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2 DIREITOS FUNDAMENTAIS DE EMPREGADOS E EMPREGADORES NAS

2.1 INTIMIDADE E VIDA PRIVADA

2.1.2 Origens da intimidade

A intimidade pode ser vista sob três dimensões17: como fenômeno (fator socioeconômico), como ideia (fator cultural) e como direito (fator político-jurídico). (BARROS, 1997, p. 19).

De etimologia voltada para o termo latino intimus, superlativo de interior, dividiu-se a doutrina a respeito da origem da intimidade (ibid.).

Sustentavam alguns autores, adeptos da teoria racionalista (Pérez Luño), que a intimidade surgiu com a desagregação do sistema feudal, traduzindo o anseio da burguesia capitalista de ter acesso ao que antes constituía privilégio de poucos, sendo a propriedade condição para adquiri-la. Essa corrente não distingue as três dimensões da intimidade (ibid.).

Outros autores filiam-se à teoria chamada histórica; consideram o fenômeno da intimidade inato ao homem e vinculam o aparecimento da ideia de intimidade às antigas civilizações. Não obstante a comunidade tenha um valor inestimável na Grécia clássica, a ideia de intimidade não estava ausente, e assim é que em Eurípides se pode identificar o conflito entre o mundo político e o mundo privado. Heródoto, Péricles e Platão também admitiam a ideia do homem interior, tendo Aristóteles demonstrado a vinculação que existe entre liberdade e intimidade. Por outro lado, a própria origem latina do termo intimidade demonstra ser ele conhecido dos romanos (ibid., p. 20).

Com o Cristianismo, a ideia de intimidade incorpora-se ao acervo cultural e adquire maior reconhecimento, encontrando, nas obras de Santo Agostinho, sua ideia central. O pensamento agostiniano influenciou pensadores modernos como Descartes, Kant e Lutero, que, por ter sido monge agostiniano, deveria conhecer certas ideias do santo; há, até mesmo quem relacione o aparecimento da ideia de intimidade à reforma protestante.

No liberalismo, encarado como a ideologia política da Idade Moderna, vamos encontrar duas vertentes: a moderada e a radical. Na primeira vertente, temos a figura significativa de Hobbes, considerado como o defensor da “liberdade negativa”, ou seja, de um certo âmbito de liberdade inviolável, traçando uma fronteira entre o âmbito da vida privada e o da autoridade pública. Sustentava que “cada súdito tem liberdade em todas aquelas coisas cujo direito não pode ser transferido mediante pacto”. Com fulcro nessa premissa, sustenta-se que os atos de não defender a própria intimidade seriam nulos18. Na segunda vertente, ou seja,

17

RUIZ MIGUEL, Carlos. La Configuración Constitucional del Derecho a la Intimidad. Madrid: Tecnos, 1995. p. 44.

18

no liberalismo radical, situamos o pensamento de Spinoza, para quem, na ordem civil, existe um bem tão importante que a obediência civil se converte no primeiro e mais elevado dever do homem, sem importar o que diz sua consciência ou sua moralidade pessoal.

Vista sob a perspectiva jurídica, o direito à intimidade também teve uma trajetória histórica. Se, na Grécia clássica, não se encontram, com facilidade, manifestações de proteção jurídica da intimidade, no Direito Romano, ela se estende à correspondência, ao domicílio e à liberdade religiosa (Edito de Milão de 313, promulgado pelos imperadores Constantino e Licínio, o qual estabelece uma neutralidade de religiões); à época, o fundamento desses direitos não era a dignidade humana. Outros, como Carl Schmidt sustentavam que os antigos não conheciam os direitos fundamentais, que só aparecem a partir do século XVI; asseveram que esses direitos fundamentais contêm um princípio básico de distribuição, o qual significa que a esfera de liberdade individual é ilimitada, enquanto as faculdades do Estado são limitadas, em princípio. Na Idade Média, vários textos jurídicos garantem a inviolabilidade do domicílio, ressaltando-se que o pensamento de Santo Agostinho exerceu o seu domínio até o século XII. Considera-se, entretanto, que o início da discussão teórica, a respeito do direito à intimidade surgiu com o artigo de Warren e Brandeis, intitulado “The right of privacy”, publicado em 1890, cujo objetivo foi frear as intromissões da imprensa na vida e na honra das pessoas; esse artigo reúne várias manifestações, como a inviolabilidade do domicílio, da correspondência, etc.19 (ibid., p. 21).

A partir daí, o direito à intimidade sofreu uma transformação: desligou-se de sua concepção exclusivamente “jus privatista”, típica do liberalismo, deixando de ser considerado “um bem, cuja titularidade correspondia ao pleno domínio do sujeito como se fosse um móvel ou imóvel”20, e começa a ser considerado atributo da personalidade do indivíduo, enquadrando-se, sob a perspectiva civilista, como direito ou bem de personalidade. Esse direito, embora possa implicar, quando violado, pagamento de indenização, não está relacionado com a condição social ou com o patrimônio dos indivíduos. Seu fundamento é a liberdade individual.

Os mencionados direitos da personalidade surgiram como uma reação à teoria estatal sobre o indivíduo e encontram guarida na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão21,

19

RUIZ MIGUEL, Carlos. Op. cit., p. 57.

20

VELÁZQUEZ BAUTISTA, Rafael. Protección Jurídica de Datos Personales Automatizados. Madrid: Colex, 1993. p. 40.

21

Art. 1º - “os homens nascem livres e iguais em direitos”. No artigo 2º, preconiza que “o fim de toda associação política é a conservação dos direitos naturais e imprescritíveis do homem. Esses direitos são a liberdade, a propriedade, a segurança e a resistência à opressão”. No artigo 11, assegura a “livre comunicação dos pensamentos e das opiniões como um dos direitos mais preciosos do homem [...]”.

de 1789; na Declaração Universal dos Direitos do Homem, de 194822, mais precisamente no art. 12; na Convenção Européia dos Direitos do Homem, de 195023; na Convenção

Panamericana dos Direitos do Homem, de 1959; no Pacto Internacional concernente aos Direitos Civis e Políticos, aprovado pela Resolução n. 2.200 de 1966, da Assembléia Geral das Nações Unidas; na Convenção Interamericana dos Direitos Humanos, assinada na Costa Rica, em 196924, e na Resolução adotada por ocasião da Conferência sobre Direitos

Humanos, realizada em Teerã, em 1972, convocada pela ONU (ibid., p. 22).

Em outubro de 1996, a OIT, em reunião de peritos, por sua vez, aprovou projeto de Repertório de Recomendações Práticas sobre Proteção de Dados Pessoais dos Trabalhadores e Recomendações para uma ação futura da OIT, incluída a consideração da possibilidade de adotar normas internacionais do trabalho a respeito (ibid., p. 23).