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3 DESENHO DE PESQUISA

3.1 Objetivo e hipóteses

Em que consiste testar a teoria da maldição dos recursos? A partir da revisão de literatura, observam-se inúmeros focos de análise: desde as análises econômicas às políticas. Esta tese se dedicará a analisar a chamada maldição dos recursos política, que observa os efeitos adversos das rendas elevadas no processo político (BROLLO et al., 2013). Por isso, o objetivo deste trabalho é responder aos seguintes problemas de pesquisa: rendas elevadas e concentradas repassadas aos entes políticos elevam a competição política? Além disso, trazem vantagens eleitorais aos incumbentes?

O debate sobre os sistemas políticos comumente sugere que são as instituições políticas adotadas que criam incentivos à maior ou menor competição política – eleições livres, justas e regulares, por exemplo. O argumento encontra seus fundamentos em Dahl (1997), para quem as variáveis "competição política" e "participação" são cruciais para a democracia. Conceitualmente, a competição política indica qual o grau de contestação que os grupos no poder livremente sofrem de outros partidos ou grupos dentro de uma estrutura política, bem como a independência entre os poderes.

Nesses termos, a competição política tem razão estratégica no ciclo eleitoral das democracias, pois a ela estão associados os conceitos de responsividade e accountability. Para Dahl (1997, p. 25), “uma das características chave da democracia é a contínua responsividade do governo às preferências de seus cidadãos, considerados como politicamente iguais”. A

accountability seria o meio institucional ou social capaz de controlar e sancionar autoridades,

eleitas ou não (O’DONNELL, 1998). Em suma, a democracia precisa de uma conjugação de responsividade com arranjos institucionais capazes de criar essas conexões.

A questão subjacente à teoria da maldição dos recursos é de que rendas elevadas podem afetar não só as instituições, como também o comportamento dos incumbentes, conforme explorado no Capítulo 2. O argumento rentista é que as rendas tornam os líderes menos sujeitos à accountability, pois, se a maior parte do financiamento da máquina estatal não decorre dos impostos cobrados à população, os líderes não teriam incentivos para satisfazer os interesses da população. No limite, para usufruir dos recursos, poderiam capturar as instituições.

No contexto subnacional brasileiro a ruptura institucional não parece ser uma hipótese crível, já que as regras eleitorais são exógenas aos municípios – estão determinadas na Constituição Federal. Além disso, as eleições são organizadas e garantidas pelo Poder Judiciário, por meio da Justiça Eleitoral. Porém, se as regras eleitorais não criam barreiras à entrada, as circunstancias excepcionais podem criar. De fato, as eleições livres, justas e competitivas são elementos mínimos para a existência da democracia (PRZEWORSKI, 1999), mas os competidores devem concorrer em pé de igualdade e sem subterfúgios ilícitos, a exemplo da compra de voto ou promessa de cargos públicos. Ou seja, não pode haver para o incumbente uma vantagem tão grande que possa gerar elevadas barreiras à entrada aos oponentes.

Diante disso, qual competição política esperar nesse cenário? De acordo com o contexto narrado, há pelo menos duas formas de medi-la: uma pré-eleitoral e outra eleitoral. No primeiro caso, como as eleições são livres e garantidas por outro poder que não está sob controle do

prefeito, deve-se tomar a capacidade de os partidos e candidatos apresentarem suas candidaturas. Ademais, em um sistema multipartidário como é o brasileiro, não há barreiras imediatas à entrada dos partidos na competição – candidatos, mesmo sem grandes chances, podem se aventurar nos processos eleitorais (ou contestar as políticas em vigor). Nesse caso, a medida pré-eleitoral de competição é o número de candidatos concorrendo à vaga de prefeito. Todavia, mesmo que as regras permitam a competição pré-eleitoral, somente durante o processo os candidatos são capazes de angariar os votos. Levanta-se a questão de se nos municípios rentistas em que os candidatos são incumbentes há redução na competição política. Para essa variável, utiliza-se o número efetivo de candidatos de Laakso e Taagepera (1979).

Nesses termos, delineiam-se as hipóteses de pesquisa. As duas primeiras hipóteses tratam diretamente do efeito dos royalties na apresentação de aspirantes aos cargos de prefeito, mas há esperança distinta para cada uma delas. A hipótese 1 prevê que mais receitas extras provenientes de royalties elevam a competição política pré-eleitoral. Isso se daria pelo efeito de atração de concorrência, elevando, assim, o número de candidatos por vaga. No entanto, para a hipótese 2 prevê-se que o aumento da receita de royalties reduz o número efetivo de candidatos na eleição. Nesse caso, embora haja o efeito de atração de novos candidatos para o pleito, a presença de rendas elevadas nas mãos dos prefeitos incumbentes elevaria os custos de competição dos novos entrantes.

A primeira variável dependente, número de candidatos concorrendo à eleição do município em t, expressa uma medida de competição pré-eleitoral: quantos candidatos se dispõem a entrar na disputa pela prefeitura de um município (o sumário das variáveis está apresentado no Apêndice D). Embora Monteiro e Ferraz (2010) não encontrem relação entre os

royalties de petróleo e o número de candidatos e Brambor (2012) observe uma relação negativa

entre essas duas variáveis, a intuição teórica sugere uma relação positiva. Afinal, diante de maiores rendas disponíveis, haveria maior incentivo para um candidato entrar na disputa – seja para tentar se apropriar das rendas como prefeito, seja para buscar utilizá-las para o fornecimento de bens públicos.

A segunda variável, por sua vez, expressa a competitividade da eleição em si. Seguindo os trabalhos empíricos (BRAMBOR, 2012; MONTEIRO; FERRAZ, 2012), o número efetivo de candidatos capturará a elevação dos custos da competição, pois mede a concentração de votos entre os candidatos, medindo a força eleitoral dos candidatos. A adaptação dessa variável para os contextos subnacionais é a interpretação direta das teses segundo a quais há maior disputa pelo poder em contextos rentistas (grupos disputando o espólio das rendas). Como o

prêmio em jogo (conquistar a prefeitura com recursos abundantes) é elevado, a competitividade na eleição se reduz, concentrando o jogo apenas entre os contendores mais fortes, capazes de investir alto nas eleições – com vantagem para o incumbente.

Por sua vez, a hipótese 3 lida com outra face da competição política: o potencial de votação dos candidatos incumbentes. Nesses termos, espera-se com a hipótese 4 a elevação da margem de votos, no caso dos prefeitos candidatos à reeleição, apontando a predominância do candidato no poder. Essa hipótese tem direta relação com a teoria delineada por Caselli e Cunningham (2009) e essas variáveis são exploradas de forma direta por Brambor (2012) e Monteiro e Ferraz (2012), além da literatura também observar competição política por meio dessas variáveis (AFZAL, 2014; MALHOTRA, 2008).

Em termos sintéticos, serão testadas as seguintes hipóteses, todas associadas à competição política:

𝐻1: 𝑞𝑢𝑎𝑛𝑡𝑜 𝑚𝑎𝑖𝑠 𝑟𝑜𝑦𝑎𝑙𝑡𝑖𝑒𝑠, 𝑚𝑎𝑖𝑜𝑟 𝑎 𝑐𝑜𝑚𝑝𝑒𝑡𝑖çã𝑜 𝑝𝑜𝑙í𝑡𝑖𝑐𝑎 𝑝𝑟é − 𝑒𝑙𝑒𝑖𝑡𝑜𝑟𝑎𝑙 H2:quanto mais royalties, menor o número efetivo de candidatos

𝐻3: 𝑞𝑢𝑎𝑛𝑡𝑜 𝑚𝑎𝑖𝑠 𝑟𝑜𝑦𝑎𝑙𝑡𝑖𝑒𝑠, 𝑚𝑎𝑖𝑜𝑟 𝑎 𝑚𝑎𝑟𝑔𝑒𝑚 𝑑𝑒 𝑣𝑖𝑡ó𝑟𝑖𝑎 𝑑𝑜 𝑖𝑛𝑐𝑢𝑚𝑏𝑒𝑛𝑡𝑒

𝐻4: 𝑞𝑢𝑎𝑛𝑡𝑜 𝑚𝑎𝑖𝑠 𝑟𝑜𝑦𝑎𝑙𝑡𝑖𝑒𝑠, 𝑚𝑎𝑖𝑜𝑟 𝑎 𝑝𝑟𝑜𝑏𝑎𝑏𝑖𝑙𝑖𝑑𝑎𝑑𝑒 𝑑𝑒 𝑟𝑒𝑒𝑙𝑒𝑖çã𝑜 𝑑𝑜 𝑝𝑟𝑒𝑓𝑒𝑖𝑡𝑜

H5: quanto mais royalties, maior a probabilidade de reeleição do prefeito na presença de

instituições fracas.

A hipótese 4 prevê incremento na probabilidade de reeleição do prefeito nos municípios em que há recebimento de rendas extras de compensação financeira. Essa hipótese é central para muitos trabalhos que analisam a maldição dos recursos política (BRAMBOR, 2012; BROLLO et al., 2013; MAHDAVI, 2015; MONTEIRO; FERRAZ, 2012). Para os estudos dedicados à análise do efeito dos royalties de petróleo na competição política, Monteiro e Ferras (2012) e Brambor (2012) observam incremento substantivo nas chances dos candidatos incumbentes na presença das rendas do petróleo. Portanto, diante de uma nova medição da variável royalties espera-se observar o mesmo tipo de comportamento.

Por fim, a hipótese 5 incorpora à hipótese 4 o papel desempenhado pelas instituições locais. Seguindo o debate da literatura sobre a maldição condicional dos recursos, segundo a qual a qualidade das instituições anterior ao boom de rendas determina se os resultados observados serão amaldiçoados, prevê-se que a presença de compensações financeiras (royalties) e de instituições fracas haverá maior probabilidade de reeleição dos prefeitos. Nesse caso, espera-se observar uma vantagem expressiva para o candidato incumbente em relação aos

outros candidatos, reforçando o argumento de que rendas elevadas distorcem os incentivos da democracia.