Consideradas as provas como meio de se levar ao juiz o conhecimento da verdade quanto aos fatos deduzidos em juízo, o objeto da prova nada mais é do que o fato por provar-se. Os objetos da prova são nada mais do que os fatos concretos que as partes pretendem demonstrar, ou, nos dizeres de Manzini, “todos os fatos, principais ou secundários, que reclamem uma apreciação judicial e exijam uma comprovação”78. Como fato, em matéria processual, podemos incluir aqueles acontecimentos do mundo exterior, coisas, pessoas, lugares e documentos, dentre outros.
No que tange a esses objetos, caso se refiram ao próprio fato probando, ou consistam no próprio fato, a prova será direta, onde a conclusão objetiva é consequente da própria afirmação de uma testemunha ou atestação de um documento ou coisa, sem a necessidade de maior raciocínio. Já se o objeto não se referir ao próprio fato probando, mas sim a outro, do qual, por trabalho do raciocínio, se chega àquele, a prova será indireta.
O direito por sua vez não se prova, porquanto este deve ser do conhecimento do juiz, obrigação elementar para o exercício da judicatura (juria novit curia). Quando muito o magistrado pode exigir que a parte prove a vigência de direito municipal, estrangeiro, consuetudinário, além, é claro, do direito singular emanado dos entes componentes da Administração indireta proveniente do poder regulamentar e as máximas de experiência.
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2.6.1 Fatos Controvertidos, Relevantes e Determinados
É preciso acrescentar que somente os fatos que possam dar lugar a dúvida, ou seja, que exijam uma comprovação, é que constituem objeto de prova. O juiz não deve deferir a produção de provas quando elas não guardem qualquer relação ou mesmo repercutam para o julgamento da causa. Desse modo, somente os fatos relevantes ou in concreto para a decisão do litígio importam serem provados.
Para serem suscetíveis de prova, os fatos devem versar sobre questão de fato, pois donde não houver controvérsia quanto aos fatos alegados pelos litigantes, a questão se traduzirá apenas à aplicação do direito. Por isso que se provam os fatos contestados ou não admitidos como verdadeiros pela parte contrária à que alega. Além disso, devem ser provados os fatos que tenham relação ou conexão com a causa ajuizada, o que significa que apenas aqueles que sejam relevantes merecem ser provados.
Dessa maneira, são irrelevantes os fatos inúteis, caracterizados por serem aqueles que não possuam qualquer relação com a causa e por isso não influenciam na decisão do juiz; os
impossíveis, dentre os quais aqueles que, em face da relatividade do conceito de impossibilidade, apenas se mostrem como física ou moralmente impossíveis e por disposição de lei; e também aqueles que a despeito de serem possíveis a sua prova é impossível, seja essa impossibilidade de prova decorrente de lei, seja decorrente da própria natureza do fato.
Diante dessa regra de que devem ser objeto de prova apenas os fatos controvertidos, resulta o corolário de que não precisam ser provados os fatos intuitivos ou evidentes, bem como os fatos reputados verdadeiros em virtude de presunção legal.
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No que concerne aos fatos incontroversos, estes devem ser comprovados, pois, mesmo que as partes tenham acordado sobre a sua existência ou inexistência, o juiz não está obrigado a admitir quando lhe pareça dúbio ou suspeito; como ensina Miguel Fenech citado por José Frederico Marques, “El juzgador debe llegar a la verdad de los hechos tal como ocurrieran historicamente, y no tal como quieran las partes que aparescan realizados”79.
O fato evidente, por seu turno, é aquele extraído das diversas ciências e representam o que é certo, indiscutível, induvidoso de maneira segura, rápida e sem necessidade de maiores indagações. Dentre eles ainda se inserem os fato intuitivos, que são aqueles que decorrem da experiência e da lógica.
As presunções absolutas (jure et de jure) são os fatos que não comportam prova em sentido contrário, portanto dispensam de ser provados pelas partes, assim como os fatos impossíveis.
Por fim, ressaltamos que os fatos a se provar devem ser determinados, ou seja, à medida que são apresentados, devem possuir características suficientes que os distingam de outros que se lhes assemelhem. Por isso, os fatos que forem indeterminados ou indefinidos são insuscetíveis de prova.
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2.6.2 Fatos Notórios
A notoriedade é um conceito relativo. Fala-se em fatos notórios como “aqueles fatos cujo conhecimento faz parte da cultura normal própria de determinada esfera social no tempo em que ocorre a decisão”80. O juiz, ao interpretar o direito a ser aplicado ao caso concreto, também se utiliza de noções extrajudiciais, fruto de sua cultura colhida das mais diversas searas do conhecimento, o que se conhece como máximas ou regras de experiência.
É certo que essas máximas constituem juízos formados comumente da observação ou pelo crivo da crítica coletiva, que constituem parcela do conhecimento das pessoas formado pela experiência contínua e prolongada, a qual recebe o nome de communis opinio. Portanto, é perfeitamente aceitável que as afirmações fundadas nessa communis opinio adquirem autoridade diante de uma afirmação individual, porque trazem consigo análise coletiva sobre a apuração de certo fato.
Os fatos notórios e os evidentes não precisam de comprovação, pois são de conhecimento geral, na região e no tempo em que o processo tramitava. E o conhecimento destes, do mesmo modo que as máximas de experiência, faz parte da cultura normal própria de determinada esfera social. O juiz que os utiliza como fundamento de sua decisão não atua conforme ensina Moacyr Amaral Santos81, “como testemunha que informa quanto a fatos, porque se vale de conhecimento que não é seu apenas, ou de umas poucas pessoas, mas de uma
80 CALAMANDREI. In: SANTOS, Moacyr Amaral. Comentários ao CPC. 5. ed. Rio de Janeiro: Forense, 1976. v.
IV, p. 37.
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coletividade, da qual é intérprete, e de cuja exatidão os litigantes sempre estão em condições de fiscalizar”.
Manzini explica que se um fato é evidente, não pode o Juiz desconhecê-lo, pois a sua discricionariedade na valoração da prova se exercita no terreno da dúvida, não se podendo admiti-la no da certeza82, daí a máxima “notoria vel manifesta non egent probatione”.