3. ECONOMIA E MODOS DO AGIR ECONÔMICO
3.1 Origens da economia
Segundo Rossi e Tierno (2009), Aristóteles (384-322 a.C.) representa o pensador de referência para discutirmos as bases do pensamento econômico. Ainda segundo os autores, foi Aristóteles que desenvolveu uma análise filosófica da relação entre os fins e meios humanos na economia.
Em Aristóteles, é possível reconhecer a economia como uma interseção entre aspectos corporais e mentais dos seres humanos, ou seja, como processo de ação social, incorporando dimensões da política e da filosofia (ROSSI; TIERNO, 2009, p. 58). “Aristóteles vê a economia como uma ciência prática e como uma capacidade que promove hábitos que aceleram a ação”. Neste sentido, é associada a um conhecimento prático voltado ao uso equilibrado dos recursos naturais ou de produção, de forma a manter o bem comum. Do pensamento aristotélico, os autores destacam (ROSSI; TIERNO, 2009, p. 68):
Aristóteles associa o tema economia aos fins humanos, referindo -se à sua preocupação com o acúmulo de riquezas. Ele considerava a política como a “arte mestra”. A política te m de usar as demais c iên cias, inc lusive a economia, co mo forma de avaliar o que devemos ou não fazer, a finalidade dessa ciência precisa incluir a das outras, para que essa finalidade seja o bem comu m. A vida empenhada no ganho é uma vida imposta, a riqueza não é o bem que buscamos, sendo ela apenas útil e no interesse social. A economia, em últ ima análise, relaciona-se ao estudo da ética e da política na devida
distribuição dos recursos de forma a ser sustentável a continuidade da vida em sociedade.
A economia como arte do bem comum representa a centralidade do pensamento aristotélico, sendo relacionada a todas as dimensões da vida em sociedade. Em uma delimitação mais profunda desta referência, encontramos em Aristóteles considerações sobre a unidade de organização social, o oîkos, e referências ao uso do capital monetário, a cremática.
Segundo Florenzano (2010, p. 23), o termo “ecologia” significa, de uma forma geral, “o estudo da casa, do ambiente que nos rodeia (oîkos = casa + logos = conhecimento, estudo), termo este que representa a origem da palavra ‘ecologia’, ou seja, o estudo da relação do homem e seu meio”; e “cremática” consiste na maximização da rentabilidade financeira antes de qualquer outra coisa, em detrimento, se necessário, dos seres humanos e do meio ambiente (FLORENZANO, 2010, p. 34). “É da natureza da prática crematística recorrer a diversas estratégias de ação nocivas, como especulação financeira, degradação socioambiental, sem preocupação com as consequências”. Por estes dois conceitos, Aristóteles representa as diferentes formas de ação humana na economia.
Segundo o autor, o oîkos tem relação com o sentido de autossuficiência – ou seja, de uma unidade humana, com base em vínculos sociais voltados a gerar autonomia ao grupo. Mais especificadamente (FLORENZANO, 2010, p. 4):
O oîkos era uma unidade social e de produção que comportava em primeiro lugar pessoas: uma família nuclear co mposta por pai, mãe e filhos. Esta família organizava-se de acordo com uma hierarquia rígida, na qual o pai era o senhor da casa, que tinha poder absoluto sobre todos os demais e sobretudo o que ocorria no oîkos. Este grupo podia ser acrescido, desde que os recursos o permitissem, de serviçais não cidadãos e também de parentes de idade avançada e de parentes órfãos. Em seguida, do oîk os faziam parte as terras e demais bens imóveis, casas, estábulos, depósitos; todos propriedade do senhor. Das terras dependia o sustento da família: elas deviam produzir toda a alimentação, deviam alimentar o gado, fornecer as fibras para os tecidos e assim por diante. O terceiro elemento constitutivo do oîkos eram os bens móveis. Destes, os mais importantes eram, sem qualquer dúvida, os escravos, encarregados de toda sorte de trabalho, desde cuidar dos campos e plantações e dos animais, até fiar, executar pequenos serviços, atender a família em todas as suas necessidades.
Esta unidade social inclui, além da família, servos e escravos, e é constituída como uma unidade basicamente agrária, onde o equilíbrio entre produção e uso de recursos é fator determinante para sua sustentabilidade. Essa forma de organização
antecede a organização da pólis grega, atuando muitas vezes em tensão entre o púbico e o privado.
A cremática, segundo Rossi e Tierno (2009), representa uma relação desigual entre o uso do capital monetário de forma dissonante à sua função social, comprometendo assim o equilíbrio da economia. Segundo os autores, dentro do pensamento aristotélico, o capital monetário tem como função suprir as necessidades humanas, e não é um fim em si mesmo. Neste sentido, os autores apontam (ROSSI; TIERNO, 2009, p. 192):
[...] As perversões econômicas denunciadas por Aristóteles procedem de u m uso desregrado da moeda, impulsionado pelo afã de lucro, quando ela não é um meio para facilitar o intercâmb io, uma instituição a serviço dos fins humanos. Co mo todas as instituições que são criadas pela vontade, obtém seu valor de uso a partir do que se faz co m ela, e pode ser, como o id io ma, a melhor ou a pior das coisas; pela aplicação do crédito, ela contribui para a cooperação social e para o desenvolvimento da riqueza; mas a especulação conduz à alteração da moeda, os abusos do crédito arruínam a confiança pública, que é o próprio fundamento da comunidade civil.
Fica evidenciado assim que, para Aristóteles, o termo “cremática” estava relacionado à situação onde o capital monetário perde sua função primária, de meio de troca, e se transforma em um fim em si mesmo. Segundo os autores, no pensamento aristotélico o dinheiro deve facilitar a economia, sendo o lucro e o acúmulo de capital uma forma de perversão social.
A preocupação com um sentido de equilíbrio da economia, tendo como referência o fator humano, o bem comum e a política, é elemento constante na análise de economia na teoria aristotélica, dando contornos de uma análise de economia que reconhece a interação entre ações sociais e humanas e o contexto ambiental. Esta referência interpretativa vai influenciar teóricos contemporâneos com Sen e Polanyi, no entanto, no sentido histórico, a constituição interpretativa de econo mia na sociedade medieval e na sociedade moderna teve contornos dissonantes em relação aos princípios aristotélicos.