CAPÍTULO II. OPORTUNIDADES E REQUISITOS DO MERCADO LGBT
2.1 ORIGENS DO CONCEITO DE TURISMO LGBT E SUA CONSOLIDAÇÃO RECENTE
O fenómeno do turismo de nicho direcionado para o mercado das pessoas lésbicas, gays, bissexuais e transgéneros engloba diversos conceitos e especificidades que proporcionam a criação de vários subgrupos e terminologias sujeitas a alterações e em permanente evolução ao longo dos tempos. Este capítulo integra o entendimento dado a estes conceitos, bem como apresenta as diferentes perspetivas existentes e a evolução subjacente aos seus significados. Procede-se assim à introdução da temática da investigação e à sistematização das definições e terminologias utilizadas no mercado em questão. A enunciar: turismo homossexual, turismo
gay e lésbico, turismo queer, pink tourism, turismo LGS, turismo LGBT, LGBT(I), LGBT+, LGBTQ e
LGBTQ+.
Analisando Graham (2002) ao delinear o mercado em subcategorias, reconhece o seu progresso,
enfatizando que na génese destemercado está o turismo homossexual, seguido pelo turismo gay e pelo turismo
queer (citado por Southall & Fallon, 2011: 221).
De acordo com estes autores, o turismo homossexual surge no século XVIII, com as viagens de homens homossexuais do norte da Europa para o Mediterrâneo almejando, desfrutar de maior liberdade sexual fora da sua residência habitual. O turismo gay, fenómeno mais recente e mais amplo, reconhece as pessoas gays e lésbicas e as suas interações com ambientes mais alargados “sociais, culturais, económicas, políticas e de saúde”, concentrados em enclaves de gays e lésbicas sobretudo nas principais cidades da América do Norte e em eventos (Graham, 2002, citado por Southall & Fallon, 2011: 221). Hughes e Deucht (2010) definem o turismo gay e lésbico como aquele realizado por homens e mulheres sexualmente atraídos por indivíduos do mesmo sexo biológico. Gay e lésbica são os termos utilizados para aludir à homossexualidade masculina e feminina, respetivamente. Contudo, o turismo gay é muitas vezes utilizado como um termo unissexo, incluindo gays e lésbicas e, em muitas outras situações, referenciando-se mais genericamente ao mercado LGBT (Southall & Fallon, 2011). Em Portugal, a expressão “homossexual” tem vindo a ser gradualmente substituída pela sigla internacional LGBT. Esta alteração resulta da associação do termo “homossexual” à medicina no domínio de comportamentos sexuais patológicos, e o LGBT escapa a essa herança simbólica (Santos, 2006).
Quanto ao turismo queer, Graham (2002) realça que este engloba as pessoas gays e lésbicas presentes, mas
muitas vezes cingidos a lugares recônditos e eventos específicos. Sublinhando que tais histórias são omnipresentes, referindo como exemplo a China e as suas “histórias sobre impérios gays, relações sexuais na
Cidade Proibida e a história gay da China” (citado por Southall & Fallon, 2011: 221). O termo queer é de
origem inglesa com conotação pejorativa por quem manifestava uma opção de preferência sexual diferente, especialmente para se referir a homossexuais masculinos com gestos ou características femininas. Ao longo
dos tempos, a palavra queer foi apropriada pela comunidade lésbica-gay, usada por e para indivíduos que não
se identificam como "heterossexuais" ou como tendo um género definido (Jordan & Traveller, 2018). Sem
ideia de uma "nação global" ou "país diverso", em que aceita positivamente a diversidade sexual (Marcial, 2009).
De acordo com Miskolci (2009), a teoria queer emergiu em oposição crítica aos estudos sociológicos sobre
minorias sexuais e género. Na mesma linha, Santos (2006: 7) afirma que esta surge da insatisfação quanto à literatura existente sobre “sexualidades dissidentes” centrada em categorias rígidas. Esta propõe a desestabilização, subversão e emancipação dos fenómenos relacionados com sexualidade e o género, não mais entendidos de forma linear e regular, mas antes instáveis, fluidos, tão reais quanto imaginados, e sempre politizados.
Giffney (2004) afirma que, contrariamente ao que por vezes é veiculado, queer não é sinónimo de gays e
lésbicas (citado por Santos, 2006: 6). A teoria do queer defende que a sexualidade não pode simplesmente ser
entendida através das categorias "homossexuais" e "heterossexuais", uma vez que as identidades, desejos e categorias sexuais são fluidos e dinâmicos e a sexualidade está, inevitavelmente, ligada por relações de poder
(Gamson & Moon, 2004). Nas palavras de Seidman (1996: 13), o queer é o estudo “daqueles conhecimentos
e daquelas práticas sociais que organizam a ‘sociedade’ como um todo, sexualizando – heterossexualizando ou homossexualizando – corpos, desejos atos, identidades, relações sociais, conhecimentos, cultura e
instituições sociais” (citado por Miskolci, 2009: 154). A teoria queer “consiste em tornar visível, criticar e
distinguir o normal (estatisticamente determinado) do normativo (moralmente determinado)” (Giffney, 2004
citado por Santos, 2006: 7). Assim, a noção de queer permite agrupar as pessoas intitulada anti-normatividade
(lésbicas, gay, bissexuais e transsexuais) e os heterossexuais contra a normatividade das normas de género e
de sexualidade hegemónicas (Clarke & Peel, 2009, citados por Nogueira et al., 2010: 35).
Esta proposta consiste na ausência de separação global entre homens e mulheres representando a sexualidade de cada indivíduo como um conjunto de fragmentos de sexualidades diversas que todos as pessoas vivem segundo as circunstâncias e os seus parceiros. É neste contexto que, no seio da atividade turística, surge
o conceito deturismo queer.
Em relação à terminologia “Pink Tourism”, em português Turismo Rosa, esta é utilizada normalmente em
referência ao pink market (mercado rosa) ou ao pink dollar/pink pound (dinheiro rosa), termos que representam
o mercado gay/lésbico e o poder de compra deste grupo (Pritchard, Morgan, Sedgley, Khan & Jenkins, 2000).
O símbolo “triângulo rosa invertido”, emblema da comunidade homossexual, representa a opressão a que a comunidade era exposta. Este foi adotado após ter sido usado nos campos de concentração nazi como forma
de identificar os homossexuais masculinos lembrando assim o tremendo genocídio do nacional-socialismo
alemão. Outro emblema de identidade é o arco íris como símbolo de diversidade sexual e sua possibilidade de
existência inclusiva (Marcial, 2009).
O turismo LGS (gays, lésbicas e os simpatizantes) representa a sigla que se popularizou por designar não só os turistas “gays” e “lésbicas”, mas também aqueles que, independentemente de orientação sexual ou identidade de género, são solidários, abertos e “simpatizantes” em relação à diversidade LGBT (ABGLT, s.d). O “S” serviria para incluir os “simpatizantes”, os heterossexuais que simpatizam com o universo LGBT,
frequentadores de bares e boates destinados, por regra, ao público LGBT (Facchini, 2005). Esta expressão surge como uma tentativa de aceitação do diferente no interior do grupo (Nussbaumer, 2001).
Contudo, a sigla LGS é excludente porque não identifica as pessoas bissexuais, travestis e transexuais. Surge então o termo LGBT, incorporando o público transexual, travesti e bissexual. Mas afinal o que é o turismo LGBT?
WTO (2012) define o turismo LGBT como sendo o desenvolvimento e comercialização de produtos e serviços turísticos realizados por e para as lésbicas, gays, bissexuais e transexuais. Por outro lado, Southall e Fallon (2011) definem o turismo LGBT como qualquer atividade de turismo, especificamente projetado para atrair o mercado LGBT (lésbica, gay, bissexual e transgénero), ou aquele que, por natureza e/ou design, agrada e é perseguido pelo mercado LGBT. A interação entre fornecedores, gestores, facilitadores e consumidores do produto e serviço de turismo LGBT e seu relacionamento subsequente é parte integrante do conceito.
Entretanto, algumas organizações, entidades e/ou autores ao abordar o mercado adotam a sigla LGBTI, a qual acrescentam a letra (I) de intersexuais. Este termo é adotado para se referir a uma variedade de condições (genéticas e/ou somáticas) com que uma pessoa nasce, apresentando uma anatomia reprodutiva e sexual e/ou um padrão de cromossomos que não podem ser classificados como sendo tipicamente masculinos ou femininos (ABGLT, s.d). A ILGA-Europe, uma organização internacional independente e não governamental que tem como principais objetivos a defesa dos direitos humanos e da igualdade e o fortalecimento do movimento LGBTI adota a referida sigla.
No ano de 2017, a IGLTA (International Gay e Lesbian Travel Association) a organização global líder
baseada em membros associados dedicada ao turismo LGBT adiciona a sigla “Q” ao termo, incluindo os queer
(citado por Jordan & Traveller, 2018: 13). Assim, o "turismo LGBTQ" refere-se ao desenvolvimento e
comercialização de produtos e serviços turísticos para lésbicas, gays, bissexuais, transgéneros ou pessoas queer
(Jordan & Traveller, 2018).
Segundo a Community Marketing & Insights (2019), as terminologias utilizadas para descrever a comunidade são o: Queer, LGBT, LGBTQ, LGBTQ+, LGBT+ (o símbolo + representa mais inclusão dentro da comunidade). Segundo o estudo, as mais favoráveis e seguras para utilizar como representação da comunidade são as LGBT e LGBTQ. A vantagem da LGBT é que é a preferida por toda a comunidade (em particular pelas gerações mais velhas) e é a considerada pelas organizações a mais “segura”. Nesse sentido, esta será a terminologia a utilizar ao longo do presente estudo.
Atualmente, alguns produtos e serviços já são idealizados especificamente para os LGBT: luas de mel e cerimónias de casamento para casais do mesmo sexo ou pacotes turísticos exclusivamente elaborados para grupos de gays ou lésbicas. Os destinos e empresas turísticas procuram garantir ao consumidor LGBT que, ao visitar o seu destino ou comprar o seu produto ou serviço, serão bem-vindos e respeitados (Jordan & Traveller, 2018). O termo utilizado para descrever lugares, destinos, empresas abertas para acolher e receber com
hospitalidade a comunidade LGBT são denominados de “gay friendly" (Hughes, 2002), sendo atualmente mais
Enquanto a comunidade LGBT em todo o mundo continua a crescer, permanece o sentimento de diferença que propicia a procura por outros semelhantes com as mesmas orientações sexuais ou identidade de género alternativa. Assim, é bem provável que o turismo LGBT continue a prosperar (WTO, 2017, citado por Jordan & Traveller, 2018: 27), embora estes autores afiancem que, no futuro, o conceito de "turismo LGBTQ" continuará a sua mudança em direção a um conceito mais difuso de "turismo inclusivo" para todos.
De acordo com Jordan e Traveller (2018), a evolução futura do turismo LGBT provavelmente será influenciada por três fatores: as macrotendências que moldam a procura e a oferta no setor de turismo, nomeadamente, o declino dos “espaços gay” e o aumento da procura por destinos emergentes; a evolução do respeito e proteção dos direitos humanos das pessoas da comunidade LGBT, levando (gradualmente) a maior visibilidade da população em toda a sua diversidade, o conceito de "viagem gay" tornar-se-á cada vez mais difuso; aceitação e visibilidade LGBT na sociedade e a internet como ferramenta indispensável, em particular as redes sociais, que têm impulsionado a mudança no mundo offline levando consequentemente ao declínio dos destinos maduros do mercado.