Comparando os dados dos Censos Escolares do Inep dos últimos dez anos, é possível observar que houve uma significativa expansão da matrícula na educa- ção escolar indígena. Nenhum outro segmento da população escolar no Brasil apresenta crescimento tão expressivo no período. Em 2002, havia 117.171 alunos frequentando escolas indígenas em 24 unidades da federação. Em 2007, 208.205 alunos e, em 2010, 246.793 estudantes em cursos que vão da educação infantil ao ensino médio.
Os dados do Censo Escolar 2010, no que diz respeito à educação escolar in- dígena, ainda não foram analisados (ou ao menos tal análise não foi divulgada) nem pelo Inep, nem pela Coordenação Geral de Educação Escolar Indígena do MEC. Desta forma, as informações apresentadas aqui foram retiradas de um re- sumo feito pelo próprio Inep acerca do Censo Escolar de 2008 (divulgado em seu site), no qual os dados da educação escolar indígena são bem restritos e há falhas em relação aos critérios de especificação das escolas indígenas. Não obstante, diante da falta de outras fontes, nós nos remeteremos a ele.
Como já mencionado, houve significativa expansão das matrículas indígenas nos últimos anos. O quadro abaixo ilustra esse crescimento:
Número de matrículas da educação escolar indígena de 2003 a 2008
Cabe esclarecer que os números acima se referem ao total de matrículas indíge- nas de ensino básico levantadas pelo INEP; nem todas estão localizadas em terras in-
Ano 2003 2004 2005 2006 2007 2008
Número de matrículas
dígenas. Por exemplo, das 205.871 matrículas indígenas cadastradas em 2008, 32.783 pertencem a alunos que estudam em estabelecimentos fora de territórios indígenas. Vejamos a seguir a matrícula indígena segundo a faixa etária. É interessante observar atentamente a quarta coluna, pois indica a porcentagem da cobertura escolar segundo a faixa etária. Por exemplo, na faixa etária dos 6 aos 14 anos, que deveria ter cobertura total, pois era meta do Plano Nacional de Educação univer- salizar o ensino fundamental de nove anos para toda a população de 6 a 14 anos, observamos que, em 2008, 86,81% da população indígena frequentava algum tipo de escola.
Situação escolar – Estimativa de abrangência
População indígena aldeada e alunos da educação escolar indígena em 2008
Fontes: População indígena: SIASI-FUNASA, referência 1/6/2008; Matrículas: MEC/INEP-2008
* População aldeada segundo dados da Funasa de 2008.
** Alunos em educação escolar indígena em todas as localidades (não somente aldeias).
A educação infantil e a educação de nível médio cresceram significativamente, embora a matrícula continue concentrada nos primeiros anos do ensino funda- mental. Na educação infantil, em 2007, havia 18.389 matrículas. Em 2009, este número passou para 22.537 e, no ano seguinte, apresentou leve decréscimo, to- talizando 22.048 estudantes.
A questão da educação infantil para os povos indígenas não é ponto pacífico, pois diversos setores do movimento indígena e suas bases questionam o fato de a educação das crianças pequenas ser transferida, em grande medida, da respon- sabilidade de seus pais e das comunidades para as escolas.
Quanto à oferta do ensino médio, ela cresceu num percentual de 45,2%, che- gando a 27.615 matrículas em 2010, incluindo o ensino técnico e os cursos de
Faixa etária População indígena* Alunos** Percentagem de cobertura
Entre 0 e 3 anos 57. 021 1.307 2,29% Entre 4 e 5 anos 35.533 11.125 31,31% Entre 6 e 14 anos 149.195 129.516 86,81% Entre 15 e 17 anos 39.025 20.476 52,47% Entre 18 e 24 anos 77.167 18.859 24,44% Entre 25 e 29 anos 44. 087 7.225 16,39% Mais de 29 155.924 16.633 10,67% Total 557.952 205.141 36,77%
101
entreadiversidadeeadesigualdade
magistério. No entanto, ainda é muito deficiente a oferta deste nível de ensino em relação à demanda das comunidades indígenas.
Sobre o número de escolas indígenas, contabilizava-se, em 2008, a existência de 2.535 estabelecimentos em terras indígenas e de 163 estabelecimentos esco- lares fora delas. No período de 2003 a 2007, 757 novas escolas indígenas passa- ram a funcionar, permitindo que mais de 60 mil estudantes indígenas tivessem acesso à educação escolar. Verifica-se maior crescimento nas escolas estaduais do que nas municipais. A seguir, apresentamos tabela que mostra a distribuição por estados de escolas e estudantes indígenas.
Distribuição das escolas e dos estudantes indígenas nos estados, de acordo com o Educasenso, 2008
Unidades da Federação Escolas Porcentagem Brasil Número de estudantes Porcentagem Brasil
Acre 147 5,9% 5417 3,0% Amapá 56 2,2% 3115 1,7% Amazonas 848 34,0% 54514 30,8% Pará 123 4,9% 10408 5,8% Rondônia 71 2,8% 2744 1,5% Roraima 237 9,5% 12796 7,2% Tocantins 89 3,5% 4629 2,6% Alagoas 12 0,4% 1761 0,9% Bahia 54 2,0% 6054 3,4% Ceará 38 1,5% 5045 2,8% Maranhão 246 9,9% 10689 6,4% Paraíba 28 1,1% 4100 2,3% Pernambuco 119 4,7% 8346 4,7% Sergipe 1 0,0% 128 0,1% Goiás 2 0,7% 60 0,0% Mato Grosso 190 7,6% 13911 7,8%
Mato Grosso do Sul 54 2,0% 16958 9,5%
Espírito Santo 7 0,2% 742 0,4%
Minas Gerais 10 0,3% 3039 1,7%
Rio de Janeiro 3 0,1% 210 0,1%
São Paulo 29 1,2% 1055 0,5%
Paraná 30 1,2% 2764 1,5%
Rio Grande do Sul 53 2,1% 5823 3,2%
Santa Catarina 33 1,3% 2406 1,3%
Cabe registrar a expansão das escolas de ensino médio em terras indígenas no período 2002-2008, como mostra o quadro abaixo:
Número de escolas indígenas com ensino médio
Apesar do crescimento da escolarização dos povos indígenas, os indicadores do Educacenso (MEC/INEP) demonstram a permanência de grandes desigualda- des. Em 2008, 54,58% dos estudantes indígenas estavam nos anos iniciais do en- sino fundamental, 19,15% encontravam-se matriculados na segunda fase desta etapa de ensino e somente 5,57% cursavam o ensino médio, ou seja, de cada três estudantes nos anos iniciais do ensino fundamental, somente um chega aos anos finais – a relação entre o número de alunos indígenas nos dois segmentos do ensino fundamental é de pouco menos de 3. Se a oferta de ensino fundamental estivesse, de fato, garantida às comunidades indígenas, esta relação estaria próxi- ma de 1. É importante considerar que, em 2008, o índice médio para todo o país foi de 1,23, evidenciando-se assim a defasagem no acesso da população indígena ao ensino fundamental.
No ensino médio a situação é mais crítica: de cada 15 alunos no ensino funda- mental, somente um tem acesso ao ensino médio na escola indígena (a relação era de 86,4 em 2002, e de 16,6 em 2006). Isto significa que centenas de jovens indígenas estão impossibilitados de continuar seus estudos ou que os que po- dem migram para as cidades, enfrentando inúmeras dificuldades, além do fato de não receberem em muitos casos um ensino que fortaleça sua identidade cultural e proporcione conhecimentos significativos à sua realidade, conforme estabe- lecido pela legislação em vigor. Portanto, se comparamos a matrícula indígena (dados do Censo 2008) segundo a faixa etária com a matrícula da população na- cional, destaca-se uma defasagem significativa.
Observemos a relação na tabela a seguir:
2002 2006 2007 expansãoTaxa de
N⁰ de escolas indígenas
com ensino médio 18 91 111 516,66%
N⁰ de estudantes indígenas
103
entreadiversidadeeadesigualdade
Também cabe ressaltar que, apesar do expressivo investimento realizado na cons- trução de escolas indígenas, grande parcela delas não conta com estrutura física e equipamentos adequados ao pleno desenvolvimento de suas atividades. Segundo dados do INEP de 2008, 1.057 escolas – isto é, 43% do total – funcionam em estabele- cimentos precários ou que não foram construídos para tal fim (espaços comunitários, igrejas, casas de professores etc.). Apenas 4,4% das escolas (106) possuem biblioteca nas suas instalações e 29,9% (725) têm sanitário. Ademais, só pouco mais de um terço das escolas indígenas (38,4%) conta com materiais didáticos específicos para ministrar os conteúdos.
Em relação aos professores que dão aula em escolas indígenas, dados do Cen- so Escolar de Educação Básica de 2008 mostram que do total de 10.923 (52% são do sexo masculino e 48% feminino) quase 80% não têm curso superior, embora possamos considerar que esta situação se tenha modificado nos últimos quatro anos pela expansão das licenciaturas interculturais e de turmas que já se forma- ram nesse período.
A partir desta breve análise sobre os dados dos censos escolares, podemos perceber que, se houve avanços em relação às ações do Ministério da Educação na educação escolar indígena, ainda há muitos problemas a serem superados. Entre eles, talvez o mais fundamental seja fazer com que a aplicação de recursos crescentes no âmbito do governo federal ocorra de acordo com os projetos de presente e futuro dos povos indígenas, projetos estes voltados para a sua susten- tabilidade, de modo que o objetivo primordial das políticas de educação esco- lar indígena não seja o da mera universalização da educação entre os indígenas, como o é para a população não indígena. Desse modo, é essencial a constância da reflexão sobre o papel da instituição escolar para cada um desses povos, à luz de suas especificidades e aspirações.
* No caso da pouca matrícula indígena neste nível de ensino, conjugam-se a falta de oferta de edu- cação infantil em aldeias indígenas em vários municípios e o fato de que algumas comunidades não concordam com a escolarização de crianças nesta faixa etária.
Faixa etária de População nacional matriculada População indígena matriculada
4–5 anos 72% 31,31% *
6–14 anos 97% 86,81%
15–17 anos 84% 50,9%