2. OBJETIVOS 1 Objetivo Geral
2.2 Objetivos Específicos
Avaliar no pré e pós-operatório de 3, 6 e 12 meses da gastroplastia redutora em Y
de Roux:
2.2.1 A perda de peso como porcentagem do excesso de peso (%PEP) e outras alterações de parâmetros antropométricos, como o IMC, circunferência do braço (CB), circunferência abdominal (CA) e circunferência cervical (CCV).
2.2.2 O consumo alimentar habitual quantitativo através do recordatório alimentar habitual de 3 dias.
2.2.3 A tolerância alimentar através de questionário validado de tolerância alimentar.
2.2.4 Sinais e sintomas clínicos: náusea, vômito, hipoglicemia, síndrome de dumping, alopecia, miastenia, azia, eructação, unha quebradiça, inapetência, xerostomia e fadiga.
3. MÉTODO
Trata-se de um estudo observacional prospectivo, realizado entre 2014 e 2016, no qual os pacientes foram acompanhados em quatro momentos, sendo o primeiro momento no grupo de pré-operatório imediato (1 a 2 semanas de antecedência da realização da cirurgia), onde os pacientes apresentaram redução de 10% a 20% do peso corporal inicial, e, também, no pós operatório de 3, 6 e 12 meses.
Os participantes foram envolvidos na pesquisa após a leitura do “Termo de Consentimento livre e esclarecido para pesquisa com seres humanos” e concordância em participar do estudo.
Todos os procedimentos foram realizados no Ambulatório de Obesidade, localizado no segundo andar do Hospital de Clínicas da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), no Distrito de Barão Geraldo, Campinas, São Paulo, no período matutino às quartas-feiras, com aprovação do Comitê de Ética da Faculdade de Ciências Médicas, com número 848.158, Universidade Estadual de Campinas, em acordo com a declaração de Helsinki.
Os pacientes obesos são recrutados pelo ambulatório em dois momentos anualmente e a lista de chamada para participar do grupo multidisciplinar se baseia em priorizar os pacientes com maior IMC, presença de comorbidades e ordem de inscrição.
No primeiro encontro, foi realizado um levantamento de dados pessoais, antecedentes pessoais e familiares, doenças, uso de medicamentos e suplementos, tratamento anterior da obesidade, entre outras questões relacionadas ao estado nutricional, sendo que os dados foram atualizados em cada consulta (APÊNDICE 1). Além disso, em todos os momentos foram realizadas avaliação antropométrica, aplicação do questionário de tolerância alimentar, avaliação da ingestão alimentar através de recordatório alimentar de três dias, avaliação de sinais e sintomas e coleta de exames laboratoriais.
Os pacientes em preparo para a cirurgia seguiram em acompanhamento semanal com o grupo multidisciplinar, participando de reuniões com duração média de 5h, com a equipe que inclui o médico, enfermeira, nutricionista, fisioterapeuta, psicólogo e educador físico. Receberam orientações diversas até atingirem a perda de 10% a 20% do peso inicial e migrarem para o grupo de pré-operatório imediato, com 1 a 2 semanas de antecedência da cirurgia, onde foram avaliados pela primeira vez neste estudo e orientados sobre o pós- operatório por todos os profissionais (125).
Os pacientes receberam orientações específicas sobre exercício físico de acordo com a disponibilidade de local e horário, sendo o exercício aeróbio o mais indicado, como exemplo a caminhada e hidroginástica. Um plano alimentar hipocalórico, elaborado por um nutricionista, contendo 1.279 kcal, 198 gramas de carboidratos (53% do valor energético total –VET), 92 gramas de proteína (25% do VET), 36 gramas de lipídio (22% do VET%) e 24 gramas de fibras, divididos em 6 refeições diárias, foi recomendado até o momento da cirurgia. E, um mês antes do procedimento cirúrgico, foi recomendado o consumo de uma cápsula diária de um suplemento polivitamínico e mineral padrão.
No pós-operatório, os pacientes são orientados a utilizar diariamente um suplemento polivitamínico e mineral, além da complementação com o suplemento Citoneurin®, composto por 100 mg de nitrato de tiamina, 100 mg de cloridrato de piridoxina e 5.000 mcg de cianocobalamina intramuscular mensalmente durante o primeiro ano e, após, segundo necessidade conforme resultados de exames laboratoriais.
Antes do procedimento, os pacientes receberam orientações sobre a alimentação do pós-operatório, com progressão de consistência até atingir a dieta geral. Além de realizarem endoscopia, verificação da função pulmonar, raio X de tórax, ecocardiograma e eletrocardiograma.
Seguem abaixo os critérios de inclusão e exclusão do estudo (69). Critérios de inclusão:
1) Maior de 18 anos.
2) Ser portador de obesidade de duração superior a dois anos e resistente aos tratamentos conservadores (dietoterapêuticos, psicoterapêuticos, medicamentosos, por exercícios físicos) realizados continuamente há pelo menos dois anos.
3) IMC≥40kg/m².
4) IMC≥35kg/m², com comorbidades, cuja situação clínica é agravada pelo quadro de obesidade.
5) IMC entre 30kg/m² a 34,9kg/m², com difícil controle de comorbidades como o DM tipo II (118).
6) Concordar em assinar o termo de consentimento. Critérios de exclusão:
1) Patologias endócrinas (exceto diabetes melito). 2) Transtorno mental.
3) Adicção a drogas ou álcool e outros transtornos.
4) Pacientes que desistiram de participar do estudo após assinar o termo de consentimento.
5) Gestantes.
Procedimento cirúrgico
Todos os procedimentos cirúrgicos de gastroplastia redutora em Y de Roux foram realizados pela equipe de cirurgia bariátrica, utilizando a técnica aberta de laparotomia. A cirurgia envolveu a transecção da porção superior do estômago, criando uma bolsa gástrica proximal com capacidade de 30 ml a 50 ml, que é anastomosada à parte distal do jejuno, com posicionamento de um anel de silicone (diâmetro de 2 cm e comprimento de 6,4 cm) em volta da bolsa gástrica, 2 a 3 cm acima da anastomose gastro-jejunal. A porção absortiva intestinal tem comprimento aproximado de 150 cm, a porção biliopancreática aproximadamente 100 cm e, o canal comum, aproximadamente 500 cm, todos aferidos com fita métrica.
Antropometria
Foram aferidos o peso em kg através da balança Filizola (capacidade de 300 kg e precisão de 0,1 kg) e a altura em cm através do estadiômetro Sanny (capacidade de 210 cm e precisão de 0,1 cm), para posterior cálculo do IMC (2). Além das aferições das circunferências cervical (CCV), do braço (CB) e abdominal (CA), com fita métrica da marca Sanny (capacidade de 2 m e precisão de 0,1 cm). A antropometria foi aferida seguindo as recomendações do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (202).
Através do IMC (peso/altura2), os indivíduos são classificados em desnutridos (IMC<18,5kg/m²), eutróficos (IMC 18,5-24,9kg/m²), sobrepeso (IMC 25-29,9kg/m²), obesidade grau I (IMC 30-34,9kg/m²), obesidade grau II (IMC 35-39,9kg/m²) e obesidade grau III (IMC≥40kg/m²) (2).
Em relação a circunferência abdominal, o pacientes com valores ≥90 cm para homens e ≥80 cm para mulheres, são classificados com risco de desenvolvimento de complicações relacionadas à obesidade (49).
Em relação a circunferência cervical (CCV), a CCV≥37 cm para homens e CCV≥34 cm para mulheres, estão relacionados a indivíduos com IMC≥25kg/m². Já, CCV≥39,5 cm para homens e CCV≥36,5 cm para mulheres, se relaciona aos indivíduos com IMC≥30kg/m² (203).
O percentual de perda de peso (%PP) é definido como (204): %PP= (peso pré-operatório – peso atual) x 100
peso pré-operatório
O percentual de perda de excesso de peso (%PEP) é definido através da fórmula abaixo.
%PEP= (peso pré-operatório – peso atual) x 100 peso pré-operatório – peso ideal
O peso ideal utilizado na fórmula de %PEP pode ser definido através da fórmula: IMC ideal x altura2, sendo considerado neste estudo, o IMC=25kg/m2 como ideal para os pacientes após a realização da cirurgia bariátrica (120, 49).
Ingestão alimentar
O consumo alimentar foi avaliado através do recordatório alimentar (RA) de três dias (APÊNDICE 2), onde o paciente registrou de modo detalhado todos os alimentos que consumiu durante 3 dias da semana, sendo 2 dias do meio da semana e 1 do final de semana, indicando assim, o consumo alimentar habitual.
O consumo foi analisado de forma quantitativa através das calorias totais ingeridas, do consumo de macronutrientes (carboidratos, proteínas e lipídios) em percentual e gramas, consumo de fibras em gramas e consumo de micronutrientes, calculados através do sistema dietbox®, utilizando as seguintes tabelas nutricionais: Tabela brasileira de composição de alimentos (TACO) (205) e Tabela de composição nutricional dos alimentos consumidos no Brasil (IBGE) (206).
A ingestão dos seguintes micronutrientes foram calculados: vitamina B1 (tiamina), B2 (riboflavina), B3 (niacina), B6 (piridoxina), B9 (folato), B12 (cobalamina), C
(ácido ascórbico), A (retinol), D (calciferol), E (tocoferol), cálcio, ferro, fósforo, magnésio, manganês, potássio, selênio, sódio e zinco.
O cálculo do consumo alimentar não incluiu a utilização do polivitamínico e mineral consumido pelos pacientes, já que existem diversas questões associadas a biodisponibilidade das vitaminas e minerais presentes nesses polivitamínicos, com absorção questionável (207).
As recomendações diárias de macronutrientes e fibras foram avaliadas através da referência de ingestão diária e foi considerada como ingestão inadequada de nutrientes, quando o indivíduo consumiu ≤85% das recomendações da Dietary Reference Intake (DRI) (208).
As DRIs abordam as recomendações nutricionais para indivíduos saudáveis, elaboradas pelo comitê do Food and Nutrition Board/ Institute of Medicine (IOM). Essas recomendações são uma revisão da junção das recomendações existentes anteriormente:
Recommended Dietary Allowance (RDAs) para população americana e Recommended Nutrient Intakes (RNIs) para população canadense (208). Dessa forma, não existem
recomendações de nutrientes específicas para a população brasileira e para os pacientes bariátricos, com isso as DRIs se tornam no momento o parâmetro para análise da ingestão alimentar.
Tolerância alimentar
Foi aplicado pela pesquisadora em consulta, o questionário de tolerância alimentar desenvolvido por Suter et al. (ANEXO 1), que requer em média dois minutos para preenchimento, contendo apenas uma página, dividido em quatro partes. A primeira envolve a satisfação do paciente em relação à alimentação geral com pontuação entre 1 (muito ruim), 2 (ruim), 3 (aceitável), 4 (boa) e 5 (excelente). A segunda e terceira partes relacionam-se a tolerância alimentar, avaliando os horários das refeições e o consumo de alimentos entre estas, além da tolerância de 8 tipos diferentes de alimentos (carne vermelha, carne branca, salada, vegetais, pão, arroz, massas e peixe). A pontuação varia entre 2 (sem dificuldade para consumir), 1 (um pouco de dificuldade para consumir) e 0 (nunca consome), com pontuação total entre 0 a 16. E, a quarta parte, avalia a frequência de episódios de vômitos e regurgitação com pontuação entre 0 (vomita ou regurgita diariamente), 2 (vômitos>2x/semana), 4 (raramente) e 6 (nunca vomita ou regurgita). O questionário é avaliado através de uma
pontuação que varia entre 1 a 27 pontos, sendo 27 considerado a pontuação máxima para uma tolerância alimentar excelente (190).
Porém, o questionário não aborda alguns alimentos fontes de proteína que são frequentemente consumidos como ovos e leite e derivados. Assim, foi realizado um questionário extra (APÊNDICE 1) de frequência de consumo semanal de alguns alimentos (carne vermelha, frango, peixe, ovos, leite, iogurte, frituras, doces, bebidas gaseificadas, pizzas e lanches), com a intenção de confirmar os dados obtidos no recordatório alimentar de 3 dias e complementar algumas informações do questionário de tolerância alimentar elaborado por Suter et al..
Sinais e sintomas
Os pacientes foram questionados no pós-operatório de 1, 3, 6 e 12 meses sobre alguns sinais e sintomas: náusea, vômito, hipoglicemia, síndrome de dumping, alopecia, miastenia, azia, eructação, unha quebradiça, inapetência, xerostomia e fadiga.
Exames Laboratoriais
Em relação ao perfil bioquímico, foram analisados o hemograma completo (HMG), glicemia (GLI), insulina (INSUL), hemoglobina glicada (Hbgli), proteínas totais (PROT), albumina (ALB), pré-albumina (PREALB), ferro (FE), ferritina (FERR), cobre (CU), magnésio (MG), zinco (ZN), vitamina B12 (B12), ácido fólico (ACF), cálcio total (CAT), cálcio iônico (CAI), hormônio da paratireoide (PTH), colesterol total (COLT), lipoproteína de alta densidade (HDL), lipoproteína de baixa densidade (LDL), lipoproteína de muito baixa densidade (VLDL), triglicérides (TRIG), aspartato aminotransferase (AST), alanina aminotransferase (ALT), gamaglutamiltransferase (GGT), creatinina (CR), peptídeo C (PEPTC), fosfatase alcalina (FALC), tiroxina (T4L), hormônio estimulante da tireóide (TSH), ácido úrico (URAC) e vitamina D [25(OH)D3]. Os exames foram classificados através dos parâmetros utilizados como referência pelo Laboratório de Análises Clínicas do HC Unicamp. Amostras de sangue foram coletadas de veia periférica pela manhã, após jejum de 12 horas, nos quatro momentos do estudo, e, analisados no Laboratório de Análises Clínicas do HC Unicamp.
Análise Estatística
Para descrever o perfil da amostra segundo as variáveis em estudo, foram feitas tabelas de frequência das variáveis categóricas com valores de frequência absoluta (n) e percentual (%), e estatísticas descritivas das variáveis numéricas com valores de média, desvio padrão, valores mínimo e máximo, mediana e quartis (Q1 e Q3).
Para comparação das variáveis numéricas e ordinais entre 3 ou 4 avaliações, foi usado o teste de Friedman para amostras relacionadas e, para comparação entre 2 avaliações, o teste de Wilcoxon para amostras relacionadas. Para comparação das variáveis categóricas entre 2 avaliações foi usado o teste de McNemar (2 categorias) e o teste de simetria de Bowker (3 ou mais categorias), e para comparar variáveis dicotômicas entre 3 ou 4 avaliações foi usado o teste de Cochran.
Para comparação das variáveis numéricas entre grupos, foi utilizado o teste de Mann-Whitney (2 categorias) ou o teste de Kruskal-Wallis (3 ou mais categorias), devido à ausência de distribuição Normal das variáveis e, os testes qui-quadrado e exato de Fisher, para variáveis categóricas.
Para analisar a relação entre as variáveis numéricas, foi calculado o coeficiente de correlação de Spearman, devido à ausência de distribuição Normal das variáveis. O nível de significância adotado para os testes estatísticos foi de 5%, ou seja, p<0.05.
4. RESULTADOS
Foram acompanhados 75 pacientes nos quatro momentos de estudo, sendo 89% do gênero feminino, com idade média de 38±10.06 anos, altura média de 162±0.08 cm, média de peso máximo de 125,89±20,99 kg e o peso de entrada no tratamento de 116.11±20.15kg. A figura 13 apresenta o fluxograma dos pacientes avaliados.
Figura 13. Desenho de estudo.
Em relação as comorbidades, no pré-operatório, 35 pacientes apresentaram hipertensão arterial, 16 dislipidemia e 7 DM (sendo 2 insulino dependentes) e, com 12 meses de pós-operatório, observaram-se 28 remissões da hipertensão, 15 da dislipidemia e remissão total dos pacientes diabéticos não insulino dependentes, porém sem remissão dos insulino dependentes. As medidas antropométricas e de algumas comorbidades dos pacientes estão descritas na tabela 2.
Número de participantes iniciais (n=82)
Gestantes no pós-operatório (n= 3) Interromperam tratamento nutricional (n=4) Número de participantes (n=75) Pré-operatório IMC 30-39,9 kg/m² (n=20) IMC 40-49,9 kg/m² (n=44) IMC≥50 kg/m² (n=11) Pós-operatório 12 meses IMC 20-25 kg/m² (n=29) IMC 25-29,9 kg/m² (n=39) IMC≥30 kg/m²(n=7)
Tabela 2. Medidas antropométricas e de comorbidades da população de estudo no pré- operatório e pós-operatório de 3, 6 e 12 meses, descritas em média e desvio padrão para as variáveis numéricas e em valores absolutos e relativos para as variáveis categóricas.
Pré-operatório Pós-operatório
3 meses 6 meses 1 ano
Peso (kg) 98.54±12,96 81.94±11.32 74.76±10.73 69.10±10.40 IMCa (kg/m²) 43.94±5,89 31±2.79 28.29±2.80 26.15±2.92 %PPb 14,44±6.73 16.83±3.88 24.10±4.75 29.73±6.79 CAc (cm) 118.15±10,88 104.54±10.07 98.04±9.39 94.57±9.69 CCV d (cm) 37.32±3.19 35.07±2.78 34.18±2.81 33.37±2.77 Hipertensão arterial 35 (46,66%) 10 (13,33%) 9 (12%) 7 (9,33%) Dislipidemia 16 (21,33%) 2 (2,66%) 2 (2,66%) 1 (1,33%) DMe (NIDf) 5 (6,66%) 0 0 0 DMe (IDg) 2 (2,66%) 2 (2,66%) 2 (2,66%) 2 (2,66%) aIMC=índice de massa corporal. b%PP=percentual de perda de peso. cCA=circunferência abdominal. dCCV=circunferência cervical. eDM=diabetes melito. fNID=não insulino dependentes. gID=insulino dependentes.
Houve uma redução significativa (p<0.001) de peso, IMC, CCV e CA do pré- operatório até 12 meses de cirurgia. O percentual de perda de excesso de peso (%PEP) foi ≥50% em 92% dos pacientes, com média de 71,13±20,25%, sendo que, 44% dos pacientes apresentaram percentual de perda de peso entre 50 a 70% e, 48% dos pacientes, percentual de perda >70%.
Em relação ao questionário de tolerância alimentar, 97,33% dos pacientes pontuaram acima ou igual a 24 no pré-operatório, e a pontuação ≥24 no pós-operatório de 3, 6 e 12 meses foi de 16%, 16% e 13,3%, respectivamente (p<0.001). Dessa forma, indicando que a intolerância no pré-operatório diferiu de todos os outros tempos, onde os pacientes foram se tornando mais intolerantes (p<0.05). Assim, 2,67% dos pacientes apresentaram algum tipo de intolerância no pré-operatório, enquanto que 84% apresentaram intolerâncias com 3 e 6 meses e 86,67% no pós-operatório de 12 meses, de acordo com o questionário de tolerância alimentar.
Em relação a satisfação da alimentação, abordada na primeira parte do questionário no pré-operatório, 30.67% consideraram a qualidade da alimentação excelente e
no pós-operatório de 12 meses, 20%. A satisfação em relação a alimentaçãos se refere a como o paciente se sente em relação ao seu consumo alimentar no momento da aplicação do questionário. Quando os pacientes consideram sua satisfação em relação a alimentação excelente, as repostas abertas se relacionaram a considerarem que tem uma alimentação saudável, que melhoraram a qualidade alimentar em comparação a momentos anteriores ou que conseguem consumir todos os tipos de alimentos, sem apresentar intolerâncias. Seguem alguns exemplos de respostas:
- “Consigo comer de tudo”.
- “Como de tudo e não sinto fome”. - “Consigo comer de tudo e não engordo”. - “Melhorei a qualidade da minha alimentação”.
- “Mudei minhas atitudes, estou me alimentando melhor”. - “Me sinto bem”.
- “O que como é suficiente e experimento alimentos que tenho vontade”.
Os pacientes que assinalaram que a satisfação em relação a alimentação estava ruim ou muito ruim nas respostas abertas, se referiram a dificuldade de consumir os alimentos em quantidade adequada, à má qualidade da alimentação, às intolerâncias alimentares e vômitos frequentes. Seguem exemplos de respostas:
- “Vomito diariamente”.
- “Vomito demais, como rápido”.
- “Não consigo comer direito, me alimento mal”. - “Não sigo a dieta”.
- “Estou comendo excesso de doces e carboidratos”. - “Não consigo comer de tudo”.
- “Tenho dificuldade para me alimentar”. - “Não consigo comer verduras”.
- “Tenho dificuldade para consumir alimentos sólidos”. - “Não consigo comer grandes quantidades de alimentos”. - “Como carne vermelha e vomito”.
Na segunda e terceira partes do questionário, observa-se os pacientes que apresentaram o consumo de 6 refeições diárias e que possuíram boa tolerância de ingestão dos
alimentos descritos, classificando-os como de fácil consumo. Os pacientes apresentaram uma variação de 2 a 9 refeições diárias. A quarta parte do questionário descreve a frequência de vômitos de acordo com o tempo de cirurgia em percentual. Os resultados do questionário de tolerância alimentar nos diferentes tempos de acompanhamento se encontram na tabela 3.
O escore de satisfação (p<0.001), escore de vômito (p<0.001), escore de alimentos (escore da soma de alimentos) e escore total de tolerância alimentar (p<0.001) com 3, 6 e 12 meses de pós-operatório apresentaram valores menores, indicando que essas variáveis pioraram com o tempo. Houve também, uma redução na ingestão de carne vermelha (p<0.001) após 12 meses de pós-operatório (tabela 3).
Tabela 3. Resultados do questionário de tolerância alimentar no pré-operatório imediato e no pós-operatório de 3, 6 e 12 meses, descritos em média e desvio padrão.
Pré-operatório Pós-operatório
3 meses 6 meses 12 meses Valor de p
Satisfação 5 (Excelente) 30.67% 16% 14.67% 20% p<0.001a
Satisfação 4 (Boa) 53.33% 49.33% 45.33% 38.67% p<0.001a
Satisfação 3 (Aceitável) 16% 22.67% 26.67% 25.33% p<0.001a
Satisfação 2 (Ruim) 0% 12% 10.67% 13.33% p<0.001a
Satisfação 1 (Muito ruim) 0% 0% 2.67% 2.67% p<0.001a
N° de refeições (6 refeições diárias) 53.33% 46.67% 49.33% 56% p=0.537
Come entre as refeições 98.67% 98.67% 100% 97.33% p=0.572
Manhã 94.67% 81.33% 90.67% 90.67% p=0.020b
Tarde 98.67% 92% 96% 93.33% p=0.209
Noite 57.33% 66.67% 61.33% 66.67% p=0.371
Come qualquer alimento 86.67% 5.33% 9.33% 2.67% p<0.001c
Carne (pontuação 2) 94.67% 33.33% 28% 20% p<0.001d Frango (pontuação 2) 100% 50.67% 44% 37.33% p<0.001a Salada (pontuação 2) 97.33% 45.33% 48% 38.67% p<0.001a Vegetais (pontuação 2) 97.33% 86.67% 86.67% 78.67% p=0.001e Pão (pontuação 2) 100% 49.33% 38.67% 56% p<0.001c Macarrão (pontuação 2) 98.67% 58.67% 58.67% 58.67% p<0.001a Arroz (pontuação 2) 98.67% 44% 50.67% 50.67% p<0.001 a Peixe (pontuação 2) 100% 66.67% 64% 60% p<0.001a Vômito diário 0% 12% 10.67% 13.33% p<0.001a Vômito >2x/semana 0% 17.33% 14.67% 16% p<0.001a Vômito raro 0% 25.33% 37.33% 40% p<0.001a Nunca vomita 100% 45.33% 37.33% 30.67% p<0.001a Pontuação≥24 97.33% 16% 16% 13.33% p<0.001a
Valores de p representam as diferenças entre as 4 avaliações através dos testes de Friedman e Wilcoxon para variáveis numéricas/ordinais e os testes de Cochran e McNemar para as variáveis categóricas. ap<0,001 pré≠3, 6, 12. bp=0,020 pré≠3. cp<0,001 pré≠3, 6, 12 e 6≠12. dp<0,001 pré≠3, 6, 12 e 3≠12. ep=0,001 pré≠3, 6, 12.
Segue abaixo um exemplo de questionário de tolerância alimentar preenchido do paciente TMR, com 1 ano de pós-operatório.
Como está a sua satisfação frente a qualidade da alimentação atual: (5) Excelente (2) Ruim
(4) Boa (1) Muito ruim (3) Aceitável
Por quê? Muitos alimentos não caem bem. Quantas refeições você faz ao dia? 6 refeições.
Quais são os alimentos que fazem parte da sua alimentação diária? Bolacha água e sal e frutas (pequena quantidade).
Você come entre as refeições? (X) Sim ( ) Não
Se sim, qual horário? (X) manhã (X) tarde (X) noite Você consegue comer qualquer coisa? ( ) Sim (X) Não
Especifique como você consegue comer? ( ) fácil ( ) pouca dificuldade ( ) nunca come Carne vermelha (2) (1) (0) Pão (2) (1) (0)
Carne branca (2) (1) (0) Macarrão (2) (1) (0) Salada (folhas) (2) (1) (0) Arroz (2) (1) (0) Vegetais (legumes) (2) (1) (0) Peixe (2) (1) (0) Existe algum tipo de alimento que não consegue comer? Carne vermelha.
Você vomita ou regurgita? (0) diário (2) 3 vezes ou mais por semana (4) raramente (6) nunca Pontuação 7.
A frequência de consumo de alguns alimentos por semana em dias e, percentual de pacientes consumindo com essa frequência com 3, 6 e 12 meses de pós-operatório foi avaliada, incluindo alguns alimentos não abordados no questionário de tolerância alimentar elaborado por Suter et al. (190), para complementar as informações. Dessa forma, observou- se aumento da ingestão de bebidas gaseificadas após 12 meses e, de doces, após 6 e 12 meses de pós-operatório (Tabela 4).
Tabela 4. Frequência de consumo de alimentos por semana em dias e, percentual de pacientes consumindo com essa frequência com 3, 6 e 12 meses de pós-operatório, incluindo alguns alimentos não abordado no questionário de tolerância alimentar.
Alimentos
Pós-operatório
3 meses 6 meses 12 meses Valor de p Carne vermelha 3 (24%) 3 (37.33%) 3 (26.67%) p=0.116 Frango 2 (34.67%) 2 (29.33%) 2 (32%) p=0.751 Peixe 0 (50.67%) 0 (37.33%) 0 (41.33%) p=0.132 Ovo 2 (28%) 1 (30.67%) 1 (26.67%) p=0.864 Leite 7 (73.33%) 7 (74.67%) 7 (68%) p=0.472 Iogurte 5 (42.67%) 7 (46.67%) 7 (41.33%) p=0.657 Fritura 0 (72%) 0 (62.67%) 0 (60%) p=0.099 Doces 1 (44%) 0 (28%) 7 (33.33%) p<0.001a Bebidas gaseificadas 0 (90.67%) 0 (81.33%) 0 (78.67%) p=0.029b Pizza 0 (78.67%) 0 (72%) 0 (72%) p=0.479 Lanche 0 (88%) 0 (82.67%) 0 (92%) p=0.143
Valores de p representam as diferenças entre as 3 avaliações pelos testes de Cochran e McNemar para as variáveis categóricas. ap<0,001 3≠6, 12 e 6≠12. bp=0,029 3≠6.
Correlacionando os dados antropométricos com os dados de tolerância alimentar em cada avaliação, observou-se através do coeficiente de correlação de Spearman, correlação negativa e, quanto maior o peso, (r=-0.280; p=0.014) e IMC (r=-0.278; p=0.015), menor a satisfação alimentar após 3 meses.
Correlacionando as variáveis antropométricas com o consumo alimentar, verifica- se através do coeficiente de correlação de Spearman que houve correlação positiva com 6 meses de pós-operatório, sendo que quanto maior o valor da circunferência cervical, maior a frequência de consumo de doces r=0.235 (p=0.042).
Na tabela 5, encontra-se descrita a média de ingestão calórica de macronutrientes e fibras dos pacientes estudados e, nas tabelas 6, 7 e 8 a adequação de consumo de macronutrientes, fibras e micronutrientes nos diferentes tempos de acompanhamento do estudo em percentual. O cálculo da ingestão de nutrientes não considerou o teor de vitaminas e minerais dos suplementos utilizados pelos pacientes, sendo somente considerado o cálculo da dieta alimentar.
Tabela 5. Média de ingestão calórica e de macronutrientes em gramas e percentual e de fibras em gramas no pré e pós-operatório de 3, 6 e 12 meses.
Pré-operatório Pós-operatório
3 meses 6 meses 12 meses Valor de p Ingestão calórica (kcal) 1189.1±480.31 845.08±274.47 884.09±228.42 1003.8±323.20 p<0.001a Ingestão proteica (g) 98.07±43.99 50.18±19.04 50.54±17.41 51.66±18.98 p<0.001b Ingestão proteica (%) 33.07±9.64 23.55±6.01 22.70±5.46 20.59±5.45 p<0.001a Ingestão de carboidratos (g) 127.11±60.43 106.63±40.96 109.44±34.70 140.54±128.37 p=0.002c Ingestão de carboidratos (%) 42.34±9.10 49.81±8.87 49.33±8.94 50.47±9.65 p<0.001b Ingestão de lipídios (g) 33.22±18.31 26.41±13.10 27.93±11.84 33.37±17.30 p=0.066 Ingestão de lipídios (%) 24.59±7.52 26.65±7.65 27.97±8.46 28.95±9.02 p=0.150 Fibras (g) 15.8±7.14 8.95±4.66 11.15±6.6 12.52±7.66 p<0.001d
Valores de p representam as diferenças entre as 4 avaliações pelos testes de Friedman e Wilcoxon para as variáveis numéricas/ordinais. Os dados são apresentados em média e desvio padrão. ap<0,001 pré≠3, 6, 12, 3≠12 e 6≠12. bp<0,001 pré≠3, 6, 12. cp=0,002 pré≠3, 3≠12 e 6≠12. dp<0,001 pré≠3, 6, 12 e 3≠6, 12.
Tabela 6. Adequação do consumo de macronutrientes e fibras, no pré-operatório e pós- operatório de 3, 6 e 12 meses, descritos em frequência (n) e percentual (%).
Adequacão de ingestão Nutriente ≤85% 86-99% ≥100% p value Proteína (g) pré-operatório 10 (13.33%) 14 (18.67%) 61 (81.33%) p<0.001a Proteína (g) 3 meses PO 42 (56%) 14 (18.67%) 19 (25.33%) p<0.001a