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2: AS PROVAS NO PROCESSO PENAL BRASILEIRO

2.3 Da oitiva do ofendido como meio de prova

Como já apresentado, nota-se que a prova é uma informação ou conjunto de várias informações que buscam reconstruir um fato do passado, que alcance a verdade através de circunstâncias, razões e dinâmica. Destarte, vê-se que a prova não surge de um vão, mas precisa de um caminho de reconstrução. Diante desse caminho, o Processo Penal trouxe os meios de provas, para que, assim, consiga traçar um fio condutor desde o ocorrido até a realidade processual em questão (MARCÃO, 2018, p.473).

Dessa forma, meio de prova é tudo o que possa servir, de forma direta ou indireta, para se alcançar a verdade que se busca no processo. Assim, documentos, oitivas de pessoas, objetos, perícias, tudo isso pode ser utilizado como meio de instruir ao processo uma alegação diante do fato que, a princípio, é incerto (CAPEZ, 2019, p.408).

O Código de Processo Penal – CPP traz um rol exemplificativo de meios de provas, que estão do art. 158 ao art. 250, porém é importante ressaltar que deve sempre ser analisada a liberdade probatória, como já descrita em um dos tópicos deste capítulo. No entanto, não há uma liberdade absoluta na utilização dos meios de

provas, devendo ser observado se não são frutos de meios ilícitos e se estão adequadas às restrições legais (MARCÃO, 2018, p.473).

O art. 201 do Código de Processo Penal determina que, sempre que possível, o ofendido será qualificado e perguntado sobre as circunstâncias da suposta infração (BRASIL, 1940). Renato Marcão define ofendido como sujeito passivo da ação e ainda afirma que “é aquele sobre quem recai a ação delitiva, direta ou indiretamente. É o titular do bem jurídico atingido pela infração penal. É a vítima, em síntese, no sentido processual penal.” (2018, p. 542).

Por ter participado passivamente do fato de que se trata o processo, o ofendido, na maioria das vezes tem informações essenciais a prestar, podendo levar ao processo pontos importantes para que se comprove a autoria e materialidade do fato. Não se trata de uma prova importante apenas para a acusação, mas é valiosa para a verdade real, que muitas vezes também interessa a parte defensiva (MARCÃO, 2018, p.543).

Tal sujeito não precisa necessariamente ser arrolado pelas partes, pois o próprio juiz se responsabilizará de intimá-lo, para que se realize a oitiva que é de enorme valor. Caso a vítima seja intimida e deixe de comparecer sem justo motivo, ela poderá ser conduzida coercitivamente, conforme o §1º do art. 201. Porém, sua ausência não implicaria em nulidade processual, conforme posicionamento do STF (HC 74.379-0/MG, 1996), e nem ao crime de desobediência previsto no art. 330 do Código Penal. Em caso contrário, comparecendo o ofendido à inquirição, deverá responder as perguntas formuladas pelas partes que serão feitas por intermédio do juiz, não sendo necessário prestar o compromisso de dizer a verdade (CAPEZ, 2019, p. 459).

Durante a inquirição, o ofendido deverá ser questionado sobre as situações da infração, informando tudo o que for possível para que se possa apurar o delito e sua autoria, levando a uma reconstrução dos fatos bem próxima à verdade real.

Entretanto, nem sempre é possível que o ofendido informe com certeza absoluta sobre o autor, mas é essencial que preste informações valiosas e, até mesmo, indique outros meios de provas que ainda não foram analisados pelo juiz, para que futuramente consiga ter-se uma conclusão do fato (MARCÃO, 2018, p. 545).

Há casos em que a inquirição do ofendido requer uma sensibilidade que deve ser adquirida pelo juiz, por exemplo, como ocorre nos crimes contra a dignidade sexual e outros violentos, que são fatos traumáticos para a vítima. Assim, a Lei nº 13.341 de

2017, trouxe ao art. 201 complementações, em forma de parágrafos, que buscam a proteção da vítima. Esse movimento tem como intuito devolver ao ofendido o verdadeiro status de vítima, a qual constantemente foi tratada como objeto desimportante e não como pessoa humana (POTTER, 2019, p. 186).

Os §§ 2º e 3º do referido artigo estabelecem que o Judiciário deva comunicar ao ofendido o andamento processual e o resultado da ação penal, numa atitude de respeito à vítima. Deve ser à vítima informado o ingresso e saída do acusado da prisão, a designação de data para a audiência, a sentença e os acórdãos que emendarem ou modificarem a decisão. Isso possibilita não somente mostrar a preocupação em providências jurídicas, mas permite uma contenção emocional sobre o processo, em que a ciência da vítima lhe assegura que o processo não foi esquecido, mas está em andamento (MARCÃO, 2018, p.546).

O §4º afirma que o Poder Judiciário deverá separar um espaço para o ofendido, uma sala onde as vítimas possam aguardar. Isso tem por finalidade evitar situações desagradáveis de encontro da mesma com o réu e seus familiares, além de constrangimento, intimidação, perigo, que possam comprometer com o depoimento do ofendido (POTTER, 2019, p. 188).

No §5º do artigo 201 é garantido ao ofendido um atendimento psicológico ou assistência judiciária, em que o acusado será responsável por tal custeio. É necessário que isso ocorra porque em alguns casos a vítima sofre grandes abalos emocionais e físicos, por exemplo, os crimes sexuais (AVENA, 2017, p.443).

Por fim, o §6º faz cumprir o princípio da dignidade da pessoa humana no processo penal. O juiz deverá adotar providências para que se preserve a intimidade, vida privada, honra e imagem do ofendido. Podendo, assim, decretar segredo de justiça dos autos do processo (POTTER, 2019, p. 189).

Sobre essa norma, Rodrigo Fudoli esclarece o seguinte:

Os abusos da imprensa foram o mote evidente para a inclusão de tal norma, eis que os meios de comunicação social às vezes elegem as notícias que divulgam não pelo interesse social, mas pela sua potencialidade de incremento de venda de jornais e de índices de audiência televisa, nem sempre se preocupando com a intimidade dos envolvidos na relação processual penal, seja o réu, seja a vítima (2008).

Por isso, vê-se que a publicidade ocasionaria profunda exposição e sofrimento à vítima, talvez danos até mais significativos que aqueles ocasionados pelo delito.

Assim, o segredo às informações será mais uma providência a ser tomada pelo juiz, com devida justificação, para que, então, dê segurança e não se exponha o ofendido (MARCÃO, 2018, p.548).

Por fim, constata-se que a oitiva do ofendido é de extrema importância para a busca da verdade real, por isso, devem ser levadas em consideração as cautelas apresentadas. É a vítima que poderá esclarecer a ação delituosa e poderá apontar circunstâncias valiosíssimas para a elucidação processual (TOURINHO FILHO, 2013, p.335).