6. ETAPA EXPERIMENTAL OFF-LINE
6.1. Experimento 1: tarefa de norming study 1
6.1.1. Objetivo e hipótese
Como já mencionado em seções anteriores (cf. 3.1 sobre modelos autônomos), pesquisas fundamentadas na TGP, tal qual Ferreira & Clifton Jr. (1986) e Maia et al. (2005), obtiveram evidências experimentais compatíveis com a previsão de autonomia da sintaxe durante o processamento, com a atuação da Aposição Mínima. Os psicolinguistas verificaram que aspectos como a plausibilidade para a interpretação relativa, orientada por traços semânticos do SN anterior (animado/ inanimado ou (+) humano/ (-) humano), seriam irrelevantes numa primeira rodada do processamento. Em tais pesquisas, no entanto, desenvolveu-se um fraco controle semântico dos SNs anteriores em relação ao verbo ambíguo. Segundo sugerem Trueswell et al. (1994, p. 289), a pesquisa de Ferreira & Clifton Jr (1986) teria falhado no controle do papel temático desempenhado pelos SNs inanimados. Enquanto metade dos SNs inanimados, como o sintagma “the evidence” (“a evidência”) combinado ao V “examined” (“examinada”), apenas admitiam a interpretação passiva, com o SN assumindo o papel de paciente, a outra metade dos SNs comportava-se como “The car” (“o carro”) combinado ao V “towed” (“rebocado” ou “rebocou”), em que a interpretação ativa também é viável, devido à análise do sintagma nominal como um instrumento.
Os resultados de Trueswell et al. (1994) mostraram-se em uma direção contrária às previsões da TGP, tanto num primeiro experimento on-line - com as mesmas frases
elaboradas por Ferreira & Clifton Jr. (1986) e adaptações quanto a seu modo de exposição na tela -, quanto através de um segundo experimento, que contou com algumas sentenças do primeiro experimento e outras novas, porém ranqueadas quanto à tipicidade do papel de agente e paciente dos SNs anteriores. Trueswell et al. (ibid.) evidenciaram a influência das propriedades semânticas do N (animado/ inanimado), observando que nomes inanimados seriam agentes pobres e favoreceriam a interpretação relativa. Diante da observação de que algumas das frases reduzidas com SN inanimado ainda apresentassem dificuldade de processamento, os pesquisadores elaboraram uma tarefa de ranqueamento em que os participantes deveriam julgar a tipicidade dos SNs inanimados como pacientes/temas ou agentes no par SN+ verbo ambíguo. Constatou-se que as frases experimentais de Ferreira & Clifton Jr. (1986) apresentavam baixa tipicidade dos SNs inanimados quanto ao papel de paciente/tema em sua combinação como verbo ambíguo, além disso, das 26 frases experimentais do segundo experimento, só 14 apresentavam alta tipicidade, sendo justamente as relativas reduzidas com menores custos de processamento, compatível ao das sentenças controle (cf. seção 3.2.2 sobre modelos interativos).
Os resultados da pesquisa de Trueswell et al. (ibid.) são condizentes com a hipótese de interatividade no processamento, além de evidenciarem a necessidade da realização de norming studies, como as tarefas de ranqueamento para a adequação semântica do SN anterior ao verbo ambíguo. Tarefa semelhante foi realizada por Trueswell (1996) anteriormente ao experimento on-line cujos resultados apontaram menores custos de processamento na compreensão da relativa reduzida diante da combinação dos fatores alta frequência participial da forma verbal e tipicidade do papel paciente/tema do SN anterior.
Muito embora nas pesquisas acima reportadas tenham sido encontradas evidências divergentes no que concerne ao acesso à informação semântica (de papel temático) durante a resolução da ambiguidade sintática, tanto Ferreira & Clifton Jr. (1986) e Maia et al. (2005) quanto Trueswell et al. (1994) recorreram à investigação dos efeitos de critérios semânticos como traço de animacidade ou traço [+ humano] x [- humano]. Avaliamos, todavia, que, na combinação entre o SN anterior e o verbo ambíguo, o parser seja sensível à informação de conhecimento de mundo em geral, sobre que entidades tipicamente desempenham que papéis em um evento. A esse conhecimento, que extrapola o nível estritamente semântico, pelo acesso a uma informação que também é negociada socioculturalmente, denominaremos adequação semântico-pragmática.
Consideramos que os diferentes níveis dessa adequação no par SN anterior + verbo ambíguo possa tornar o processamento mais ou menos custoso, tanto no que concerne à desambiguação pelo verbo principal, quanto à desambiguação pela relativa reduzida de particípio. Assim, em condições em que a adequação da tipicidade do SN é compatível com a desambiguação realizada, menores serão os custos para se processar a sentença com ambiguidade temporária; ao passo que a contradição entre as pistas semântico- pragmáticas e a informação de desambiguação conduzirá a maiores custos de processamento, visto que o processador utilizaria imediatamente a informação quanto à tipicidade de um SN para desempenhar determinado papel durante a computação do material linguístico, comprometendo-se com uma das interpretações possíveis.
Diante dessa concepção, encontramos fundamentação teórica nas pesquisas de McRae, Spivey-Konwlton & Tanenhaus (1998), Hare et al. (2011), Matsuki et al. (2011) e Matsuki (2013), que contribuem para a literatura psicolinguística com o debate quanto ao momento de acesso do conhecimento de mundo sobre eventos específicos no processamento on-line, a partir da hipótese de que a informação a respeito das entidades envolvidas na efetivação de um evento e de sua tipicidade nessa participação seja imediatamente processada. McRae, Spivey-Knowlton & Tanenhaus (1998) e Matsuki (2013) investigaram, para a língua inglesa, a resolução de ambiguidade temporária compatível com o fenômeno por nós investigado e demonstraram que o controle da adequação temática do SN anterior ao verbo ambíguo pode tornar a interpretação relativa menos custosa (MCRAE, SPIVEY-KNOWLTON & TANENHAUS, 1998), e até mesmo causar uma espécie de pane (referida como “disruption”) durante a compreensão de sentenças com desambiguação pelo verbo principal cujo SN anterior seja um típico paciente em relação ao evento expresso (MATSUKI, 2013). Cabe ressaltar, no entanto, que nos diferenciamos da perspectiva assumida pelos proponentes do conhecimento de mundo sobre eventos específicos por assumirmos a concepção de processamento serial, em detrimento da perspectiva de processamento paralelo dos modelos de satisfação de condições.
Consideramos, portanto, que o processador atue de modo interativo e preditivo, de que forma que o rápido acesso à informação de adequação temática influencie a decisão sintática quanto a como computar a forma ambígua e como integrar o material subsequente à estrutura já processada.
Anteriormente à experimentação on-line, McRae, Spivey-Knowlton & Tanenhaus (1998) e Matsuki (2013) procederam à realização de tarefas de ranqueamento, ou norming
studies, para elencar os agentes e pacientes típicos na combinação com o verbo ambíguo. Parece, portanto, apropriado que estudos normativos antecedam os experimentos on-line, a fim de contribuir para o refinamento dos estímulos experimentais.
No que tange aos verbos “suspeita” e “expressa”, a ausência da manipulação da adequação semântico-pragmática na elaboração dos itens experimentais eliminaria a ambiguidade temporária. Afinal, a confecção de uma sentença ambígua com “suspeita” demanda que o SN anterior possua o traço [+ humano], por se tratar de um verbo psicológico, cuja seleção semântica argumental demanda um SN sujeito que possa ser um experienciador da ação verbal. A opção por um SN inicial (-) humano descartaria de imediato a interpretação do verbo principal (ex.: “a mensagem suspeita” ou “a atitude suspeita”). Para tal forma verbal, o mais apropriado seria lidar com estímulos como “A investigadora suspeita” (favorável à interpretação do VP) e “A criminosa suspeita” (favorável à interpretação da REL), controlando-se, na verdade, um aspecto pragmático, que envolve conhecimento de mundo sobre os participantes tipicamente envolvidos no evento expresso pela forma verbal em cada interpretação possível.
Quanto à forma verbal “expressa”, só seria possível elaborar um item ambíguo através da escolha de SNs anteriores (-) humanos ou (-) animados, isto porque a opção por um SN humano enviesaria plenamente a interpretação para a análise ativa (ex.: “a aluna expressa ...”). A própria alternativa por “instituições”, como em “a universidade expressa” ou “a prefeitura expressa”, estratégia utilizada por Maia et al. (2005) para caracterizar SNs com traço [- humano], concebidos como favoráveis à interpretação relativa, induziria apenas a interpretação do verbo principal, a forma finita.
Conforme já discutido em momento anterior, a instanciação de uma variável como traço [+/- humano] a partir do binômio “Empresária paga” ((+) humano) e “Empresa paga” ((-) humano) (MAIA et al., 2005) é passível de críticas. Em nosso ponto de vista, ambas opções favoreceriam a interpretação do verbo principal, porque partilham o traço [+ humano], embora em diferentes graus; afinal “empresa paga” pressupõe uma interpretação ativa porque “a empresa” continua sendo agente, já que está metonimicamente associada àquele(a) que a comanda, a empresária (o) ou o diretor (a). Trata-se, portanto, de uma variável pragmática não controlada pelos autores.
Diferentemente da língua inglesa, em que o fenômeno ora investigado é observável na enorme gama de verbos de passado/ particípio regular e em irregulares com a mesma forma para o passado simples e particípio passado, em língua portuguesa, a ambiguidade entre presente do indicativo (forma finita) e particípio é observada em um
número bastante reduzido de verbos com particípio irregular. Tal fato conduz à inviabilidade de se elaborarem sentenças experimentais temporariamente ambíguas precedidas de SNs estritamente humanos, tal qual verificado nos estímulos de McRae, Spivey-Knowlton & Tanenhaus (1998) e Matsuki (2013), visto que, dessa forma, seria necessário proceder à eliminação de verbos do conjunto que já se caracteriza como bastante restrito para o português, como “expressa” e “suspeita”.
Assim, os parágrafos acima, ratificam a importância da realização de uma tarefa de norming study, a fim de evitar que as frases experimentais não sejam apenas resultado da intuição possivelmente tendenciosa do(a) pesquisador(a), nem sejam caracterizadas pela falta de adequação- SN+V, o que poderia vir a afetar os resultados experimentais.
Por fim, o objetivo desse experimento foi obter, através de um questionário, as preferências dos participantes quanto aos SNs anteriores aos verbos ambíguos investigados, de modo a elencar os sintagmas nominais de maior tipicidade para anteceder as formas verbais na interpretação passiva, que favorece a relativa, e na interpretação ativa, compatível com o verbo principal.
A nossa hipótese era de que tal escolha fosse orientada pela informação de adequação semântico-pragmática, de modo que a associação de determinados SNs a papéis temáticos específicos para os verbos investigados seja consequência de nosso conhecimento de mundo sobre como os eventos se efetivam, sobre as entidades tipicamente combinadas a uma dada interpretação do verbo ambíguo.