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TOTALITÁRIOS: TRÊS CASOS PARADIGMÁTICOS

1. Leni Riefenstahl e a Arte da Propaganda

1.5. Olympia ou o culto do corpo enquanto propaganda

Em 1936, Riefenstahl voltou a ser chamada por Hitler para realizar um filme,

neste caso, sobre os Jogos Olímpicos de Berlim desse mesmo ano. As Olimpíadas

serviam para mostrar ao mundo que as intenções do regime nacional-socialista eram

boas e durante esse período, por exemplo, depois de negociações com o Comité

Olímpico Internacional, houve um afrouxamento das perseguições aos judeus.

Riefenstahl deveria mostrar Hitler e os altos responsáveis do Estado alemão como

figuras pacíficas e em quem se podia confiar. Hitler seria assim visto como um mero

espectador, que aplaudiria o esforço dos atletas, especialmente os do seu país, e

124 INFIELD, 1978: p. 108. 125

regozijaria com as vitórias dos atletas-heróis. Segundo Graham, havia uma série de

operadores de câmara, treinados para captar as suas expressões mais naturais.126 Tudo isto faz com que Olympia seja igualmente um filme de propaganda.

Graham ainda acrescenta outro factor que reforça o lado propagandístico: pela

simples razão de existir, é um exemplo da tecnologia e dos feitos da nação alemã (por

contraponto, não houve nenhum filme sobre os Jogos Olímpicos de Los Angeles em

1932, apesar de terem sido na ‘Meca’ do cinema).127 Há que ter em conta que Graham utiliza o termo ‘propaganda’ baseado na definição de Jacques Ellul (“Propaganda: The

Formation of Men’s Attitudes”),128 no sentido de ser propaganda sociológica: “sociological propaganda: the penetration of an ideology by means of the sociological

context. (…) We see here the force of expansion of a vigorous society, which is

totalitarian in the sense of the integration of the individual, and which leads to

involuntary behaviour.”129

Leni Riefenstahl disse várias vezes que o filme teve a oposição de Goebbels, no

entanto, os dossiers oficiais do Ministério da Propaganda desmentem-na. Tendo o filme

sido financiado pelo governo nacional-socialista, é natural que Goebbels o tenha

apoiado. Infield vai inclusive mais longe e afirma que foi graças a ele que Riefenstahl

não só obteve todos os fundos de que necessitava, como ainda os podia gerir da forma

que achasse melhor.130 Este apoio, todavia, não era para ser tornado público, pois Hitler tinha a intenção de utilizar Riefenstahl como testa-de-ferro do partido nazi: o objectivo

era convencer a opinião pública mundial e o Comité Olímpico Internacional que era a

realizadora, já muito conhecida internacionalmente também devido ao seu trabalho

126 GRAHAM, Cooper C.: Leni Riefenstahl and Olympia. London, The Scarecrow Press, Inc., 1986, p.

46. 127 Idem, p. 256. 128 Idem, p. 252. 129 Idem, p. 251 130 INFIELD, 1978: p. 167.

enquanto actriz, a responsável por toda a produção do filme, incluindo o seu

financiamento através de empresas privadas, parecendo um projecto pessoal dela.

Riefenstahl é precursora neste campo, porque até aquela altura só os cineastas de

actualidades filmavam acontecimentos desportivos. O tempo de preparação foi muito

longo e Riefenstahl deslocou-se aos vários sítios dos eventos para tentar perceber onde e

como os poderia filmar, deparando-se com problemas que nunca ninguém tinha sentido,

como por exemplo a pouca sensibilidade das películas naquela altura e a muito limitada

profundidade de campo.131 Por outro lado, teve que negociar com o Comité Olímpico Internacional e os árbitros dos diferentes eventos a colocação das câmaras de modo a

que não perturbassem os atletas.

Segundo Graham, o filme é perigoso por causa da sua aparente beleza, e não

apesar dela.132 Se não soubéssemos o que se passou depois, poderíamos pensar que não era assim tão mau viver na Alemanha nazi. O filme é sedutor, promove a Alemanha e

faz o fascismo parecer atractivo. Graham defende ainda que a estética de Olympia é

conforme ao seu tempo e apresenta uma forte relação com a tradição neoclássica e

romântica, que a arte nacional-socialista adoptou e banalizou.133 Aliás, estes dois estilos já eram populares na República de Weimar e Riefenstahl limitou-se a prosseguir uma

tradição e não a estabelecer uma ruptura. O resultado foi a construção de um mundo

mítico e metafísico que estava de acordo com o espírito destes Jogos, uma espécie de

ritual teatral, totalmente afastado da realidade do momento na Alemanha.

O objectivo de Riefenstahl era que Olympia mostrasse o poder do espírito

humano em ultrapassar obstáculos físicos. Ela focou-se essencialmente na beleza

perfeita e na força elegante dos corpos em movimento. Alguns deles parecem

desprovidos de peso, flutuando no ar, o que é potencializado pelo ilimitado uso da

131 Idem, p. 152.

132 GRAHAM, 1986: p. 259. 133

câmara lenta. Furhammar e Isaksson comparam este tratamento do corpo humano ao de

uma estátua com a capacidade de se mover.134 No entanto, há que dizer, que Riefenstahl não faz discriminação entre as diferentes raças: o que lhe interessa é o corpo humano

em si desde que seja belo e bem formado, independentemente da origem do atleta. Por

exemplo, o norte-americano Jesse Owens, a grande figura dos Jogos ao conquistar

quatro medalhas de ouro no atletismo, aparece várias vezes no filme. Por isso, é que

Sontag diz claramente que Riefenstahl, no que toca a beleza, não é racista.135

Esta veneração do corpo humano que Riefenstahl faz, um autêntico hino

segundo Welch,136 é conforme à arte nacional-socialista e tem origem na antiguidade. Também por isso, é que o prólogo da primeira parte do filme, Fest der Völker / Festival

das Nações,137 se passa na Grécia. Não só é este o país onde nasceram os Jogos, como é o berço do ideal helénico de harmonia do corpo humano que Riefenstahl exalta. E, no

prólogo, os diversos nus masculinos e femininos são a objectivação desse mesmo ideal.

Aliás, de acordo com Maarek, os teóricos nazis argumentavam que os arianos

descendiam dos gregos.138

134 FURHAMMAR e ISAKSSON, 1971: p. 246. 135

Cf. nota 14 na p. 26.

136 WELCH, 2007: p. 161.

137 Tradução literal. Na estreia em Portugal, esta primeira parte de Olympia / Ídolos do Estádio intitulou-

se Olimpíada.

138

Olympia foi um filme importante para o regime nacional-socialista, não só em

termos de construção de uma determinada ideia para ser vendida ao estrangeiro, como

também na relação dos alemães com o seu próprio país. Ao representar o protótipo do

espírito guerreiro do atleta, o filme forneceu ao regime nazi um legado do passado

alemão. Para Welch, com a sua exaltação das façanhas dos atletas, Olympia permitiu

que o regime tivesse um exemplo concreto da mística que queria introduzir em todas as

esferas da vida cultural.139 Com isto, o filme não manipulou directamente a opinião pública, mas abriu um caminho à imaginação e a uma determinada visão de humanidade

conforme aos ideais nazis. Segundo Furhammar e Isaksson, a percepção da realidade é

formada pelas ideias sobre a realidade, através das quais ela é filtrada e avaliada.140 Para que esta realidade pudesse ser convenientemente construída, não só a

imagem era importante, como também o som, afirmando Riefenstahl mais do que uma

vez que o som foi vital para a escolha da colocação dos eventos no filme. As montagens

visual e sonora foram feitas com base nos mesmos princípios: altos e baixos, tensão e

relaxamento. E ambas tiveram o mesmo grau de importância na construção da

‘arquitectura’ global do filme. Riefenstahl declara na sua entrevista aos Cahiers du

Cinéma que o seu propósito foi nunca ultrapassar os 100%: quando a imagem era forte,

o som era fraco e vice-versa.141

Outra característica marcante do

filme é a utilização do dissolve, tal como

tinha sido feito em algumas sequências de

Triumph des Willens. Para Rentschler,

esta técnica apresenta uma odisseia

139 WELCH, 2007: p. 99.

140 FURHAMMAR e ISAKSSON, 1971: p. 246. 141

onírica, que vai desde o nascimento da humanidade e da elevação da antiguidade

clássica até ao seu renascimento feito pelos nazis nos Jogos de 1936.142

Iremos agora proceder a uma análise mais cuidada ao filme, no sentido de

procurar um estilo Riefenstahl em concreto.

A primeira parte do filme, Fest der Völker (com uma duração de 115’), começa

de uma maneira semelhante a Triumph des Willens: ecrã a negro, música de fundo e

genérico com letras como que incrustadas

na pedra, o mesmo ar de monumentalidade

que tinha o filme sobre o congresso de

Nuremberga. Segue-se o prólogo nas ruínas

do Parthenon em Atenas, com grandes

planos das estátuas e seus pormenores,

sempre com música presente e movimentos de câmara. Há um dissolve de uma estátua

do lançamento do disco para um homem nu

a fazer o mesmo movimento. É filmado em

contrapicado tal como os lançamentos do

peso e do dardo. Os homens são

musculados e há um travelling a

acompanhar a corrida do lançamento do

dardo. Depois, vemos braços levantados ao céu e a atirarem bolas ao ar. Há mulheres

com arcos, igualmente nuas tal como os homens anteriores, com as diferentes imagens a

encadearem-se através de dissolves. Outras estão a fazer ginástica com a natureza ao

fundo (ervas e mar). O cuidado na forma como são filmados demonstra a tal veneração

que Riefenstahl tinha pelo corpo humano.

142

Vê-se fogo e posteriormente um homem acende a tocha olímpica. Começa a

correr e há um travelling a acompanhar o início corrida por entre as ruínas de Olímpia.

Outro homem acende a tocha da original e continua a corrida na praia, e depois nas

montanhas. Depois, um terceiro faz o mesmo já com público em redor. Há um dissolve,

que antecipa imagens aéreas de diferentes cidades e países por onde passa a tocha. A

câmara vai andando sempre para a frente, como que acompanhando a movimentação da

tocha.

Até que chegamos ao estádio em Berlim: está cheio, há sinos a tocar, numa

imagem sobreposta com a do estádio. Diferentes bandeiras são hasteadas e o público faz

a saudação fascista. A primeira delegação

é a da Grécia que saúda Hitler. Vemo-lo

pela primeira vez aos 16’ e por apenas

poucos segundos. Está na tribuna

acompanhado por outras pessoas. A

delegação austríaca é muito saudada pelo

público, enquanto Hitler é visto de perfil a saudá-la. A Itália também faz a saudação

fascista. Seguem-se uma série de nações até que entra a delegação alemã, com muito

barulho no estádio. De modo significativo, a bandeira alemã foi substituída pela

bandeira nazi, que passara a símbolo máximo da Nação.143

143

Desde 15 de Setembro de 1935, com a “Lei da Bandeira do Reich”, a suástica tornou-se a bandeira oficial da Alemanha. In http://avalon.law.yale.edu/imt/2079-ps.asp. Não há unanimidade entre os historiadores acerca das razões específicas que levaram a esta mudança, afirmando uns que tal se terá devido ao ataque que o paquete Bremen sofreu em Nova Iorque em 26 de Julho de 1935 e em que a bandeira suástica foi atirada ao rio, tendo as autoridades americanas, perante os protestos alemães, argumentado que o dano tinha sido causado à bandeira de um partido e não à bandeira nacional; enquanto outros defendem que a mudança foi facilitada pela morte do Presidente von Hindenburg no ano anterior, pela junção do Exército às ordens de Hitler, na sequência deste falecimento e da “Noite das Facas Longas”, e pela instauração do sistema de partido único.

Hitler, filmado de perfil, abre os

jogos numa curta declaração, num plano a

fazer lembrar muitos de Triumph des

Willens, que salienta o lado estatuário do

líder alemão. Pombas são soltas e há um

dissolve para um homem a correr com a

tocha, a entrar no estádio e dar meia volta à pista até acender a pira olímpica no cimo de

uma escadaria.

Estamos num novo dia e a competição vai começar. Esta primeira parte é toda

dedicada ao atletismo. A prova inicial é o lançamento do disco masculino, que nos

reenvia para o prólogo e Riefenstahl utiliza sempre diferentes ângulos e escalas de

planos para a mostrar. Aliás, acontece isso com quase todos os desportos. As imagens

são sempre muito variadas e a câmara lenta é bastante utilizada. Passamos seguidamente

para o lançamento do disco feminino, no qual, à semelhança do masculino, interessa

mais o movimento e a reacção dos atletas do que a distância alcançada. Segue-se o

lançamento do dardo feminino, em que as corridas de lançamento, com a câmara a

acompanhar o movimento das atletas tal como se faz ainda nos dias de hoje, são vistas

em câmara lenta e as duas primeiras classificadas são alemãs.

A final dos 80 m barreiras femininos (sucedida nos dias de hoje pelos 100 m

barreiras) é filmada em travelling lateral, tal como se pode ver também hoje. No

lançamento do martelo masculino, há um movimento semicircular da câmara em redor

da zona de protecção, outra herança de Riefenstahl para os dias actuais, no primeiro

lançador. O lançador alemão tem direito a pormenor da movimentação dos pés e a

Hitler ri. O primeiro e segundo lugares são

para a Alemanha, Hitler volta a rir e bate

palmas, e ouve-se o hino com as bandeiras

nazis a subir no mastro.

Nos 100 m masculinos, vê-se pela

primeira vez Jesse Owens. Há a

preparação dos atletas para a partida num plano detrás deles. Plano destacado de Owens

nos blocos, sendo a corrida filmada numa

panorâmica muito semelhante à dos dias de

hoje e Owens vence destacado. Escavam-se

buracos nos blocos para a colocação dos

pés, há um grande plano de um atleta a

postos, uma falsa partida e a reacção

desiludida do juiz de partida. Nem só de vitórias e acontecimentos positivos

inolvidáveis se faz uma olimpíada. Na meia-final, Owens vence outra vez à vontade

com recorde do mundo que não é válido por causa do vento (ouve-se “USA, USA,

Owens!”). Na final, o americano volta a vencer destacado e a sequência termina com

um grande plano dele a rir-se. Riefenstahl não se preocupa com a sua origem e, tendo

sido ele a grande figura dos Jogos, dá-lhe um justo destaque.144

Depois do salto em altura feminino, temos o lançamento do peso masculino. Há

um plano aproximado do corpo na preparação, depois outro de onde cai o peso e

finalmente um plano da reacção dos atletas e do público. O lançamento de um alemão é

filmado na totalidade (preparação, lançamento e local onde cai o peso). Grande plano de

Hitler a seguir o concurso com ar preocupado, porque os alemães não estavam na frente.

144 Relembremos a afirmação de Sontag de que Riefenstahl não era racista no que se referia a beleza (cf.

Mas no último lançamento, um alemão

ganha e Hitler aplaude veementemente. O

plano dele é na diagonal em perfil, vendo-

se o estádio e o público em fundo.

Riefenstahl mostra-nos uma parte da

cerimónia das medalhas e um plano das

bandeiras, com a nazi no mastro mais elevado.

A seguir, temos os 800 m masculinos, em que a voz off alemã anuncia a

presença de dois corredores negros “contra a força da raça branca”: o único comentário

que pode ser considerado racista em todo o filme. Depois do triplo salto masculino,

passamos para o salto em comprimento, com Owens e um alemão (Long) como

favoritos. Não há diferença de tratamento visual dos dois. O salto de Long é em câmara

lenta, com recorde europeu e marca igual à de Owens. Há um plano de Hitler a sorrir. O

último salto de Owens, em câmara lenta, dá-lhe o recorde mundial e a medalha de ouro.

Owens é filmado a sorrir para a câmara em

plano médio. Mas claro que aqui já não há

nenhum plano de Hitler, que nunca poderia

ser o contracampo de um vencedor de outra

raça. No entanto, vemos a bandeira

americana a subir ao mastro mais alto e

ouve-se parte do hino.

Posteriormente à final dos 1500 m masculinos, temos o salto em altura, em que

Riefenstahl destaca mais uma vez alguns atletas sem qualquer distinção entre as raças

dardo, ganha um alemão e, como pela

primeira vez a supremacia finlandesa é

quebrada, Goebbels e Hitler em dois

planos separados aplaudem

entusiasticamente.

Vê-se o tiro de partida para os 10

000 m masculinos. Hitler manifesta nervosismo, mexendo na perna, e o público também

está expectante. Três finlandeses nos três primeiros lugares. Voltamos a não ter nenhum

plano de Hitler depois de uma derrota de um atleta alemão. No salto à vara masculino,

os planos variam conforme os saltos, havendo diferentes ângulos e velocidades da

câmara. O vencedor americano faz a continência durante o hino, tal como seu

compatriota vencedor dos 110 m barreiras, o que contrasta com a saudação fascista.

Um novo dia começa com um travelling sobre as bandeiras (nomeadamente a

nazi e a olímpica). Nos 4x100 m femininos, Hitler conversa com um oficial a seu lado.

Numa falsa partida, Hitler fala com

Goebbels e levantam-se mal a corrida

começa. A Alemanha vai destacada na

frente, mas deixa cair o testemunho e

ganham os EUA. Hitler e Goebbels sentam-

se desalentados. No entanto, não há o

menor sinal de fúria.

Posteriormente temos os 4x100 m masculinos. A câmara segue Owens apesar de

a Alemanha estar na corrida, comprovando-se que Riefenstahl não hesita em privilegiar

Owens, mesmo tendo compatriotas seus na mesma prova. Depois dos 4x400 m

diferentes ângulos de câmara. Alguns atletas param literalmente para se refrescarem.145 Um deles já não corre, anda, e o público está à beira da estrada. Há um travelling sobre

atleta japonês que está em primeiro, chamado Kitei Son, e que é o vencedor. Todos

maratonistas que terminam são amparados por assistentes e alguns quase desfalecem,

havendo grandes planos do esforço deles.

Estamos perto do final da primeira parte. Vê-se a tocha olímpica, algumas

bandeiras olímpicas e o desfile com bandeiras de várias nações. É de noite e a música

está sempre presente. As bandeiras são agitadas e um sino toca com a imagem

sobreposta do estádio. Um travelling para trás mostra-nos o exterior do estádio e

posteriormente a bandeira, finalizando a primeira parte quando a música termina.

Na segunda parte, chamada Fest der Schönheit / Festival da Beleza146 (com uma duração de 88’), saímos do estádio olímpico para acompanhar as outras modalidades.

Desde muito cedo que Riefenstahl tinha decidido fazer um filme em duas partes, tal a

quantidade de material que possuía. O genérico de Fest der Schönheit é diferente do da

145 De referir que na cópia visionada na Cinemateca, é destacada a presença na Maratona do português

Manuel Dias, atleta do Sport Lisboa e Benfica, confirmando a questão de haver várias versões do filme adaptadas aos diversos países (cf. p. 108). Na cópia que estamos a usar em DVD da Pathfinder Pictures, proveniente dos EUA, o português não aparece. Para uma descrição da participação portuguesa nestes Jogos Olímpicos, incluindo os problemas sentidos por Manuel Dias (17º classificado em 56 participantes), bem como a medalha de bronze de José Beltrão, Domingos de Sousa Coutinho e Luís Mena e Silva na prova de obstáculos por equipas em Hipismo, conferir o artigo “Bronze em Berlim e Benfica Tricampeão.” (LOPES, João. “Bronze em Berlim e Benfica Tricampeão” in PAÇO, António Simões do. Os Anos de Salazar – vol. 4, 1936-39: Salazar, Retaguarda de Franco. Planeta DeAgostini, 2008, pp. 184-191.)

146

primeira parte, já que surge sobreposto a

um plano das bandeiras olímpicas a

esvoaçar e não incrustado na pedra.

Transmite-se uma sensação mais leve e

menos impositiva, já que afinal de contas é

um ‘Festival da Beleza’.

Ao prólogo feito na Grécia, sucedem-se agora imagens da natureza, com

árvores, relva, lagos e animais. Os atletas treinam-se no meio dela, revelando a

comunhão homem-natureza, realçada pelo uso da câmara lenta. Tal como no prólogo há

nudez, nomeadamente quando os atletas

estão na sauna e depois mergulham num

lago. São de várias nacionalidades,

demonstrando mais uma vez Riefenstahl a

sua abertura em relação à beleza física das

várias raças.

A seguir à ginástica masculina, temos as regatas, onde há planos dentro dos

barcos e paralelos a estes, o que leva a concluir que havia embarcações específicas só

para transportar as câmaras. A última regata que vemos é a da six meter class e

Riefenstahl varia, ao fazer um plano geral e depois aéreo dos barcos. Mudamos de

modalidade, para a esgrima, em que, pelo pouco tempo da sequência147, parece claro que a cineasta alemã não dá muita importância a este desporto. Depois da final de pesos

pesados no boxe, surge o pentatlo moderno, em que os que chegam à meta estão quase

todos estão em dificuldade física e são amparados pelos assistentes.

147

Temos imagens de mulheres a fazerem exercícios na relva, extra-competição (dá

a sensação de ser uma classe de ginástica de mulheres comuns), em contrapicado e com

o céu em fundo.148 É um grande grupo e os diferentes planos são encadeados por

dissolves. A filmagem em picado permite-nos vê-lo na sua totalidade e situá-lo na parte