3. A CONSTITUIÇÃO ECONÔMICA ELEMENTOS
3.1. Origem e interface com a Constituição Política
A expressão “Constituição econômica” parece ter surgido, pela primeira vez, em um dos capítulos da obra Première Introduction à la Philosophie Économique (1771) do fisiocrata Baudeau, significando ali o conjunto dos preceitos jurídicos reguladores da “sociedade econômica”260. Posteriormente, no campo das ciências econômicas, o termo
ganhou sentido diverso: representaria o mesmo que o conceito de estrutura econômica ou
sistema econômico. Muito utilizado por economistas que também conferiram o mesmo
significado de ordem econômica e modelo econômico, o termo não possuía, pois, conotação jurídica.
Assim, apesar dos sentidos conferidos pelas teorias econômicas, foi somente no plano jurídico que a expressão ganhou destaque. A prevalência do jurídico no conceito de Constituição econômica é ressaltada por FERREIRA FILHO:
“não se tome, entretanto, a expressão “constituição econômica” num sentido não- jurídico, descritivo. Há entre os economistas quem o faça, usando da expressão para descrever a organização básica da economia, sua estrutura fundamental, suas leis (no sentido de relações necessárias) que regem a produção, a distribuição e consumo, ou, mais especificamente, as leis (econômicas) que regem preços, moeda, crédito, cambio, etc”261.
Mais especificamente, somente após a Primeira Grande Guerra – marco do fim de uma era econômica e política do capitalismo e início de outra –, na Alemanha, é que o conceito surge com maior vigor. Duas ideias que fundamentalmente o informaram: “as de democracia econômica e de administração autônoma da economia”262.
A assertiva de que a democracia política não atua de forma eficaz sem que existam condições favorecidas pelo ambiente de mercado para que possam fazer uso de seus direitos, torna-se bandeira do ambiente econômico da época. Assim como a revolução liberal tinha criado a cidadania política, era agora essencial reconhecer a todos a cidadania econômica. O estabelecimento de uma constituição jurídica formal da economia representaria a negação da ordem econômica liberal e o advento de uma nova ordem da economia: “tal como na idéia de constituição se continha a representação de uma nova sociedade e de um novo
260 MOREIRA (1979), p. 19-22. WASHINTON PELUSO introduz importante observação ao comentar que o
termo utilizado por Baudeau não continha o sentido qualitativo dos dias atuais, com o que se introduziu o tema econômico quer nas concepções políticas, quer também nas jurídicas. “(...) ao nosso ver, tão ou mais significativo do que limitar o pioneirismo cientifico, apenas “econômico”, foi o fato de terem praticado o tratamento simbiótico dos valores “políticos”, “econômicos” e “jurídicos”. Sobre as origens fisiocráticas da Constituição econômica vide SOUZA (2002), p. 16-21.
261 FERREIRA FILHO (1990), p. 06. 262 MOREIRA (1979), p. 20.
Estado, contra a realidade do ancien régime, também agora na idéia de constituição económica se continha a negação da ordem económica liberal a favor da representação de uma nova ordem económica”263. De fato, com o advento do Estado moderno, assistiu-se ao
crescimento da influência dos agentes econômicos nas decisões políticas e a economia, diretamente relacionada com a política passou a exigir um tratamento constitucional adequado à regulamentação da vida econômica.
Assim como no caso da relação articulada entre democracia política e democracia econômica, as características e elementos essenciais da Constituição Política aplicam-se à Constituição Econômica.
No sentido jurídico de norma fundamental de organização do Estado, a Constituição tem como função limitar o poder - ação inerente à democracia moderna. Desse modo, como posição hierárquica suprema, ela organiza o poder, limitando-o. Fora do alcance desses, persiste, plena, a liberdade individual. É o caso, por exemplo, das primeiras constituições, inspiradas no liberalismo clássico, que foram fortemente marcadas por essa ideia de limitação de poder. Elas trataram de prever apenas o elemento político, em virtude da ideologia adotada, consagrando o domínio da liberdade individual, fora do alcance do Estado. No tocante ao elemento econômico, esse pensamento confiou ao mercado e à livre competição o alcance das melhores situações possíveis, sem intervenção no domínio econômico.
Antes de tudo, para a compreensão do debate em torno da noção de Constituição econômica, é necessário entender que as definições exclusivamente normativas de Constituição não definem o seu efetivo conceito ou sua essência, que inclui os célebres
fatores reais de poder, ou seja, as forças ativas que conformam as instituições jurídicas – que, quando são colocados em uma folha de papel (blatt papier) erigem-se em direito264.
É importante destacar que a Constituição econômica aqui não deve ser entendida como documento autônomo à Constituição Política do Estado. Muito pelo contrário. A Constituição deve ser entendida como uma unidade que é dividida em vários campos e áreas específicos, inclusive a economia. Assim, verifica-se o correto entendimento de WASHINTON PELUSO, de que a Constituição econômica é parte integrante, não autônoma ou estanque da Constituição Total:
263 MOREIRA (1979), p. 19-22. “Portanto, poder-se-ia sustentar o surgimento da Constituição econômica apenas
a partir da guerra, quando se perdeu a confiança na auto-regulação econômica do mercado”. TAVARES (2006), p. 72.
264 LASSALLE, Ferdinand. “Uber Verfassungswesen”, in Gesamtwerke: Politische Reden und Schriften apud
BERCOVICI (2005), p. 12. A grande contribuição do autor foi considerar as questões constitucionais também questões de poder. Na verdade, segundo a doutrina de LASSALLE, a Constituição registraria um estágio das relações de poder. FERREIRA FILHO (1997), p. 14.
“De nossa parte, seguimos a orientação de considerar a Constituição Econômica componente do conjunto da Constituição Geral. Apresenta-se na tessitura estrutural desta, não importa se na condição de Parte, Título, Capítulo, ou em artigos esparsos. Sua caracterização baseia-se tão somente na presença do “econômico” no texto constitucional. Por esse registro, integra-se na ideologia definida na Constituição em apreço e a partir dessa são estabelecidas as bases para a política econômica a ser traduzida na legislação infraconstitucional”265.
Sobre a integração da Constituição da economia ao texto geral, são também os
ensinamentos de CANOTILHO e MOREIRA: “(...) essa “parte da Constituição não é um compartimento estanque em relação às outras normas e princípios constitucionais. É um elemento integrado no sistema constitucional global. Desde logo, a Constituição econômica não se reduz ao conjunto de artigos incluídos na “parte econômica” da Constituição”266.
Com efeito, a Constituição Econômica deve estar estritamente relacionada com a Constituição Política e com a ordem constitucional dos direitos fundamentais, revelando a base da democracia econômica e social, conforme salienta CANOTILHO e MOREIRA:
“A Constituição econômica está, assim, estritamente relacionada com a constituição política e com a ordem constitucional dos direitos fundamentais. O principio da democracia econômica e social que informa aquela é um elemento essencial do princípio democrático e da ordem constitucional dos direitos fundamentais. Pressupõem-se e reclamam-se mutuamente; constituem elementos integrantes e integrados de uma mesma ordem constitucional global. A constituição econômica funciona assim (tal como os direitos fundamentais), como limite da liberdade de decisão e de conformação legislativa, definindo as respectivas fronteiras que não podem ser ultrapassadas, e determinando o respectivo sentido, que não pode ser invertido ou desviado”267.
A democracia econômica é, portanto, principio legitimador da Constituição Econômica e, ao mesmo tempo, principio jurídico integrante da Constituição, apresentando-se como principio constitucional encartado na ordem jurídica da economia. Isso significa dizer que o principio democrático que informa o texto constitucional econômico é também constituído e integrado pela denominada democracia econômica.
É interessante ressaltar que a democracia política e seus postulados representam condição necessária e instrumento de concretização da democracia econômica. Não há democracia econômica sem que haja democracia política. A democracia passa a predominar num universo, em que o seu movimento de expansão conduz à harmonização do elemento político e econômico.
265 SOUZA (2002), p. 23.
266 CANOTILHO e MOREIRA (1991), p. 151-152. 267 CANOTILHO e MOREIRA (1991), p. 152-153.