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Um homem carrega um objeto pesado. Pode ser uma pedra, um saco de qualquer coisa. O homem é um animal de carga, curva-se sob o peso às costas ou equilibra-o na cabeça.

Alguém sugere:

— Hei! Por que você não divide o peso com outro? — Boa idéia! Cada qual pega numa ponta.

— Mas, a pedra não tem ponta!

— Bem, vamos pensar. Ao invés de você carregar na cabeça — por- que cabeça é para pensar e não para carregar peso... (canta)

“Lata d’água na cabeça Lá vai Maria

Sobe o morro e não se cansa

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Lá vai Maria...” (Bis)

(Voz em off — você sabia que este samba é alusivo aos morros do Rio de Janeiro, em uma época que a população não tinha acesso à água potável em rede, como se fala aqui, água encanada? Você sabia que ainda em muitos lugares esse benefício ainda não está disponível?)

Mas vamos lá, a cena continua:

— Você pode dividir o peso com uma outra pessoa usando uma extensão.

— Extensão? Sim, alguma coisa sobre a qual você coloca o objeto. E, assim, um segura numa extremidade e outro na outra. A física explica como o peso se distribui e cada pessoa gasta menos energia no esforço que faz. Em outros termos, fi ca mais aliviada.

— Uma vara e uma bolsa de couro; na bolsa vai o peso e a vara se apóia nos ombros do quem vai à frente e do quem vai atrás.

— Um Bangüê?

— E por que não? Como uma rede, dessas que a gente conhece. — Ombro a ombro. Como uma padiola ou rede!

(Uma cena se esboça. Como se o diálogo anterior fi casse congelado e novos personagens entram em cena. Entre dois homens, em um bangüê vai o morto, de Morte e Vida Severina de João Cabral de Melo Neto (1994, p. 172 ss), com música de Chico Buarque de Holanda. Uma pequena ence- nação ilustra a forma de conduzir o morto, literalmente o peso morto).

(Vejam, portanto, o quanto de conhecimento e de emoções se agre- ga a um só tempo, para falar de algo trivial. Educação é, portanto, a capacidade de captar as facilidades da comunicação na multiplicidade de percepções dos diferentes atores sociais em interação).

— A quem estais carregando, irmãos das almas, embrulhado nessa rede?

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ao trabalho, no trabalho, pelo trabalho... : ofi cinas de trabalho 103 dizei que eu saiba.

— A um defunto de nada, irmão das almas, que há muito viaja

à sua morada... (...)

— E de onde que o estais trazendo, Irmão das almas,

Onde foi que começou Vossa jornada?

— Onde a caatinga é mais seca, Irmão das almas,

Onde uma terra que não dá nem planta brava. — E foi morrida essa morte,

Irmão das almas, Essa morte foi morrida

Ou foi matada? — Até que não foi morrida,

Irmão das almas, Esta foi morte matada,

Numa emboscada... Narrador:

(Dois homens carregam uma rede e nela vai o defunto. Os versos de João Cabral de Melo Neto, Vida Severina, ilustram o trabalho e a técnica de dividir o peso. A música é de Chico Buarque de Holanda. Esta é uma história da miséria nordestina, a seca, os assassinatos... a injusta situação da sociedade brasileira desde a fundação do país agrário movido pela escravidão, pelo latifúndio. Hoje o mst (Movimento dos Trabalhadores

sem Terra) procura superar a situação de impedimento de acesso à terra como meio de produção. A luta pela Reforma Agrária é uma das mais signifi cativas do povo brasileiro).

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O Professor(a) de geografi a localiza e descreve a Caatinga no Nor- deste brasileiro; a ocupação econômica, os conceitos de latifúndio, de re- forma agrária, de produção familiar etc. O de História fala do tipo de ocu- pação, lembra o ciclo do cangaço e hoje o advento do agro negócio com a produção de etanol. O Professor de literatura fala de Graciliano Ramos, especialmente de Vidas Secas e São Bernardo; de José Lins do Rego, de Seara Vermelha de Jorge Amado, além de outros autores. O professor de sociologia fala da contextualização social, indivíduo e sociedade, só para fi car nesses exemplos e demonstrar a riqueza desse tipo de “conversa”.

O que se quer com esta experiência transformada em prática corren- te: Vamos a Habermas (2003, p.36)

Toda integração social não violenta pode ser entendida como a so- lução do seguinte problema: como é possível coordenar entre si os planos de ação de vários atores, de tal modo que as ações de um partido possam ser “engatadas” nas do outro? Tal engate contí- nuo reduz o jogo das possibilidades de escolha, duplamente con- tingentes, a uma medida que possibilita o entrelaçamento menos confl ituoso possível de intenções e ações, portanto o surgimento de padrões de comportamento e da ordem social em geral.

Mas, voltemos à dinâmica da ação. Acreditamos que demos uma visão da dinâmica da prática pedagógica. Os alunos conversam com três ou quatro professores sobre um mesmo tema, sob diferentes ângulos que se entrelaçam fazendo sentido. Mas, antes, um pouco mais de esclareci- mento do fi lósofo sobre seu método (habermas, 2003, p. 35):

O conceito “agir comunicativo”, que leva em conta o entendi- mento lingüístico como mecanismo de coordenação da ação, faz com que as suposições contrafactuais dos atores que orientam seu agir por pretensões de validade adquiram relevância imediata para a construção e a manutenção de ordens sociais: pois estas

mantêm-se no modo do reconhecimento de pretensões de valida-

de normativas.

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ação!

Ao trabalho!

O trabalho sempre esteve associado ao sacrifício, mas o ser humano é aquele que difere de todos os outros seres viventes pelo trabalho. Ele se torna o trabalhador. Ele é o que faz. O que faz, o faz socialmente, dá-lhe a sua identidade. Somos, então, o que fazemos, não?

Ombro a ombro. Dois caibros agora, uma plataforma retangular no meio. Dois homens carregam coisas pesadas apoiadas nos ombros. Di- videm o peso, mas são eles que o carregam e que sofrem com o esforço necessário.