Martelotta (1996), no capítulo intitulado “Gramaticalização em operadores argumentativos”, propõe o seguinte continuum de abstratização: espaço > (tempo) > texto baseado em Heine e Traugott (1991). Essa rota de mudança serviria para explicar o fato de circunstanciadores espaciais passarem a ser usados metaforicamente para estabelecer relações entre partes do texto. Ao realizarem a articulação textual, passam a ser operadores argumentativos, cuja “função básica é organizar internamente o uso da língua”. (MARTELOTTA,1996, s.p.) Ao fazer a distinção entre operadores argumentativos e marcadores discursivos, o autor afirma ainda que “os operadores argumentativos tendem a ser provenientes de circunstanciadores espaciais e temporais por um processo de gramaticalização, em que ocorre uma passagem do léxico à gramática.” (id., ib.)
Além desse mecanismo metafórico, há a pressão por informatividade, guiada por mecanismos metonímicos que fazem com que um elemento linguístico, por convencionalização de implicaturas conversacionais, incorpore o valor funcional de elementos informacionais avizinhados ou geograficamente localizados, gerando processos de reanálises derivados do contexto de uso. É apresentado o exemplo de embora que, originalmente, assume valor temporal e passa a assumir função concessiva, pois, em determinados contextos, o sentido de contraexpectativa situacional acaba sendo inferido do tempo em que esse evento fora consubstanciado. Essa incorporação permite afirmar que tempo é categoria-fonte para a função de concessividade.
64 Um processo de gramaticalização como esse do item “embora” pode auxiliar no entendimento da passagem de elementos modais para elementos conclusivos. Em outras palavras, se não houver equívoco no raciocínio que elaboro, é plausível hipotetizar que, por convencionalização, a expressão “desse modo que foi dito antes” tenha assumido mais funções do que apenas retomar uma informação já explicitada. Ao que parece, seu emprego em último parágrafo de texto dissertativo-argumentativo possibilita a sinalização de uma consequência lógica num tempo posterior, ou seja, sua reanálise em termos de ideia conclusiva. Essa seria uma hipótese forte para que expressões anafóricas no final desse tipo de texto fossem reinterpretadas como marcadores de conclusão em redações vestibulares, pois concentram em si a ideia de coerência necessária a essa forma textual.
Segundo Martelotta (1996), os operadores argumentativos servem também para, além de estabelecer relação coesiva entre partes do texto, evidenciar preocupações do falante em relação às expectativas do ouvinte. Ou seja, há uma implicação entre a relação interpessoal (marca de intersubjetividade) e a relação textual. É preciso deixar sinalizado para o leitor, no caso de um texto escrito, que a ideia está sendo concluída, por isso o uso de elementos gramaticais que antecipam o lugar da explicitação dessa conclusão.
Outro trabalho que reflete essa preocupação com a movimentação funcional de conjunções é o de Neves (2002). Uma ideia bastante presente nesse trabalho é o caráter gradual com que expressões podem vir a se gramaticalizar. Essa postura reforça a acomodação contínua da gramática:
Afinal, a grande importância da consideração do processo de gramaticalização para o estudo linguístico reside na colocação em foco de uma característica básica dos sistemas linguísticos, que é a sua existência e vitalidade exclusivamente em função da sua necessidade para uso dos falantes, daí por que a sua sensibilidade às pressões do funcionamento linguístico, que se temperam com as pressões vindas do próprio amarramento interno do sistema. Nesse constante acerto de equilíbrio é que a gramática – uma estrutura cognitiva ajustável, a partir de núcleos nocionais – vive a acomodação que lhe
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garante a satisfação das necessidades comunicativas dos usuários. (NEVES, 2002: 187-188)
O mérito desse trabalho não reside somente nessa abordagem que lida com o sistema dinâmico. Há nele uma preocupação com o que tem afligido todo o pesquisador que estuda classes que, tradicionalmente, alimentam outras, como é o caso do advérbio > conjunção > conectores textuais. Esse trabalho também ajudará a reconhecer critérios de discernimento entre conjunções e operadores textuais, uma tarefa considerada equivocadamente simples para estudiosos da língua portuguesa. Tal equívoco resume-se no fato de que existem empregos que guardam em si traços de sua função anterior em convivência com sua função mais recente na língua.
A autora considera conjunções prototípicas aquelas que (i) correspondem a formas já existentes no latim na mesma subclasse e (ii) apresentam relação biunívoca entre forma e função, levando-se em consideração o comportamento sintático-semântico.
Somente essa definição não é capaz de auxiliar a classificar um item conjuntivo, a menos que se tenha a clara noção de sua trajetória histórica do latim para o português. A resposta vem da própria autora que lista como conjunções prototípicas as seguintes: e, ou, que, se.
Dada a dificuldade da tarefa, Neves (2002) propõe testes para avaliar se uma expressão pertence ou não ao rol das conjunções:
(i) Possibilidade de coocorrência (seja antecedência ou subsequência) com outras conjunções coordenativas, por exemplo, e ou mas. – essa possibilidade comprovaria que um item ainda não se gramaticalizou em conjunção coordenativa.
(ii) Possibilidade de ligar tanto orações como termos – a conjunção coordenativa só ocorre entre segmentos de mesmo estatuto e pode coordenar sintagmas, orações e enunciados.
(iii) Possibilidade de intensificação por advérbio – com o exemplo do embora / muito embora e dos demais elementos de sentido concessivo
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que não podem ser intensificados por advérbio, “o que ilustra a heterogeneidade das ‘classes’.” (NEVES, 2002, p. 187)
(iv) Possibilidade de ocorrência com verbos não finitos – para o estudo do grupo das conjunções de hipotaxe adverbial. Ao se construir com verbo no gerúndio, por exemplo, não é dado o estatuto de conjunção prototípica.
É minha pretensão, durante a análise dos elementos conclusivos identificados nas amostragens, aplicar um teste que dê condições de estabelecer graus de gramaticalidade ao item conclusivo de maior frequência. Porém, ainda será preciso avaliar qual modelo proposto será mais apropriado para essa tarefa, se o de Neves, ou o que vem apresentado a seguir, reorganizado por Pezatti (2002).
Em seu estudo “As conjunções conclusivas no português falado” (2002), Pezatti assume como objetivo analisar o comportamento sintático-semântico dos nexos conclusivos encontrados na fala culta. Ela parte da análise do tratamento dado às conjunções coordenativas por alguns gramáticos, tais como Kury (1985), Cunha e Cintra (1985), Savioli (1985), Luft (1978) e Barros (1985) e apresenta os termos que são considerados conjunções. Em face das leituras realizadas, ressalta a igualdade semântica na definição dada nas gramáticas para conclusão (conjunção coordenativa) e consequência (conjunção subordinativa).
Essa constatação de consequência e conclusão compartilharem traços parece reforçar a hipótese que formulei há pouco sobre a gramaticalização de itens como marcadores de conclusão em redações argumentativas.
Pezatti, ainda com relação às conjunções ditas conclusivas, interesse específico desta tese, estabelece uma comparação entre a categorização feita por oito autores estudados. O resultado foi o seguinte:
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logo, portanto, pois (pós-verbal) Todos os 8 autores pesquisados consideram conjunções coordenativas de conclusão.
por consequência, por isso Somente 4 dos 8 autores pesquisados consideram conjunções coordenativas de conclusão.
e então Somente 3 dos 8 autores pesquisados consideram
conjunção coordenativa de conclusão.
assim Somente 2 dos 8 autores pesquisados consideram
conjunção coordenativa de conclusão.
consequentemente Somente 1 dos 8 autores pesquisados consideram conjunção coordenativa de conclusão.
Quadro 2.3: Conjunções conclusivas (Pezatti) Voltando-se para o corpus de língua falada culta, Pezatti verificou que só houve ocorrências de três tipos de operadores conclusivos: portanto, por isso e então, os quais compartilham as seguintes propriedades:
a) Em 100% das ocorrências, houve impossibilidade de inverter a ordem das orações coordenadas (o que é típico da coordenação);
b) Os juntores não podem iniciar a resposta a uma pergunta específica (cf. Ilari, 1996) “Depreende-se disso que as orações conclusivas nunca são veiculadoras de informação nova; pelo contrário, há sempre uma ancoragem em instância preliminar do discurso que direciona o rumo da sucessão dos eventos dados mais à frente. Isso cria um efeito de previsibilidade, portanto, de informação dada, ou, pelo menos, inferível”. (PEZATTI, 2002: 197)
c) Todos os juntores apresentaram possibilidade de deslocamento na frase, o que confirma um traço adverbial ainda presente e indica, portanto, que não completaram o processo de gramaticalização.
É possível notar a aplicação de alguns critérios elaborados por Ilari35, no entanto, também é possível verificar que alguns outros, tais como o estatuto
35 Ilari (2008) apresenta um mapeamento das conjunções e o estabelecimento de critérios para classificar e organizar as conjunções com base em traços semânticos, campo eleito pelo autor para resolver a bipartição coordenativas / subordinativas. Essa classificação é feita a partir de um teste que deriva do cruzamento de variadas propriedades apresentadas em forma de perguntas, que podem ser
68 informacional, foram adicionados. Quanto às propriedades apresentadas na alínea ‘c’, deve-se ressaltar que não necessariamente os elementos conclusivos virão a se fixar num ponto da sentença para ter seu processo de gramaticalização nessa função completado, haja vista que, de acordo com o princípio da persistência (Hopper, 1991), referendado por variados trabalhos, é típico do item gramaticalizado numa nova função a manutenção de traços originais.
Quanto às características de cada juntor, convém destacar o seguinte:
portanto admite ser substituído pela conjunção prototípica logo (não-categórico)
admite ser introduzido pela conjunção e (o que confirma o componente adverbial- conserva semanticamente a noção de desse modo)
liga duas orações completas sintaticamente introduz oração reduzida de gerúndio não admite clivagem nem focalização.
por isso assume caráter adverbial, circunstancial, anafórico.
seu percurso está na direção de um valor explicativo (e não conclusivo)
justifica estado-de-coisas e atos de fala. “Justificar é explicar e não deduzir. A expressão por isso comporta, sem sombra de dúvida, o sentido literal de causa, justificativa ou explicação que é transposto para o desenvolvimento do texto” (p. 208)
então demonstra circularidade argumentativa (inicia-se com o que se quer provar, apresenta-se um argumento e daí retoma o já dito).
Quadro 2.4: Características dos juntores portanto, por isso e então (Pezatti) Comparando os descritores de portanto e de por isso, percebo que, ainda que não explicitamente afirmado, compartilham a maior parte das propriedades, pois “conserva[r] semanticamente a noção de desse modo”
parece-me similar a um “caráter adverbial, circunstancial, anafórico” e
“especificar ou esclarecer” também parecem-me muito próximos a apresentar uma “justificativa ou explicação”. Considerando, ainda, que a prototipicidade condiciona um item a reunir a maioria das propriedades dos demais termos do grupo, suponho que portanto, por isso e então possam ser substituídos por logo na maioria dos contextos de uso.
assim sintetizadas: Aceita clivagem? Aceita negação? Aceita restrição? Exprime argumentatividade? Afeta o modus? Estabelece pressuposição? Obedece ao encadeamento? Responde a uma pergunta? Aceita alteração na ordem? Envolve veri-funcionalidade?
69 A substituição de uma expressão por outra para testar o que as diferencia, ou seja, para identificar possíveis especializações de funções é mais um recurso sintático-semântico adotado por Pezatti. Seu objetivo prioritário era verificar em que nível ocorreria a junção, se no nível das orações ou dos termos. Os resultados desse teste apontaram para as especificidades seguintes:
a) portanto faz junção de termos e também de orações; b) por isso e então estabelecem união somente entre orações.
Como reflexo das análises procedidas, Pezatti (id., p. 221) elabora o seguinte continuum representante da escala de gramaticalização desses itens na função conclusiva:
Advérbio ---Conjunção Por isso > então > portanto > logo
Tomarei como pressuposta a ideia de que uma escala de gramaticalização diferenciaria esses itens na exata ordem apresentada por Pezatti. Nesta pesquisa, descreverei os usos sincrônicos adotados por grupos distintos de escreventes do português, esperando que os resultados não reproduzam essa escala nos mesmos níveis de usos, especialmente porque já é possível notar que a conjunção logo praticamente não é empregada pelos mais jovens hoje em dia.
Uma segunda diferença projetada é amparada pela própria modalidade de língua. Hoje, com toda a evolução dos estudos linguísticos, sabe-se que existem duas modalidades de língua portuguesa do Brasil, a falada e a escrita, mas existem atuantes muitos fatores externos, capazes de provocar diferenças entre as várias línguas faladas e as várias línguas escritas.
E, ainda que tenhamos um mesmo rótulo para o registro (culto), certamente não se referem ao mesmo critério para organizar os informantes.
70 Enquanto os informantes de Pezatti são adultos de três faixas etárias distintas, com curso superior, comunicando em língua falada, em três situações diversas (entrevista, elocução formal e diálogo informal), os informantes que fornecem amostras para esta tese são pessoas indistinguíveis quanto à faixa etária, que podem ou não já ter um curso superior, mas que comunicam por meio da modalidade escrita pretensamente mais próxima da norma culta, numa situação específica de seleção vestibular, o que implica um alto grau de tensão.
Também o trabalho de Pezatti (2002) visa a um fim diverso: busca reconhecer os graus de gramaticalização de alguns itens escolhidos como produtivos na fala culta. Com esta tese, adiciono o viés da correlação entre cultismo e consciência gramatical. Se o candidato visa a uma vaga na Universidade, tenderá a banir de sua escrita os registros que considere fugir ao padrão culto. Interessa-me saber em que medida seu julgamento entra em choque com o que é normativo, mas, principalmente, em que medida suas escolhas concentram os traços típicos de elementos conclusivos. Portanto, reconhecer os processos cognitivos que guiaram essa escolha é intento primário desta pesquisa.
Em trabalhos recentes sobre gramaticalização de conjunções, encontramos percursos realizados para que um item seja recrutado como operador argumentativo de conclusão: “na relação de conclusão, há um movimento de retroação, a partir do qual o falante/escritor retoma o conteúdo anterior e então introduz uma conclusão” (GONÇALVES, LIMA-HERNANDES e CASSEB-GALVÃO, 2007: 97). É o caso de logo, por exemplo, que etimologicamente tem sentido espacial e temporal e evolui para o sentido de sucessão de fatos mencionados no texto.
O fato de se poderem identificar rotas de mudança de operadores conclusivos faz crescer o interesse por testes para aferir tanto o grau de gramaticalidade das construções recrutadas para servirem como operadores argumentativos, quanto o modo como professores de Língua Portuguesa lidam com essas construções e as classificam. Essas são tarefas que desenvolverei ao longo desta tese.
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