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Mapa 6 Município de Moju com destaque para áreas de acordos de

3 DA TRAGÉDIA DOS COMUNS AO MANEJO COMUNITÁRIO DOS

3.6 OS ACORDOS DE PESCA COMO POSSIBILIDADE DE MANEJO

ANALISANDO AS EXPERIÊNCIAS DO BAIXO AMAZONAS.

Almeida (2006) na obra “Manejo de pesca na Amazônia brasileira” introduz uma discussão sobre o manejo da pesca na Amazônia brasileira, em especial na região de várzea do Baixo Amazonas pioneira na experiência dos acordos de pesca no Brasil e comenta sobre a expansão da pesca comercial na região nos últimos anos.

A região do Baixo Amazonas corresponde a uma região que vai da confluência dos Rios Madeira e Amazonas até a foz do rio Xingu, é uma região caracterizada por grandes trechos de pastagens inundáveis e também grandes lagos circundados por florestas. Nessa região a pesca é uma das principais atividades econômicas e essa atividade geralmente ocorre nos lagos ou canais fluviais (McGRATH et. al:, 2006).

Almeida: (2006) frisa que no passado a pesca na Amazônia era predominantemente de subsistência mais que nos últimos 40 anos investimentos governamentais para o desenvolvimento da região permitiram que o setor pesqueiro também se desenvolvesse através da introdução de novas tecnologias como motor a diesel, as redes de fibra sintética, o gelo e novas tecnologias de armazenagem.

As mudanças ocorridas no setor pesqueiro produziram um aumento na capacidade de captura e armazenagem o que somou-se com o aumento da demanda por peixe devido o aumento populacional. Nas décadas de 70 e 80, houve um aumento significativo da pesca comercial para atender a demanda por peixe inclusive de mercados externos (ALMEIDA, 2006).

Todas essas transformações não foram acompanhadas por estimativas estatísticas dos impactos sócio-econômicos sobre os estoques pesqueiros e nem sobre a frota pesqueira da Amazônia. Tudo indica que os maiores impactos foram sobre o pescador de subsistência cuja capacidade de captura de peixes é muito menor que dos pescadores comerciais devido seus instrumentos rudimentares em pequeno número.

Essa discrepância em termos tecnológicos e em volume de captura acabou por gerar conflitos entre pescadores, principalmente os que pescam nas proximidades de suas moradias e os que viajam para outros locais para pescar, sendo que estes últimos passaram a reagir principalmente através do fechamento dos lagos a entrada dos pescadores comerciais apesar de não haver regulamentação para essa prática.

Na década de 90 organizações e pescadores e Colônias de Pescadores buscaram junto ao governo mudança na legislação em favor da regulamentação dos direitos de acesso aos recursos pesqueiros. Foi assim que em 1997 foi emitida uma instrução normativa dando permissão as comunidades para criarem os acordos de pesca que garantem ações combinadas entre os governos e as comunidades para gestão de recursos pesqueiros chamados de co-manejo.

Através desses acordos de co-manejo tanto pescadores artesanais de subsistência quanto pescadores comerciais foram afetados por estas práticas, mesmo sem se saber exatamente o nível de interferência de um pescador sobre os outros, e é um dos interesses desta obra nos capítulos seguintes o de discutir as perspectivas do sistema de co-manejo, de como pesca comercial e de subsistência se relacionam.

A metodologia utilizada por Almeida (2006) para analisar os acordos de pesca no Baixo Amazonas, baseou-se, em um estudo comparativo pareado entre comunidades com os acordos de pesca e comunidades sem tais acordos. Foram utilizadas entrevistas com cerca de 259 famílias em 18 comunidades, além de pesquisa sobre o esforço de pesca das comunidades através da medida da Captura por Unidades de Esforço (CPUE), cujos resultados foram compilados estatísticamente e apontaram resultados significativos.

As conclusões do trabalho da autora apontam para claros resultados positivos ás comunidades que implementam o manejo comunitário através dos acordos de pesca sendo que a pesquisa revela que o aumento de produtividade varia de 60% a 70% a mais do que lagos onde não se utiliza essa forma de manejo (Gráfico 7, 8)

Gráfico 7 - Comparação do esforço de pesca por família por ano (em horas) entre as

comunidades com acordos de pesca (barras pretas) e sem acordos de pesca (barras vazadas).

Gráfico 8 - Comparação da proporção do esforço de pesca despendido com malhadeiras

em comunidades com acordos de pesca (barras pretas) e sem acordos (barras vazadas).

Fonte: Almeida (2006)

A principal estratégia que tem gerado o beneficio positivo a comunidade segundo a autora é a exclusão de pescadores comerciais que não fazem parte da comunidade. Já a principal dificuldade no desenvolvimento do manejo comunitário na região é o custo do monitoramento que tem sido assumido pela comunidade a qual não tem sido auxiliada por órgãos governamentais.

Com base na análise deste trabalho podemos considerar que mais estudos como esses são de grande relevância não só para o detalhamento da atividade pesqueira na região amazônica, mas também para a valorização de arranjos institucionais comunitários baseados fundamente em conhecimento empírico local para o manejo de recursos naturais que garante a combinação do uso racional dos recursos e sua manutenção através de medidas relativamente simples que precisam urgentemente de apoio governamental. E é com essa intenção que nos próximos capítulos analisaremos aspectos dos acordos de pesca em outra região da Amazônia ainda pouco pesquisada no que tange as praticas de manejo comunitário em especial sobre os acordos de pesca que é a região do Baixo Tocantins.

3.7 OS ACORDOS DE PESCA COMO POSSIBILIDADE DE MANEJO COMUNITÁRIO DE RECURSOS PESQUEIROS NA AMAZÔNIA: DIFICULDADES A SEREM CONSIDERADAS.

Nas ultimas décadas do século XX principalmente a partir da década de 90 tivemos o desencadeamento de posturas pessimistas no que diz respeito às praticas de manejo comunitário na Amazônia que foram prejudicadas e as vezes entravadas por atitudes individualistas e oportunistas de vários grupos de comunitários.

Com base na discussão de McGrath et al. (2006) as três principais dificuldades em relação ao modelo comunitário de manejo na várzea amazônica dizem respeito a: primeiro a excessiva centralização por parte da esfera nacional do manejo de recursos pesqueiros sob a orientação de legislação pesqueira atual; segundo, a dificuldade de conciliação entre informações técnico-científicas e o conhecimento tradicional local para que se possa viabilizar a modernização da pesca sem comprometer irreversivelmente a disponibilidade de recursos pesqueiros; terceiro, o desafio de adequação do modelo comunitário a características sociais, econômicas e ambientais locais específicas o que só pode ser possível, segundo os autores com a capacitação técnica de lideranças locais sob orientação do Estado.

Segundo McGrath et al. (2006) os problemas referentes ao sucesso de manejo comunitário na região tornam-se ainda mais difícil de serem contornados em relação às atividades pesqueiras por se tratar de um recurso marcado pela intensa mobilidade e por ser um recursos de difícil monitoramento por estarem submersos.

A dificuldade de acompanhamento do sucesso do manejo comunitário em termos de avaliação na região Amazônica é ao mesmo tempo um estimulo aos infratores e motivo de desgaste para os comunitários envolvidos e comprometidos com o manejo por conta dos altos custos de tempo necessário para um acompanhamento satisfatório.

Um trabalho ideal com o manejo comunitário implica em constantes discussões com os comunitários envolvidos, sistemas de avaliação que no caso dos acordos de pesca significa medição e avaliação da Captura por Unidade de Esforço (CPUE), mediação do tamanho médio das espécies, acompanhamento do tempo médio nas pescarias, além de outras questões que demandam tempo, dinheiro e informações técnicas repassadas por órgãos competentes.

Uma outra questão discutida por Almeida (2006) em relação a proliferação de acordos de pesca como alternativa de manejo comunitário para a região do Baixo

Amazonas que podemos considerar como valido para toda a região Amazônica é o fato de que se por uma lado determinada comunidade consegue reduzir o esforço comercial de pesca na área regulamentada por um acordo ocorre um processo de redirecionamento dos esforços de pesca para regiões que não são regulamentadas por acordos.

Podemos concluir que apesar do significativo potencial do manejo comunitário na região em médio e longo prazo não podemos ignorar as dificuldades de implementá-los e principalmente mante-los de forma adequada para que os resultados sejam atingidos.

4 ACORDOS DE PESCA NA AMAZÔNIA: UMA ANÁLISE DAS EXPERIÊNCIAS DE MANEJO COMUNITÁRIO DOS MUNICÍPIOS DO BAIXO TOCANTINS, SUAS PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS E DIFICULDADES.

Conforme observamos nos capítulos anteriores, uma das estratégias de enfrentamento ao processo de alterações ambientais ocorridas na região do Baixo Tocantins são os acordos de pesca. A partir deste capítulo, passaremos a analisar mais detalhadamente estes acordos, tomando como referência a realidade socioambiental de cada um dos municípios que compõe a área de estudo, confrontando essa realidade com as discussões já iniciadas nos capítulos anteriores sobre manejo comunitário, especificamente os acordos de pesca.

Os municípios que compõem a área de estudo deste trabalho têm desenvolvido uma série de ações como forma de enfrentamento às mudanças ambientais, algumas dessas ações são de curta duração e sem um planejamento mais detalhado, como os projetos esporádicos de piscicultura, que têm enfrentado várias dificuldades, principalmente a falta de conhecimento técnico.

Projetos de reflorestamento vêm sendo aplicados nesses municípios, incluindo inclusive a recuperação de matas ciliares, mas é necessário um acompanhamento mais detalhado desses projetos, que envolvem órgãos como o IBAMA, as Secretarias Municipais de Meio Ambiente, as Colônias de Pescadores, as Associações de Pescadores, os Sindicatos Rurais e a SEMA.

Foi nesse contexto de transformações ambientais e tentativas de construção de mecanismos eficientes de enfrentamento a esse processo de mudanças que surgiram os acordos de pesca, os quais passaremos a analisar conceitualmente e a apresentar algumas experiências da região do Baixo Tocantins.