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Capítulo 1. Apresentação do trabalho

1.3 Objetivos do trabalho

Toda empresa precisa definir quais produtos vai produzir, quando vai fazê-lo e quanto de cada um será fabricado. Essas decisões orientam cada jornada ou período determinado de trabalho visando obter o retorno econômico esperado, dentro das restrições de capacidade, disponibilidade de matéria-prima, mão-de-obra e capital. Para se tomar essas decisões é necessário: conhecer a demanda prevista de cada produto; ter- se pedidos confirmados; ou ambos. Além disso, esses elementos de decisão assumem diferente relevância, de acordo com o tipo de processamento executado em cada empreendimento. Assim, pode-se subdividir a indústria agroalimentar em dois subconjuntos principais.

O primeiro subconjunto agrega os empreendimentos que se dedicam às primeiras etapas de processamento das matérias-primas agropecuárias, imediatamente após sua obtenção no campo. Isto é, etapas de processamento relacionadas à fragmentação de vegetais ou animais. Esse subconjunto será denominado a seguir indústria agroalimentar de primeira transformação.

O segundo subconjunto agrega os empreendimentos que se dedicam às etapas de composição de produtos a partir das matérias-primas geradas pelas indústrias de fragmentação. Esse subconjunto será doravante denominado indústria agroalimentar de segunda transformação.

complexos nas indústrias agroalimentares de primeira transformação.

O primeiro aspecto a destacar diz respeito ao ciclo de obtenção das matérias- primas agropecuárias. Além das particulares incertezas associadas à sua obtenção, decorrente do clima e do processo natural de evolução, deve-se considerar que a demanda de hoje deve ser atendida por uma matéria-prima gerada ou plantada há alguns meses ou anos atrás e, portanto, limitada. Assim, o fornecimento de produtos estará condicionado não só pela sua demanda, mas, sobretudo, pela disponibilidade da matéria-prima e pelas condições em que ela se encontrar no momento do processamento.

O segundo aspecto a destacar é que, para uma parte significativa das indústrias agroalimentares de primeira transformação, a dificuldade na tomada de decisão é agravada porque no processo de fragmentação para obtenção dos produtos desejados criam-se automaticamente co-produtos para os quais pode não haver demanda prevista, ou vendas confirmadas, pelo menos para o período considerado. Exemplos típicos desse tipo de empresa são os abatedouros.

Os co-produtos não imediatamente desejados, isto é, produtos simultânea e obrigatoriamente obtidos no processo de fragmentação, são então armazenados para possível venda futura. Como os produtos agroalimentares são geralmente perecíveis, esse armazenamento tem limite de tempo máximo a partir do qual precisam ser descartados. Se o armazenamento dos co-produtos agroalimentares não fizer parte de uma estratégia de abastecimento futuro, para o qual se preveja uma demanda do mercado maior que a oferta, acumulará custos de estocagem com o passar do tempo. A cada dia adicional o lucro potencial será progressivamente reduzido em função dos custos de estocagem, até se tornar prejuízo. Assim, estoques na indústria agroalimentar de primeira transformação são indesejáveis, salvo a exceção mencionada.

Como se pode observar, a perecibilidade é um outro aspecto que não pode ser menosprezado. A partir do momento em que um animal é abatido ou o vegetal colhido, a matéria-prima assim obtida é material em decomposição. Isso delimita os tempos de processamento, comercialização e consumo. Essas janelas de tempo devem ser rigidamente observadas, tendo em vista a qualidade dos produtos, o respeito à legislação sanitária, aos custos associados, o respeito ao consumidor, à manutenção dos mercados e mesmo sua ampliação.

Um outro aspecto extremamente relevante para as empresas agroalimentares de primeira transformação é que a comercialização de seus produtos avança progressivamente para diferentes países. As diferentes culturas desses novos mercados consumidores impõem que os produtos apresentem diferentes particularidades em suas propriedades. Quando diferentes produtos desejados têm por origem uma mesma matéria-prima, podem acarretar no processo de planejamento uma dificuldade adicional, a intersecção na demanda da matéria-prima ou a união de demanda. Isto é, no primeiro caso, um produto utiliza elementos da matéria-prima, que são comuns ao outro produto, tornando-os mutuamente exclusivos e impondo a necessidade de matéria-prima adicional. No segundo caso, um produto não impede a obtenção do outro a partir da mesma unidade de matéria-prima. Assim, um aspecto não negligenciável do processo de tomada de decisão é a composição de produtos previstos ou pedidos, em relação à definição da quantidade de matéria-prima necessária. No caso de produtos mutuamente exclusivos, a quantidade de matéria-prima necessária tem que ser maior que no caso de produtos oriundos de processos de união e, por conseqüência, também será maior a quantidade de co-produtos gerados.

Também é necessário considerar peculiaridades da previsão de demanda ou pedidos confirmados, tais como exigências de homogeneidade. A matéria-prima agroindustrial é por excelência heterogênea nas formas e propriedades. Assim, para os empreendimentos em que o processo produtivo não pode promover uma padronização dos produtos sem alterar sua essência, é usual haver pedidos com restrições de origem, tais como lote de criação, raça e/ou idade, no caso de animais, e variedade ou campo de colheita, no caso de vegetais. Visa-se com isso, reduzir a dispersão dessa heterogeneidade. Essas exigências são as mais importantes porque impõem não só excedentes decorrentes de co-produtos não imediatamente desejados, como excedentes dos próprios produtos, quando os lotes de matéria-prima são maiores que os dos pedidos.

Mesmo com as restrições de origem, somente se pode contar com indicadores estatísticos para relacionar a matéria-prima disponível com as especificações dos produtos desejados. Em matéria-prima viva não há processos naturais de intervenção, durante seu desenvolvimento, para enquadramento em especificações rígidas.

associada às safras e entressafras, mesmo nos casos em que progressivamente essa sazonalidade natural venha sendo atenuada com o uso de tecnologia, como nos casos de uso de diferentes variedades para alongar o período de colheita.

Assim, o conjunto de especificidades das indústrias agroalimentares de primeira transformação pode ser sintetizado por:

• limitação no atendimento da demanda, como função da incerteza e limitação na disponibilidade de matéria-prima;

• perecibilidade da matéria-prima e produtos; • sazonalidade de oferta da matéria-prima;

• ampliação da diversidade de produtos desejados como função da diversidade cultural dos mercados consumidores;

• geração de co-produtos;

• incerteza nas propriedades das matérias-primas.

Admite-se que essas especificidades não estão suficientemente contempladas nos sistemas de planejamento apresentados na literatura, dado que o subconjunto das indústrias agroalimentares não foi adequadamente caracterizado nos sistemas de classificação disponíveis. Propõe-se então como objetivo inicial:

“Desenvolver um sistema de classificação que caracterize os empreendimentos agroalimentares de primeira transformação, incorporando suas peculiaridades e definindo suas implicações na formulação de uma proposta de arquitetura para o sistema de planejamento e controle da produção”.

Arquitetura é definida nesse trabalho, como a forma e a organização hierárquica e temporal com que devem se apresentar às funções necessárias de planejamento e controle da produção.

Além de caracterizar os empreendimentos agroalimentares de primeira transformação admite-se que, para se promover o melhoramento na tecnologia de gerenciamento, é necessário estruturar um sistema de planejamento e controle da produção que incorpore suas peculiaridades em seus processos de tomada de decisão. Assim, o sistema de planejamento e controle da produção de produtos agroalimentares, em indústrias de primeira transformação, deve prover respostas ao seguinte conjunto de questões:

• Quanto de cada produto será produzido considerando as limitações de disponibilidade da matéria-prima?;

• Quanto de cada co-produto será admitido considerando o consumo futuro e os

custos de sua manutenção?;

• Por quanto tempo podem-se manter os co-produtos estocados considerando as condições de estocagem e a sua perecibilidade?;

• Quais são as matérias-primas necessárias considerando as exigências de homogeneidade?;

• Quanto de matéria-prima será necessário considerando os processos de união e de intersecção?.

A questão central que, então, se torna o segundo objetivo deste trabalho é:

“Que arquitetura deve apresentar um sistema de planejamento e controle da

produção, para tratar o conjunto de variáveis das indústrias agroalimentares de primeira transformação”.

É necessário destacar que, em se tratando de um sistema de informações, há todo um conjunto paralelo de registros e decisões que se valem dos mesmos elementos da base de dados do planejamento e controle da produção e que, na forma de retro- alimentação, servem para aperfeiçoá-lo. São exemplos típicos a rastreabilidade, que dá margem a revisões dos processos físicos, e o sistema de custeio, que dá margem a revisões dos processos de gestão. Esses sistemas estão estreitamente relacionados à arquitetura do sistema de planejamento e controle da produção, exigindo uma formulação integrada e coordenada de suas funções. Entretanto, esse conjunto paralelo de registros e decisões não será desenvolvido nesse trabalho, constituindo-se outros ramos de pesquisa a serem explorados.

Por último, é necessário lembrar que as indústrias dedicadas às primeiras transformações têm recebido pouca atenção na literatura, apesar de exercerem um papel fundamental nas cadeias produtivas.