Os dois grupos realizados com profissionais de nível universitário consideraram o apoio da rede precário, mas se referiram a problemas diferentes. Os profissionais do grupo “Cuidado Cuidadoso” relataram que a rede da cidade é composta por: CAPS ad e CAPS i, UPA e ambulatório, com os quais consideram mantêm um bom contato. Destacaram, também, que no município há uma comunidade terapêutica, mas que não consideram que ela faça parte da rede de saúde.
A citação abaixo explicita bem o que os profissionais do grupo “Cuidado cuidadoso” falaram sobre o trabalho das unidades de ESF em relação ao cuidado com a pessoa com doença mental.
Quando a gente freqüentava as unidades da ESF os médicos diziam “eu não
me sinto seguro para atender um paciente de início, eu prefiro que vá ao psiquiatra que seja avaliado. O psiquiatra analisa e avalia e depois já me encaminha sob controle para eu dar continuidade”. Mas o que observamos
é que eles nem tentam atender, o que acaba gerando essa fila [referência a fila de espera de 42 pessoas para o atendimento no ambulatório de psiquiatria]. Mas é importante ressaltar que quando damos alta não encaminhamos o usuário diretamente para a Casa Azul e sim para a Estratégia da Saúde da Família (ESF). Contudo, gostaríamos que nosso usuário ao receber alta daqui do CAPS fosse acompanhado na Casa Azul
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pacientes” (Trecho da segunda narrativa do grupo de profissionais de nível
universitário do CAPS II).
Para esses trabalhadores, faltam parcerias também com o CRAS, NASF, corpo de bombeiros e polícia militar. Criticaram o NASF, frisando que não conhecem o trabalho feito pelos apoiadores. Relataram ainda que é comum referência à AB e NASF como programas diferentes: “é um vicio que temos aqui em Esplendor, aqui falamos „Atenção Básica e NASF‟. Achamos que esse erro vem da nossa dificuldade de „entender esse NASF dentro da Atenção
Básica‟. Aqui no município não há uma união dos dois, o que é um ponto ruim”.
Os profissionais do grupo “É uma luta” por sua vez destacaram como positivo o contato deles com a ESF. Disseram que a equipe entende que o paciente “não é do CAPS, ele
é do município, é da ESF, ele é do SUS.” Ponderaram, ainda, que sempre que é necessário, o
Pronto Atendimento (PA) atende os pacientes que necessitam de um cuidado mais urgente de saúde mental ou que estão em crise. Ressaltaram que com toda a limitação da cidade, a equipe do CAPS usa a criatividade: “O importante é ter uma boa rede de apoio, se temos uma boa
rede de apoio e temos uma boa conduta à gente consegue agir”.
Contudo, os profissionais do grupo “É uma luta” apontaram como dificuldade da rede o cuidado às crianças e adolescentes e aos usuários de crack, álcool e outras drogas. O CAPS i e o CAPS ad de referência ficam em dois outros municípios, o que dificulta esse cuidado. No caso do CAPS i, cuja distância é de 81 km, esse problema se agrava. Eles observaram que essa rede, às vezes, é controversa e que o usuário acaba mesmo ficando “igual uma bola de
pingue pongue”. Como exemplo, citaram “um caso de um adolescente encaminhado para um CAPS ad e eles dizem que não atendem adolescentes, tem que ir pro CAPS i. Chega ao CAPS i e dizem que ele é de CAPS ad porque é usuário de drogas”.
Outra questão diretamente relacionada à rede assistencial diz respeito à atenção à crise. Esta foi tratada em todos os grupos, mas não em relação ao que representa, e sim sobre a importância de se manter ou não os leitos em hospitais psiquiátricos e de contar com leitos psiquiátricos em hospitais gerais. Os profissionais dos grupos “Cuidado cuidadoso” e “É uma luta” destacaram a importância de tais leitos, enfatizando que a internação ainda é uma realidade necessária, porque em alguns casos o CAPS “não tem mais o que fazer”.
Em relação à internação psiquiátrica em casos de crise os profissionais do grupo “É uma luta” disseram:
Quando não conseguimos dar conta da crise no município enviamos para internação psiquiátrica em Belo Horizonte, um fluxo que está cada vez mais limitado. Infelizmente a internação ainda é uma realidade necessária. “Esse envio às vezes ele é inevitável, porque não é só em decorrência da patologia em si, decorre de toda uma estrutura social que muitas vezes esse usuário não tem. Familiar, social, financeira que não existe”. Precisamos continuar internando (Trecho da primeira narrativa do grupo de profissionais do CAPS I).
O grupo “Cuidado cuidadoso” ficou divido em relação ao hospital psiquiátrico, alguns profissionais consideraram-no inviável, outros acharam que não.
Quando o assunto é a atual proposta de saúde mental brasileira, nossa equipe se divide. Uns acreditam que o hospital psiquiátrico é inviável, outros pensam que não. Nós concordamos que o hospital psiquiátrico necessita ser
86 remodelado, deve ser diferente do que é oferecido hoje, mas não tem como acabar com eles. Uma parte de nós acredita que não podemos fechar os olhos e ver que, em alguns momentos, necessitamos internar. Tem alguns cuidados que nosso serviço não dá conta. (Trecho da primeira narrativa do grupo de profissionais de nível universitário do CAPS II).
Os profissionais desse mesmo grupo citaram que as últimas internações encaminhadas pelo serviço não foram boas. Lembraram de uma usuária que ficou internada por mais de 4 meses e não voltou bem.
É um caso que tem uma ou outra questão que a gente não está intervindo que é uma questão importante na doença dela, no sofrimento dela. Porque nem o hospital conseguiu e é uma paciente que eles optaram por sessões de eletro choque e tudo. Na primeira internação, o hospital entrou em contato e disse que iria “devolvê-la” porque já não havia mais o que fazer com ela. Em menos de quinze dias ela foi internada novamente (Trecho da primeira narrativa do grupo de profissionais de nível universitário do CAPS II). Segundo esse grupo, mesmo quando o usuário volta bem, ele traz no seu discurso a clareza de que não quer voltar para o hospital, explicitando a preferência pelo tratamento no CAPS