• Nenhum resultado encontrado

5. A ESCOLA: COMO SISTEMA DE COMUNICAÇÃO ONDE O BINÓMIO COMUNICAÇÃO EDUCAÇÃO É POTENCIADO

5.7. M ODELO PARA ESTIMULAR A CRIATIVIDADE EM SALA DE AULA

No presente trabalho parte-se do pressuposto que para conseguir fortificar uma linha de raciocínio encontra-se uma maior facilidade e credibilidade se ao fazê-lo se tentar encontrar estudos e planos sólidos já existentes, aceites e exequíveis. Isto significa que, antes de planificar algo que se pretendeu propor, primeiro estudou-se um caminho para o fazer. Este caminho passou pela pesquisa de um modelo já pensado e criado para estimular a criatividade em sala de aula, que no caso, remete aos estudos de Menchén Bellón e sua equipe. Para o compreender foi necessário procurar no dicionário de Língua Portuguesa (Porto Editora, 2006) os termos que se seguem, por forma a definir se os portugueses se situam no mesmo plano de significados que os vizinhos espanhóis:

Expressão: [eif] s.f. 1 acto ou efeito de exprimir; 2 manifestação de pensamentos por gestos ou palavras; 3 animação; alegria; 4 modo de comunicar; 5 conjunto de palavras; dito; 6 manifestação de um sentimento; 7 personificação; 8 língua; dialecto; (…) ~ corporal – postura do corpo e gestos como meio de transmissão de pensamentos e emoções; ~escrita – modo de comunicar por escrito; ~oral modo de comunicar oralmente (Do latim expressione-, «id.») Imaginação: s.f. 1 acto ou efeito de imaginar; 2 faculdade de inventar, de conceber, unida ao talento de reproduzir vivamente essas concepções; 3 capacidade de representação de objectos,

acontecimentos ou relações ainda não observados; 4 faculdade de combinar ou reorganizar elementos ou ideias de forma construtiva; 5 coisa ou situação imaginada; 6 invenção; criação; 7 fantasia; ~ criadora/inventiva função combinatória de novos conjuntos de imagens; ~ reprodutora/imaginativa função de representação do passado sob a forma concreta de imagens (Do latim imaginatione-, «imagem»).

Originalidade: s.f. 1 qualidade de original; 2 criatividade; inovação; 3 singularidade; 4 excentricidade; extravagância (De original+-i-+-dade).

Curiosidade: s.f. 1. qualidade do que é curioso; 2. desejo de saber ou ver; 3. indiscrição; 4. objecto raro e interessante; 5. informação interessante e pouco conhecida; 6. trabalho ligeiro e recriativo (Do latim curiositate-, «id»).

Parte-se também do conhecimento (de experiências prévias no campo profissional docente e de observações in situ) que se um professor estivesse num dia muito ocupado, no qual ainda tivesse que planificar uma unidade para as aulas dos dias seguintes, faria aquilo que muitos fazem: sentar-se-ia provavelmente na secretária, em frente ao computador, ou ao caderno diário e esboçava plano de aula a plano de aula, … com o livro do professor aberto (o adoptado pela escola e os de outras editoras),… até conseguir cumprir as exigências do programa. Não se pretende que esta pequena descrição funcione como crítica depreciativa, apenas como uma constatação elucidativa, pois de certo todos os professores já a experienciaram, dado que as suas vidas se desenrolam em múltiplos contextos paralelos, por vezes incompatíveis; também não significa que os professores são pouco dedicados… por vezes é inevitável este procedimento pois já muitas tarefas e responsabilidades são pedidas e exigidas na profissão docente, tal como nos lembra Canavarro (1999:141): «O professor terá que conjugar uma série de actividades por vezes quase inconciliáveis. Ao mesmo tempo que organiza e regista deve apoiar e encorajar e ainda criticar e desafiar. Não é uma tarefa fácil e necessita, como Pedretti e Hodson (1995) referem, uma formação diferenciada da formação centrada nos conteúdos duma dada disciplina. Consistirá numa mudança em quase tudo semelhante àquela que pretende para os alunos. O professor terá que desenvolver novas competências, estar mais apto a resolver problemas do quotidiano e a assumir um papel de maior responsabilidade social».

Saturnino de La Torre (1987: 302) opina que “é necessário definir o que queremos conseguir do aluno antes de empreender qualquer acção. Não podemos dar uma aula por automatismo; seguindo uma lição atrás da outra, sem se definir o que consegue realmente o educando. Não será bom educador quem se conforme com o ir explicando os capítulos do livro. Reduzir a sua missão a transmitir cultura seria como encomendar ao médico a função de repartir medicamentos. E isto não é aceitável. A missão do professor é formar. (…) Também não significa que “deixemos andar”; “deixar o aluno ir fazendo” sem qualquer tipo de controlo ou respeitar o seu “direito” de actuar como lhe dá na “real gana”.

Invocando a perspectiva que qualquer pessoa pode ser criativa, criança ou adulto, porque não exercitar essa capacidade mesmo que seja poucas vezes, em momentos menos preenchidos por outros afazeres? Trabalhar numa perspectiva criativa e lúdica pode ser aliciante, envolvente e gratificante, quanto mais não seja, para quem faz, contempla e sente orgulho por ter tido alguma ideia produtiva nesse dia, nesse momento, nesse contexto. Lembrando Fernando Pessoa (1993: 86) “Tudo vale a pena Se a alma não é pequena”. A proposta não é de todo fácil. Exige-se mais do professor que a transmissão, contudo também é facto a inexistência de recursos e a falta de tempo para actividades diferentes (e que necessitam de mais tempo). O importante é o professor ser cada vez mais educador, capaz de apostar no ensino criativo em detrimento do tradicional-transmissivo. Só se potencia a mudança se houver predisposição para a aceitar.

Saturnino de La Torre alerta que “para poder actuar objectivamente e com responsabilidade na aprendizagem dos alunos, dever-se-á encontrar um ponto equilibrado” e que a “única via para avançar no futuro é a consciencialização do professor do que pretende conseguir dos seus alunos e do como alcançá-lo: Que conhecimentos transmitir? ; Que capacidades desenvolver? ; Que atitudes promover? ; Que habilidades exercitar? ; Como viabilizá-lo? ; Como avaliá-lo?” (Saturnino de La Torre, 1987: 302). Para tal não serve a desculpa de que não há imaginação, ou que não se é criativo; facto é a criatividade ser uma faculdade universal (quer se queira quer não), que, infelizmente, “entre os adultos é quase inexistente” sem se saber muito bem como tal acontece (Anderson, in Saturnino de La Torre, 1987: 14). Maslow afirma que “não existem excepções à regra. A criatividade constitui uma característica universal das pessoas que se autorealizam”. Mª H. Novaes também afirma que “a variação da capacidade criadora dependerá das oportunidades que os indivíduos tiverem para a expressar”. Steinberg expressa também que “a atitude criativa parece formar parte da estrutura constitutiva da espécie. Pode ler-se repetidamente que nos encontramos ante uma característica fundamental da natureza humana, uma possibilidade dada a todos ou quase todos os seres humanos ao nascer; contudo, com frequência, perde-se, enterra-se ou inibe-se pelos efeitos do processo de culturalização”. Basicamente “herança e educação serão os factores responsáveis para que esta capacidade não se manifeste de forma igual em todas as pessoas” (Saturnino de La Torre, 1987: 15), mas, pouco ou muito, todos a herdam, logo todos a podem desenvolver.

Se a educação tem vindo a reprimir o desenvolvimento da capacidade criativa, ela pode fazer a diferença se todos os intervenientes do processo educativo mudarem de perspectiva. Sendo assim pergunta-se: como conseguir organizar ideias e tempo para uma programação que se perspectiva estrategicamente criativa? Aqui dá-se o exemplo da programação de apenas uma aula que apela, durante a sua construção, à capacidade criativa de quem a constrói, cuja finalidade é proporcionar um contexto de comunicação-educação de conceitos e conteúdos científicos, através de estratégias

criativas e lúdicas, que, também por sua vez, promovam o desenvolvimento de capacidades criativas e imaginativas nos aprendentes, envolvendo-os no universo da ludicidade, do jogo e da hereditariedade. Uma aula dura pouco tempo, contudo as ideias reunidas para a sua construção, e a sua operacionalização formal prática, implicam o dispêndio de grande quantidade de tempo (fazem- se perguntas, pesquisa-se, constrói-se, desmancha-se, reorganiza-se, as vezes que forem necessárias até ao produto final). Para tal também se segue o trabalho de Bellón e a sua equipa, que conceberam o Modelo Ioeísta, ou «IOE», para a edificação das aulas criativas: “Ante la escasez de modelos para estimular la creatividad en el período escolar, se crea el Modelo «IOE» que viene a llenar un vacío del sistema educativo. Su denominación responde a la confluencia de los tres ejes que fundamentan el modelo”: Imaginación (I), Originalidad (O) e Expresión (E) – Imaginação, Originalidade, Expressão (Bellón, 1998:21). Apesar de este modelo originalmente datar do ano 1974, tendo como base de construção os estudos de Torrance e Gowan (ambos norte-americanos), o que aqui se apresenta e se segue é o de Francisco Menchén Bellón, o modelo «IOE». Desenvolvido por este autor no ano de 1982, o modelo «IOE» surge após trabalhos realizados com crianças dos 6 aos 14 anos de idade, tendo como objectivo último, estabelecer um programa para estimular a criatividade na aula (Bellón, 1998:22). Contudo o modelo foi reformulado em 1993, apresentando três vias que determinam e definem o modelo «IOE» para desenvolver a criatividade, sendo elas: a ecológica, a intelectiva e a multisensorial. Assim o Modelo «IOE» pode ser esquematizado a partir destas três vias na figura 5.

Os elementos (sensação, percepção, sentimento e emoção) que intervêm no processo da chamada via multissensorial, projectam-se num indicador de expressão […] que é entendido como “a disposição para captar estímulos e expressá-los com sensibilidade”.

“A originalidade produz-se num momento de inspiração, donde se mobilizam todas as forças do indivíduo e surge a ideia, como resultado das combinações que se realizam entre os elementos que compõem a via intelectual, requerendo paciência, humildade e submissão […].”

Bellón define imaginação “como a capacidade mental para formar representações de pessoas, objectos ou situações que não estão presentes no momento actual”. Osborn (1965) opina que a imaginação é o primeiro motor de toda a actividade criativa e atribui-lhe duas funções: uma, encontrar ideias, e outra, transformar o encontrado.