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Ao formular um Modelo Cognitivo da Argumentação (MCA), Vignaux (1988) situa-se em um lugar teórico heterogêneo: de um lado, apoia-se nos postulados da lógica formal; de outro, fundamenta-se no referencial teórico das ciências cognitivas e das ciências linguísticas. Conforme o próprio autor assinala, essa é uma abordagem necessariamente interdisciplinar que encontra dificuldades em se inserir entre as clássicas correntes da linguística (Vignaux, 1988).

Essa escolha teórica híbrida justifica-se, segundo o autor, pelo fato de que a lógica lhe oferece ferramentas para descrever somente o modo como se formam os

97 Para mais informações, confira: Ducrot, O. (1993). Les topoï dans la “Théorie de l’argumentation dans la langue”. In : Plantin, C. (Org.) (1993). Lieux communs, topoi, stéréotypes, clichés. Paris: Éditions Kimé.

raciocínios ditos naturais. Para o autor, isso não é suficiente. Ele quer compreender também quais são os processos cognitivos que estão subjacentes ao funcionamento da linguagem. Dito de outra forma, ele pretende investigar como a linguagem pode constituir “um “sistema” efetivamente portador de regras mas também de manipulações dessas regras, umas impostas (a gramática, a sintaxe), e outras oferecidas à liberdade de cada um, conforme o discurso que ele deseja produzir”98 (Vignaux, 1988, p. 6). Além das ciências cognitivas, o autor destaca que a linguística, através dos trabalhos de Culioli, também contribuiu de forma decisiva no desenvolvimento do MCA. Desse modo, sua proposta teórica foi formulada embasando-se em três domínios – enunciação, argumentação e cognição – que atuam conjuntamente e podem, portanto, ser investigados como domínios complementares.

Tomando como ponto de partida o fato de que não se pode conceber a atividade da linguagem sem tratar dos processos cognitivos que estão subjacentes a ela, Vignaux dedica-se a formular um modelo teórico da argumentação em que dois planos da atividade da linguagem, o linguageiro e o cognitivo, são identificados, descritos e analisados. Consciente da estreita imbricação que existe entre esses dois planos, o autor esclarece que o linguageiro remete à verbalização do discurso, ou seja, à fala propriamente dita; enquanto que o cognitivo remete aos processos mentais de esquematização e de representação. Através desses processos, adquirem-se, elaboram-se e organizam-se mentalmente conhecimentos e informações (linguísticas, culturais, históricas e sociais) sobre o mundo em que se vive. As percepções armazenadas no e pelo cognitivo servem de referência para o modo como se categoriza a realidade na e pela linguagem.

Existe uma relação de complementaridade entre os dois planos: enquanto o cognitivo, pertencente à ordem do pensar, tem a função de “designar [...] a forma interiorizada que vão tomar nossas representações das “realidades” do mundo, bem como, os meios, as “estratégias” pelas quais nós vamos proceder para construirmos essas representações”99 (Vignaux, 1988, p. 166); o linguageiro, pertencente à ordem do expressar, é o único, “entre todos estes meios (percepções físicas, auditivas,

98 un “système”, effectivement porteur de règles mais aussi, de manipulations de ces règles, les unes imposées (la grammaire, la syntaxe), d’autres offertes à la liberté de chacun, selon le discours qu’il souhaite produire.

99 désigner [...] la forme intériorisée que vont prendre nos représentations des “réalités” du monde en même temps que les moyens, les “stratégies” par lesquelles nous allons procéder pour nous construire ces représentations.

visuais), [capaz de] “colocar em forma” e sobretudo de assegurar sua transmissão e manipulação simbólica”100 (Vignaux, 1988, p. 166).

Na realidade, os dois planos convergem para nos representar o mundo, para esquematizá-lo e, principalmente, para comunicar este modo de apreender e de categorizar a realidade. Isso acontece porque toda atividade de linguagem implica uma atividade cognitiva de representação dos acontecimentos e/ou de objetos do mundo que, por sua vez, se configura em forma de esquemas, isto é, de pequenas imagens do mundo, de micro-universos. A representação pode ser compreendida como um modo de estruturação e de desenvolvimento dos conhecimentos de mundo. Essa é uma noção que, segundo Vignaux, é “indissociável daquela de “comunicação” no sentido de “ação simbólica” sobre o mundo e sobre outrem”101 (Vignaux, 1988, p. 207). Em sua essência, uma representação sempre visa a “assegurar a relação entre dois sistemas de objetos reais ou mentais, um representando o outro”102 (Vignaux, 1988, p. 207). Nesse sentido, construir a

representação de um objeto significa então “figurar de forma estruturada uma certa

“ideia” ou “forma” [desse objeto que está sendo representado], de forma a poder, em seguida, memorizá-lo, manipulá-lo, evocá-lo, transmiti-lo”103 (Vignaux, 1988, p. 206-

207). À medida que uma representação é construída, constrói-se também uma

esquematização, isto é, uma figura reduzida do mundo, um micro-universo “coerente

e estável apresentado ao interlocutor como uma imagem da realidade”104 (Plantin,

2005, p. 31).

A presença e a atuação destes dois planos, cognitivo e linguageiro, e de suas operações (de representação e de esquematização), no processo de produção de qualquer tipo de discurso, não pode ser contestada. Mas qual é, afinal, a relação que se estabelece entre esses planos e os textos argumentativos? Para Vignaux (1988), o discurso constitui um lugar de formulação e de projeção de visões de mundo. O discurso é o espaço em que as relações entre palavras e entre frases constroem, a cada enunciação, um modo diferente de apreender a realidade, de representá-la e

100 parmi tous ces moyens (perceptions physiques, auditives, visuelles), [capaz de] “mettre en forme” et surtout d’en assurer transmission et manipulation symbolique.

101 indissociable de celle de “communication” au sens de “l’action symbolique” sur le monde et sur autrui”.

102 assurer la relation entre deux systèmes d’objets réels ou mentaux, l’un représentant l’autre. 103 “figurer” de façon structurée, une certaine “idée” ou “forme” [deste objeto que está sendo representado] de façon à pouvoir ensuite le mémoriser, le manipuler, l’évoquer, le transmettre.

104 Discours qui construit un monde cohérent et stable, présenté à l’intrlocuteur comme une image de la réalité.

de verbalizá-la. A cada enunciação, portanto, um novo esquema de significações e de representações, um novo microuniverso conceitual é expresso.

Nessa perspectiva, Vignaux (1988) acredita que todo o discurso pode ser visto como argumentativo, no sentido que ele traduz a necessidade de um sujeito de expressar e/ou verbalizar uma visão de mundo, isto é, um modo individual de perceber e de categorizar a realidade. Para o autor, toda a argumentação, ao expor um ponto de vista, uma opinião ou uma tese, expressa uma visão de mundo pessoal, um modo subjetivo de perceber a realidade e de enunciá-la.

Em conformidade com seus pressupostos teóricos, o MCA propõe que a análise dos discursos argumentativos deva, necessariamente, levar em consideração tanto o plano cognitivo como o linguístico. Para proceder a esse tipo de investigação, é preciso segmentar o texto em proposições, unidades mínimas de sentido, e reconhecer os argumentos do discurso na ordem em que são expressos, respeitando os seus encadeamentos. Após a segmentação, configura-se um plano que possibilita a construção de um esquema de pensamento e de discurso. A análise efetua-se, segundo o autor, através da manipulação de quatro tipos de objetos compostos e modulados conforme um “circuito argumentativo” que, à semelhança do quadro semiótico, estabelece as devidas ligações entre esses objetos-chave do discurso investigado.

Ao longo deste capítulo, percorrendo a história da argumentação e conhecendo algumas das teorias e/ou modelos de descrição e de análise dos discursos argumentativos, constatou-se que a argumentação é, de fato, um fenômeno complexo de difícil apreensão. Ela apresenta-se como um modo de organização do discurso que se configura sob diferentes formas, desempenha diferentes funções e envolve diversas situações enunciativas. A reflexão desenvolvida, no decorrer deste capítulo, possibilitou compreender que a heterogeneidade característica a esse domínio de produção da linguagem deve-se, sobretudo, a seu caráter multifacetado. Isso viabiliza o desenvolvimento de investigações interdisciplinares.

O exame de diferentes teorias foi movido pelo desejo de encontrar aquela que melhor se adaptasse à análise do corpus deste estudo. Cumpre lembrar que esta pesquisa pretende investigar as diferenças e semelhanças retóricas entre sistemas linguístico-culturais distintos. Desse modo, a partir do que foi exposto neste capítulo, decidiu-se eleger a proposta de Perelman e Olbrechts-Tyteca (2002) como

referencial teórico de base às análises empreendidas nesta pesquisa. No entanto, é preciso destacar que as outras propostas podem, eventualmente, ser empregadas para complementar e enriquecer as análises e reflexões acerca do material linguístico investigado.

Apresentando-se como um fenômeno em constante evolução histórica, social e temporal, a argumentação pode ser descrita pela sua dinâmica e pela sua adaptabilidade. São justamente essas características que me fazem acreditar que nem todas as questões referentes à argumentação foram respondidas, visto tratar-se de um fenômeno que frequentemente se renova e se atualiza. Essa atualização parece ocorrer em sincronia com a atualização dos sistemas linguísticos que articulam e enunciam a argumentação. Desse modo, acredito que, observando o mesmo objeto – a argumentação – sob perspectivas distintas, reúno mais subsídios para descrevê-lo, analisá-lo e interpretá-lo. Enfim, disponho de mais recursos para formular respostas a estas questões que também se renovam e se atualizam.

DELIMITAÇÕES TEÓRICAS

O locutor, mais ou menos consciente das imposições e da margem de manobras que lhe propõe a situação de comunicação, utiliza algumas categorias da língua

que ele ordena nos modos de organização do discurso para produzir sentido, através da produção de um Texto.105 (Charaudeau)

O processo de produção textual é resultado da interação de componentes tanto de ordem linguística como de ordem psicossocial. De fato, toda produção textual tem como ponto partida um elemento externo à linguagem: a situação de comunicação. Da ordem do psicossocial, ela é definida por Charaudeau(1992, p. 635), como “o lugar em que se constrói um contrato de troca linguageira, em função da identidade dos parceiros, e das intenções comunicativas do sujeito falante (o

Projeto de fala)”106.

Esse contrato, estabelecido entre os sujeitos envolvidos na situação enunciativa, impõe determinadas restrições às produções textuais. Essas restrições, segundo Charaudeau (1992), são de ordem linguística. Elas guiam as escolhas do locutor sobre o modo de organização de seu discurso107 e sobre as categorias da

língua108 que serão empregadas na formulação do texto. Em outras palavras, esse

contrato determina os princípios de organização textual em função dos objetivos da enunciação e seleciona o material verbal, estabelecendo a ordem em que ele é enunciado. Nessa perspectiva, organizar um texto, tanto oral como escrito, implica observar não só o que se enuncia, mas também para quem, onde e quando se enuncia.

Consciente da legitimidade da proposta de Charaudeau acerca do processo de produção textual, adaptei e apliquei sua reflexão ao contexto deste trabalho. Meu propósito é refletir sobre alguns elementos que, direta ou indiretamente, estão envolvidos na elaboração de diferentes textos, como, por exemplo, gêneros do discurso, estilo e ethos. O êxito de uma produção textual parece estar vinculado ao

105 Le locuteur, plus au moins conscient des contraintes et de la marge de manoeuvre que lui propose la situation de comunication, utilise certaines des catégories de la langue qu’il ordonne dans des modes d’organisation du discours pour produire du sens, à travers la mise en forme d’une Texte. 106 le lieu où se construit un contrat d’échange langagier, en fonction de l’identité des partenaires, et des intentions communicatives du sujet parlant (le Projet de parole).

107 Segundo Charaudeau (1992), existem quatro modos distintos de organização do discurso: o enunciativo, o descritivo, o narrativo e o argumentativo.

108 Segundo Charaudeau (1992, p. 634), as categorias da língua podem ser descritas como o “material verbal estruturado em categorias lingüísticas que tem às vezes, e de forma consubstancial, uma forma e um sentido”.

modo como a situação enunciativa se constrói em função da identidade dos parceiros e em função das intenções comunicativas do falante e do modo como elas são expressas na superfície discursiva.

Desde a Grécia Antiga, tem-se destacado a importância dos gêneros do discurso e das imagens que o enunciador constrói de si mesmo e do seu enunciatário no processo de produção textual, sobretudo nos textos argumentativos. Em seu célebre sistema retórico, Aristóteles destaca que, no plano da inventio, além de selecionar o gênero do discurso, o orador tem de encontrar os argumentos que vão embasar a sua persuasão. Esses argumentos são o ethos, o pathos e o logos, que remetem, respectivamente, aos elementos fundamentais em uma produção argumentativa: o orador, o auditório e o discurso (aquilo de que fala o orador). Conhecendo a relevância desses elementos na elaboração de textos dissertativo- argumentativos, selecionei como objeto de reflexão a questão dos gêneros do discurso e a noção de ethos (e, por extensão, a noção de estilo e de enunciador).

Fundamentado principalmente nos trabalhos de Bakhtin (2003) e de Amossy (2005), o presente capítulo apresenta uma reflexão sobre a questão dos gêneros do discurso, sobre a noção de estilo, sobre a construção do ethos e sobre o grau e modo de presença do enunciador em sua enunciação. O objetivo é compreender as especificidades de um conjunto de elementos inerentes a toda produção textual e que, no caso das produções dissertativo-argumentativas, têm uma função primordial: servir de prova e contribuir na organização e na expressão das estratégias retórico- argumentativas engendradas para convencer e persuadir o enunciatário.