CAPÍTULO III. DESENVOLVIMENTO DE DESTINOS TURÍSTICOS LGBT
3.2 PLANEAMENTO E GESTÃO DO DESENVOLVIMENTO DO DESTINO
Como deveremos proceder aquando da implementação e desenvolvimento de um produto e/ou serviço inovador? Quais são os elementos essenciais no seu processo? Quais as medidas a adotar para oferecer um produto com qualidade e competitivo? Como poderemos beneficiar do turismo? A aprimorada resposta a estas questões é fulcral para implementação de um produto, serviço e/ou mercado novo.
Conforme abordado anteriormente a indústria do turismo depende da procura e oferta turística do destino. A oferta - os recursos naturais, culturais e construídos, as atrações, as facilidades, os serviços, as atividades e os recursos humanos - são o “objeto” da atividade turística. Do lado da procura temos, o visitante, os turistas que viajam para usufruir, consumir um conjunto de bens e serviços (fora do seu local de residência) ou, por outras palavras, são o “sujeito” do sistema turístico (Cunha, 2007). Sendo as duas partes bem geridas, com integração e qualificação sustentada das diferentes componentes da oferta turística, juntamente com as motivações e expectativas do turista, não só atenderá às necessidades dos turistas atuais e do destino, como também protegerá e aumentará as oportunidades para o futuro (WTO, 1998, citada por UNESCO, s.d.: 9).
O turismo acarreta grande impacto no meio ambiente, na economia, na cultura e nas sociedades. Quando planeado e gerido de forma sustentável pode contribuir significativamente para o desenvolvimento de um destino e/ou país, caso contrário, terá consequências adversas, com efeitos devastadores para o destino. Os
impactos variam de acordo com o número e o tipo de turistase segundo as características do local em que a
atividade turística ocorre. Estes impactos só podem ser geridos de forma eficaz se tiverem sido identificados, medidos e avaliados (UNESCO, s.d.). Nesse sentido, é importante mencionar os impactos negativos despoletados pelo turismo, para além dos positivos que o turismo pode promover, se existir claro, um planeamento sustentável e coordenado (Tabela 2).
Tabela 2: Impactos do turismo
IMPACTOS POSITIVOS NEGATIVOS
Económicos · Criação de emprego e aumento do rendimento da comunidade local;
· Construção de equipamentos e infraestruturas; · Modificação positiva da estrutura económica e
social do destino;
· Atração de mão-de-obra de outras localidades; · Incrementa a produção de bens e serviços; · Aumenta o consumo pelos produtos locais; · Atrai investimentos estrangeiros; · Aumento da coleta de impostos;
· Industrialização básica da economia regional.
· Sazonalidade turística;
· Dependência excessiva do turismo; · Dependência excessiva de capital investidor
estrangeiro;
· Inflação e especulação imobiliária;
· Grande parte das divisas sai do país (lucro das multinacionais);
· Mão-de-obra desqualificada na área; · Aumento do subemprego (ex.: vendedores
ambulantes);
· Custos de oportunidade;
· Modificação negativa da estrutura económica. Socioculturais · Melhoria da qualidade de vida da comunidade local
(criação de infraestruturas, saúde,);
· Experiências com os visitantes (culturas e modos de vida diferentes);
· Utilização da população local como mão-de-obra direta ou indireta;
· Aumento dos níveis culturais e profissionais da população;
· Valorização, preservação e a reabilitação do património histórico, artístico e cultural; · Valorização da herança cultural (revitalização dos
costumes locais);
· Modificação positiva da estrutura social.
· Alienação da comunidade local;
· Nativos adotam características de vida dos turistas em detrimento dos seus;
· Aparecimento de fenómenos de disfunção social na família (desintegração da comunidade);
· Marginalidade e prostituição;
· Economia local sensível às consequências do turismo; · Diferenças sociais entre visitantes e moradores
(aparecimentos de “guetos” luxuosos; aumento de crime, prostituição, jogo, drogas);
· Descaracterização da cultura do lugar; · Alterações na moralidade;
· Destruição do património histórico e cultural. Ambientais · Revalorização do meio natural (conservação e
melhoria da qualidade ambiental);
· Adoção de medidas para preservar o meio ambiente (criação de planos e programas de preservação de áreas naturais);
· Restauração/preservação de edifícios/lugares históricos;
· Maior envolvimento do setor público (introdução de iniciativas de planeamento ambiental); · Maior envolvimento da população;
(consciencialização ecológica/ambiental); · Promoção da descoberta e acessibilidades a regiões
não exploradas;
· Empreendedores turísticos investem em medidas de proteção da natureza;
· Convívio direto com a natureza.
· Arquitetura e urbanismo desmesurado e/ou não integrados na paisagem;
· Aumento poluição (ruído, ar, água, solo); · Aumento/congestionamento do tráfego; · Rivalidade na utilização dos recursos naturais
(competição entre turismo e outras atividades económicas);
· Destruição da paisagem natural, fauna e flora; · Destruição da área agro-pastoril.
Fonte: Elaboração própria adaptado de Cruz (2004), Holloway (1994), Ignarra (1999), Ruschmann (1999), Santana (1997) citados por Ferreira (2005: 142) e Oliveira e Salazar (2011: 746-48)
Devido à dimensão da indústria do turismo e à sua ligação com território é indispensável encetar esforços para tornar o turismo mais sustentável, em todos os tipos de turismo e níveis de operacionalização (UNESCO, s.d). O desafio do desenvolvimento sustentável do turismo consiste em aproveitar os impactos positivos do turismo, melhorando e canalizando os benefícios e evitando ou amenizando os impactos negativos provenientes desta atividade. Um destino sustentável é o que adota medidas globalizadas, realizáveis e de planeamento duradouro a todos os níveis do ciclo de vida, com o objetivo do desenvolvimento do destino na sua totalidade quer no contexto económico, sociocultural e ambiental (Valls, Bustamante, Gusmáne & Vila, 2006).
Como afirma Costa (2001), destinos bem-sucedidos e lucrativos serão aqueles capazes de serem construídos e desenvolvidos sem perder a sua própria personalidade, ou seja, destinos que conseguem manter a diferenciação através de recursos únicos e distintos. São os que têm a capacidade de se desenvolver em termos de infraestrutura, equipamentos e instalações sem prejudicar ou destruir os seus bens mais preciosos, o seu património. O sucesso da atividade turística depende da autenticidade, da diferenciação e qualidade dos recursos, assim como, da forma inovadora e sustentada como se desenvolve a produção turística.
Como tal, a atividade turística exige ser equacionada a longo prazo, de uma forma coordenada, colaborativa e cooperativa garantindo o sucesso da sua implementação e continuidade (Edgell & Haenisch, 1995, citados por Crouch & Ritchie, 1999: 139). É fulcral um planeamento e uma gestão eficazes com vista à utilização racional dos recursos, à qualidade dos produtos e à competitividade do destino. O planeamento turístico deve ser o foco central do desenvolvimento do turismo (Costa, 2001) que garanta, a longo prazo, o desenvolvimento sustentado do destino turístico (Ferreira, 2005). O planeamento e a política do turismo são, sem dúvida, uma das influências mais significativas sobre como o turismo se desenvolve e como os benefícios e impactos do turismo são distribuídos (Dredge & Jamal, 2015).
Edgell (1990) e Mill e Morrison (1985) sugerem que o planeamento turístico deve abordar os problemas estrategicamente, implicando um planeamento estratégico (citados por Costa, 2001: 436). Um instrumento que define as condições gerais do desenvolvimento harmónico do território a longo prazo, exigindo a identificação das oportunidades e dos mercados, a capacidade da satisfação do mercado face à concorrência através das vantagens competitivas, o envolvimento e cooperação de agentes públicos e privados, a fixação de objetivos de crescimentos sustentável, a definição de politicas e medidas a adotar e a seleção dos instrumentos de gestão
para o desenvolvimento das ações e para a monitorização e controlo do processo do planeamento (Valls et al.,
2006).
Mais especificamente, a VisitEngland (2012) evidencia as razões da importância do desenvolvimento de um plano estratégico na gestão do destino. Primeiramente, passa pela importância do processo em si. Ou seja, o plano aborda a fragmentação e reconhece, fortalece e coordena as diferentes entidades, atividades e funções para uma melhor utilização e gestão dos recursos, para o fortalecimento do desempenho dos negócios e, consequentemente, para a qualidade da experiência do visitante. Gere e monitoriza os impactos do turismo com ênfase nos recursos, identificando as reais necessidades e prioridades, de modo que os recursos financeiros
e humanos possam ser usados com mais eficiência, a par de fortalecer e incentivar os apoios financeiros e a identificação de projetos adjacentes. Em segundo lugar, um plano estratégico resulta da importância geral da indústria turística para a economia do destino e suas implicações para a qualidade de vida dos residentes e para a economia local.
Na perspetiva de Williams (1998), os objectivos-chave para o planeamento do turismo passam pela criação de um mecanismo de fornecimento estruturado de instalações turísticas em áreas geográficas bastante grandes; coordenação da natureza fragmentada do turismo (particularmente em relação ao alojamento, transporte, marketing e recursos humanos); realização de intervenções para a conservação dos recursos e a maximização dos benefícios para a comunidade local, na tentativa de alcançar a sustentabilidade (geralmente através de um plano de desenvolvimento ou gestão do turismo) e pela redistribuição dos benefícios turísticos (o desenvolvimento de novos locais turísticos ou o realinhamento económico de lugares que os turistas começaram a deixar) (citado por Mason, 2003: 71).
O planeamento do turismo é predominantemente orientado para o desenvolvimento do projeto com base em processos de planeamento para a resolução de problemas (Getz, 1986, citado por Marujo & Carvalho, 2010: 153). Este consiste em ordenar as ações sobre o território (equipamentos, infraestruturas e outras facilidades) direcionando-as de forma adequada evitando a destruição e/ou redução da atratividade dos recursos do destino (Ruschmann, 2008, citada por Marujo & Carvalho, 2010: 153). Deduz-se, por isso, que deverá ser um processo de antecipação e organização da mudança, que busca soluções ideais, projetado para aumentar e maximizar possíveis benefícios de desenvolvimento e produzir resultados previsíveis (Williams, 1998, citado por Mason, 2003: 66). E como sublinha Ruschmann (2008) o planeamento turístico “exige uma série de acções e decisões que só serão bem-sucedidas se empreendidas dentro de um processo metodológico” (citada por Marujo & Carvalho, 2010: 153).
Neste contexto importa sublinhar a importância do planeamento numa visão sistémica e processual, onde o planeamento e a gestão são complementares, inter-relacionados e dependentes no sentido da eficácia de ambos. A gestão é uma etapa interativa e crucial para o contínuo feedback do processo de planeamento
(Almeida et al., 1999 citados por Anjos, Anjos & Oliveira, 2013: 392). O planeamento é um processo a longo
prazo mais complexo e longo do que a gestão, com consequências sociais, ambientais e/ou económicas (Anjos
et al., 2013) envolvendo não só a formulação do plano e a sua implementação, como também a sua revisão e
supervisão (Mason, 2003; Wilkinson, 1997) e a gestão tem um papel fundamental neste âmbito. A gestão do
destino consiste na gestão, coordenação e no apoio à integração dos recursos, das atividades e dos stakeholders
através de ações e políticas (adequadas) executadas pelo setor público (Manente & Minghetti, 2006 citados por Manente, 2008: 365) com o objetivo de oferecer ao visitante uma experiência única, tendo sempre presente as suas motivações, as necessidades da comunidade local, das empresas e do meio ambiente (VisitEngland, 2012). Middleton (1994) sublinha que a gestão consiste na adoção de estratégias e programas de ação usando e coordenando as técnicas disponíveis para controlar e influenciar a oferta turística e a procura, a fim de alcançar as metas políticas definidas (citado por Mason, 2003: 75).
No entanto, é importante notar que o planeamento não é apenas um processo conduzido por entidades públicas. Como Elliot (2002) indica, o planeamento abrange empresas privadas, bem como, governamentais e públicas. É certo que o planeamento e a política são termos estreitamente relacionados, o planeamento é um curso de ação, enquanto a política é a implementação do curso de ação planeada, geralmente efetuada pelo poder público (Wilkinson, 1997, citados por Mason, 2003: 68). Todavia, também as organizações do setor privado (operadores turísticos, companhias aéreas e outros) elaboram planos e, geralmente, têm uma série de políticas através das quais operacionalizam esses planos (Mason, 2003).
Pela complexidade do planeamento atrás referida os destinos são difíceis de gerir e comercializar. A experiência do destino é, essencialmente, composta por áreas geográficas, recursos e uma amálgama de instalações e serviços turísticos, pertencentes e produzidos por várias pessoas e empresas. Gerir os interesses das empresas, da comunidade e do território é uma tarefa árdua. Como refere Gunn (1988) a existência de interesses e responsabilidades, quer do setor privado quer do público, são razões pelas quais o planeamento do turismo não é tão eficaz quanto os responsáveis pelo planeamento desejam (citado por Mason, 2003: 72). Um compromisso que abranja todos os interesse é extremamente difícil, mas é a chave para o sucesso a longo
prazo” (Buhalis, 1999; Buhalis & Fletcher,1995; Jamal & Getz,1996; Palmer & Bejou, 1995; Yuksel et al.,
1999; citados por Buhalis, 2000: 2). Assim, as estratégias e ações a estudar e implementar devem ter em conta
os interesses de todos os stakeholders, comunidade local, empresas e investidores, turistas, operadores
turísticos e intermediários e outros grupos de interesse no desenvolvimento do turismo no destino.
Neste contexto, aquando da adoção de um modelo de planeamento e gestão do destino todas partes interessadas e intervenientes no produto e nos destinos turísticos devem estar coordenadas e orientadas para um objetivo principal comum. O modelo a aplicar deve ser o mais apropriado face às potencialidades do destino e ao segmento de mercado a apostar tendo também em conta, ações e estratégias relacionadas com os recursos, as infraestruturas, a gestão do destino e a procura (Bessa & Teixeira, 2007, citados por Ruiz & Gândara, 2013: 262) tentando garantir que a sua atratividade e a experiência “total” do turista sejam superiores aos destinos alternativos (Dwyer, Mellor, Livaic, Edwards & Kim, 2004).