Mapa 6 Município de Moju com destaque para áreas de acordos de
3 DA TRAGÉDIA DOS COMUNS AO MANEJO COMUNITÁRIO DOS
3.3 VIABILIDADE DO MANEJO COMUNITÁRIO DOS RECURSOS NATURAIS
Diegues (2000) questiona a predominância do conceito cartesiano de manejo que exalta o manejo científico10 como baseado em teorias ecológicas sólidas e princípios cientificistas que tomam dados quantitativos produzidos por pesquisas objetivistas como única fonte de explicação da realidade.
Segundo McGrathet al. (2006) o conceito de manejo comunitário de recursos naturais surgiu de forma mais evidente em meados da década de 80, quando pesquisadores e cientistas da área das ciências naturais e das ciências sociais se propuseram a demonstrar a relação direta e indireta que degradação ambiental e questões relacionadas a justiça social, a pobreza que atinge as populações rurais na Amazônia em especial as populações pesqueiras (MELLO, 1994) e os direitos das populações tradicionais indígenas.
Um complemento ao conceito acima citado pode ser verificado na obra “Desenvolvimento de sistemas de manejo comunitário para a várzea amazônica: lições que estamos aprendendo” de McGrath et al. (2006) que afirmam que o manejo comunitário na região amazônica surgiu de um trabalho conjunto de organizações de base e organizações não governamentais ambientalistas. Sendo que o objetivo principal dos primeiros era a proteção das florestas da potencial ameaça de madeireiros e pucuaristas que estavam dispostos a invadir e destruir a floresta. Já o objetivo das ONGs ambientalistas exaltava a lógica do sistema extrativista tradicional
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A definição de manejo questionada por Diegues (2000) é a que aparece no Glosário de Ecologia da Aciesp (1987) que define manejo como a “aplicação de programas de utilização dos ecossistemas, naturais ou artificiais, baseado em teorias ecológicas sólidas, de modo que mantenha, da melhor forma possível as comunidades vegetais e/ou animais como fontes úteis de produtos biológicos para o homem, e também como fontes de conhecimento científico e de lazer. As orientações de tais programas deve garantir que os valores intrínsecos das áreas naturais não fiquem alterados, para o desfrute das gerações futuras. O manejo correto exige primeiro o conhecimento profundo do ecossistema para o qual ele é aplicado. O manejo é dito de flora, de fauna, ou de solo quando a ênfase é dada aos recursos vegetais, animais ou o solo. Quando todos os componentes do sistema têm a mesma importância, diz-se tratar de manejo ambiental”.
que funcionava a partir da conservação florestal, da justiça social e do desenvolvimento econômico.
Segundo McGrath et al. (2006) grandes avanços no sistema de manejo comunitário vieram após a morte do líder seringueiro Chico Mendes, que segundo os autores:
[...] a comoção nacional e internacional que se seguiu, essa aliança [organizações de base e ONGs ambientalistas] rapidamente alcançou uma série de importantes vitórias políticas que resultaram na criação de uma nova categoria de unidade de conservação, a reserva extrativista, e do centro nacional de Populações Tradicionais (CNPT), órgão do IBAMA responsável pela administração do sistema de reservas extrativistas. Esses sucessos também motivaram mudanças na política brasileira de manejo de recursos naturais, aumentando a participação das partes interessadas locais. Estimulados por esses eventos e pelo potencial do modelo extrativista, organismos doadores investiram grandes somas em um amplo leque de iniciativas de manejo comunitário (McGRATH et al.: 2006, p. 4).
Em toda a sua história o manejo comunitário engloba ações praticas de gestão participativa existentes na região amazônica desde o final do século XX e inicio do presente século marcados pela ação orquestrada de grupos de produtores familiares rurais em favor de iniciativas de manejo comunitário como mecanismo social de resposta e enfrentamento do processo de pressão e degradação dos recursos naturais que compõem a realidade desses grupos a séculos.
O manejo comunitário de recursos naturais na Amazônia baseia-se no pressuposto de que as comunidades locais são as maiores interessadas no desenvolvimento e aplicação de praticas sustentáveis sobre os recursos por elas utilizadas como forma de sobrevivência. Esse interesse é destacadamente maior do que de órgãos governamentais ou outras instituições cujo contato com essa realidade é esporádico.
Um outro principio balizador desta modalidade de manejo diz respeito ao fato das comunidades usuárias destes recursos utilizarem de uma gama de conhecimentos sobre os processos ecológicos e de praticas mais eficientes de manejo de tais recursos, o que detalharemos mais adiante.
Até as décadas de 60 e 70 segundo Seixas (2005) no trabalho “Abordagens técnicas de pesquisa participativa em gestão de recursos naturais” os projetos de gestão de recursos naturais apresentavam uma série de problemas, como por
exemplo, pesquisas executadas por pessoas externas as comunidades pesquisadas, priorizavam excessivamente o ambiente físico, desconsideravam grupos marginalizados, não atentavam para os anseios das comunidades em relação à importância dos recursos, eram geralmente pesquisas muito rápidas, favoreciam inadequadamente monoculturas e consequentemente geravam perda de biodiversidade, além de gerarem outros problemas.
Já nos anos 80 inicia-se uma mudança paradigmática em relação aos projetos de gestão de recursos naturais em função de uma valorização do conhecimento tradicional local dos recursos. A chamada pesquisa participativa ampliada nos anos 90 constituiu-se como uma estratégia importante de desenvolvimento e gestão de recursos naturais a partir da participação comunitária visando a sustentabilidade de uso dos recursos naturais.
Este tipo de pesquisa utiliza-se de forma dosada de algumas abordagens como, por exemplo, o diagnóstico rápido rural, o rural participativo, a análise
Stakeholders e a pesquisa participativa. Utiliza-se também neste tipo de pesquisa
técnicas de pesquisa participativa, como por exemplo, a observação participante, entrevistas, diagramas entre outras técnicas utilizadas do decorrer de todo processo de gestão dos recursos naturais com algumas precauções recomendadas pelos autores para o bom andamento do processo.
Rufino (2005) no trabalho “Gestão do uso dos Recursos Pesqueiros na Amazônia” mais exatamente no capitulo 3 que trata sobre a “A crise do peixe”, enfatiza a escassez de muitas espécies de peixes e as condições de esgotamento, sobre-explotação ou lenta recuperação em todo o mundo.
O autor aponta que no Brasil os insucessos nas pescarias devem-se a alguns fatores como: o principio de livre acesso, a excessiva preocupação biológica na orientação de medidas ambientais, o pesado investimento governamental para aumentar o rendimento no setor, além de outros fatores.
No caso da Amazônia é apontada a excessiva centralização do governo federal no manejo pesqueiro como dificuldade para a definição de decretos, regulamentações e leis que sejam adequadas para a região. Outra dificuldade do setor pesqueiro na região tem relação com, o aumento dos conflitos entre as categorias de pescadores, mudanças nos hábitat das espécies e a sobreexploração de algumas espécies.
Em relação ao agravamento dos conflitos entre categorias de pescadores o autor aponta inicialmente como causas desse problema o declínio das atividades de pesca e a ineficiente regulação da pesca por parte do governo. Os principais envolvidos nesse conflito são pescadores profissionais, pescadores amadores, ribeirinhos e pescadores de “fora”.
Em relação às modificações nos ecossistemas essa questão tem relação com interferências antrópicas através principalmente da construção de hidrelétricas, a existência de garimpos e o desmatamento crescente que são identificados como tendo efeitos mais graves que a própria atividade pesqueira em si.
Com relação à sobre-explotação é mais evidente o esgotamento de espécies grandes e médias como é o caso do pirarucu, tambaqui, dourada, piramutaba, caparari. No caso de outras espécies como a pescada alguns fatores ambientais favorecem um impacto menor sobre elas.
Vale ressaltar que a prática de manejo comunitário na Amazônia em toda a sua história enfrentou e enfrenta até hoje uma série de percalços como por exemplo a dificuldade com alguns grupos tradicionais da região que ainda desenvolvem sistemas inadequados a manutenção de recursos naturais em função geralmente da ânsia por geração de renda. Um outro problema é a capacidade organizacional local em relação a adequação das praticas tradicionais sustentáveis a um sistema de mercado local por conta de orientações religiosas especificamente a Teologia da Libertação que pregava a negatividade do mercado.
Compreendemos, portanto que o manejo comunitário tem um potencial de viabilidade considerável na região apesar das grandes dificuldades que ainda se enfrentam. Entre as principais dificuldades podemos citar a de mobilização comunitária e implementação de sistemas que concretamente conciliem as praticas tradicionais locais com uso racional dos recursos e viabilidade para a economia local.
3.4 MANEJO COMUNITÁRIO E ETNOCONSERVAÇÃO: ASPECTOS TEÓRICOS