3 POLÍTICAS DE FORMAÇÃO DE PROFESSORES ALFABETIZADORES NO BRASIL
4.2 A OFERTA DO PNAIC NA REGIÃO DO ABC PAULISTA
relacionadas aos conhecimentos da língua (gramática, ortografia, pontuação, paragrafação etc.);
e para o nível proficiente e avançado é necessário:
[...] perceber as relações entre as palavras utilizadas em um texto; usar o vocabulário para construir (produção de escrita) ou perceber (leitura) as estruturas textuais, as atitudes e as intenções que querem demonstrar ou que o autor construiu. Na leitura, é preciso utilizar outras habilidades linguísticas para apreender o tema e a estrutura global do texto, perceber as relações lógicas e temporais, inferir informações para saber a intenção do autor (KLEIMAN, 2007, p. 32).
Um processo de alfabetização exitoso contribui para que a criança se preocupe com habilidades da escrita e leitura maiores do que o reconhecimento das palavras e de suas estruturas. Para a autora, a escola “[...] é um mobilizador dos sistemas de conhecimento pertinentes, [...]” (KLEIMAN, 2007, p. 82-83), que devem visar à formação de um sujeito inserido na cultura da escrita e competente para as diversas leituras de mundo. O letramento, na escola, por vezes está associado às práticas etnocentradas e de caráter monocultural, provocando um distanciamento da língua materna usada no dia a dia. Desta forma, a leitura e escrita não apresentam sentido, por isso é comum encontrarmos na sala de aula “[...] um leitor/escritor desinteressado e desestimulado, alunos que concebem o ato de ler e escrever como atividades [...] áridas e tortuosas [...] que não tem nada a ver com atividade prazerosa [...]
ninguém gosta de fazer aquilo que é difícil demais ou de que não consegue extrair sentido”
(KLEIMAN, 2007, p. 16).
O controle de presença para o pagamento da bolsa foi feito pelo SisPacto, preenchido pelas orientadoras. No sistema além da frequência, era preenchido a avaliação dos professores participantes da formação. Periodicamente, as orientadoras enviavam para o professor tutor do programa, relatório de cada professor participante. Ainda sobre o SisPacto os professores alfabetizadores o acessavam para colocar atividades e acompanhar suas avaliações.
A bolsa de estudo dos professores alfabetizadores, das orientadoras de estudo, da coordenadora local e da professora tutora, dependia do preenchimento correto do SisPacto, feito mensalmente. Para o pagamento era necessário ter acima de 75% de frequência (BRASIL, 2014c).
As turmas eram compostas por professores das mesmas unidades e de escolas distintas, de acordo com a localidade de sua unidade de trabalho. Porém havia um máximo de professores da mesma unidade para compor a turma, sempre entre 2 ou 3 por turma. As turmas tinham entre 28 e 30 professores. A Unesp optou por fazer assim para promover heterogeneidade nas turmas, com o intuito de mesclar as várias realidades das escolas, das experiências e vivências dos professores alfabetizadores.
Em todos os municípios que compõem a região do ABC Paulista, a formação foi obrigatória para os professores regentes do Ensino Fundamental, dos três primeiros anos, cadastrados no Censo Escolar de 2012. Coordenadores e demais membros da gestão poderiam se matricular de forma facultativa, mas na condição de ouvintes, não tiveram direito a bolsa, nem acesso ao SisPacto. Caso o professor regente não quisesse/pudesse participar da formação, ele deveria escrever uma carta de próprio punho para justificar a sua ausência.
As reuniões formativas seguiam uma pauta e eram divididas em atividades que contemplavam a participação do professor alfabetizador.
Quadro 6 – Organização das reuniões formativas
Organização estratégica das formações Atividades
Leitura deleite A formadora iniciava a reunião com uma leitura
deleite, geralmente os livros eram do acervo do programa, cedido às escolas.
Solicitação de atividades com os estudantes Combinados para a aplicação de atividades nas escolas.
Planejamento dos próximos passos, sugestões e combinados para as formações seguintes.
Articulação entre o foi discutido com as práticas realizadas em aula.
Socialização de memórias Trocas de experiências, saberes e vivências entre o orientador e professores.
Vídeo disparador Para aprofundar os debates, geralmente o orientador mostrava um vídeo com a temática da formação com o intuito de aprofundar as discussões.
Análise das situações vivenciadas em aula (filmadas ou registradas)
Momento para trocas e reflexões sobre as práticas ocorridas em aula, discussão de situações-problemas reais.
Análise de atividades de alunos Momento para trocas e reflexões sobre as práticas ocorridas em aula, discussão de situações-problemas reais.
Análise de relatos de rotinas, sequências didáticas, planejamentos, avalição
Momento para trocas e reflexões sobre as práticas ocorridas em aula, reflexão sobre as práticas docente.
Análise dos recursos didáticos Estímulo para usar os materiais do PNAIC.
Exposição dialogada Sistematização dos saberes construídos.
Instrumentos de avaliação e discussão dos resultados. Momento para trocas e reflexões sobre os meios de avaliar determinada situação e discussão dos seus resultados.
Avaliação da formação Documento preenchido para avaliar a reunião formativa.
Fonte: Elaborado pela pesquisadora.
Os encontros começavam com alguns professores eleitos como escribas para fazer um registro, que deveria ser transformado posteriormente em um gênero textual para fazer parte de um portfólio. Após o momento de registro, havia uma leitura deleite e, a partir daí o orientador combinava os próximos materiais ou atividades que deveriam ser trazidos na próxima formação. O próximo item da pauta era sempre um retorno a formação anterior, os professores podiam comentar as potencialidades e dificuldades de aplicar as atividades na escola. Neste momento, conforme as respostas das participantes do questionário aplicado para a coleta e minha experiência enquanto professora alfabetizadora, havia espaço para a troca de relatos de experiência. Os professores comentavam o que havia dado certo e o que não tinha ocorrido conforme o planejado, tanto a orientadora quanto os professores discursavam dando sugestões e/ou propondo reflexões. Depois, os formadores apresentavam a parte teórica, havia a proposta da orientadora para a elaboração de uma atividade prática ou o estudo de caso para discussão das possíveis resoluções, apresentado em dupla ou grupo pelos professores.
Ainda seguindo a pauta e o cronograma do Programa, na região do ABC Paulista, as temáticas das oito unidades foram divididas assim:
Quadro 7 – Tempo para a discussão das unidades formativas do PNAIC.
Unidades Divisão por reunião formativa
1 3 reuniões
2 2 reuniões
3 2 reuniões
4 3 reuniões
5 3 reuniões
6 3 reuniões
7 2 reuniões
8 2 reuniões
Fonte: Elaborado pela pesquisadora.
Com este cronograma, contemplou-se todas as unidades em tempo similar para cada uma. O seminário, foi posteriormente agendado, as datas variaram de município para município, mas a pauta foi a mesma, um momento dedicado à socialização da formação e de suas atividades realizadas, em cada unidade escolar, a partir dos estudos efetuados nas reuniões formativas.
Os documentos como folhas de registros, atividades, tabelas de hipóteses etc., podiam ser adaptados conforme as necessidades da turma. Nas reuniões, apresentavam-se estes documentos e discutiam-se os avanços na aprendizagem e as dificuldades das crianças, muitas vezes, comentavam-se sobre casos específicos e, nestes momentos, possíveis resoluções eram discutidas.
Nas aulas sobre os jogos, após a parte teórica, todos os professores jogavam e se revezaram para aprender as regras e entender como eles poderiam auxiliar no processo de alfabetização. Ao fim de todos os encontros, os professores preenchiam uma avaliação, sugerindo ou criticando ou elogiando a formação. As reclamações recorrentes eram o número de alunos em sala de aula, de acordo com os professores alfabetizadores, ele deveria ser menor;
o tempo para confeccionar os materiais a serem utilizados nas aulas.
Em específico na cidade de Santo André, local na qual fui professora alfabetizadora partícipe do curso e orientadora, as assistentes pedagógicas, mesmo não sendo bolsistas participaram das formações. A secretaria de educação de Santo André disponibilizou uma verba para as escolas com o objetivo de aumentar o acervo do programa. Os orientadores que atuaram, neste município, construíram uma caixa denominada Caixa Coruja com diversas sugestões de atividades para auxiliar os professores alfabetizadores que poderiam usá-las na íntegra ou adaptá-las, disponibilizaram também mídias dos materiais didáticos. As orientadoras iam às escolas para contribuir com as professoras em sala de aula.