por município, passa por questões de investimento. Dentro deste cenário a situação ideal seria equipar todas as pequenas unidades de saúde com uma incineradora deste tipo. No entanto, segundo dados do Ministério da Saúde, existem 926 Postos de Saúde e 249 Centros de Saúde.
Equipar todas as unidades de saúde de pequena envergadura com uma instalação incineradora deste tipo traduzir-se-ia num investimento muito elevado. Assim podemos prever o transporte dos resíduos das US mais próximas para a US equipada com a incineradora tipo Montfort existente no municipio..
A decisão de proceder a instalação de uma incineradora dupla – câmara, com maior capacidade e melhor qualidade, em cada capital de Província deve-se ao facto de nas capitais das Províncias a quantidade de resíduos produzida ser consideravelmente maior
incineradora, descontaminando alguns resíduos hospitalares perigosos. A função dos autoclaves será também a de preparar mentalidades e práticas dos profissionais e da população em geral para uma posterior implementação de processos de tratamento e eliminação de resíduos. A autoclave deverá ficar situada na US de maior dimensão da Província.
Deverão existir manuais com regras de utilização destes dois equipamentos, o autoclaves e incineradores, integrados no Plano de Gestão de Resíduos Hospitalares de cada Província.
Todas as US em Angola revelam profundas carências de instalações e necessitam por isso de um grande investimento em termos de reabilitação. A proposta em termos de reabilitação refere apenas a acções de pequena dimensão e específicas do sector dos resíduos, como restauro de salas de armazenamento intermédio, fossas sépticas ou locais para enterro de cinzas de incineração.
Tendo em conta mais uma vez o contexto socio-económico de Angola e as diferenças existentes relativa aos resíduos hospitalares entre a situação nas Províncias e a situação em Luanda, a escolha do cenário tecnológico e de gestão deve ser feita analisando pontualmente cada Província e cada município. É necessário e urgente dotar todas as US de equipamento adequado á recolha e triagem dos resíduos hospitalares. As quantidades de equipamento necessárias para atingir este objectivo são muito elevadas. No sentido de se apresentar orçamentos razoáveis, sugerimos a aquisição de equipamentos diversos nas seguintes quantidades: baldes = 1/Centro;10/Hospital; carrinhos = 1/Centro e 4/Hospital); contentores de cortantes = 5/Centro;25/Hospital; equipamento de protecção
= 1/Centro;1/Hospital; equipamento para armazenamento = 1/Centro;4/Hospital;
destruidor de cortantes = 1/Centro;1/Hospital.
4.3.3.4 Estimativa do saldo anual existente entre a produção e a capacidade instalada de resíduos hospitalares em Angola
Hospitais Centro Saúde Posto de Saúde Província
Prod/ano (kg) Prod/ano (kg) Prod/ano (kg)
TOTAL ANUAL (kg)
Bengo 41063 13140 54750 108 953
Benguela 274462 164250 118625 557 337
Bié 117932 45990 63875 227 797
Cabinda 79004 72270 144175 295 449
Huambo 186752 236520 80300 503 572
Huíla 150617 137970 180675 469 262
Kuanzo Kubango 159158 26280 27375 212 813
Kwanza Norte 25623 78840 49275 153 738
Kwanza Sul 82289 118260 197100 397 649
Kunene 48290 52560 94900 195 750
Luanda 426065 223380 23725 673 170
Lunda Norte 121709 32850 21900 176 459
Lunda Sul 31536 19710 58400 109 646
Malange 101507 118260 91250 311 017
Moxico 68821 91980 264625 425 426
Namibe 58145 39420 60225 157 790
Uíge 155052 124830 100375 380 257
Zaire 42048 39420 58400 139 868
PAÍS/ANO 2 170 071 1 635 930 1 689 950 5 495 951 Tabela 13: Estimativa da Produção Anual
Estimativa dos resultados de incineração da capacidade instalada com o projecto é:
Incineradoras Montfort pequena dimensão (com capacidade de 30kg/dia) =1 916 250 kg Incineradoras média/grande dimensão (18, produção média de 300kg/dia) = 1 971 000
kg Total: 3 887 250 kg
Déficit/ano = 1 608
701 kg
Nota: Apesar da dimensão do projecto verificamos que ainda existe um déficit enorme que é urgente ultrapassar
4.3.4 Acções previstas
Este objectivo estratégico consiste na aquisição do equipamento mínimo necessário para concretizar o plano de gestão e criar condições de instalação para que o equipamento funcione. Assim estão previsto a compra de equipamento distinto de acordo com a
As acções para concretizar este objectivo estratégico são:
- Estudo alargado a todas as Províncias sobre soluções adequadas e sua quantificação, uma vez que o levantamento já realizado só contemplou cinco Províncias
- Procedimentos administrativos relacionados com o concurso para aquisição de Equipamentos (abertura de concurso, procurement, selecção, fiscalização)
- Reuniões prévias com as Unidades de saúde para análise da situação e entrega dos equipamentos
- Distribuição de material e equipamentos
- Construção ou reabilitação das parte de infra-estruturas directamente ligadas ao armazenamento e tratamento de resíduos hospitalares