No Compromisso da Irmandade surge -nos bem explicitado o motivo pelo qual, em 1602, nove pintores (cinco de modalidade de óleo e quatro de moda- lidade de têmpera) resolveram criar uma confraria de mester: «Considerando os pintores desta cidade a muita obrigação que a este Santo e Mestre seu [S. Lucas] têm por os deixar ser seus agentes e fazer despenseiros destes divinos retratos
reais, ordenarão fazer esta Irmandade de invocação de Nossa Senhora do Pópulo
e do glorioso S. Lucas, não somente pera si, mas também pera os que professão a arte do debuxo» (Teixeira, 1931: 40). Também pelo citado documento, somos informados acerca da composição e Direcção da mesma, à qual podiam per- tencer: «os pintores todos assim de óleo como de tempera, arquitetos, escultores, iluminadores ou outras quais quer pessoas que professarem debuxo que quiserem ser irmãos, contando que sejam conhecidos por pessoas de boas consciências.» É esta abertura a todos os que professassem debuxo, a razão pela qual encon- tramos artistas que se dedicaram maioritariamente a outros ofícios como sejam por exemplo os da Arquitectura/Engenharia Militar (Sebastião Elias Pope, Eugénio dos Santos de Carvalho), da Escultura (Manuel Andrade, Manuel da Costa e Francisco da Mata), da Iluminura (Luís Nunes Tinoco), da Ourivesaria (João Frederico Ludovice), da Gravura (João Baptista, Gaspar Fróis de Machado, Eleutério Manuel de Barros), da arte da Impressão (Pascoal da Silva). Uma última palavra para os letrados da Academia dos Generosos (o P.e Jorge Cardoso, autor do Agiológio Lusitano e António Serrão de Cas-
tro, autor dos Ratos da Inquisição); para os Religiosos (o P.e António Madeira,
o Arcediago José Antunes da Costa, o Cónego Manuel Martins da Rocha, o P.e Francisco de Miranda Teixeira e muitas freiras do Convento da Anun-
ciada que não seguem discriminadas); para a Nobreza titulada (a Duquesa de Aveiro, D. Maria de Guadalupe, o Correio -Mor do Reino, D. Tomás Nápo- les de Noronha, a Condessa de Ericeira, os Duques de Lafões). Todo o mais são pintores de formação. Nunca será demais enfatizar que a Irmandade de S. Lucas é a associação de pintores, independentemente do medium utilizado para a expressão da sua arte. Por consequência, nesta mais vasta categoria
artística se incluem os pintores de cavalete (a óleo), além dos que se dedica- ram a outras modalidades como seja a têmpera, a pintura de azulejo, a pin- tura a fresco, a iluminação, o desenho, etc.
Os pintores tinham bem consciência desse estatuto, orgulhosos que estavam, desde 1612, do título de Arte Liberal reivindicado para a sua arte. O documento do «pleito entre Miguel da Fonseca e a Câmara do Porto» publi- cado por Vítor Serrão vem ilustrar o apego à sua matriz de formação. Este pintor, executante das modalidades de óleo, imaginária, de têmpera e de dourado apresentou, em 1622, uma petição de agravo solicitando a liberta- ção da nova provisão da Procissão do Corpo de Deus. Nela justificava a escusa desse encargo ao Rei Filipe II de Portugal porque «além de pintor de ollio e ima- ginária dourava e estofava... contudo bastava ser pintor de olleo e imaginaria pera que nello prevalecesse a que era mais digna e mais nobre» (Serrão, 1983: 278, sublinhado nosso). Também um documento seiscentista da Biblioteca da Ajuda corrobora o que dissemos. Trata -se de uma relação dos ofícios subor- dinados ao Provedor de Obras do Paço da Ribeira, na qual existe uma reco- mendação para que «o pintor de óleo se pode escusar em o pintor de tempera e quando necessário faça a obra o melhor e o mais barato», o que significa que a polivalência era uma contingência obrigatória no processo criativo.22
Que a separação entre modalidades de pintores a óleo e têmpera exis- tia, não temos dúvida desse facto, mas receamos que seja apenas no papel. Se observarmos atentamente o Capítulo 22 do Compromisso, a propósito das eleições, verifica -se que a alternância entre modalidade a óleo e têmpera foi, estatutariamente, assegurada «pera quietação da Irmandade e não haver dife- renças em as eleições dos juízes delas, as quais se farão em a Anunciada... orde- narão que fosse um ano juiz da confraria pintor de óleo e outro ano de têmpera, e assim serão sempre alternatim...» (Teixeira, 1931: 48). No entanto, pela aná- lise da documentação e da experiência que tivemos em organizar a lista das Mesas, esta obrigatoriedade de alternância afigura -se impossível de compro- var. A razão não está tanto na desorganização existente do processo eleitoral e o cumprimento do calendário do ano do Santo patrono. Com efeito, as elei- ções deveriam ser realizadas todos os meses de Outubro «até o Domingo antes do dia do Glorioso S. Lucas», mas ao longo do século Xvii e também na centú- ria seguinte, vemos Mesas a prolongarem a sua vigência ou a tomarem posse
22 Biblioteca da Ajuda, Cód. 51 ‑IX ‑3 «E o medidor que passa as çertidoes das empreitadas seja de pedreiro será
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ORGÂNICA E FUNCIONAMENTO DA IRMANDADE DE S. LUCAS
em Janeiro ou Junho do ano seguinte. Os falecimentos de irmãos em funções (ex. Tomé da Costa Resende em 1666), a desistência do lugar ocupado por surgimento de encomendas (talvez o caso de André Reinoso), a substituição de funções (no caso de escrivães e procuradores, razão pela qual às vezes sur- gem dois nomes numa Mesa), os desentendimentos no seio da Irmandade (o destratamento de José Ferreira de Araújo em 1705 -06) são tudo vicissitu- des da vida pessoal e profissional dos pintores que nos ajudam a entender as mudanças face aos ciclos eleitorais. A razão de não conseguirmos compro- var o alternatim reside sobretudo na multiplicidade de modalidades às quais os pintores se dedicavam.
Tentámos fazer o exercício de entender se existia essa alternância, mas deparámo -nos com imensas dificuldades. Na verdade, a lista da composição das Mesas não inclui toda a década de 30 do século Xvii por estar incom- pleta. Na década de 40, por exemplo, o juiz José de Avelar Rebelo (1643 -44) assegurou que modalidade: a de pintor de têmpera (ou a fresco que sabe- mos ter cumprido para o Paço da Ribeira) ou a de óleo (uma vez que pintou o retrato de D. João IV e os caixotões do tecto da Igreja dos Mártires (? ). Para o ano seguinte, surge -nos a dificuldade de não termos a eleição de 1644 -45. O ano de 1645 -46 funcionou sob a direcção de António Pereira, o pintor de óleo e de têmpera dos Mestrados das Três Ordens Militares? (Serrão, 1983: 335). Qual a modalidade que representava nesse ano?
Verificamos as mesmas dificuldades para o final do século Xvii. A Mesa de 1681 -82 teve como juiz Félix da Costa, pintor de têmpera (também pin- tor a óleo no género de retrato). No ano seguinte, Miguel Mateus de Carde- nas assegura os destinos da Mesa. A agravar esta nossa análise, deparamo- -nos com outra circunstância relacionada com a repetição do cargo de juiz por vários mandatos. Por exemplo, as Mesas de 1664 -65 e 1665 -66 são presi- didas pelo mesmo juiz, Manuel de Lima Flores; as de 1683 -84 e 1684 -85 repe- tem também presidência, desta vez pelo pintor de têmpera Francisco Ferreira de Araújo. O mesmo acontece com o pintor Luís Gomes Falcato, juiz entre 1690 e 1692 sucessivamente. No século Xviii, a questão também se coloca e por isso vemos António Lobo a desempenhar as funções de juiz por três anos consecutivos e Brás de Oliveira Velho foi juiz durante quatro.