CAPÍTULO 4 O ESPAÇO PÚBLICO JUDICIAL: A TENSÃO ENTRE A FATICIDADE E A
4.2 A C ONEXÃO N ECESSÁRIA E NTRE A F ATICIDADE E A V ALIDADE DA N ORMA
Se por um lado afirma-se que o acesso à justiça não se faz apenas através do poder judiciário, e sim através de toda estrutura pública de realização da justiça, com o objetivo de integrar a esfera privada e a esfera pública, por outro lado afirma-se que as normas devem ser entendidas, vistas e praticadas como um caminho solucionador de acesso à justiça. Como diz Torres (2005, p.88):
não se pode esquecer que a maioria da população é simples e humilde, vive num ambiente em que é compreensível a existência de desacertos, conflitos, contrariedades, mas que o direito deve garantir a convivência pacífica, e que a justiça deve estar presente em todos os lugares. Por isso, esse sistema produz resultados e faz surgir alternativas de soluções de conflitos.
Tal constatação, porem, reveste-se de uma variedade de aparentes contradições porque é fácil comprovar certa largura entre o que está contido na linguagem normativa e seus aspectos de validade e o que a vida, os cidadãos, enfim a sociedade produz como fatos na forma de “mundo de vida”, como refere Habermas.
Sobre essa lacuna entre a vida em seu estado natural e a norma em sua apresentação formal, Dona C.M.C assim se expressa:
[...] Quando descobri que meus filhos vendiam petecas de crack já foi lá no Ministério Público, na presença do promotor, que me disse que eu como mãe deveria cuidar melhor dos meus filhos e não deixar eles irem para rua. Como que posso conseguir isso com meninos de 13 e 14 anos e eu com 9 lavagens para fora pra sustentar eles e os outros 3 menores? Bem que tentei um trabalho pra eles no mercadinho, mas o gerente falou que a lei proíbe trabalho infantil. Então, não tem vaga no colégio perto, não posso pagar transporte, e eles não podem trabalhar. O que eu vou fazer pra ocupar esses meninos ?. (C.M.C _ doméstica atendida pelo serviço de assistência social da FUNPAPA – Belém – PA).
A situação de Dona C.M.C, é a mesma de um sem-número de mulheres que trabalham, e não têm como dar assistência efetiva aos filhos. Essa é a faticidade, essa é a vida explodindo nas esquinas. Seria equivocado afirmar que para todo e qualquer fato haverá uma norma válida para a pronta utilização. Norma válida é aquela que cumpre com uma adequação ao ordenamento jurídico por ter sido criada pelo processo legislativo próprio. Mas, sem dúvida nenhuma, que o discurso jurídico predominante, é o de que o Estado tutela e protege a sociedade, e as normas jurídicas servem de instrumentos de controle social. Debaixo dessa análise, será possível avaliar as consequencias da retórica jurídica nas relações sociais.
Inicialmente, detecta-se que a conexão necessária entre os fatos e a validade da norma não é expressa, não é visível, não é perceptível pelo cidadão mediano. Tanto que, num primeiro momento, a ideia que se tem é a de que o conflito existe porque a validade da norma não consegue alcançar os fatos; se os meninos não tem escolas porque não há vagas no bairro, por que não se abre uma exceção para que eles trabalhem? Seria esse um possível questionamento. Ou ainda, o que é melhor para o Estado, que os garotos trabalhem e ajudem a mãe ou que fiquem pelas ruas,
já que ela tem muito que trabalhar e também cuidar de outros três filhos? Ou ainda, se a Constituição estabelece o ensino até os 14 anos como obrigação do Estado, por que não se providenciam soluções pelo próprio Estado, estimando o número de alunos por bairro, ou talvez, providenciando meios que viabilizem transportes gratuitos para escolas mais distantes?
A distância entre a faticidade e a validade das normas é, em muito, mitigada pela retórica jurídica; tanto pela linguagem, quanto pelos símbolos que representam a justiça, assim como também pelo discurso do direito. Sobre isso diz Bourdieu (2007, p.213):
Como no texto religioso, filosófico ou literário, no texto jurídico estão em jogo lutas, pois a leitura é uma maneira de apropriação da força simbólica que nele se encontra em estado potencial. Mas, por mais que os juristas possam opor-se a respeito de textos cujo sentido nunca se impõe de maneira absolutamente imperativa, eles permanecem inseridos num corpo fortemente integrado de instâncias hierarquizadas, que estão à altura de resolver os conflitos entre os intérpretes e as interpretações. E a concorrência entre os intérpretes está limitada pelo fato de as decisões judiciais só poderem distinguir-se de simples atos de força política na medida em que se apresentem como resultado necessário de uma interpretação regulada de textos unanimemente reconhecidos [...] a justiça organiza segundo uma estrita hierarquia não só as instâncias judiciais e os seus poderes, portanto as suas decisões e as interpretações em que elas se apóiam, mas também as normas e as fontes que conferem a sua autoridade a essas decisões.
Ao afirmar que a distância entre a faticidade e a validade da norma é mitigada pela força de discurso, entendo que isto ocorre porque a construção do discurso jurídico se faz a partir da integração dos vários elementos que compõem o campo jurídico. Mas, acima de tudo, se faz, a partir da ação comunicativa, a coerência linguistica de influência psicológica e estratégica que leva em conta o entendimento como mecanismo de coordenação das ações do Estado que fala e do cidadão cuja fala se faz refletir através da fala do Estado. O que quero dizer, é que o texto da norma não é o tudo do qual se fala. O texto é apenas um instrumento simbólico que abre caminho para um universo interpretativo do qual se extrairá a norma e sua validade. É só desta maneira que é possível fazer a tão necessária conexão entre faticidade e validade, entre o que a sociedade faz e o que a norma prevê como disciplina voltada para este fazer.
Assim, quando dona C.M.C for convencida, através do aparato público judicial de argumentação das razões do Estado para que seus filhos não trabalhem enquanto crianças, ou quando a ela for dito que há sim escola para seus filhos, basta que ela procure o Ministério Público, e uma ordem será dada para que os mesmos sejam matriculados, ou talvez, de que ela pode buscar ajuda nos órgãos
públicos de assistência social, podendo fazer parte de programas voltados para sua carência (a exemplo; bolsa família, bolsa escola, vale leite etc.), identifica-se, então, a instrumentalidade do consenso trazida pela riqueza da construção argumentativa que formula o consenso sobre o qual expus ao tratar da ação comunicativa, de Habermas.