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Capítulo II – A Recherche e sua relação com as Regras

2.3 Observando mais de perto a proximidade textual

A fim de afastar a hipótese de que a Recherche seja uma obra da juventude, analisaremos a seguir as semelhanças entre ela e as Regras, apontada pelos autores no ponto cinco, já que compreendemos que essa aproximação não pode ser negada. A intenção é mostrar que, embora haja de fato pontos convergentes entre as duas obras, a

Recherche não é a única obra cartesiana onde podemos encontrar a influência das Regras, o que serve para mostrar que a proximidade entre os dois textos não é suficiente

para aproximá-los temporalmente.

Como sabemos, a primeira parte das Regras para a orientação do espírito se divide em doze regras. Analisaremos aqui uma a uma, tentando perceber em que medida elas se aproximam não só da Recherche como também de outras obras cartesianas como o Discurso do método, as Meditações metafísicas e os Princípios de filosofia. Não temos de maneira alguma a intenção de visitar todas as questões presentes nas Regras; nosso objetivo é oferecer material suficiente para compará-las às outras obras em alguns aspectos. Comecemos, portanto, pela primeira regra que se configura da seguinte forma:

“Studiorum finis esse debet ingenii directio ad solida & vera, de iis omnibus quae occurrunt, proferenda judicia82.”

Descartes afirma a partir desse enunciado que a ciência deve ser vista como universal, no sentido em que é a maneira de conhecer que prevalece sobre o objeto de conhecimento. É preferível treinar o espírito de modo que ele possa conhecer todas as coisas do que se especializar em determinado objeto de conhecimento acreditando poder conhecê-lo melhor dessa maneira. Ademais, haveria para ele uma espécie de ligação entre as ciências, que permite que o conhecimento de determinada ciência seja também vantajoso para o conhecimento de várias outras e assim sucessivamente.

82 “Os estudos devem ter por meta dar ao espírito uma direção que lhe permita formular juízos sólidos

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Não podemos negar que essa regra seja compatível com o projeto apresentado na

Recherche, pois ali se afirma que, se bem guiado, todo espírito pode alcançar o

conhecimento. Nesse sentido, o que importa é o método de conhecer e não tanto o objeto a ser conhecido. Ainda que haja limites, se treinarmos bem a razão, ela se torna capaz de conhecer e se estender a todos os campos de conhecimento. Além disso, como vimos no capitulo I, ponto 1.4, ao observarmos o plano da Recherche, que expõe como, supostamente, a obra seguiria, percebemos quantidade de temas bastante diversos. É justamente nesse plano que residem muitos dos argumentos a favor de uma datação do diálogo que o coloque nos anos da juventude de Descartes, pois a diversidade de temas propostos e a maneira um pouco confusa como eles se organizam parecem, para muitos, um indício de que ele teria sido escrito pelo jovem Descartes, em sua sede prematura de abraçar o mundo.

Entretanto, essa ideia parece permear toda a filosofia cartesiana e pode ser observada até mesmo na vida de Descartes. O filósofo se interessou por diversas áreas de conhecimento, entre elas a física, a matemática, a medicina e, é claro, a filosofia. Em seus Princípios de filosofia (1644), uma de suas últimas obras publicadas em vida, Descartes nos apresenta a tão famosa árvore conhecimento83, que acaba por expressar

muito bem a ideia, já presente nas Regras, de que o conhecimento é interligado e que uma ciência leva à outra. Descartes não parece, portanto, ter deixado completamente de lado as ideias presentes em sua primeira Regra, ainda que não retorne a ela jamais da mesma maneira; ele parece segui-la de certa forma. Sendo assim, o fato de encontrarmos na Recherche resquícios dessa regra não parece muito significativo no que se refere à datação da obra.

Partindo para a segunda Regra, seu enunciado se dá da seguinte forma: “Circa illa

tantum objecta oportet versari, ad quorum certam & indubitatam cognitionem nostra ingenia videntur sufficere84.” Já no título desta regra podemos perceber a semelhança

com a filosofia desenvolvida por Descartes posteriormente, o que ficará ainda mais claro em seu desdobramento.

83 AT, XI: 14.

84 “Os objetos com os quais devemos nos ocupar são aqueles que nossos espíritos parecem ser

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O filósofo faz ali um veemente discurso contra a probabilidade, em que é recusada qualquer certeza que não seja equivalente àquela da aritmética e da geometria. Segundo ele, seria melhor não possuir conhecimento algum do que ter uma ideia falsa sobre as coisas. Por vezes, quando não se consegue distinguir o verdadeiro do falso, assume-se o duvidoso como sendo certo e ao invés de aumentar o conhecimento, vemo-lo diminuído. Descartes acredita, portanto, que diante de uma situação onde não somos capazes de determinar o que é verdadeiro e o que é falso, permanecendo a dúvida, a tendência geral é de se assumir o duvidoso como verdadeiro, baseado apenas em probabilidades. Todavia, a probabilidade não é um juiz confiável. Dessa maneira, o filósofo nega a probabilidade como critério, afirmando que, “Atque ita per hanc propositionem rejicimus illas omnes probabiles tantum cognitiones, nec nisi perfecte cognitis, & de quibus dubitari non potest, statuimus esse credendum85.” (AT, X: 362).

A ideia de se confiar apenas no que não se pode duvidar como rejeição do provável está presente em todas as obras cartesianas que colocam a dúvida como método através do qual podemos alcançar o conhecimento certo e indubitável. E não é diferente no caso da Recherche. Ali Descartes deixa bastante claro que apenas os conhecimentos que escapam à dúvida, ou seja, que passam pelo seu crivo, podem ser tidos como certos. Todo o resto é um conhecimento constituído em bases não sólidas, e não é digno de confiança. Embora o filósofo não afirme claramente nesse ponto do diálogo a recusa à probabilidade, ao afirmar que o conhecimento anterior à dúvida não se constitui em bases sólidas, ele parece dizer que esse seria o conhecimento baseado apenas no provável e, portanto, não seria certo e indubitável.

Mais uma vez nos deparamos com preceitos do método cartesiano revisitados em diversos momentos da sua obra. A ideia está presente no Discurso do Método e nos

Princípios de filosofia, mas daremos destaque aqui às Meditações como exemplo desse

fato. A mais célebre obra de Descartes apresenta, através do gênio maligno, a mais forte recusa à probabilidade feita pelo filósofo. Isso porque, com o advento do gênio maligno, pela primeira vez Descartes expõe a força psicológica exercida pela probabilidade em nossos juízos. Ainda que saibamos na teoria que se deve recusar o provável e que não podemos aceitar o duvidoso como verdadeiro, na prática somos levados a dar o nosso

85 “Por conseguinte, por nossa proposição, rejeitamos todos os conhecimentos que são apenas prováveis e declaramos que se deve confiar somente no que é perfeitamente conhecido e do qual não se pode duvidar.” (Reg., 1999: 5-6)

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assentimento àquilo que nos parece mais provável. E é justamente nesse ponto que somos levados ao erro.

Consciente da dificuldade em se negar o provável, Descartes lança mão, nas

Meditações, do gênio maligno como artifício psicológico que converte a dúvida em

falsidade, impedindo assim o assentimento precipitado a conhecimentos marcados pelo traço da probabilidade.

Supponan igitur non optimum Deum, fontem veritatis, sed genium aliquem malignum, eundemque summe potentem & callidum, omnem suam industriam in eo posuisse, ut me falleret: putabo coelum, aërem, terram, colores, figuras, sonos, cunctaque externa nihil aliud esse quam ludificationes somniorum, quibus insidias credulitati meae tetendit: considerabo meipsum tanquam manus non habentem, non oculos, non carnem, non sanguinem, non aliquem sensum, sed haec omnia me habere falso opinantem: manebo obstinate in hac meditatione defixus, atque ita, siquidem non in potestate mea sit aliquid veri cognoscere, at certe hoc quod in me est, ne falsis assentiar, nec mihi quidquam iste deceptor, quantumvis potens, quantumvis callidus, possit imponere, obfirmata mente cavebo86. (AT, VII: 22-23)

Diante da força do assentimento, não basta que as coisas sejam duvidosas, pois a probabilidade tem força e nos leva a acreditar nas coisas, mesmo que tenhamos motivos para duvidar delas, principalmente se esses motivos são razões metafísicas que ultrapassam a experiência. Se num estado de dúvida entre o verdadeiro e o falso, um dos lados é mais provável que o outro, tendemos a assentir a ele, mesmo sabendo que não há ali as prezadas certeza e indubitabilidade. Só conseguimos recusar veementemente o que consideramos falso. Vê-se então a necessidade de não apenas duvidar das coisas, mas tomá-las como falsas para que sejamos capazes de recusar assim o nosso assentimento a elas. Não é o caso de acreditar que as coisas sejam falsas, mas apenas de supor que assim o seja, a fim de evitar que novamente se incorra nos preconceitos. Dessa maneira, cabe ao gênio maligno dar ao duvidoso o estatuto de falso, fazendo com que ele seja recusado, evitando assim a precipitação do juízo. É nesse contexto que se

86 “Suporei, portanto, que há não um Deus ótimo, fonte soberana da verdade, mas algum gênio maligno e, ao mesmo tempo, sumamente poderoso e manhoso, que põe toda a sua indústria em que me engane: pensarei que o céu, o ar, a terra, as cores, as figuras, os sons e todas as coisas externas não mais são do que ludíbrios dos sonhos, ciladas que ele estende à minha credulidade. Pensarei que sou eu mesmo desprovido de mãos, de olhos, de carne, de sangue, de sentido algum, mas tenho a falsa opinião de que possuo tudo isso. Manter-me-ei obstinadamente firme nesta meditação, de maneira que, se não estiver em meu poder conhecer algo verdadeiro, estará em mim pelo menos negar meu assentimento aos erros, às coisas falsas. Eis por que tomarei cuidado para não receber em minha crença nenhuma falsidade, a fim de que esse enganador, por mais poderoso e por mais astuto que ele seja, nada possa me impor.” (Med., 1999: 31-33).

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insere o gênio maligno, não como um argumento, mas como um artifício psicológico, capaz de nos ajudar, por meio da suposição de que todas as coisas sejam falsas, a evitar o erro e a precipitação ocasionados pela probabilidade, até que se possa alcançar o conhecimento certo e indubitável.

Fica claro, portanto, que a recusa à probabilidade expressa na segunda regra é retomada tardiamente nas Meditações. O que demonstra, mais uma vez que, embora Descartes tenha abandonado o projeto das Regras, tenha amadurecido e modificado sua maneira de escrever e expor suas ideias, há certos pontos de sua filosofia que vigoram.

A terceira Regra elaborada por Descartes é colocada nos seguintes termos: “Circa

objecta proposita, non quid alii senserint, vel quid ipsi suspicemur, sed quid clare & evidenter possimus intueri, vel certo deducere, quaerendum est; non aliter enim scientia acquiritur87.”

A crítica à erudição também é um ponto recorrente na filosofia de Descartes88 e

aparece de forma bastante clara na terceira Regra. De acordo com o filósofo, ainda que o estudo de textos eruditos possa ser, em alguma medida, proveitoso, ele acarreta, na maior parte das vezes, prejuízo aos leitores. Isso porque, embora eles possam conter algo de verdadeiro, não seria possível determinar ao certo onde estaria essa verdade, pois, para tudo o que já foi dito por um filósofo, há algum outro que disse o contrário. Esse seria um dos pontos nos quais reside a insistência cartesiana na ideia de que devemos buscar o conhecimento por nós mesmos, baseados apenas no uso da nossa própria razão.

Essa ideia é claramente retomada na Recherche, onde o filósofo afirma com todas as letras oferecer um caminho mais fácil na busca pelo conhecimento, embora não tenha seguido Aristóteles ou Platão89, prezando por uma busca pelo conhecimento que

privilegie a razão em detrimento da confiança em textos antigos. No diálogo a crítica à

87 “No que tange aos objetos considerados, não é o que pensa outrem ou o que nós mesmos

conjecturamos que se deve investigar, mas o que podemos ver por intuição com clareza e evidência, ou o que podemos deduzir com certeza: não é de outro modo, de fato, que se adquire a ciência.”

88 Embora a crítica à erudição seja recorrente nas obras de Descartes, ela se apresenta de maneiras diferentes, sendo em alguns momentos mais amena e contida que em outros.

89 “Ce qui me fait espérer que vous seriez bien aise de trouver ici un chemin plus facile, et que les vérités que je dirai ne laisseront pas d’être bien reçues, encore que je ne les emprunte point d’Aristote ni de Platon, mais qu’elles auront cours dans le monde ainsi que la monnaie, laquelle n’est pas de moindre valeur, quand elle sort de la bourse d’un paysan, que lorsqu’elle vient de l’épargne.” (AT, X: 498)

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erudição é ainda mais impetuosa, e apresenta um novo elemento, pois Descartes evidencia, através do personagem de Epistemon, a dificuldade experimentada pelos eruditos em fazer uso unicamente da razão para alcançar o conhecimento. Encontramos um exemplo claro dessa posição em uma das falas de Eudoxo, onde ele afirma que seria mais fácil para Poliandro alcançar a verdade através de seu método90. De acordo com

Eudoxo, Epistemon, por estar imerso em diversos preconceitos provenientes de sua formação, estaria menos propício do que Poliandro, personagem que, por sua vez, representa o homem comum, a seguir o caminho que leva ao conhecimento proposto por Eudoxo.

O descontentamento de Descartes com o estado em que se encontrava a filosofia de sua época é expresso também na primeira parte do Discurso do Método. Ali o filósofo faz uma espécie de diagnóstico da filosofia de sua época. Tal movimento constitui uma forte crítica à filosofia, área na qual, segundo ele, não se encontra acordo entre as diversas opiniões. Segundo Descartes, haveria uma variedade enorme de doutrinas filosóficas, contraditórias entre si, mas que são, de algum modo, defendidas ferrenhamente pelos seus partidários:

Je ne dirai rien de la Philosophie, sinon que, voyant qu’elle a été cultivée par les plus excellents esprits qui aient vécu depuis plusieurs siècles, & que néanmoins il ne s’y trouve encore aucune chose dont on ne dispute, & par conséquent qui ne soit douteuse, je n’avais point assez de présomption pour espérer d’y rencontrer mieux que les autres, et que, considérant combien il peut y avoir de diverses opinions, touchant une même matière, qui soient soutenues par de gens doctes, sans qu’il y en puisse avoir jamais plus d’une seule qui soit vraie, je réputais presque pour faux tout ce qui n’était que vraisemblable.91 (AT, VI: 8) 92

Desse modo, a erudição não traz necessariamente ganhos na busca pelo conhecimento, mesmo porque o desacordo entre os filósofos não permite que decidamos entre opiniões contrárias. Devemos buscar através do uso da nossa própria razão o caminho da verdade.

90 AT, X: 502.

91 Mais uma vez encontramos a recusa de Descartes à probabilidade.

92 “Nada direi a respeito da filosofia, senão que, vendo que foi cultivada pelos mais excelsos espíritos que viveram desde muitos séculos e que, no entanto, nela não se encontra ainda uma só coisa sobre a qual não se dispute, e por conseguinte que não seja duvidosa, eu não alimentava qualquer presunção de acertar melhor do que os outros; e que considerando quantas opiniões diversas, sustentadas por homens doutos, pode haver sobre uma e mesma matéria, sem que jamais possa existir mais de uma que seja verdadeira, reputava quase como falso tudo que era apenas provável.” (DM, 1999: 40)

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A busca pelo conhecimento através do uso da própria razão e o abandono dos preconceitos, inclusive aqueles provenientes da filosofia tradicional, são marcas da filosofia cartesiana. É inquestionável que as Meditações, assim como os Princípios, obras reconhecidamente tardias, compartilham desses ideais. É forçoso, pois, mais uma vez, concluir que a semelhança entre as Regras e a Recherche nesse caso é pouco significativa.

A quarta regra elaborada por Descartes é mais concisa que as outras, mas de extrema importância: “Necessaria est Methodus ad rerum veritatem investigandam93.”

O valor dado pelo filósofo ao método não é nenhuma novidade nem figura de forma exclusiva nas Regras, muito antes pelo contrário. Todavia, nas Regras há uma ligação clara e direta entre o método e a matemática. Sendo o método imprescindível para qualquer pesquisa ou busca pelo conhecimento e a matemática o modelo de conhecimento certo, nada mais natural que investir num método baseado em elementos matemáticos.

A matemática é a base de todas as outras ciências. E é nessa ideia que reside o conceito de matemática universal, do qual Descartes lança mão nas Regras e que não é retomado de maneira clara posteriormente em nenhum de seus escritos. Há quem diga, como já vimos ser o caso de Olivo (2005), que a matemática universal está presente na

Recherche de la Vérité. Fato é que não há nenhuma menção ao termo mathesis universalis nas obras posteriores. O que podemos encontrar é a insistência num método

de conhecimento que ofereça uma certeza equivalente àquela encontrada nas matemáticas, o que também não se destaca como exclusividade da Recherche.

Nas Meditações, mais propriamente na sinopse da segunda Meditação, obra escrita num momento bem posterior ao das Regras, Descartes destaca a importância de se seguir a ordem das matemáticas. A referência à referida ordem se dá num momento em que o filósofo explica o fato de nem todas as respostas estarem presentes no início das Meditações; a justificativa se ampara justamente na necessidade de se seguir uma ordem, a mesma empregada pelos geômetras.

Sed quia forte nonnulli rationes de animae immortalitate illo in loco expectabunt, eos hic monendos puto me conatum esse nihil scribere quod non accurate demonstrarem; ideoque non alium ordinem sequi potuisse, quam

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illum qui est apud Geometras usitatus, ut nempe omnia praemitterem ex quibus quaesita propositio dependet, antequam de ipsa quidiquam concluderem94. (AT, VII: 12-13)

Embora a mathesis universalis, ou matemática universal, não seja mais objeto, ao menos não explicitamente, da filosofia cartesiana, existem algumas referências às matemáticas em forma de elogios à certeza do método observado pelos matemáticos ao longo do corpus cartesiano95. Não vemos na Recherche nenhuma peculiaridade em

relação a essa questão.

A quinta regra, por sua vez, se configura da seguinte forma: “Tota methodus

consistit in ordine & dispositione eorum ad quae mentis acies est convertenda, ut aliquam veritatem inveniamus. Atque hanc exacte servabimus, si propositiones involutas & obscuras ad simpliciores gradatim reducamus, & deinde ex omnium simplicissimarum intuitu ad aliarum omnium cognitionem per eosdem gradus ascendere tentemus96.” O enunciado fala por si. Descartes defende a ordem, já mencionada na

regra anterior, como um dos preceitos mais importantes do método, sem o qual o conhecimento não poderia jamais ser alcançado. A busca pelo conhecimento deve sempre partir do mais simples até o mais complexo e nunca o contrário.

Tal ideia também se encontra presente na Recherche e é bem exemplificada através da seguinte afirmação de Eudoxo.

[...] omnes enim veritates se invicem consequuntur, & mutuo inter se vinculo continentur, totum arcanum in eo tantum consistit, ut a primis & simplicissimis incipiamus, & deinde sensim & quasi per gradus usque ad remotissimas & maxime compositas progrediamur. Jam vero quis est qui dubitet, quin id, quod ut primum principium statui, prima omnium, quas cum aliqua methodo cognoscere possumus, rerum sit? Constat enim de ea nos

94 “Mas, porque alguns talvez esperem encontrar nesse passo as razões da imortalidade da alma, creio deva chamar sua atenção para o fato de que me esforcei por nada escrever que não demonstrasse cuidadosamente. De sorte que outra ordem não pude seguir senão a que empregam os geômetras, a saber, antecipando todas as coisas de que depende a proposição buscada, antes de concluir algo a respeito dela.” (Med., 1999: 35-37)

95 Por exemplo, a carta dedicatória das Meditações aos teólogos da Sorbonne.

96 “O método todo consiste na ordem e na organização dos objetos sobre os quais se deve fazer incidir

a penetração da inteligência para descobrir alguma verdade. Nós lhe ficaremos ciosamente fiéis se reduzirmos gradualmente as proposições complicadas e obscuras a proposições mais simples, e, em seguida, se, partindo da intuição daquelas que são as mais simples de todas, procurarmos elevar-

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