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3. METODOLOGIA

4.2 ORIENTAÇÕES EDUCACIONAIS COMPLEMENTARES AOS

CÓDIGOS E SUAS TECNOLOGIAS)

As Orientações Educacionais Complementares aos Parâmetros Curriculares Nacionais - PCN+ (2002) - neste caso específico, as que tratam da área de Linguagens, códigos e suas tecnologias - é um documento que contêm recomendações complementares aos PCNEM, idealizado pelo MEC. Tal documento divide-se em oito capítulos, entre os quais discute questões de reformulação do EM, as competências, habilidades e conceitos estruturantes da área de linguagens, formação do professor e papel da escola, além de um capítulo para cada disciplina correspondente a área (língua portuguesa, língua estrangeira moderna, educação física, arte e informática). Vamos nos deter nos conceitos expostos na parte do documento que traz questões acerca do ensino de língua estrangeira moderna.

Logo na introdução do capítulo, que trata da área de Língua Estrangeira Moderna, o documento afirma que: “O processo de aprendizagem de uma língua estrangeira envolve obrigatoriamente a percepção de que se trata da aquisição de um produto cultural complexo” (BRASIL, 2002, p. 93). Percebe-se, assim, que a visão de cultura que esses parâmetros carregam é a de cultura como produto. Tal conceito aponta que além da apropriação de um bem cultural, ao estudarmos uma língua estrangeira passamos a conhecer bens culturais subjacentes a ela.

O documento afirma que é através da língua que seus usuários, passam a ter um instrumento com o qual podem relacionar as outras disciplinas do currículo escolar a um conhecimento específico (neste caso, o estrangeiro).

Dessa forma, almeja-se no EM um trabalho interdisciplinar, que articule os conhecimentos trabalhados em língua estrangeira com outras disciplinas do

currículo escolar, assim como indicado nos PCNEM, documento anterior aos PCN+.

Sustenta também que o foco de aprendizado da língua estrangeira no EM é a função comunicativa, conceito no qual estão inseridas as premissas de trabalho com as habilidades de fala, escrita, escuta e leitura. Entretanto, é explícito ao afirmar que é a habilidade de leitura que necessita receber maior atenção por parte do professor no momento de ensino-aprendizagem de língua estrangeira. Observamos tal afirmação no trecho que segue:

(...) o foco do aprendizado deve centrar-se na função comunicativa por excelência, visando prioritariamente a língua estrangeiraitura e a compreensão de textos verbais orais e escritos – portanto, a comunicação em diferentes situações da vida cotidiana. (BRASIL, 2002, p. 94)

Desta forma, saber ler em língua estrangeira é visto como a habilidade principal para um bom desempenho linguístico nas diversas situações que o estudante vivencia e poderá vivenciar, tanto na escola quanto no mundo do trabalho. É pelo fato também do conhecimento estar tão atrelado ao seu uso na vida real que os PCN+ voltam a afirmar a importância do trabalho interdisciplinar, que integre diversas áreas, assim como faz os PCNEM, atribuindo como competência primordial no ensino de língua estrangeira a leitura e o foco do aprendizado na função comunicativa. Salienta que o ensino necessita considerar as diferentes ocasiões do dia-a-dia dos falantes além de situações reais de uso do idioma e que a língua no processo de ensino-aprendizagem não seja composta por sentenças aleatoriamente inventadas e mecânicas.

Logo após uma breve introdução, o documento faz uma contextualização dos conceitos estruturantes e competências gerais que fazem parte da área de Língua Estrangeira Moderna seguindo os três eixos propostos nos PCNEM, que são: Representação e Comunicação, Investigação e Compreensão e Contextualização Sociocultural. Cada um deles descreve conceitos, competências e habilidades de forma sucinta.

O primeiro eixo, Representação e Comunicação, apresenta sete conceitos e três competências e habilidades. Nos conceitos, é indicado o trabalho a partir de questões como o estudo de diferentes linguagens verbais e não verbais; questões de atribuição de sentido às palavras (denotação e conotação) e como tais conceitos podem ser trabalhados tanto na língua materna quanto na língua estrangeira. Outro ponto abordado brevemente é o trabalho a ser realizado com a gramática, descrita no PCN+ (BRASIL, 2002, p.

95) “pelo estudo das leis que regulam um sistema linguístico”, além de serem

“leis reguladoras da comunicação e interlocução”. Não é colocada qual a concepção de gramática a ser seguida, senão estes breves apontamentos descritos acima.

Há também a referência ao trabalho com o texto na língua estrangeira através de diversos gêneros textuais, questões como intencionalidade e articulação de elementos, segundo o objetivo dos falantes. Chama-nos a atenção em especial, quando cita o conceito de interlocução, no qual pondera que o aluno no EM necessita saber “Identificar a diversidade do substrato cultural como determinante dos modos de interlocução é uma das tarefas da disciplina” (BRASIL, 2002, p. 96). Reconhecer e interpretar elementos culturais na língua estrangeira de modo autônomo é uma das metas do ensino- aprendizagem de línguas no EM.

No campo das competências e habilidades do primeiro eixo, são descritas três, sendo elas: 1) utilizar linguagens nos três níveis de competência:

interativa, gramatical e textual; 2) ler e interpretar; 3) colocar-se como protagonista na produção e recepção de textos. Destas, a segunda e terceira competências versam sobre o tratamento a ser dado à habilidade da leitura, tida como a mais importante dentre todas as outras existentes. Fica claro a partir da leitura do documento, que ler necessita ser a principal meta do ensino- aprendizagem de língua estrangeira no EM. Inclusive é indicado o trabalho com algumas técnicas de leitura como skimming, scanning e prediction4.

4Skimming e scanning são técnicas que permitem a leitura superficial e rápida de um texto, permitindo ao leitor a obtenção mais rápida de informações sem que este precise ler cada palavra presente no seu contexto. Prediction é a previsão e antecipação do conteúdo de um

Observamos a importância relegada à habilidade da leitura frente às outras nos trechos que seguem: “A competência primordial do ensino de línguas estrangeiras modernas no ensino médio deve ser a leitura e, por decorrência, a da interpretação” (BRASIL, 2002, p. 97), além de:

Ser leitor ativo, participante dos processos de interlocução falados e escritos, bem como, em menor escala, ser produtor de textos orais e escritos (...). Trata-se da formação do leitor, intérprete e produtor de textos, nessa ordem, capaz de se apropriar do conhecimento e fazer uso autônomo dele.(BRASIL, 2002, p. 97)

No segundo eixo descrito, intitulado “Investigação e Compreensão”, nos são apresentados oito conceitos e sete competências e habilidades. No que diz respeito aos conceitos, são trabalhadas questões de análise textual, suas características e possibilidades, pregando que é objetivo do EM que os alunos consigam compreender a linguagem conforme seu contexto de uso, além de aprimorar a capacidade de analisar e sintetizar um texto, perceber influências de estrangeirismos na língua e como estes passam a integrar o vocabulário.

Fazem alusão também aos aspectos culturais e descrevem como estes fazem parte do papel de construção de identidade linguística, utilizando como exemplo o estudo de provérbios: “O estudo de provérbios também fornece bons índices do processo de correlação, que ultrapassa a questão linguística e é revelador de diferentes culturas e visões de mundo” (BRASIL, 2002, p. 98).

Acabam explicitando como tais fenômenos linguísticos constroem aspectos culturais dos povos nos quais estão presentes. Na medida em que os provérbios expressam valores culturais e formas de ver o mundo de determinadas comunidades, estabelecem uma relação entre língua e cultura.

Nesse sentido, podemos dizer que o documento vê cultura e língua como indissociáveis.

Entre as competências e habilidades, há a afirmação de que a atribuição de sentidos não depende somente de aspectos linguísticos, mas também de aspectos socioculturais. “Identificar manifestações culturais no eixo temporal, texto através da observação do título, figuras, entre outros elementos sem que se inicie sua leitura.

reconhecendo momentos de tradição e ruptura”, e “emitir juízo crítico sobre as manifestações culturais” (BRASIL, 2002, p. 100), são competências que reafirmam a importância da cultura nos processos de constituição e entendimento das línguas. Na primeira, competência descrita, são tratadas questões sobre empréstimos linguísticos, uso de gírias e como estes elementos dão dinamismo às línguas, pois segundo esses parâmetros, a cultura influencia a língua. Já a outra competência faz alusão ao fato de que o ensino de línguas no EM necessita permitir ao aluno que este reflita sobre sua cultura e a do outro, fazendo distinções e procurando similitudes de forma que possa compreender melhor seu entorno.

O último eixo descrito trata de situações diretamente ligadas à cultura e chama-se: Contextualização Sociocultural. São descritos sete conceitos e oito competências e habilidades, dentre as quais, um é nomeado pelo título:

Cultura. Este conceito, afirma ser fundamental ao estudar/ensinar uma língua estrangeira no EM o trabalho através da: “abordagem de aspectos que envolvem a influência de uma cultura sobre a outra” (BRASIL, 2002, p. 100).

Questões de globalização (variações linguísticas, gírias, estrangeirismos), e de estereótipos são alguns pontos de reflexão propostos para que sejam trabalhados no ensino de línguas. A cultura, assim como nos PCNEM é vista como um elemento que faz parte da competência sociolinguística que o aluno necessita alcançar e desenvolver. O documento salienta que:

Pela aquisição do adequado conhecimento linguístico, o indivíduo pode apropriar-se de saberes, transmitir sua cultura e estabelecer vínculos com outras, ampliando seus horizontes. O estudo da língua estrangeira permite a reflexão sobre o idioma e a cultura como bens de cidadania, além de contribuir para a eliminação de estereótipos e preconceitos. (BRASIL, 2002, p. 97)

Desta forma, segundo os PCN+, a partir do momento que o estudante tem acesso a modos de pensar e viver diferentes, pode fazer comparações com sua própria realidade além de aumentar os processos de interações com os outros através de trocas culturais. É um conceito e habilidade pertencente ao eixo de “Contextualização Sociocultural”, a noção de que o aluno mediante

o estudo de línguas poderá usufruir de bens/produtos culturais que estão presentes tanto nacional como internacionalmente, além de perceber que é através da linguagem que os indivíduos tem acesso a diferentes tipos de linguística, propõem alguns temas que poderiam ser trabalhados, como pronomes, artigos, entre outros. No plano do repertório vocabular, não descartam o uso da língua materna mediante analogias e oposições com a língua estrangeira ao invés do trabalho com extensas listas de léxico, fora de um contexto mais amplo. Retornam a afirmar a importância da interdisciplinaridade e que os docentes, no momento de eleger atividades, não podem esquecer-se daquelas que tratam de: “informações culturais ligadas à língua estrangeira” (BRASIL, 2002, p. 105).

O último eixo, “Leitura e interpretação de textos”, finaliza a parte de seleção de conteúdos afirmando que o trabalho mediante o estudo de textos de naturezas diversas, busca ampliar as competências linguísticas dos alunos e o vocabulário, além da noção de adequação de enunciados a diferentes esferas da vida social. Ler é visto como uma porta de abertura ao mundo e às culturas estrangeiras. São descritas algumas competências a serem trabalhadas em língua estrangeira e também fornecem exemplos de algumas estratégias de diferentes conhecimentos, culturas e visões de mundo. É feita a afirmação de que ao trabalhar de modo interdisciplinar o aluno passa a ter acesso ao

conhecimento de maneira contextualizada e significativa, redimensionando saberes e também a noção de cultura.

Em outro momento do texto também existe uma explanação sobre os

“Conteúdos estruturadores em Língua Estrangeira”, que partem, segundo esses parâmetros, de três eixos de trabalho, os quais compreendem: a leitura e interpretação de textos, a aquisição de repertório vocabular e estrutura linguística. Sobre o primeiro eixo, é recomendado que o trabalho sempre parta da interpretação e leitura de textos para que depois se desenvolvam as outras competências e conteúdos. São dadas algumas instruções de como esse trabalho com o texto pode ser realizado, como indicações de estudo de textos mais simples inicialmente, para o estudo gradativo de textos mais complexos posteriormente, que apresentem um número maior de formas verbais, entre outros aspectos.

O documento indica também que as atividades com o texto compreendam o todo e não somente uma parte específica. É citado o exemplo de quando alguns alunos insistem em traduzir vocábulo por vocábulo ao invés de tentar compreender o texto em sua completude e o contexto ao qual faz referência. Desta forma, os PCN+ afirmam que trabalhar com textos é um exercício também de reconfiguração de significados. As representações dos textos misturam-se com as dos alunos formando/recriando e reestruturando novas significações e aprendizado. Os textos evocam representações de mundo, de linguagens e culturas distintas e todas estas possibilidades fazem referência ao trabalho com elementos culturais, quando os PCN+ especificam:

Os textos em língua estrangeira selecionados devem funcionar como veículo das diversidades culturais, levantando questões sociais ligadas a preconceitos e desigualdades – cuja abordagem pode e deve ser feita em articulação com outras disciplinas. O trabalho envolvendo temática sociocultural é igualmente importante para o desenvolvimento de competências nas quais a linguagem é fonte de legitimação de acordos e de condutas a serem avalizadas ou não.

(BRASIL, 2002, p. 116)

O documento faz ainda algumas orientações acerca de técnicas e etapas para o estudo e interpretação de textos e procedimentos de escrita de

resumos entre outros. Discorre também sobre alguns elementos gramaticais que são tidos como os pilares do texto, sendo eles: os verbos, os substantivos e as conjunções. Todos estes elementos, segundo tais parâmetros, fazem parte de um ensino de língua estrangeira que desenvolve competências e habilidades capazes de reconfigurar os saberes, os prévios com os novos, permitindo aos alunos acesso a diferentes manifestações culturais, a outras formas de ver o mundo e a diferentes tipos de conhecimento. Finalizam este capítulo, discorrendo sobre os processos de avaliação, utilizando as premissas da avaliação formativa, aquela que considera todo o processo de aprendizagem e não somente o produto final, além de discorrer sobre aspectos da formação de professores e sobre as competências que estão envolvidas em seu trabalho.

Observamos, em suma, que os PCN+ avançam na questão do tratamento dado a temática da cultura se comparado aos PCNEM, uma vez que no início do documento tal elemento já é citado e tido como essencial no processo de ensin-aprendizagem de línguas estrangeiras. Como relatado anteriormente, os PCN+ apresentam seções que tratam especificamente de competências e habilidades que discorrem sobre como a cultura não pode ser dissociada do ensino de línguas e também de como esta o influencia, além de considerar que através da ampliação dos horizontes culturais oportunizada aos alunos acontece também a ampliação do universo linguístico destes, surgindo assim: “um conjunto integrado de conhecimentos e saberes” (BRASIL, 2002, p.

112).

4.3 ORIENTAÇÕES CURRICULARES PARA O ENSINO MÉDIO – OCEM