• Nenhum resultado encontrado

Uma proposta de processamento interativo e serial: a Teoria de Dependência de Localidade

3. O PROCESSAMENTO DE FORMAS VERBAIS AMBÍGUAS NA LITERATURA

3.2. O processamento sob a perspectiva dos modelos interativos

3.2.4. Uma proposta de processamento interativo e serial: a Teoria de Dependência de Localidade

Importa, ainda, analisar uma abordagem diversa de processamento interativo: a Teoria de Dependência de Localidade (Dependence of Locality Theory), doravante denominada DLT, formulada por Gibson (2000). Essa teoria postula que o processamento sentencial ocorra de modo incrementacional, serial e interativo. Considera-se que, durante a computação de estruturas sintáticas complexas e da ambiguidade sintática, ocorra a avaliação das restrições informacionais a partir de seus custos computacionais, que se

caracterizam, de acordo com a DLT, em duas espécies: custos de integração e custos de armazenamento.

No que concerne ao custo de integração, prevê-se que se identifiquem diferentes graus de dificuldade para se processar o material linguístico a depender da distância entre os núcleos (h1 e h2) de duas projeções que estejam sendo integradas. Diante da presença de mais itens lexicais intervenientes, ou seja, mais referentes discursivos, entre os dois núcleos (h1 e h2), a ativação do núcleo h1 decai até que se compute o núcleo h2, o que conduz a maiores custos para o processamento. Além disso, a integração entre os dois núcleos depende ainda da complexidade das estruturas intervenientes, bem como a natureza discursiva desses itens lexicais.

Gibson (2000) reporta os resultados de um experimento de Warren & Gibson (1999) envolvendo a correlação entre a natureza discursiva do sintagma sujeito da oração relativa encaixada mais central e a dificuldade na compreensão de sentenças aninhadas (nested structures), como: “The reporter [who the senator [who John met] attacked] disliked the editor”75. Na tarefa experimental elaborada, os participantes ranquearam o nível de dificuldade das sentenças experimentais com notas que variavam de 1 e 5. Os pesquisadores manipularam a natureza discursiva do sujeito da relativa mais encaixada (“who John met”), de modo que nesta posição sintática poderiam figurar: pronomes pessoais (“I” e “You”), nomes próprios, conforme se verifica no exemplo, ou SNs definidos (ex.: “the woman”). Como resultado, aferiu-se o seguinte ranqueamento de acordo com a natureza discursiva dos sujeitos, numa escala crescente dos custos para a compreensão da relativa mais central: relativa com pronome pessoal < relativa com nome próprio < relativa com SN definido. A consideração de que as relativas centrais com os pronomes “You” e “I” caracterizem-se por um menor grau de dificuldade advém da constatação de que os pronomes pessoais selecionados demandam custos nulos de referenciação, já que são facilmente acessados no contexto discursivo.

No que se refere aos custos de armazenamento, Gibson (2000) destaca que o número de dependências sintáticas em aberto tem efeitos para os custos de processamento, resultando em maior ou menor sobrecarga para a memória de trabalho, o que demanda, portanto, recursos computacionais para a estocagem do material linguístico. Dessa forma, quanto maior o número de dependências sintáticas incompletas, maiores os custos de armazenamento. Verificam-se, portanto, custos de armazenamento

elevados para a compreensão de estruturas aninhadas (nested structures), como em “The reporter that the senator that John met at the party attacked admitted the error”76. Na referida sentença, observam-se inúmeras dependências sintáticas em aberto devido ao encaixamento central das relativas, vide à distância entre o nome que compõe o SN sujeito “reporter” e o verbo “admitted”, com duas orações relativas entre o argumento externo e seu predicador, bem como a existência de uma relativa entre “senator” e “attacked”.

Gibson (2000) demonstra também a avaliação dos custos de integração a partir da diferença no processamento de orações relativas de sujeito e de objeto, exemplificadas, respectivamente nas seguintes sentenças: (a) “The reporter that attacked the senator admitted the error” e (b) “The reporter that the senator attacked admitted the error”77. Embora as latências de leitura para o verbo “admitted” tenham se mostrado semelhantes para as duas sentenças, evidenciaram-se maiores tempos de leitura do verbo “attacked” para as relativas de objeto (b). A justificativa para tal resultado experimental residiria na avaliação dos referentes discursivos intervenientes. Assim, enquanto a relativa de sujeito (a) apresenta a integração local tanto do verbo “attacked” ao pronome relativo “that” (coindexado à categoria vazia na posição de sujeito sem referentes discursivos intervenientes) quanto do objeto “the senator” a este verbo, a relativa de objeto (b) evidencia a integração local do sujeito “the senator” ao verbo “attacked” e do mesmo com a categoria vazia na posição de objeto, porém tal categoria será coindexada ao pronome relativo “that” de modo não local, devido à existência de dois referentes discursivos intervenientes, “the senator” e “attacked”. Assim, tal integração não local eleva os custos de processamento das relativas de objeto.

Consideramos que a DLT possa contribuir na investigação de nosso objeto de estudo por dar ênfase também à importância da sobrecarga estrutural durante o processamento, sem, contudo, descuidar-se de outros aspectos, como contexto pragmático, discurso e frequência, o que a caracteriza como um modelo interativo. Importa destacar que, em nossa proposta interativa, a restrição estrutural também desempenha papel relevante na resolução da ambiguidade; tal qual proposto pela DLT, há um alto custo computacional em manter em aberto dependências sintáticas (custos de armazenamento). Observaríamos, portanto, maiores custos de armazenamento na opção pela interpretação participial do verbo ambíguo “A funcionária paga pelo serviço saiu

76 “O repórter que o senador que John conheceu na festa atacou admitiu o erro.” 77 (a) “O repórter que atacou o senador admitiu o erro.’

satisfeita”, em que o N “funcionária” mantém em aberto sua dependência de um predicador pela interveniência de uma relativa, diferentemente de “A funcionária paga as contas e sai satisfeita”, interpretação pelo verbo principal, presente do indicativo.

Nossa investigação, portanto, irá se fundamentar na consideração da interatividade entre restrições informacionais diversas (sintaxe, adequação semântico- pragmática e frequência), tal qual proposto pelos modelos incrementacionais interativos, pelas propostas de satisfação de condições e pela DLT, porém assumiremos a concepção de comprometimento do parser com apenas uma das opções de análise na resolução da ambiguidade, conforme os modelos que postulam a serialidade, como a TGP e a DLT.