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Origem e aplicabilidade no sistema jurídico brasileiro

O direito pátrio coloca a coisa julgada como garantia fundamental (expressamente no art. 5º, inciso XXXVI da Constituição Federal), bem como preceito essencial ao Estado Democrático de Direito. Segundo alguns doutrinadores, o referido instituto é atributo indispensável ao Estado de Direito, traduzindo um comando absoluto, não comportando qualquer hipótese de flexibilização, exceto aquelas taxativamente previstas no ordenamento jurídico. Atualmente, porém, a questão da relativização (revisão) da coisa julgada tornou-se alvo de novos posicionamentos na esfera jurídica, resultando na construção de um novo entendimento emergente para a questão.

Neste sentindo, fazendo um estudo da coisa julgada relativa, Jaldemiro Rodrigues de Ataíde Jr. (2010), citando Eduardo Couture, defende a seguinte ideia: “Se fecharmos os

caminhos para a desconstituição das sentenças passadas em julgado, acabaremos por outorgar uma carta de cidadania e legitimidade à fraude processual e às formas delituosas do processo”. É neste viés, com fundamento na prestação jurisdicional de fato efetiva, legítima e justa, que a flexibilização da coisa julgada vem ganhando foco de grandes discussões, vez que mais juristas e doutrinadores vêm aderindo à tese da relativização, sustentando uma nova intepretação para esse instituto que confere imutabilidade às decisões.

A consideração absoluta da coisa julgada já não atende às expectativas do atual Estado Democrático de Direito, como Carlos Valder do Nascimento e José Augusto Delgado entendem. Considerar toda e qualquer decisão imutável, mesmo aquela que não observa os fins para os quais existe, significaria dar legitimidade para situações absurdas e inconstitucionais, contrárias aos valores do ordenamento jurídico. A decisão absurda seria imutável, e este fato seria legítimo sob a perspectiva da defesa absoluta da coisa julgada. Antonio Carlos de Araújo Cintra, Ada Pellegrini Grinover e Cândido Rangel Dinamarco (2011, p.333) referindo-se à relativização da coisa julgada como uma tese polêmica, proveniente do Superior Tribunal de Justiça, asseveram:

Essa tese parte da premissa de que nenhum valor constitucional é absoluto, devendo todos eles ser sistematicamente interpretados de modo harmonioso e, consequentemente, aplicando-se à coisa julgada o princípio da proporcionalidade, utilizando para o caso de colisão entre princípios constitucionais. Esse princípio significa que, em caso de conflito entre dois ou mais valores tutelados pela constituição, deve-se dar prevalência àquele que no caso concreto se mostre mais intimamente associado à índole do sistema constitucional. Assim, segundo parte da doutrina, seria possível desconsiderar a coisa julgada, em processo próprio, para que prevaleça outro bem constitucionalmente tutelado, de índole material.

A ideia de relativização, portanto, vem fundamentada em uma nova concepção de abrangência para o instituto em questão, na medida em que, considerar a coisa julgada como preceito de ordem absoluta única e exclusivamente fundado na segurança das relações jurídicas desencadearia descontento com a prestação jurisdicional; afinal, nenhuma decisão está livre de erros. Por conseguinte, aquelas decisões eivadas de vício gravíssimo, mesmo alcançadas pela coisa julgada, merecem ser analisadas de forma meticulosa. Sobre o caráter absoluto conferido à coisa julgada, Cândido Rangel Dinamarco (2001, grifo do autor), citando José Augusto Delgado, assim considera:

Em voto proferido como relator na Primeira Turma do Col. Superior Tribunal de Justiça, o Ministro José Augusto Delgado declarou sua “posição doutrinária no sentido de não reconhecer caráter absoluto à coisa julgada” e disse filiar-se “a

determinada corrente que entende ser impossível a coisa julgada, só pelo fundamento de impor segurança jurídica, sobrepor-se aos princípios da moralidade pública e da razoabilidade nas obrigações assumidas pelo Estado”.

E justamente por alguns doutrinadores e juristas não aceitarem mais a ideia de coisa julgada com um caráter absoluto é que se tem a presente discussão. A questão se torna evidente quando se constata ser inadequado considerar, absolutamente, toda e qualquer decisão imutável com o único e simples fundamento de impor segurança jurídica, uma vez que existem inúmeros outros princípios e preceitos de ordem tão (ou mais) fundamental que aquela, dependendo do caso em apreço.

Consequentemente, considerando-se a tese como polêmica, a coisa julgada entendida de uma forma relativa foi ganhando o foco das discussões doutrinárias, conquistado defensores e críticos, alcançando, inclusive, os Tribunais Superiores, como se observará em seguida.

Do exame de casos concretos e extraordinários, resultaram considerações importantes acerca do instituto da coisa julgada e suas qualidades, na medida em que sua relativização não traduz um novo instituto, tampouco uma inversão de valores. A possível relativização significaria o estudo da abrangência da coisa julgada no caso concreto, dada a situação especial e extraordinária em que se encontra a lide. Wambier e Medina (2003, p.10), citando Cândido Rangel, afirmam:

Tendo em vista o relevante papel desempenhado pela coisa julgada, quer sob o ângulo político, quer sob o ângulo jurídico, a sua importantíssima função de gerar segurança, valor inerente à ideia de direito, é necessário que esta “revisão” de suas dimensões seja feita com extrema cautela. [...] “Propõe-se apenas um trato extraordinário destinado a situações extraordinárias com o objetivo de afastar absurdos, injustiças flagrantes, fraudes e infrações à Constituição – com a consciência de que providências destinadas a esse objetivo devem ser tão excepcionais quanto é a ocorrência desses graves inconvenientes. Não me move o intuito de propor uma insensata inversão, para que a garantia da coisa julgada passasse a operar em casos raros e sua infringência se tornasse regra geral”.

Com efeito, essa nova tendência traduz-se em uma proposta de análise aprofundada para aqueles casos que fogem da regra geral, por apresentarem vício tão grave e merecerem atenção diferenciada, não se tratando, portanto, de uma inversão de valores. Considerar caráter relativo para a coisa julgada significa dar especial atenção ao vício que atinge

determinada decisão, a qual necessita de um estudo meticuloso de seus fatores, o que poderia ou não resultar na aplicação da sua respectiva relativização.

Muitos doutrinadores, entretanto, não se filiam a essa tese por entenderem que a coisa julgada é garantia absolutamente essencial e direito fundamental do Estado Democrático de Direito e, ainda, que desconsiderá-la resultaria na insegurança jurídica com todo o sistema e com a própria prestação jurisdicional. Wantul Luiz Cândido Holz (2006), não se filiando às teses da relativização, afirma:

Relativizar a garantia fundamental da coisa julgada material para além dos casos já disciplinados pelo legislador (situações previstas para a ação rescisória e a querela

nullitats) não traz a certeza de que a nova decisão corrigirá a suposta injustiça ou

absurdo da decisão anterior, pelo contrário, trará um mal ainda maior, que é a incerteza do futuro e do passado daquela relação jurídica. [...] Admitir uma ampliação das já excessivas hipóteses de rescisão da coisa julgada material traria uma consequência (sic) muito mais maléfica à sociedade do que as supostas injustiças de algumas decisões, refiro-me à insegurança jurídica. A coisa julgada material é a garantia essencial do direito fundamental à segurança nas relações jurídicas, espécie do gênero segurança, um valor constitucionalmente previsto.

Ressalta-se, contudo, que a proposta da tese da relativização não é a substituição de valores, tampouco uma atitude radical, como muito se denota. O que se busca é o exame da abrangência do instituto em questão, protegendo valores que, dependendo do caso concreto, se evidenciam em relação ao único fundamento de segurança jurídica. O Estado de Direito compõe-se de inúmeros princípios e normas que objetivam uma convivência harmônica, com o intuito de dar efetividade ao Poder Judiciário e aos valores de Justiça. Neste sentido, referindo-se à excepcionalidade de aplicação da relativização (sendo possível apenas em casos especiais), Cândido Rangel Dinamarco (2001, grifo do autor), cintando Mary Kay Kane, faz a seguinte consideração:

A cultura jurídica anglo-americana não é tão apegada aos rigores da autoridade da coisa julgada como a nossa, de origem romano-germânica. [...] Nesse quadro, sem a pressão dos dogmas que tradicionalmente nos influenciam, eles são capazes de aceitar com mais naturalidade certas restrições racionais à res judicata, relativizando esta para a observância de outros princípios e outras necessidades. Diz a propósito a conceituada Mary Kay Kane: “há circunstâncias em que, embora presentes os

requisitos para a aplicação da coisa julgada, tal preclusão não ocorre. Essas situações ocorrem quando as razões de ordem judicial alimentadas pela coisa julgada são superadas por outras razões de ordem pública subjacentes à relação jurídica que estiver em discussão.” [...] Tais pensamentos são valorizados e

legitimados pela ponderada ressalva de que “são necessariamente limitadas essas

exceções à normal aplicação dos princípios da coisa julgada. Elas dependem da presença de razões sociais específicas e importantes, para que a coisa julgada possa ser desconsiderada”.

Neste ínterim, a discussão da coisa julgada relativizada se fundamenta com base na efetividade de toda prestação jurisdicional como meio de resolução de conflitos, dentro do sistema democrático, considerando a existência de casos que demandam atenção diferenciada, em razão de suas peculiaridades. Fredie Didier Jr., Paula Sarno Braga e Rafael Oliveira (2011, p. 451, grifo do autor), citando Cândido Rangel Dinamarco, denominam tal tese de “relativização da coisa julgada atípica”, fazendo sobre ela a seguinte consideração:

Trata-se de movimento recente que vem propondo a chamada relativização da coisa

julgada atípica [...]. Cândido Dinamarco já vinha propondo essa solução há um bom

tempo [...] afirma categoricamente que a coisa julgada só deve se conservar inquebrantável se: a) consoante com as máximas da proporcionalidade, razoabilidade, moralidade administrativa – quando não seja absurdamente lesiva ao Estado; b) cristalizar a condenação do Estado ao pagamento de valores “justos” a título de indenização por expropriação imobiliária; c) não ofender a cidadania e os direitos dos homens e não violar a garantia de um meio ambiente ecologicamente equilibrado.

Os defensores da tese da coisa julgada relativa, portanto, sustentam suas construções amparados em outros princípios constitucionais, como a proporcionalidade, a razoabilidade e a moralidade, de modo que nenhum preceito fique acima do outro, tampouco a segurança acima da justiça. Ou seja, a tese da relativização da coisa julgada não se encerra no único fundamento de prover a justiça das decisões (como muitos doutrinadores fundamentam), mas sim na consecução da efetividade de todo um sistema, considerando um estudo principiológico, sopesando seus valores à vista do caso concreto em análise.

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