Fonte: recolha própria
1.3 OBJECTO DE ESTUDO: A RELAÇÃO COM O SABER COMO EXPERIÊNCIA DE EXCLUSÃO.
1.3.1 – A noção de experiência
Quando se pretende construir um objecto que tem como centralidade a experiência de exclusão através da relação com o saber, surge desde logo a necessidade de clarificar o que se entende por experiência social e de relação com o saber. Ambos os conceitos se apresentam imprecisos, uma vez que deles se podem extrair uma grande diversidade de significados. Relativamente ao conceito de experiência38 a diversidade é de tal ordem que a amplitude da mesma resulta do facto da experiência se confundir com a presença do sujeito no mundo, o que leva a que mesmos as não acções, os não-factos, as não comunicações, sejam também experiências.
Apesar de tudo, a diversidade de situações em que se pode falar de experiência origina um entendimento distinto, todavia complementar por parte dos teóricos39 que se preocupam com esta questão.
De um modo geral pode-se afirmar que o termo assume dois sentidos, isto é, por um lado tem subjacente uma orientação para o futuro e, por outro, para acções do passado. Numa orientação para o futuro a experiência é uma tentativa de “ensaio”, ou seja, um colocar em “prova” cujo resultado se pode esperar mas que tem sempre algo de imprevisível. Aqui, a experiência pode ser entendida como uma “confrontação com qualquer coisa nova para a pessoa, com uma ruptura no curso habitual das coisas” (Roelens, 1989: 67). Numa orientação para o passado, a prova tem lugar e o sujeito obtém experiência nessa questão, tornando-se um perito, alguém que adquiriu conhecimento num determinado domínio. Por seu turno aqui, a experiência é algo como “já constituído, estabilizado, mobilizado, estruturado como quadro de pensamento e de acção (…) ter experiência é ser capaz de uma prática ou de um comportamento estruturado, uma situação conhecida” (Roelens, 1989:67-68).
38 O termo experiência deriva do latim experientia, derivado do verbo experir que significa “fazer
ensaio”, sendo a sua origem etimológica grega, e que significa “prova”.
39 Pineau e Coutois (1991) identificam uma série de autores para os quais o significado da
experiência é entendida como um conceito directo (Landry), um reencontro (Bonvalont), um choque de identidades e realidades (Roelens), como um estado inter-facial e intersticial (Enriotti). Este estado altera os estados anteriores (Robin) e é constituído de uma espécie de co-presença (Villers), de co-referência, de co-vivência apesar de não se saber (Roelens).
Não havendo uma definição que assuma todas as dimensões da experiência a concepção apresentada por Jobbert (1991) talvez seja aquela que melhor traduza a noção de experiência quando afirma que “a experiência é o que é constituído ao longo do tempo, individual e colectivamente, na intimidade das pessoas, no seu corpo, na sua inteligência, no seu imaginário, na sua sensibilidade, na sua confrontação quotidiana com a realidade e com a necessidade de resolver problemas de toda a natureza” (1991: 75).
1.3.2 – A experiência como objecto sociológico
Neste sentido, a transposição da experiência (de exclusão, no caso concreto) como objecto sociológico, de acordo com Dubet (1994: 105) – “é uma combinatória de lógicas de acção que vinculam o actor a cada uma das dimensões do sistema”. O actor deve articular estas lógicas de acção diferentes e a dinâmica que resulta desta actividade constitui a subjectividade do actor e a sua reflexividade.
A experiência social constitui-se deste modo, como uma maneira de construir o mundo que engloba uma componente subjectiva e uma componente cognitiva. A primeira “é uma “representação” do mundo vivido, individual e colectiva” (Dubet, 1994: 93) e a segunda, “uma construção critica do real, um trabalho reflexivo dos indivíduos que julgam a sua experiência e a definem” (Dubet, 1994: 95). É este sentido que se encontra na noção de experiência social de Dubet, ou seja, “são as condutas individuais e colectivas dominadas pela heterogeneidade dos seus princípios constitutivos e pela actividade dos indivíduos que devem construir o sentido das sua práticas no próprio seio desta heterogeneidade” (Dubet, 1994: 15)
A experiência social apresenta deste modo três traços que aparecem nas diversas condutas sociais:
a) a heterogeneidade dos princípios culturais que organizam as condutas; isto é, a identidade social não é um ser, uma posição, um fazer, um trabalho, uma construção, mas sim uma experiência;
a) a distância subjectiva que os indivíduos mantêm com o sistema; as lógicas de acção presentes na experiência social produz um problema de distanciamento, de mal- estar, ora, esta necessidade de explicar a si próprios as suas práticas e a sua adesão a papéis e valores aos quais não conseguem aderir completamente: esta distância critica
(reflexividade) quando ocorre é o que define a autonomia dos actores, tornando-os deste modo sujeitos;
b) a construção da experiência colectiva que vem recolocar o conceito de alienação no cerne da análise sociológica, ou seja, não havendo um projecto comum, o que há são explosões sociais localizadas; a alienação ocorre, quando as relações de dominação impedem os actores de terem o domínio sobre a sua experiência social.
Neste sentido a experiência social é o resultado de uma articulação aleatória entre estas três lógicas de acção, a saber;
A lógica da integração: o actor é definido pelos seus vínculos com a comunidade;
na qual a Identidade – é “adscrição submissão pela interiorização dos valores institucionalizados através dos papéis; o actor é reconhecido na medida em que está integrado. A natureza dos papéis sociais está pautada por uma oposição entre “eles” e “nós”, sendo que o outro o é definido como o “estranho”. O fundamento da acção dos actores são os valores. A cultura por sua vez fundamenta a identidade, que é uma moral, perpetuando deste modo a ordem. As condutas de crise são vistas como patológicas, ou falhas dos processos de socialização. A visão da sociedade, tem unicamente como objectivo manter a continuidade da sua identidade.
A lógica da estratégia: o actor é definido pelos seus interesses num mercado; e na
qual a identidade é um recurso, um meio, vinculada ao conceito de status e não a um papel social. O actor é reconhecido na medida em que tem recursos para influenciar os outros a partir da posição que ocupa, posição, esta é sempre “relativa”, dependendo das oportunidades e dos recursos disponíveis nessa mesma posição. Substitui-se deste modo a integração pela regulação: as regras do jogo. O que se encontra aqui em causa é a questão do poder. Nesta perspectiva, a acção colectiva constitui-se mais como mobilização, do que adesão.
A lógica da subjectivação: o sujeito critico frente a uma sistemáticas de produção/
/dominação de alienação,40 e na qual a identidade constitui-se como implicação, ou seja, permite ao sujeito perceber-se como o autor da sua própria vida, através de um distanciamento critico.
40 A alienação – é entendida como uma privação da capacidade de se ser sujeito, é um
desencantamento que esvazia a experiência social do seu sentido, através da racionalidade instrumental. (Dubet, 1994:132),
As relações sociais são aqui percebidas em termos de obstáculos ao reconhecimento e à expressão dessa subjectividade. O conflito social é a luta contra a alienação de se tornar sujeito. Esta lógica de subjectivação permite entender o irracional e o excessivo nos movimentos sociais, onde podemos encontrar um actor que se percebe como sujeito. O que se encontra aqui em jogo, é a cultura como “definição histórica do sujeito”, ou seja, esta torna possível a critica social como fundamento para acção, a partir da experiência social do senso comum (Dubet, 1994: 132).
1.3.3 – A noção de relação com o saber
A segunda clarificação reporta-se ao conceito de relação com o saber.
A noção de “relação com o saber”, tal como foi construída na literatura (Charlot, 1982, 1992, 1996) pressupõe a existência de um sujeito que constrói uma relação específica com o conhecimento que lhe é proposto, neste caso concreto, quer pela escola, quer no trabalho. Logo, o interesse da noção de relação com o saber é colocar o problema em termos de relações, e não de traços, ou de características individuais. O termo relação, segundo o Dicionário Houaiss, é definido como: articulação, sob qualquer forma, com uma coisa, uma ideia, um ser ou um grupo. Ora, é a relação que valoriza o objecto a que se reporta, dado que não existe para nós aquilo com que não temos qualquer tipo de relação. Podemos então admitir que toda a experiência é relação. Numa primeira fase, a “relação com o saber” foi definida do seguinte modo: “o conjunto de imagens, expectativas e julgamentos que se referem ao mesmo tempo ao sentido e à função social do saber e da escola, à disciplina ensinada, à situação de aprendizagem e à relação em si mesma” (Charlot, 1982: 49). Posteriormente, mercê de múltiplas reflexões, ela passou a ser definida como “uma relação de sentido, e portanto de valor, entre um indivíduo (ou grupo) e os processos ou produtos do saber” (Charlot, et al. 1992: 49). O que esta nova definição nos traz de novo é que a relação com o saber funde-se com o próprio indivíduo, faz parte integrante da sua identidade, questionando os seus modelos, suas expectativas face à vida, face ao seu futuro, da imagem que faz de si mesmo e também das relações que estabelece com as figuras parentais. Situamo-nos deste modo no campo da relação da identidade com o saber. A relação com o saber apresenta uma outra dimensão que se prende com a natureza do acto de aprender, quer seja na escola, no trabalho ou em qualquer outra situação da vida.
Nesta perspectiva “Aprender é apropriar-se do saber, de um saber, construir um sentido, saber como se conduzir em qualquer circunstância cumprir as suas obrigações profissionais de escolares, trabalhador, etc. Nesta perspectiva situamo-nos no campo de uma “relação – epistémica – com o saber”” diz-nos Charlot (1996: 52).
O que permite compreender uma grande parte da força heurística da noção de “relação com o saber” e consequentemente compreender os comportamentos dos indivíduos são as relações instauradas entre os diversos tipos de relações com o (s) saber (s) (e com os aprender) em que o sujeito está envolvido, quer no espaço da escola, quer no espaço do trabalho infantil.
Deste modo, dever-se-á colocar a questão do significado, dado que a “relação com o saber” que cada indivíduo estabelece com o mesmo reflecte em grande medida o modo como se estabelece essa “relação com o saber” ou com o aprender, quer na escola, quer no mundo do trabalho.
As questões que se devem colocar então são: que sentido tem para estes jovens irem à escola e aprender coisas? Ou faltarem à escola? Ou conciliar a escola e o trabalho infantil? O que os mobiliza ou incita a permanecerem na escola ou abandonarem a escola temporária ou permanentemente, e enveredar pelo trabalho infantil e regressar novamente à escola?
A resposta a estas questões poderá ser dada através do estudo e análise da experiência de exclusão destes jovens na sua relação com o saber.
CAPÍTULO 2