2.1 Perelman e Olbrechts-Tyteca: o tratado da argumentação
2.1.1 Orador e auditório: os dois lados do discurso
Em sua proposta teórica, Perelman e Olbrechts-Tyteca (2002) compreendem o discurso, ou melhor, a argumentação, como o ponto de interação entre o orador e o auditório. Essa interação, segundo os autores, não se estabelece somente como condição prévia da argumentação, mas como condição essencial ao desenvolvimento e à manutenção do discurso argumentativo: “com efeito, como a argumentação visa obter a adesão daqueles a quem se dirige, ela é, por inteiro, relativa ao auditório que procura influenciar” (Perelman; Olbrechts-Tyteca, 2002, p. 21).
Constituindo, portanto, os “dois lados de uma mesma moeda”, orador e auditório interagem e constroem-se, dialeticamente, na e pela argumentação. Para que essa interação aconteça, é indispensável que ambos estejam de acordo sobre a divergência de opinião a respeito de uma questão determinada e sobre a necessidade de se debater essa questão na busca pelo entendimento através do diálogo. A relação que se estabelece entre orador e auditório não é unilateral; pelo contrário, ela apresenta-se, efetivamente, como uma disputa de interesses, de influências e de poder que dá origem à argumentação.
Para que o embate de opiniões seja instituído não basta somente escrever ou falar bem, é preciso ser lido e ouvido, e é preciso também saber ouvir: “mostrar-se disposto a aceitar [...] eventualmente o ponto de vista” do outro (2002, p. 19). Segundo Perelman e Olbrechts-Tyteca (2002), cada uma das partes, orador e auditório, tem características próprias e desempenha funções específicas a fim de contribuir para que a argumentação se realize.
Assim sendo, Perelman e Olbrechts-Tyteca (2002) salientam que é função primordial de todo orador conhecer aqueles a quem o seu discurso se dirige. Essa informação inicial sobre o auditório, além de diminuir a possibilidade de se construir uma imagem inadequada, permite também elaborar estratégias para despertar a atenção do auditório e adaptar-se às suas possíveis particularidades (éticas, morais e valorativas) a fim de provocar e promover a adesão dos espíritos. Para argumentar de modo eficaz, o orador tem de apreciar o exercício da discussão: “precisa ter apreço pela adesão do interlocutor, pelo seu consentimento, pela sua participação mental” (Perelman; Olbrechts-Tyteca, 2002, p. 18). Para convencer o interlocutor, o orador deve demonstrar modéstia, pois ele não tem autoridade para fazer com que seu dizer seja “indiscutível e [obtenha] imediatamente a convicção. Nota-se assim que a percepção sobre o auditório, a postura discursiva e as atitudes do orador têm consequências diretas no andamento da argumentação. O mesmo pode acontecer com as reações do auditório, que devem homologar a argumentação e podem, eventualmente, modificar o seu curso.
Em relação ao auditório, Perelman e Olbrechts-Tyteca (2002, p. 27) ressaltam que cabe a ele, essencialmente, “determinar a qualidade da argumentação e o comportamento dos oradores”, já que é em função dele que todas as atividades argumentativas se desenvolvem. A noção de auditório ocupa uma posição central no TA e, evidentemente, é objeto de muitas reflexões. Diante da variedade quase infinita de auditórios, os autores constatam que esta é uma noção de difícil apreensão, mas, mesmo assim, dedicam-se a explorá-la e a descrevê-la. Para isso, os fundadores da Nova Retórica retomam a clássica distinção entre persuadir e
convencer, relacionando-a com sua teoria da argumentação a fim de refletir sobre o
papel desempenhado por alguns auditórios.
Na concepção de Perelman e Olbrechts-Tyteca (2002), a argumentação é persuasiva quando endereçada a um auditório particular; e ela é convincente quando destinada a obter a adesão de todo ser racional. Sem dúvida, é uma distinção delicada que se fundamenta, sobretudo, na relação do orador com o auditório, em outras palavras, na intenção do orador de dirigir o seu discurso a um determinado tipo de auditório: particular ou universal.
Adotando esse ponto de vista, os autores pretendem mostrar que a linha que separa os termos convencer e persuadir tem de ser vista sempre como imprecisa e que, na prática, isso deve permanecer assim, “pois [...] a distinção entre os diversos
auditórios é muito mais incerta, e isso ainda mais porque o modo como o orador imagina os auditórios é o resultado de um esforço sempre suscetível de ser retomado” (Perelman; Olbrechts-Tyteca, 2002, p. 33). Em sua essência, essa distinção pode ser melhor compreendida se a natureza de cada auditório for tomada como referência: “é, portanto, a natureza do auditório ao qual alguns argumentos podem ser submetidos com sucesso que determina em ampla medida tanto o aspecto que assumirão as argumentações quanto o caráter, o alcance que lhes serão atribuídos” (Perelman; Olbrechts-Tyteca, 2002, p. 33).
Considerando a importância da natureza do auditório na eficácia da argumentação, são identificados três auditórios distintos: o primeiro, o auditório universal, é formado pela humanidade inteira; o segundo, o auditório particular, é composto por um único interlocutor com quem o orador dialoga; e o terceiro, o próprio orador, é constituído quando ocorrem deliberações com ele mesmo e monólogos internos (discurso interno).
Essa categorização reforça a ideia de que a argumentação depende do auditório a que se dirige e, ao mesmo tempo, destaca a importância do auditório universal para o desenvolvimento de uma argumentação objetiva e convincente. Sendo compreendido como a norma da argumentação objetiva, o auditório universal parece ser a garantia da racionalidade do discurso, já que “uma argumentação dirigida a um auditório universal deve convencer o leitor do caráter coercivo das razões fornecidas, de sua evidência, de sua validade intemporal e absoluta, independente das contingências locais e históricas” (Perelman; Olbrechts-Tyteca, 2002, p. 35).
Almejando a objetividade e a racionalidade, a maioria das produções argumentativas escritas busca conquistar a adesão de uma universalidade e uma unanimidade de espíritos imaginada pelo orador. Nesse sentido, essas argumentações estão destinadas a um auditório universal “não por esperarem o consentimento efetivo de todos os homens – sabem muito bem que somente uma pequena minoria terá um dia a oportunidade de conhecer seus escritos –, mas por crerem que todos os que compreenderem suas razões terão de aderir às suas conclusões” (Perelman; Olbrechts-Tyteca, 2002, p. 35). Nessa perspectiva, uma argumentação convincente seria aquela embasada em argumentos universalizáveis, aceitos por todos.
O sucesso de uma argumentação pode estar atrelado ao tipo de auditório ao qual ela se dirige e também ao modo como as técnicas argumentativas são organizadas, apresentadas e desenvolvidas frente a esse auditório. Como os próprios autores destacam “tanto o desenvolvimento como o ponto de partida da argumentação [as premissas] pressupõe acordo do auditório. [...] Do início ao fim, a análise da argumentação versa sobre o que é presumidamente admitido pelos ouvintes.” (Perelman; Olbrechts-Tyteca 2002, p. 73).
Tomando o acordo como um elemento indispensável à argumentação, Perelman e Olbrechts-Tyteca estabelecem dois tipos de acordo que, apoiados em objetos do real e do preferível, podem desempenhar papéis distintos no processo argumentativo. Nas argumentações que objetivam convencer um auditório universal, observa-se o acordo fundamentado em objetos do real, cujas premissas comportam fatos, verdades gerais e presunções. O mesmo não acontece às argumentações que se dirigem a auditórios particulares, como é o caso, por exemplo, dos debates em forma de diálogo com um único interlocutor e das deliberações do orador consigo mesmo. Nestes casos, o acordo está embasado em objetos do preferível, cujas premissas contêm valores, hierarquias e lugares do preferível. Complementando o exposto, os autores assinalam que, na argumentação,
tudo o que se presume versar sobre o real se caracteriza por uma pretensão de validade para um auditório universal. Em contrapartida, o que versa sobre o preferível, o que nos determina as escolhas e não é conforme uma realidade preexistente, será ligado a um ponto de vista determinado que só podemos identificar com o de um auditório particular, por mais amplo que seja. (Perelman; Olbrechts-Tyteca, 2002, p. 74)
Verifica-se que as premissas destinadas a auditórios universais nem sempre são aceitas pelos auditórios particulares e vice-versa. Para cada auditório, parece existir um conjunto de premissas e de técnicas argumentativas que têm a possibilidade de influenciar-lhe as ações e reações. Entende-se assim a importância que exerce o acordo do auditório e a seleção das premissas no desenvolvimento e na manutenção do processo argumentativo. Toda argumentação supõe, como destacaram os autores, uma escolha que “consiste não só na seleção dos elementos que são utilizados, mas também na técnica da apresentação destes” (2002, p. 136). Em outros termos, toda argumentação é seletiva.