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2 SUSTENTABILIDADE E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

2.1 O debate histórico e abordagens conceituais da sustentabilidade e desenvolvimento sustentável

2.2.2 Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM)

No ano de 2000, a Organização das Nações Unidas (ONU) realizou a Cúpula do Milênio com o objetivo de buscar mecanismos para reverter os problemas que emergiram nas conferências internacionais, no qual resultou a Declaração do Milênio, que estabeleceu os oito Objetivos de Desenvolvimento do Milênio – ODM, a serem atingidos por todos os países até 2015, que são:

1) acabar com a fome e a miséria;

2) oferecer educação básica de qualidade para todos;

3) promover a igualdade entre os sexos e a autonomia das mulheres;

4) reduzir a mortalidade infantil;

5) melhorar a saúde das gestantes;

6) combater a Aids, a malária e outras doenças;

7) garantir qualidade de vida e respeito ao meio ambiente; e

8) estabelecer parcerias para o desenvolvimento (ODM BRASIL, 2014).

Os ODMs representam uma evolução em relação a outros planos de desenvolvimento mundial porque propõem uma agenda que engloba as dimensões econômica, social e ambiental, que constituem o denominado tripé da sustentabilidade. Além disso, incentivam a participação conjunta de cidadãos, governos e sociedade para avançar rumo ao desenvolvimento humano. O Brasil é signatário dos ODMs e segundo dados publicados no 5º Relatório Nacional de Acompanhamento de 2014, vem alcançando um bom desempenho em relação ao

cumprimento das Metas (IPEA, SPI/MP, 2014).

Além dos Relatórios Nacionais de Acompanhamento, que apresentam o desempenho dos estados brasileiros em relação aos oito Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, a sociedade brasileira possui à sua disposição um PortalODM15, com sistema de consulta de informações ambientais, sociais e econômicas sobre os ODMs de todos os estados e municípios brasileiros pelo link http://www.portalodm.com.br/. Para o alcance das metas, o Brasil, por meio da Secretaria de Relações Institucionais e da Secretaria Geral da Presidência da República elaboraram um “Guia de apoio para o alcance das metas – Agenda de Compromissos dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio - Governo Federal e Municípios 2013-2016”. Segundo o documento elaborado, o governo brasileiro, em nível federal acredita que trabalhar com os ODM

[...] significa mais do que cumprir uma sugestão da Organização das Nações Unidas (ONU) para tornar o mundo melhor e mais justo. Significa aplicar toda a nossa energia transformadora no desenvolvimento humano, na busca pela garantia da dignidade de homens e mulheres, na luta pelo acesso à cidadania e na inclusão dos excluídos. Trata-se de um esforço coletivo pela equidade e justiça social que deve envolver a todos nós. Os ODM nos dão a oportunidade de construir um município melhor, de reduzir as desigualdades sociais, de criar oportunidades para os mais pobres e de assegurar uma melhor qualidade de vida para os habitantes das nossas cidades, garantindo assim, um país mais justo e fraterno para todos e todas. (SECRETARIA-GERAL DA PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA, 2013, p. 7).

O Guia traz um conjunto de informações para subsidiar os gestores municipais sobre a implantação dos programas federais, que integram a Agenda de Compromissos. Tendo em vista, que é nos municípios que as pessoas moram e a gestão municipal é responsável por diversas políticas públicas que contribuem para os ODM, grande parte dos esforços depende dos gestores locais. Nesse contexto, a gestão municipal por estar próxima à população pode e deve assumir um papel de protagonista do desenvolvimento sustentável. Para isso o Governo Federal instituiu uma Agenda de Compromissos dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio 2013-2016, estipulando prazos para o seu cumprimento junto aos mais de cinco mil municípios para a execução de programas e respectivos indicadores para o monitoramento do desempenho das ações que visam melhorar as condições de vida

15 O Portal ODM apresenta a posição dos indicadores dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio de todos os estados e municípios brasileiros. Oferece um sistema de consulta, por meio de Relatórios Dinâmicos, que possibilita verificar os avanços alcançados de maneira rápida e de fácil compreensão.

O Portal disponibiliza o DEVINFO, um sistema de informações usado pela ONU para monitorar os ODM em todo o mundo e adaptado pelo SESI-PR à realidade local, o qual permite construir tabelas, gráficos e mapas, assim como monitorar outros temas.

da população, de acordo com os oito ODM, conforme detalhado no Quadro 5.

Quadro 5 – Programas e respectivos indicadores da agenda brasileira de compromissos dos ODM 2013-2016

ODM POLITICA PÚBLICA/PROGRAMA INDICADOR

Programa Bolsa Família Nível de cobertura municipal do programa Programa de Aquisição de Alimentos da

Agricultura Familiar

Total de agricultores fornecedores

Proteção Social Básica Número de atendimentos Universalizar o atendimento escolar da

população de 4 e 5 anos

Número de matrículas em educação infantil 4 e 5 ano

Ampliar a oferta de educação infantil Matrículas em educação infantil até 3 anos Oferecer educação em tempo integral nas

escolas públicas de educação básica

Número de matrículas em tempo integral Atingir as médias nacionais para o IDEB IDEB – Anos iniciais

Programa de Autonomia Econômica das Mulheres e Igualdade de Gênero

Matrículas em educação infantil até 3 anos

Pacto nacional pelo enfrentamento à violência contra a mulher

Total de serviços da rede de atendimento à mulher em situação de violência

Atenção Básica à Saúde Cobertura de atenção básica Mortalidade Infantil % de óbitos infantis investigados Programa Nacional de Imunização Cobertura vacinal com a tetravalente

(DTP+HIB) em crianças menores de 1 ano Rede Cegonha 1 -Pré-natal Proporção de gestantes com sete ou mais

consultas de pré-natal/ano Rede Cegonha 2 - Partos Normais Proporção de partos normais

Rede Cegonha 3 - Mortalidade Materna % de óbitos de mulheres em idade fértil investigados

Programa Nacional de Doenças Sexualmente Transmissíveis e Aids

Proporção de pacientes HIV positivo com 1°

CD 4 inferior a 200 cel/mm3 registrado no SISCEL

Malária Índice Parasitário Anual da malária

Dengue Número de óbitos por dengue

Tuberculose Taxa de incidência de tuberculose

Abastecimento de Água Índice de atendimento urbano de água com rede de abastecimento

Esgotamento Sanitário Índice de atendimento urbano de esgoto com rede coletora

Resíduos Sólidos % de resíduos recolhidos pela coleta seletiva Programa Microempreendedor Individual –

MEI

Total de MEI existentes

Esforço Fiscal e a Receita Corrente Líquida Receita corrente líquida municipal Simples Nacional Quantidade de optantes por município Fonte: SECRETARIA-GERAL DA PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA (2013, p. 12-13).

Conforme o Relatório Nacional de Acompanhamento dos ODMs, o Brasil, em termos gerais de país, tem alcançado e até mesmo superado os ODMs. O resultado alcançado, segundo dados do Relatório, é reflexo da implantação de um modelo de

desenvolvimento inclusivo e sustentável que tem garantido avanços sociais expressivos (IPEA; SPI/MP, 2014). Entretanto, o alcance das metas em termos gerais pelo país não comprova a realidade em nível municipal, sendo necessário que cada município alcance individualmente as metas.

Dada a autonomia e responsabilidade dos municípios, conferida pela Constituição Federal de 1988, os mesmos são responsáveis pela condução de diversas políticas públicas que envolvem as dimensões da sustentabilidade na abordagem do Triple Botton Line – TBL (dimensão social, ambiental e econômica). O Programa Bolsa Família, relacionado ao ODM 1, abre espaço na gestão municipal para a criação de experiências locais inovadoras no combate à pobreza, vinculado a dimensão social, no qual se busca a justiça social. Na área da saúde, por exemplo, que compreende os ODM 4, 5 e 6, os governos municipais

são legalmente obrigados a investir 15% do total de suas receitas. Desde a implantação do Sistema Único de Saúde (SUS), o Programa Saúde da Família, a assistência aos partos naturais (parteiras e maternidades) e a distribuição de medicamentos de atenção básica ficaram a cargo dos municípios. No que diz respeito à educação, o município deve, necessariamente, investir 25% de suas receitas. Dentre as responsabilidades atribuídas à administração municipal pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (1996) está a garantia do acesso gratuito à Educação Infantil (creches e pré-escolas) e ao Ensino Fundamental (1° ao 9° anos). São exatamente essas as metas do ODM 2, que também impactam no ODM 3 (de diminuição da desigualdade de gênero) (SECRETARIA-GERAL DA PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA, 2013, p. 10).

Com a descentralização de recursos e competências, os municípios também assumiram encargos relacionados à gestão ambiental, sendo responsáveis por criar normas e critérios de controle e manutenção da qualidade do meio ambiente em seus territórios. Com o Plano Diretor, os municípios passaram a definir as diretrizes básicas da política de desenvolvimento urbano, com forte impacto na sustentabilidade ambiental (ODM 7). A questão ambiental recebeu destaque na Constituição Federal de 1988, trazendo a temática para o âmbito do controle da administração pública.

Conforme estabelecido no seu art. 225, “Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-defendê-lo para as presentes e futuras gerações” (BRASIL, 1988).

A defesa e preservação do meio ambiente são de responsabilidade do Poder Público, tendo entre outras atribuições, segundo os parágrafos e incisos do art. 225 da Constituição Federal de 1988, a incumbência de: (a) preservar a diversidade e a integridade do patrimônio genético do País e fiscalizar as entidades dedicadas à

pesquisa e manipulação de material genético; (b) exigir, na forma da lei, para instalação de obra ou atividade potencialmente causadora de significativa degradação do meio ambiente, estudo prévio de impacto ambiental, a que se dará publicidade; e (c) impor, independentemente da obrigação de reparar os danos causados, sanções penais e administrativas aos responsáveis por condutas e atividades consideradas lesivas ao meio ambiente.

Em relação ao ODM 8 – Todo mundo trabalhando pelo desenvolvimento, o Governo Federal tem buscado esforços para reduzir a informalidade na economia, com a reformulação do Simples, criando o Simples Nacional e a Lei do Microempreendedor Individual (MEI). Uma terceira política ao encontro de um desenvolvimento econômico para todos é a política de esforço fiscal, que busca a modernização e a transparência da contabilidade e das finanças públicas. Nesse esforço foram abrangidos para o alcance do ODM 8 a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) - Lei Complementar n. 101/2000 e o processo de convergência da Contabilidade Pública às Normas Internacionais de Contabilidade Aplicadas ao Setor Público.

Com o processo de convergência a contabilidade aplicada ao setor público recebeu um novo padrão de entendimento, reforçando também dispositivos da LRF.

Esse processo iniciou com a edição por parte do Conselho Federal de Contabilidade (CFC), no final de 2008, das dez primeiras Normas Brasileiras de Contabilidade Aplicadas ao Setor Público, identificadas com a nomenclatura NBC T 16.1 a 16.10; e em 2011 foi normatizada a décima primeira norma, a NBC T 16.1116. Além dessa etapa, o processo de convergência prevê a elaboração, discussão e apresentação de projeto de lei para alteração da Lei n. 4.320/1964, convergência integral das NBC TSP às International Public Setor Accounting Standards (IPSAS).

O compromisso global pelo desenvolvimento, proposto na Declaração do Milênio, está proporcionando uma visão compartilhada sobre os desafios do desenvolvimento sustentável. “No Brasil, a implantação de um modelo de desenvolvimento inclusivo e sustentável tem garantido avanços sociais expressivos, que se refletem no alcance e até mesmo na superação dos ODMs” (ROUSSEFF, 2014, p. 6).

16 As Normas Brasileiras de Contabilidade Aplicadas ao Setor Público, identificadas com a nomenclatura NBC T 16.1 a 16.11 estão detalhadas e discutidas no capitulo que aborda a Contabilidade aplicada ao setor público municipal.

Independentemente desses avanços e do espaço temporal, corrobora-se o entendimento de Jara (1998), que há mais de uma década já questionava se as prefeituras e suas estruturas estão preparadas para orientar processos de desenvolvimento sustentável. Para que se possa concretizar o desenvolvimento sustentável em nível municipal, na proposta de Jara (1998, p. 57-58)

[...] são imprescindíveis, além da modernização da institucionalidade local, a mobilização e a organização da sociedade, a formação de recursos humanos, novos instrumentos que concorram para orientar e subsidiar as decisões sobre o desenvolvimento, mecanismos flexíveis de financiamento, uma estrutura estratégica participativa de administração pública; e o fortalecimento de sistemas de parceria e corresponsabilidade entre atores públicos e privados.

A municipalização do desenvolvimento sustentável, no entendimento de Jara (1998), precisa orientar-se em três eixos fundamentais: (a) democratização da vida social; (b) implementação de um conjunto de atividades estratégicas de desenvolvimento comunitário; e (c) proteção da natureza por meio de atividades estratégicas. Antecedendo aos ODMs, nas duas últimas décadas, tanto no Brasil como em outros países, a implementação de Agendas 21 locais tem proporcionado a implementação de programas e estratégias de atuação de âmbito municipal, que se apoiam no discurso da sustentabilidade.

No Brasil, os ODMs também estão sendo utilizados pelo Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social17, juntamente com os princípios do Pacto Global para estabelecer uma correlação entre os indicadores de práticas empresariais propostos para empresas brasileiras e para empresas de outros países da América Latina. A conexão dos Indicadores Ethos de Responsabilidade Social com os ODMs e o Pacto Global, segundo Veiga (2004) abre diversas oportunidades de incorporá-las nas metas empresariais e no gerenciamento dos negócios. Entende-se que essa vinculação precisa ser incentivada pela esfera pública, para que juntos com a área empresarial possa-se buscar o desenvolvimento econômico com equidade e justiça social e com a preservação ambiental.

Para complementar os ODMs após seu encerramento, em 2015, foi acordado em nível mundial na Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável 'Rio +20', o desenvolvimento de um conjunto de metas globais,

17 O Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social vem atuando desde 1998 na promoção da gestão empresarial responsável por meio da disponibilização de várias ferramentas como os Indicadores Ethos de Responsabilidade Social e os Indicadores Ethos para Negócios Sustentáveis e Responsáveis.

denominadas de Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) em áreas prioritárias. Segundo o documento final da Rio+20, ‘O futuro que queremos’, as metas devem ser desenvolvidas num processo intergovernamental inclusivo e transparente, considerados e respeitados documentos e compromissos já acordados como a Agenda 21 e o plano de implementação de Joanesburgo, os princípios do Rio, entre outros (ONU, 2012).

Além dos ODMs, um programa que busca a sustentabilidade em nível global, no qual as ações são locais, inseridas na gestão pública municipal, para o escopo do presente estudo considerou-se relevante compreender e discutir a proposta do Programa Cidades Sustentáveis (PCS), que reúne uma série de ferramentas que visam contribuir para que governos e sociedade civil promovam o desenvolvimento sustentável nos municípios brasileiros.