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3 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA 3.1 Conceito de Projeto

3.4 Olhares a respeito da Pedagogia de Projetos

São várias as vertentes a serem seguidas quando se trata do termo Pedagogia de Projetos. Para Freitas (2003):

A Pedagogia de Projetos é uma mudança de postura pedagógica fundamentada em uma concepção de que a aprendizagem ocorre a partir da resolução de situações didáticas significativas para o aluno, aproximando-o ao máximo do seu contexto social, através do desenvolvimento do senso crítico, da pesquisa e da resolução de problemas. (FREITAS; 2003, p. 20) De acordo com esta perspectiva, a Pedagogia de Projetos surge com a influência da Escola Nova, trabalhando com projetos que permitam a valorização da pesquisa e do cotidiano do aluno.

É uma concepção filosófica que deve estar contemplada na Proposta Político Pedagógica da escola. A operacionalização dessa concepção ocorrerá por meio de um projeto específico e com respostas precisas a algumas questões como, por exemplo: porque esse projeto? qual sua finalidade? qual seu objetivo? como o objetivo será executado?(FREITAS; 2003, p.20-21). Uma visão alternativa é a de Hernandez (1998, p. 61, apud ESPÍNDOLA; MOREIRA, 2006, p. 15), que define projetos como uma ―modalidade de articulação dos conhecimentos escolares‖ isto é, como ―uma forma de organizar a atividade de ensino e aprendizagem...‖. Assim:

Trabalhar com projetos é uma forma de favorecer a criação de estratégias de organização dos conhecimentos escolares em relação a:

1) o tratamento da informação;

2) a relação entre os diferentes conteúdos em torno de problemas ou hipóteses que facilitam aos alunos a construção de seus conhecimentos, a transformação da informação procedente dos diferentes saberes disciplinares em conhecimento próprio.‖ (HERNANDEZ, 1998, p. 61, apud ESPÍNDOLA; MOREIRA, 2006, p. 15)

Seguindo esta forma de raciocínio, pode-se entender que esta organização dos conteúdos escolares é de vital importância para que o aluno se torne apto a sistematizar e relacionar os conhecimentos adquiridos a partir de uma situação problema (ESPÍNDOLA; MOREIRA, 2006, p. 15).

Nesta perspectiva, os conteúdos deixam de ser um fim em si mesmos, ganhando uma variedade de significados em virtude das experiências sociais dos alunos, tornando-se uma ferramenta importante para a ampliação do universo cognitivo dos mesmos, que será um mediador do seu contato com a realidade de forma crítica e dinâmica (Idem).

De acordo com esta concepção de Espíndola e Moreira (2006, p. 15), os projetos didáticos têm algumas funções importantes na facilitação da construção do conhecimento dos alunos, estas funções são:

 organizar as atividades didáticas, tendo como princípio incluir de forma incisiva o aluno no processo de aprendizagem; com este método diferenciado ele é um elemento chave neste processo;

 auxiliar na criação de diferentes estratégias de organização dos conhecimentos escolares na estrutura cognitiva do aluno, no tratamento da informação e na relação entre os diferentes conteúdos em torno de problemas;

 oportunizar ao aluno maior inter-relação entre os conteúdos escolares e as situações problemas do cotidiano;

 tornar o aluno um sujeito atuante no seu processo de aprendizagem e não mais um mero espectador, aquele indivíduo que recebe as informações de alguém ou algo. (ESPÍNDOLA; MOREIRA, 2006, p. 15).

Esta abordagem tenta proporcionar aos alunos que desenvolvam uma série de habilidades tais como responsabilidade, autonomia, reflexão, cooperação e crítica e este desenvolvimento deverá ocorrer ao longo do processo de ensino e aprendizagem, proporcionando um maior envolvimento dos alunos nestes processos o que, por sua vez, permite que estes sejam corresponsáveis por sua aprendizagem (ESPÍNDOLA; MOREIRA, 2006, p. 15).

Ao professor está deferida a função de articulador neste processo, o que também é de fundamental importância, pois ele deixa de ser um simples transmissor dos conhecimentos, passando a um mediador atuante (ESPÍNDOLA; MOREIRA, 2006, p. 15-16).

Eis então um novo desafio para o educador, que na maioria dos casos está acostumado a lidar com os alunos numa perspectiva considerada por Espíndola e Moreira (2006, p. 16) como sendo linear e homogênea, e para o educando, que terá de se envolver mais nos processos de ensino e aprendizagem. A ação desenvolvida com projetos didáticos, nesta concepção, promove a articulação das atividades educativas de modo potencialmente significativo, favorecendo uma aprendizagem na qual o aluno terá maior facilidade em relacionar os conceitos científicos com aplicações no seu cotidiano, evitando que a prática de

sala de aula se converta simplesmente num somatório de exercícios isolados, repetitivos e inócuos. (ESPÍNDOLA; MOREIRA, 2006, p. 16).

Nesta perspectiva, também os conteúdos passam a ter uma nova denotação, deixam de ser o objetivo principal, assumindo vários significados a partir das experiências sociais de cada um dos alunos, além de se tornarem meios para a ampliação de seus níveis de cognição, mediando o seu contato com a realidade de uma maneira mais crítica e dinâmica (ESPÍNDOLA; MOREIRA, 2006, p. 16).

Ao falarem sobre a Pedagogia de Projetos, Masson et al (2012) afirmam que:

[...] a filosofia dos objetivos educacionais deve passar do conhecimento para a competência e do ensino para a aprendizagem, sendo que os alunos, na medida do possível, devem assumir a responsabilidade da sua própria aprendizagem, procurando ativamente a aquisição de conhecimentos e o desenvolvimento de suas competências (GOODSON, 2001 apud MASSON et al, 2012).

Ao justificarem a utilização da Pedagogia de Projetos (PBL) Masson et al (2012) afirmam ainda que a aprendizagem que acontece entre alunos que participam de atividades em PBLs de sua própria escolha é a mais desejável e se justifica dizendo que, com esse tipo de metodologia, os alunos ficam mais motivados; o aluno passa a investigar e explorar temas de seu próprio interesse; evita que a aprendizagem se torne uma atividade passiva e por conseguinte desinteressante; estreita a relação entre os conteúdos escolares, a vida e a experiência dos alunos; afasta-se da noção de que todas as pessoas devem aprender as mesmas coisas; e insere a tecnologia digital como parte integrante e indissociável na metodologia de projetos de aprendizagem.

Sobre a Pedagogia de Projetos, Moura (2007, p. 52) afirma que:

A Pedagogia de Projetos deve ser entendida como uma metodologia de aprendizagem realmente voltada à formação da criticidade, interesse e vontade de apreender o mundo. Trata-se de um método aplicado pela escola que reflete o contexto social, político, econômico e cultural da comunidade, não devendo ser uma proposição hierárquica dos que se encontram no controle das decisões. Isso implica dizer que a proposta da Pedagogia de Projetos visa conduzir o educando ao desenvolvimento contínuo de sua aprendizagem, condicionado pela ação crítica e reflexiva de sua atuação na sociedade. (MOURA; 2007, p. 52)

Sobre a análise e implantação da Pedagogia de Projetos no Brasil, Moura (2007) afirma que:

O marco referencial da análise e implantação da Pedagogia de Projetos é a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), Lei Nº. 9394/96 que

suprimiu a Lei Nº. 5692/71, estabelecendo os princípios filosóficos para os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs). (MOURA; 2007, p. 10).

A respeito do trabalho com projetos trimestrais, Mützemberg (2005) fala da importância da relação entre a Pedagogia de Projetos e o Ensino de Física no local onde aplicara sua pesquisa. Segundo o autor, são várias as formas de se ensinar Física mas todas elas devem ser intimamente relacionadas com a realidade da escola no qual o professor desempenha suas funções pedagógicas(MÜTZEMBERG; 2005, p. 8).

Há ainda a visão dialógica da Pedagogia de Projetos. Esta perspectiva está presente na concepção de Silva e Tavares (2010). Para essas autoras, as críticas à pedagogia tradicional formuladas a partir do final do século XIX, aos poucos fizeram surgir outra teoria da educação, permitindo o surgimento da Pedagogia Nova, que propõe manter o poder da escola e sua função de equiparação social, interpretando de uma maneira diferente a educação, que passou a ser chamada de escolanovismo (SILVA; TAVARES, 2010). Silva e Tavares (2010) afirmam ainda que no final da primeira metade do século passado esta visão escolanovista apresentou alguns sinais de frustração em virtude do fato de que toda a esperança depositada na reforma da escola acabou dando lugar à Pedagogia Tecnicista (SILVA; TAVARES, 2010).

Esta visão tecnicista, defendem Silva e Tavares (2010), tem como alicerces os princípios de racionalidade, eficiência e produtividade, e fortalece a ideia de uma pedagogia que defende a reordenação do processo educativo tornando-o objetivo e operacional. Ainda de acordo com Silva e Tavares (2010) as pedagogias socialista, libertária, comunista, libertadora, histórico-crítica, não se efetivaram enquanto pedagogias dominantes, mas pretendiam de forma sistemática e intencional tornar a educação uma ferramenta poderosa na luta que visava transformar a ordem vigente, buscando uma nova forma de sociedade (SILVA; TAVARES, 2010).

E é nesta concepção que se embasa a teoria de Dewey, para ele a educação é um processo de vida e não simplesmente uma preparação para uma vida futura, e a escola assumiria um papel tão importante para a vida do aluno como o papel desempenhado pelo seu lar ou o bairro do qual é oriundo. Nestas concepções, o método de projetos emerge e que mais tarde ficou conhecido como Pedagogia de Projetos (DEWEY, 1967 apud SILVA; TAVARES, 2010).

Sobre a pedagogia de projetos, também pode-se afirmar que:

A pedagogia de projetos propõe então mudanças na postura pedagógica, além de oportunizar ao aluno um jeito novo de aprender, direcionando o ensino/aprendizagem na interação e no envolvimento dos alunos com as

experiências educativas que se integram na construção do conhecimento com as práticas vividas, no momento da construção e resolução de uma determinada situação/problema, o que possibilita transformar o espaço escolar em espaço vivo, colaborando para mudanças significativas no ensino e para a formação dos alunos como seres autônomos, conscientes, reflexivos, participativos e felizes. (SILVA; TAVARES, 2010)

O método por projetos propõe uma integração entre os saberes escolares e os saberes sociais, o que permite dar sentido e significado do estudado na vida do aluno. Visa também aproximar-se da identidade dos alunos facilitando a construção da subjetividade, considerando que a função da escola não é apenas ensinar conteúdos, nem vincular a instrução com a aprendizagem (HERNANDEZ, 1998, p. 61).

Para os educadores, o trabalho com projeto requer mudanças nos hábitos e nas práticas que muitas vezes são autoritárias e monótonas. Esta prática embasada na pedagogia de projetos favorece a relação dos alunos com as questões sociais, valores e crenças que se encontram imersos na cultura e em todo o seu contexto social (SILVA; TAVARES, 2010).

O educador passa então da figura de um simples transmissor de informações para o papel de facilitador do conhecimento, no intuito de que esse possa ser repensado, reconstruído e reinventado, na busca do desenvolvimento da consciência, da autonomia cognitiva e moral, pois imagina-se que desta maneira o aluno possa tornar-se crítico perante a sua realidade, buscando novos conhecimentos e formas de auxilio para construir um novo saber (SILVA; TAVARES, 2010).

Para ter sucesso com o trabalho por projetos é necessária, ao aluno, uma postura responsável e autônoma, ao profissional da educação é indispensável o rompimento com os paradigmas presentes na educação tradicional (SILVA; TAVARES, 2010). Hernandez (1998) afirma que este rompimento deveria se basear em uma série de desafios que poderiam ser respondidos pela escola, tais como:

Selecionar e estabelecer critérios de avaliação, decidir o que aprender, como e para quê, prestar atenção ao internacionalismo, e o que traz consigo de valores de respeito, solidariedade e tolerância, o desenvolvimento das capacidades cognitivas de ordem superior: pessoais e sociais, saber interpretar as opções ideológica e de configuração do mundo. (HERNANDEZ, 1998, p.45, apud SILVA; TAVARES, 2010).

De acordo com esta perspectiva, se desvencilhar das limitações impostas pelo cotidiano, romper com a postura do professor tradicional permitindo que o mesmo passe a agir como um verdadeiro mediador e não mais como um mero transmissor de informações, valorizar os temas geradores e não mais seguir a sequência imposta pelos livros didáticos,

alunos parados e inertes, enfileirados, dentre outros fatores contribui para a inovação na educação (SILVA; TAVARES, 2010).

Hernandez (p.45 apud SILVA; TAVARES, 2010) enfatiza que em seu ponto de vista os projetos de trabalho supõem um enfoque do ensino que visa uma reestruturação da concepção e das práticas educativas na escola, e que esta por sua vez precisa dar resposta às mudanças sociais, que se produzem nos alunos e na função da educação.

―A Pedagogia de Projetos deve ser entendida como uma metodologia de aprendizagem realmente voltada à formação da criticidade, interesse e vontade de apreender o mundo‖ (MOURA, 2007, p. 52). É um método aplicado pela escola que está intrinsecamente ligada ao contexto social, político, econômico e cultural da comunidade, desta forma, não deve ser uma proposta com viés hierárquico partindo daqueles que se encontram no controle das decisões (MOURA, 2007, p. 52).

Assim, podemos dizer que a proposta da Pedagogia de Projetos tem como principal objetivo fazer com que o educando trilhe seu caminho em direção ao desenvolvimento contínuo de sua aprendizagem, sempre guiado pela ação crítica e reflexiva de sua atuação na sociedade (MOURA, 2007, p. 52).

Para ilustrar o que fora dito anteriormente, relata-se uma pesquisa feita por Campillo e Guerrero (2013). Trata-se de uma investigação realizada através da Pedagogia de Projetos (PBL) que teve como tema os minerais. Esta investigação foi desenvolvida com alunos de um Bacharelado em Química no México. Os autores aproveitam a flexibilidade metodológica da Pedagogia de Projetos para aplicarem uma nova metodologia chamada de Diagrama Heurístico que facilita a aquisição da competência argumentativa.