Capítulo III – A Recherche e sua relação com o Discurso
3.3 Observando mais de perto a semelhança textual
Ainda que Lojacono defenda a maior aproximação da Recherche com o Discurso, o que, supostamente, faria com que as duas obras tivessem sido escritas em momentos
44 Como vimos no capítulo anterior, essas são as possibilidades de datas levantadas por Carraud e Olivo (2013).
45 Considerando a argumentação de Lojacono com um todo, seria possível dizer que a data de 1634 seria mais provável caso a condenação de Galileu fosse fundamental para a redação da Recherche, mas não acreditamos ser o caso.
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próximos, ele insiste em aproximar o Discurso e a própria Recherche das obras da juventude, o que acaba por comprometer em parte a sua argumentação. A despeito disso, para afastar definitivamente essa hipótese, (e quando dizemos afastar definitivamente é no sentido de mostrá-la como não possuindo argumentos determinantes, ou seja, como sendo insuficiente, e não necessariamente falsa), analisaremos a seguir momentos do texto do Discurso propriamente e suas possíveis proximidades com a Recherche para mostrar, assim como fizemos anteriormente com as
Regras, que essa aproximação não é atributo exclusivo do diálogo.
Já vimos no capítulo anterior, “A Recherche e sua relação com a Regras”, que as
Regras, além de possuírem semelhanças com o diálogo, parecem ter influenciado
também outras obras de Descartes, inclusive o Discurso. Em diversos momentos encontramos questões das Regras que tinham semelhanças com as da Recherche, mas também com aquelas do Discurso, o que revela que, textualmente e em relação ao conteúdo, é difícil desvincular as obras cartesianas – mesmo as mais distantes entre si sofrem em alguma medida influência, umas nas outras, como acontece com as Regras e as Meditações. Contudo, embora a semelhança, em alguns aspectos, entre o Discurso e a Recherche seja inegável, sabemos que o Discurso tem também muita semelhança com as Meditações. A questão é saber se há algo na semelhança entre o Discurso e a
Recherche que seja exclusivo e que possa, incontestavelmente, aproximá-los
temporalmente.
Seguindo a ordem de exposição do texto, faremos de início um comentário sobre a sua primeira parte. Podemos dizer que ela se constitui de dois momentos importantes. O primeiro seria a apresentação de elementos de ordem biográfica e o segundo seria o ataque cartesiano às ciências e à filosofia de sua época46, revelando o seu profundo
descontentamento a esse respeito e a necessidade iminente de buscar novos fundamentos para ampará-las. No que diz respeito ao segundo momento, sabemos que esse descontentamento de Descartes com as ciências e a filosofia de sua época é algo que o acompanha durante todo o seu percurso filosófico e que ele faz sempre questão de ressaltar, seja em suas obras, seja em sua correspondência pessoal. É nisso que se ampara toda a busca cartesiana por novos fundamentos, seja através da mathesis
46 Tal elemento não era exclusividade de Descartes, pois está presente nos céticos de seu tempo, sendo também um sintoma típico da chamada “crise pirrônica”. Tal movimento constitui uma forte crítica à filosofia, área na qual não se encontra acordo entre as diversas opiniões.
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universalis, seja através de sua metafísica ou filosofia primeira. Caso a semelhança
textual entre as obras cartesianas, no que diz respeito a esse assunto, dissesse algo sobre sua aproximação temporal, poderíamos dizer que foram todas escritas na mesma época, o que, certamente, seria um completo absurdo.
Já no que diz respeito ao momento biográfico da primeira parte do Discurso, possuímos um elemento mais interessante e menos comum na filosofia de Descartes. O
Discurso é a única obra cartesiana onde encontramos esse tipo de apresentação clara e
detalhada de elementos biográficos. Embora possamos identificar um ou outro elemento em obras como a Recherche ou as Meditações, nada se compara ao que o filósofo nos oferece na obra de 1637. O mais intrigante entretanto é que Descartes parece apresentar suas críticas de uma forma muito mais amena no Discurso, o que nos faz pensar em duas possibilidades: ou ele de fato mudou de ideia a respeito de alguns pontos, ou ele estava ali mais receoso de apresentar sua posição de forma mais incisiva. Um exemplo disso nos parece estar presente no momento em que, explicando a sua trajetória, afirma suas dúvidas em relação ao conhecimento que possuía47. Embora Descartes já apresente
elementos de contestação da filosofia vigente, ele não nega a importância daquilo que havia aprendido na escola. Vejamos:
Je ne laissais pas toutefois d’estimer les exercices, auxquels on s’occupe dans les écoles. Je savais que les langues, qu’on y apprend, sont nécessaires pour l’intelligence des livres anciens; que la gentillesse des fables réveille l’esprit; que les actions mémorables des histoires le relèvent, et qu’étant lues avec discrétion, elles aident à former le jugement; que la lecture de tous les bons livres est comme une conversation avec les plus honnêtes gens des siècles passés, qui en ont été leurs auteurs, et même une conversation étudiée, en laquelle ils ne nous découvrent que les meilleures de leurs pensées [...] que la philosophie donne moyen de parler vraisemblablement de toutes choses, et se faire admirer des moins savants [...] et, enfin, qu’il est bon de les avoir toutes examinées, même les plus superstitieuses et les plus fausses, afin de connaître leur juste valeur et se garder d’en être trompé48. (AT, VI: 5-6)
47 “Car je me trouvais embarrassé de tant de doutes et d’erreurs, qu’il me semblait n’avoir fait autre profit, en tachant de m’instruire, sinon que j’avais découvert de plus en plus mon ignorance.” (AT, VI: 4)
48 “[...] não deixava de apreciar os exercícios com os quais se ocupam nas escolas. Sabia que as línguas que nelas se aprendem são necessárias ao entendimento dos livros antigos; que a gentileza das fábulas estimula o espírito; que as realizações notáveis das histórias os fazem crescer, e que, sendo lidas com discrição, ajudam a formar o juízo; que a leitura de todos os bons livros é igual a uma conversação com as pessoas mais qualificadas dos séculos passados, que foram seus autores, e até uma conversação premeditada, na qual eles nos revelam apenas seus melhores pensamentos [...], que a filosofia ensina a falar com coerência de todas as coisas e de se fazer admirar pelos que possuem menos erudição [...] e, enfim, que é bom havê-las examinado a todas, até mesmo as mais eivadas de
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Como podemos ver, ainda que Descartes se mostre desapontado, em alguns aspectos, com a sua formação, já que tanta instrução não o teria feito alcançar a verdade, ele não desvaloriza o conhecimento ensinado nas escolas, nem afirma os males da erudição, como acontece na Recherche. Ele chega inclusive a afirmar o estudo de línguas como necessário para a leitura de livros antigos, o que parece supor alguma utilidade na leitura dos antigos. Há ainda uma crítica velada ao conhecimento baseado na probabilidade. Já no diálogo o filósofo critica claramente a erudição e afirma, de forma bastante incisiva, contrariamente ao que acontece no Discurso, a pouca importância em se estudar línguas como o grego e o latim ou ler textos antigos49. O
objetivo é mostrar que o homem comum, através unicamente do uso da razão, pode alcançar o conhecimento. É interessante notar ainda que, ao mencionar o ensinamento que teve na escola, Eudoxo afirma, contrariamente ao que acontece no Discurso, que tudo o que ele havia aprendido seria reconhecer a incerteza de tudo o que sabia.
Vulgarem docendi methodum, quae in Scholis obtinet, vituperare, animum non induxi, nec inducam unquam; illi enim tantillum id, quod scio, debeo, ejusque adminiculo, ad agnoscendam rerum omnium, quas ibi edoctus sum, incertitudinem usus fui. Itaque etiamsi praeceptores mei nihil me certi edocuerint, nihilominus, quod, id ut agnoscerem, ab iis didicerim, gratias ipsis habere debeo, easque nunc profecto temporis, quoniam omne id quod me docuerunt adeo dubium fuit, majores, quam si magis rationi consentaneum fuisset; eo enim in casu, pauxilla illa ratione, quam in eo deprehendissem, contentus fuissem forte, atque hoc remissiorem me in inquerenda accuratius veritate reddidisset50. (AT, X: 515)
A postura de Eudoxo parece um pouco irônica, principalmente porque inicialmente adota um tom de gratidão, mas no decorrer da passagem, afirma que seus preceptores não lhe ensinaram nada de certo. Ele agradece por isso, sugerindo que sem tantos erros e ensinamentos duvidosos ele não alcançaria a verdade, ficando acomodado e satisfeito com o conhecimento adquirido. Assim, ao agradecer seus preceptores, superstição e as mais falsas, a fim de conhecer-lhes o exato valor e evitar ser por elas enganado.” (DM, 1999: 38-39)
49 AT, X: 503.
50 “Jamais je ne me suis mis ni me mettrais en tête de blâmer de la méthode d’enseignement qu’on emploie dans les écoles: car c’est à elle que je dois le peu que je sais, et c’est de son secours que je me suis servi pour reconnaître l’incertidude de tout ce que j’y ai appris. Aussi, quoique mes précepteurs ne m’aient jamais rien enseigné de certain, néanmoins je leur dois des actions de grâce pour avoir appris d’eux à le reconnaître, et je leur ai plus d’obligation de ce que toutes les choses qu’ils m’ont apprises sont douteuses que si elles eussent été plus conformes à la raison, car, dans ce cas, je me serais peut-être contenté du peu de raison que j’y eusse découvert, et cela m’aurait rendu moins ardent à rechercher avec plus de soin la vérité.” (FA, II: 1125)
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Eudoxo parece mais criticá-los, dando a entender que quem se contenta com esse tipo de conhecimento, como Epistemon por exemplo, nunca alcança a verdade.
Essa mudança, a nosso ver, reflete uma mudança de contexto de uma obra em relação à outra. Embora o Discurso tenha sido escrito em francês, parece haver ali ainda uma forte preocupação em não ofender ou desagradar os eruditos ou sábios de sua época, preocupação essa que parece ter um lugar menor na Recherche. Nesse sentido, a diferença seria mais retórica, não refletindo necessariamente uma mudança no pensamento de Descartes a esse respeito. O filósofo assume uma postura diplomática que perderá espaço na Recherche devido ao seu diferente enfoque. É importante notar que o Discurso é uma espécie de introdução à filosofia/ciência de Descartes, constituindo a primeira aparição pública de sua obra, de maneira que apresenta cuidados que seriam desnecessários e até contraproducentes na Recherche, que é uma obra de confrontação direta com o aristotelismo.
Partindo para a segunda parte do Discurso, encontramos ali as quatro regras do método cartesiano. Essas regras parecem guiar a procura pela verdade de modo que podem ser, sem dificuldade, encontradas em momentos diversos do corpus cartesiano, seja nas Regras, ou nas Meditações, por exemplo. Todavia, antes de oferecer as regras do método propriamente, Descartes faz um breve discurso, ainda permeado de elementos autobiográficos, sobre como teria chegado à conclusão de que seria necessário, por si mesmo, buscar os princípios da filosofia. Descartes expressa então uma de suas metáforas mais conhecidas: a da construção51. A intenção é mostrar que
não basta reformar, deve-se demolir o antigo edifício para reconstruí-lo em bases sólidas, ou seja, a filosofia não pode ser reformada, mas sim destruída e reconstruída em princípios sólidos; somente assim ela poderia escapar do caos em que se encontrava. Tal metáfora está presente de forma resumida no diálogo, quando Eudoxo fala dos conhecimentos mal estabelecidos que, segundo ele, seriam como uma “maison mal bâtie de qui les fondements ne sont pas assurés. Je ne sais point de meilleur moyen pour y remédier, que de la jeter toute par terre, et d’en bâtir une nouvelle.” (AT, X: 509) Todavia sua correspondência mais elaborada, que conta com uma explicação bastante semelhante com a presente no Discurso, seria com a metáfora da pintura. Ali após Epistemon comparar o nosso conhecimento a um quadro em branco que era preenchido
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ao longo da vida, Eudoxo dirá que seria necessário, chegada a idade do conhecimento, apagar toda a pintura e recomeçá-la ao invés de corrigi-la52.
Como já vimos no capitulo I, esse tipo de comparação ligada à ideia de se desfazer de todas as opiniões é recorrente nas obras de Descartes, e não aproxima necessariamente a Recherche e o Discurso. O que nos chama mais atenção nesse momento da segunda parte do Discurso é, na verdade, a afirmação veemente de que nossos juízos seriam bem mais puros e firmes caso conseguíssemos nos guiar unicamente através da nossa própria razão. Ali parece ser com certo pesar que o filósofo admite que somos sempre guiados por elementos externos, o que dificulta bastante esse processo. Ele afirma ainda que a decisão de se desfazer de todas as crenças não deveria ser adotada por todos, principalmente pelos dois tipos de homem dos quais o mundo é quase inteiramente composto. Ao definir quais seriam esses dois tipos de homem, distinção essa emprestada de Charron, Descartes faz uma descrição que a princípio parece corresponder às descrições de Epistemon e Poliandro, mas um olhar mais atento nos mostra que, no caso de Poliandro, a aproximação pode não ser tão verdadeira. O primeiro tipo de homem é descrito da seguinte forma:
[...] ceux qui, se croyant plus habiles qu’ils ne sont, ne se peuvent empêcher de précipiter leurs jugements, ni avoir assez de patience pour conduire par ordre toutes leurs pensées: d’où vient que, s’ils avaient une fois pris la liberté de douter des principes qu’ils ont reçus, et de s’écarter du chemin commun, jamais ils ne pourraient tenir le sentier qu’il faut prendre pour aller plus droit, et demeureraient égarés toute leur vie53. (AT, VI: 15)
Essa descrição se encaixa com a do homem pedante, que acredita saber mais do que realmente sabe. É claro que a caracterização de Epistemon ultrapassa essa definição, mas podemos encontrar um elo entre os dois. Já no caso do segundo tipo de homem, a descrição ocorre da seguinte maneira:
Puis, de ceux qui, ayant assez de raison, ou de modestie, pour juger qu’ils sont moins capables de distinguer le vrai d’avec le faux, que quelques autres par lesquels ils peuvent être instruits, doivent bien plutôt se contenter de
52 AT, X: 508.
53 “Aqueles que, julgando-se mais hábeis do que realmente, não podem impedir-se de precipitar seus juízos, nem ter suficiente paciência para conduzir ordenadamente todos os seus pensamentos: disso decorre que, se tivessem tomado uma vez a liberdade de duvidar dos princípios que aceitaram de se desviar do caminho comum, jamais poderiam ater-se à trilha que é necessário tomar para ir mais direto, e permaneceriam perdidos ao longo de toda existência.” (DM, 1999: 47)
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suivre les opinions de ces autres, qu’en chercher eux-mêmes de meilleures.54
(AT, VI: 15)55
Podemos enxergar Poliandro nas primeiras características apontadas nessa descrição, pois, logo no início do debate na Recherche, ele demonstra sua modéstia e sua predisposição a seguir as opiniões dos outros56. Todavia, ao longo do diálogo
Poliandro não assume esse papel, pois embora corresponda às características descritas, ele não deve apenas seguir as opiniões alheias, podendo, por si mesmo, e com a ajuda de um sábio, alcançar as verdades.
É importante notar que, ao dizer que o mundo é quase inteiramente composto de dois tipos de homem, Descartes está se referindo, no caso dos dois tipos, apenas aos espíritos fracos. Os espíritos fortes pertenceriam a outra categoria, mais rara, de homens. Assim, o mundo seria repleto de espíritos fracos e possuiria uma pequena parcela de espíritos fortes. Dentre os espíritos fortes, há aqueles que possuem uma disposição natural para alcançar a sabedoria, e aqueles que, por não possuírem essa disposição natural favorecida, podem alcançar a sabedoria apenas através de laborioso estudo e exercício do espírito.
Deste modo, enquanto no Discurso a caracterização dos tipos de homem tem foco maior nos espíritos fracos57, na Recherche é possível encontrar claramente tanto o
espírito fraco, Epistemon, quanto o espírito forte, Poliandro e Descartes.
Voltando ao uso exclusivo da razão como guia, não é novidade que na Recherche Descartes também irá defender o uso exclusivo da razão na busca pelo conhecimento. A
54 É impossível não notar a semelhança dessa passagem com a célebre distinção charroniana entre espíritos fortes e espíritos fracos. Charron (DS, Pref. § 9) nos diz que a sabedoria não é para todos, os espíritos fracos não seriam capazes de alcançá-la. Entre os espíritos fracos se encontram aqueles que, devido à conformação recebida dos pais, jamais terão o temperamento adequado para alcançar a sabedoria e aqueles que serão incapazes de alcançá-la devido à sua má cultura e à temeridade com que tendem a se ater a determinadas opiniões. Além disso, quando se rendem à ciência, esses espíritos fracos tornam-se irremediáveis e pedantes. A ciência é útil apenas aos espíritos fortes, que são capazes de bem utilizá-la, para formar e regrar o julgamento e a consciência, o que seria uma forma não dogmática de usar a razão. Os espíritos fracos seriam a maioria, enquanto raros seriam os espíritos fortes, capazes de seguir na busca pela sabedoria. Sobre esse assunto ver: MAIA NETO, J. R.
In PAGANINI, 2003: 81-113.
55 “Daqueles que, tendo bastante razão, ou modéstia, para considerar-se menos capazes de diferenciar o verdadeiro do falso do que alguns outros, pelos quais podem ser instruídos, devem antes ficar satisfeitos em seguir as opiniões desses outros do que esforçar-se por achar por si mesmos outras melhores.” (DM, 1999: 47)
56 AT, X: 502.
57 No Discurso, Descartes não deixa de dar indícios de que a sua postura seria diferenciada em relação à dos espírtos fracos. Ele já representa ali um exemplo de espírito forte.
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diferença é que, no diálogo, deixa de afirmar esse caminho como sendo o seu próprio caminho, o caminho que deveria seguir, para afirmar que esse seria o caminho através do qual ele guiaria Poliandro. Embora afirme, em ambas as obras, não ter a intenção de prescrever o seu método, a sua postura na Recherche é completamente diferente; ele se assume como tutor e não está apenas a mostrar como percorreu o caminho do conhecimento, está mostrando como ele é percorrido na prática. Essa mudança na dinâmica da exposição é bastante significativa, pois, ainda que as obras compartilhem muitos temas, a questão que fica é: por que uma mudança tão radical na sua forma de apresentação?
Passando para os preceitos do método propriamente, eles se dividem em quatro: 1) “Nunca aceitar como verdadeiro algo que eu não reconhecesse claramente
como tal.”
2) “Repartir cada uma das dificuldades analisadas em tantas parcelas quanto fossem possíveis.”
3) “Conduzir por ordem meus pensamentos, iniciando pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer, para elevar-me, pouco a pouco, até o conhecimento dos mais compostos.”
4) “Efetuar em toda parte relações metódicas tão completas e revisões tão gerais nas quais eu tivesse a certeza de nada omitir58.”
No que diz respeito a esses preceitos, podemos dizer que estão presentes de maneira evidente nas Regras, pois essa obra, assim como o Discurso, se propõe definir as regras da investigação, e de maneira não evidente nas Meditações, onde a investigação começa diretamente, mas parece se apoiar nos preceitos estabelecidos anteriormente no Discurso. Assim, ainda que no caso das Meditações o recurso aos preceitos do método nem sempre seja expresso em palavras, ele parece se demonstrar através da própria investigação. Já no caso da Recherche, por ela apresentar, em alguma medida, assim como as Regras e o Discurso, não só a investigação diretamente, mas a melhor maneira de empreender essa investigação, podemos, por vezes, encontrar ali os preceitos do método de uma forma mais clara. Talvez essa aproximação do diálogo em relação às Regras e ao Discurso e distanciamento em relação às Meditações, possa
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parecer um reflexo, ou indício, da proximidade temporal entre essas obras, ou seja, um argumento a favor de uma datação precoce da obra. Todavia, acreditamos que essa