Definido o objeto e os objetivos desta pesquisa o método escolhido para a realização da mesma foi o qualitativo, sendo que o referencial teórico-metodológico no qual será embasada será pertinente ao campo da hermenêutica Gadameriana e do paradigma construtivista.
A história do método qualitativo – compreensivos - interpretativos – data do final do século XIX com a ideia de criar as Ciências do Homem. O seu surgimento derivou-se uma contenda histórica entre positivistas e a sociologia compreensiva sobre a identidade científica e metodológica no campo das ciências sociais, tendo como um dos seus principais expoentes Wilhelm Dilthey (TURATO, 2003; DESLANDES, 2008). Dilthey, em sua obra Introdução às Ciências do Espírito, questiona o positivismo, afiançando que os “fatos humanos não são suscetíveis de quantificação e objetivação porque cada um deles tem sentido próprio e identidade peculiar” (MINAYO, 2008, p.96).
Minayo (2008) aponta que as metodologias de pesquisa qualitativas são aquelas: Capazes de incorporar a questão do SIGNIFICADO e da INTECIONALIDADE como inerentes aos atos, às relações, e às estruturas
sociais14, sendo essas últimas tomadas tanto no seu advento quanto na sua transformação, como construções humanas significativas (p. 22).
O método qualitativo vai de encontro ao paradigma construtivista. Guba e Lincoln (2011) definem paradigma como: “sistema de crenças básico, um conjunto de suposições que estamos dispostos a fazer, que sirvam como critério para orientar nossas atividades” (p.91). Para esta pesquisa foi escolhido o paradigma construtivista.
O paradigma construtivista surgiu há várias centenas de anos, contudo, foi a apenas há algumas décadas que ele emergiu com um importante antagonista ao paradigma convencional, ou positivista. A principal característica do paradigma construtivista “é a suposição de que as realidades, certamente as realidades sociais/comportamentais, são construções mentais” (p.18). O investigador construtivista parte da premissa de que existem diferentes realidades socialmente construídas e, estas construções são idealizadas pelas pessoas quando tentam dar sentido às suas experiências, valores e conhecimentos prévios. Este paradigma acredita que é impraticável separar o investigador do investigado, sendo a interação entre eles que cria o material empírico que surge da investigação (GUBA & LINCOLN, 2011).
No paradigma construtivista a pergunta metodológica é respondida com a asseveração de que a pesquisa deve ser realizada de uma forma que exponha as construções dos interessados, onde há possibilidade de crítica em relação à outras construções e crie chances para construções revistas ou inteiramente novas, numa metodologia hermenêutica (GUBA & LINCOLN, 2011).
O referencial teórico no qual esta pesquisa será embasa será a hermenêutica gadameriana. A palavra hermenêutica deriva de Hermes – o Deus grego que traduzia as
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70 mensagens do Olimpo para os mortais. Surgiu no Século XVII quando o teólogo Johann Conrad Dannhauer o criou para denominar o que antes era chamado de Auslegungslehre ou a arte da interpretação. Assim, a hermenêutica surgiu como um método para ajudar a interpretar os textos sacros (ONOCKO-CAMPOS, 2008; GRONDIN, 2012).
Após Dananhauer outras pessoas se empenharam em pensar sobre a hermenêutica. Pode-se destacar: Schleiermacher (1768-1834), Wilhelm Dilthey (1833-1911) e Martin Heidegger (1889-1976). Schleiermacher dedicou-se a exegese dos textos bíblicos, das obras clássicas da filosofia, como também de textos jurídicos, formando assim uma única ciência e arte da compreensão em geral (ONOCKO-CAMPOS, 2008; GRONDIN, 2012).
Dilthey – no século XIX – tentou elevar a hermenêutica ao método de entendimento das ciências humanas em sua totalidade. Contudo, ele sucumbiu à uma concepção da verdade próxima a da metodologia das ciências da natureza, o que desautoriza todo envolvimento da subjetividade na investigação (GRONDIN, 2012).
Heidegger – no século XX – levou a hermenêutica à uma virada existencial, a partir da qual ela deixou de ser entendida de maneira técnica, normativa e metodológica. Heidegger foi o responsável pela transformação filosófica da hermenêutica, com ele, esta muda seu objeto e deixa de refletir “sobre os textos ou sobre as ciências interpretativas” para refletir sobre a própria existência (GRONDIN, 2012, p.38). Apesar disso, foi Hans-George Gadamer (1900- 2002) com sua obra “Verdade e Método” que levou a Hermenêutica ao centro dos debates filosóficos. Com Gadamer a Hermenêutica se torna uma filosofia universal da interpretação e das ciências humanas. Seu alvo inicial é explicar a questão da verdade nas ciências humanas propondo a concepção participativa do entendimento, o que constitui a primazia do que ele chamou do o “problema hermenêutico” (GRONDIM, 2012).
Para Gadamer (2008) o problema hermenêutico surge do reconhecimento da importância dos preconceitos para a compreensão. Para a hermenêutica gadameriana, o intérprete não é obrigado a se livrar dos preconceitos acumulados durante a vida, pois entende-se que a tradição, a historicidade, não é algo externo, da qual o indivíduo possa se livrar.
Gadamer (2008) aponta que esse retorno no tempo permite ao indivíduo fazer a seleção entre os bons e os maus preconceitos. Nesse sentido, o autor enfatiza que a condição da hermenêutica para a compreensão é identificar o pertencimento a uma tradição, de modo que “é preciso compreender o todo a partir do individual e o individual a partir do todo” (p.385). Quando acontece a compreensão o “círculo do todo e das partes não se dissolve” (p.388) alcançando assim, um entendimento mais verdadeiro.
A fusão de horizontes é um princípio importante para a hermenêutica. Trata-se de uma busca de contato com outro horizonte, que pode ser: pessoa, cultura, época lugar e/ou experiência. Nesse processo, não se supõe que eu e o outro tornem-se os mesmos, temos nossa singularidade, mas podemos viver um comum compartilhando momentos lingüísticos nos mais diferentes níveis. Esses encontros criam nossas experiências em comunidades e ampliam nossa realidade de modo infinito, para além de nossas fronteiras corporais e de nossa experiência temporo-espacial (AYRES, 2008). Note-se que a fusão de horizontes impele-nos, necessariamente, a sair do lugar onde nos situamos antes do trabalho hermenêutico, ou seja, produz mudanças, gera conhecimento.
Esse processo de fusão de horizontes se faz a partir da linguagem, pois esta, resulta dos acordos entre as pessoas, é a nossa maneira de participar do mundo. É através dela que nos constituímos, na medida em que somos falados pelo outro e com ele falamos, em movimentos dialógicos (AYRES, 2008).
71 A partir dessa compreensão da linguagem, a hermenêutica propõe que a compreensão é participativa, comunicativa e dialógica (DENZIN & LINCOLN, 2006). Para a hermenêutica no desenrolar de um diálogo o sujeito que responde a pergunta está aceitando dois pressupostos. O primeiro é de que a pergunta é digna de reposta e de que consegue acrescentar-lhe algo. O segundo é de que se existe diálogo é porque nenhuma das partes está de posse de uma compreensão irrefutável (AYRES, 2008).
Gadamer (2008) aponta que no diálogo hermenêutico a pergunta tem prioridade. A pergunta é o que nos impulsiona em direção ao outro. O princípio hermenêutico da primazia da pergunta nos mostra que a instância que causa a busca pela verdade vem expressa na forma de uma questão originária. Questão essa que vem da tradição, que surge dos nossos preconceitos, que nos faz buscar a fusão de horizontes e nos convida ao diálogo. Não há outra forma de saber se não perguntar e estar disposto a ouvir as respostas.
Entender nossos preconceitos nos leva a interromper a sua validade. Gadamer aponta que a forma coerente de realizar essa interrupção é transformar nossas crenças e pressupostos em perguntas. Compreender pressupõe elaborar o que nos incomoda em questões. Questões essas que – no caso de nossa pesquisa – possibilitaram elaborar o roteiro dos grupos focais (ONOCKO-CAMPOS, 2008).
Para hermenêutica o intérprete é uma pessoa comprometida em uma análise crítica ou elucidação de um texto. A hermenêutica filosófica defende que a compreensão não deve ser um trabalho circunspecto por métodos ou por normas, sendo, isso sim, uma condição do ser humano. Sendo pautada pela revisão dos preconceitos e pelo diálogo com o outro ou o texto, a “compreensão é a interpretação” (DENZIN & LINCOLN, 2006, p. 198).
A tradição que nos embasa para o desenvolvimento desta pesquisa são os conceitos de: atenção psicossocial de Costa-Rosa (2000, 2003), Amarante (2007) e Alves e Guljor (2004), de reabilitação psicossocial proposto por Saraceno (2001) e de clínica ampliada proposto por Campos (2007). Tratam-se de conceitos já trabalhados no corpo do referencial teórico.
Os preconceitos que me moveram para a realização desta pesquisa surgiram das questões que foram me incomodando no decorrer da minha carreira como profissional de saúde mental. Os principais são: acreditar que não basta abrir um serviço do tipo CAPS para ter a certeza de que ele trabalha dentro do paradigma da atenção psicossocial e da reabilitação psicossocial; a consideração de que para a efetivação da RPB como política de governo e dos CAPS como dispositivos estratégicos da atenção, não podemos sustentar a máxima de que o “melhor hospital psiquiátrico é pior do que o melhor CAPS”, porque não pode existir comparação entre o cuidado realizado nos dois serviços – manicômio e CAPS; e, finalmente, a aposta de que o cuidado em saúde mental deve ser articulado com o território e pautado na desinstitucionalização e na reabilitação psicossocial.