III. APRESENTAÇÃO DE RESULTADOS E DISCUSSÃO
7. OS AGENTES DA PATRULHA E A IDENTIDADE DA PROFISSÃO
Passar por alguém na rua, trocar breves olhares e comunicar, são coisas que fazemos vezes sem conta durante o dia, sem que nos demos conta. No entanto, a atenção destas formas reveste-se de grande importância para o patrulheiro. Há duas razões que tornam tão importante a atenção destas interacções sociais para o Polícia que percorre o
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As rotinas da vida quotidiana que envolvem os patrulheiros e os cidadãos mais ou menos de uma forma constante em iterações face a face, constituem, grosso modo, a essência das suas actividades de policiamento. A vida na esquadra e na patrulha, organiza- se de acordo com as repetições de padrões semelhantes de comportamento, turno após turno, semana após semana, mês após mês e ano após ano. Enquanto se mantiver no mesmo turno, apresentou-se na esquadra para entrar de serviço; verificou a escala de serviço, recebeu as instruções dos superiores, trocou breves palavras com os pares e dirigiu-se para o «giro» que terá de percorrer. Na rua, provavelmente, encontra-se com amigos, transgressores e infractores da lei. Terá ocorrências para resolver, cumpre as «pausas» que se tornaram um hábito e, no final do turno, dirige-se a esquadra, elabora o expediente, se for o caso, ou resolve as ocorrências com que se deparou ou que para as quais foi solicitado. Mais tarde, voltará a casa, saindo, possivelmente, com a família ou amigos ou fica em casa com a família a ouvir musica, ver filmes ou, simplesmente, conversando.
As rotinas que seguem no dia-a-dia, não são, por certo, idênticas, e os padrões de actividades dos intervalos, contrastam com as rotinas do trabalho. Se, por acaso, o patrulheiro deixar a Polícia, tem de efectuar grandes alterações nas suas rotinas diárias. Contudo, será estabelecido um novo conjunto de hábitos regulares. As rotinas do dia-a-dia e as interacções em que se envolvem com os «outros», dão estrutura e forma ao trabalho de Polícia.
O tipo de interacções sociais que possibilitam a compreensão dos sistemas e instituições sociais mais amplas é outra das razões. De facto, todos os sistemas intersubjectivos, em grande medida dependem dos padrões de interacção social em que o patrulheiro se envolve no decurso do «giro» de patrulha. Como demonstrar esta asserção? Consideremos que o patrulheiro se cruza nas ruas com um cidadão, neste caso, trata-se do tipo mais transitório de interacção social que se pode considerar. Porém, quando o patrulheiro e o transeunte rapidamente se entreolham, e desviam os olhares ao se aproximarem um do outro, demonstram aquilo a que Goffman (Giddens, 1991) chama de desatenção civil, algo que exigimos uns dos outros em muitas situações. A desatenção civil não é, de modo algum, uma forma de ignorar o outro. Antes pelo contrário, o patrulheiro e o transeunte demonstram o reconhecimento da sua presença e evitam qualquer gesto que possa ser compreendido como intromissão. Ao demonstrar um desinteresse civil, o patrulheiro indica que não tem qualquer motivo para suspeitar das intenções do outro. É um tipo de postura, frequentemente, utilizado pelos agentes policiais. Neste caso, o
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patrulheiro não deve ser incisivo no seu olhar sobre quem passa ou permaneça à sua volta. Mas isto não quer dizer que não necessite de manter a sua atenção nos movimentos e gestos das pessoas, a fim de prevenir ou evitar situações problemáticas. No entanto, a discrição com que deve actuar, permite que as pessoas não se sintam perseguidas, olhadas ou hostilizadas.
Hoje, o patrulheiro não precisa de se esconder dos cidadãos como acontecia umas décadas atrás, «hoje (…) há uma ligação entre Polícia e sociedade» (E.1, p.86). Nessa altura, os patrulheiros refugiavam-se em locais pouco frequentados para falarem à vontade. Hoje, ainda se dá primazia às relações formais nas organizações como a PSP. Quanto mais burocratizada é uma organização, seguindo Weber, tanto mais os serviços são fixos e detalhados. Na esquadra impera este tipo de relações, mas também há lugar para as redes informais que aumentam há medida que aumenta a complexidade das tarefas a realizar. As relações informais no interior da esquadra são um meio de alcançar um certo grau de flexibilidade.
Quando um patrulheiro se defronta com uma ocorrência complicada, deve apresentá-la para análise ao superior hierárquico. Assim ditam as regras da burocracia. As normas de procedimento estabeleciam que não podiam consultar colegas do mesmo nível. Este facto, a existir, era entendido como falta de competência, o que poderia prejudicar em momentos de concurso para promoção. Mesmo assim, os funcionários consultavam-se uns aos outros, violando as normas estabelecidas. Este risco compensava. Não só obtinham informações válidas, como diminuíam a pressão a ansiedade causadas pela natureza do trabalho.
Em todas as organizações se desenvolvem redes informais. Todos os níveis da organização cultivam laços de conexões pessoais que podem ser mais importantes para a eficácia do trabalho do que as situações formais nas quais as decisões são tomadas segundo a hierarquia. Saber até que ponto os procedimentos informais ajudam ou constituem obstáculo à eficácia da organização não é questão simples. Uma esquadra está estruturada formalmente, no sentido defendido por Weber. No entanto, quer no seu interior quer no território da patrulha, surge um vasto número de formas que desafiam a maneira oficial de agir. Isso acontece porque falta alguma flexibilidade, o que provoca um ajustamento não oficial das regras formais. Para os patrulheiros que dizem ter tarefas monótonas, têm tendência a desenvolver maneiras informais de actuar porque isso ajuda a criar um ambiente de trabalho mais satisfatório.
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Todas as organizações modernas são, de certa forma, burocráticas. No entanto, há uma tendência para o desenvolvimento de redes informais a todos os níveis, tanto dentro das organizações como fora delas. É difícil estabelecer uma fronteira segura entre a formalidade e a informalidade da patrulha. A consideração e estudo destas redes informais são tão importantes como o das características formais anunciadas por Weber. Embora exista uma certa pressão por parte da hierarquia para uniformizar procedimentos, isto é, para impor atitudes formais, o certo é que a patrulha reflecte pontos de vista relativos, negociações e soluções individuais que marcam o trabalho policial.
Como se disse, o que abre assim o tempo de trabalho policial, e seu conteúdo, ao imprevisto e discricionário, é a ocorrência, singular, imprevisível; daí, a necessidade para o serviço de Polícia de minimizar a parte do tempo restrito e das servidões imperativas que impediriam de responder a ela. Os polícias testemunham amiúde essa particularidade de sua tarefa tomando de empréstimo a imagem do bombeiro (Reiner, 2004, p.49).
Reiner destaca o estatuto da ocorrência. Exterioridade, imprevisibilidade, prontidão para a resolver ou minimizar, são algumas características que refere. Nas rotinas do patrulhamento, as ocorrências são uma parte do problema, isto é, o patrulhamento tem em vista a segurança. O policiamento é tomado como sinónimo de segurança (Durão, 2008) e a segurança baseia-se na supressão do medo social. Quando as pessoas não saem à rua à noite porque têm medo, trata-se de falta de segurança pública. É certo que toda a acção policial tem como fontes possíveis uma solicitação dos particulares, seja pela apresentação de uma queixa, seja por uma interpelação em flagrante, uma ordem do Ministério Público ou uma determinação dos superiores hierárquicos. Não basta que seja ocorrência, é necessário que seja uma ocorrência policial.
O patrulheiro sabe quando uma ocorrência tem a natureza de policial. Ao longo da sua formação, adquirem conhecimentos técnicos, profissionais e éticos que lhes permitem não só reconhecer uma ocorrência policial, como dar-lhe o destino adequado.
«Todavia, continua a ser inegável que grande parte do trabalho que ocupa os agentes, as esquadras, se mantém no assegurar de ordens locais, morais e socialmente difusas das cidades» (Durão, 2008, p.480). A manutenção da ordem é a função por excelência da Polícia. Tal como refere L´Heuillet (2004, p.99) a manutenção da ordem é mais que uma função da Polícia, é uma ideia de política. A ordem é uma realidade indeterminada. Com efeito, manter a ordem pode ser praticar actos de assistência, simplesmente vigiar, prevenir, reprimir, deter. A ordem e a segurança são dois temas do mandato policial. A acção da Polícia faz com que as coisas estejam disponíveis para o bem
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e reprime as coisas que estão em desordem. O patrulheiro, vigia e garante a segurança da farmácia da rua, mas reprime e detém os assaltantes apanhados em flagrante. Parece que estamos perante uma contradição: a Polícia protege e reprime. Não é nenhuma contradição porque actua em razão da ordem. Percepcionada como algo que deve ser mantida entendida como aquilo que deve ser «mantido». «A ordem é uma necessidade inerente a todas as sociedades que queiram não apenas prosperar mas tão simplesmente viver» (L‟Heuillet, 2004, p.113).
Só pode estar ao serviço da ordem aquele que entender a natureza e o papel do policiamento, donde se depreende que a Polícia é um factor essencial para a ordem social. O policiamento consiste na eliminação do medo social. Segurança significa «acto ou efeito de segurar; serve para diminuir os riscos ou os perigos; aquilo que serve de base ou que dá estabilidade ou apoio» (Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, 2011). Ordem significa «disposição conveniente; regularidade; disciplina; acto de indicar com autoridade de que modo se devem fazer ou dispor as coisas» (Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, 2011). A terminologia faz crer que segurança é o fim e ordem o meio na actividade policial” (Durão, 2008).
Este conjunto de representações necessárias ao exercício da patrulha, pressupõe o conceito de autoridade. Esta é entendida como o correcto exercício do poder legítimo. De facto, quando o poder é exercido correctamente gera um ambiente de disciplina. Quando não há autoritarismo, prepotência, arrogância, há uma ambiente de ordem e de disciplina. Esta não se pode impor segundo uma mera imposição ou autoritarismo. Deve ser um corolário da autoridade.
A sociedade necessita de ordem e segurança, a fim de concretizar os seus fins. Para tal, surge no seu seio um mecanismo que denominamos por controlo social. A actuação deste controlo social faz-se através da Lei e da autoridade. São só meios gerais de que a sociedade dispõe para conseguir a necessária convergência das acções dos seus membros. A Lei constitui o princípio orientador das inteligências dos cidadãos em ordem à consecução do bem comum, enquanto a autoridade é o princípio orientador das vontades dos seus membros também para o mesmo fim.
«A disciplina assenta sobre um saber e não sobre um simples poder…A formação do indivíduo disciplinado é um treino preventivo...» (L‟Heuillet, 2004, p.125). «A própria Polícia deve territorializar-se, quer dizer, não enraizar-se, mas descer em direcção ao microlocal» (L‟Heuillet, 2004, p.166).
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A Polícia é uma instituição incumbida de manter a ordem pública e a harmonia passa pelo cumprimento querido das normas imperativas. A Polícia actua como instituição organizada e estruturada, fazendo parte integrante da comunidade e na base da confiança e cooperação públicas.
Com o estudo da dimensão profissional referimo-nos ao trabalho em si, aos serviços desempenhados e às perspectivas de carreira policial. Tal como se depreende do estudo das anteriores dimensões, não é possível saber onde termina uma e começa a outra. Todas fazem parte do processo dialéctico que conduz a um resultado final, à execução do serviço policial, isto é, à patrulha. A actividade dos patrulheiros está sujeita ao interesse e exigência da sociedade a cuja protecção se destina, pois, a patrulha é o exercício de um serviço público a favor da comunidade. Os profissionais da patrulha têm uma carreira formalmente estabelecida, à qual têm acesso segundo as condições que a própria lei estabelece. Nesta profissão nada é linear, tudo é contingente. Há muitos factores que condicional não só o trabalho desempenhado, como o acesso à carreira: «A nossa responsabilidade familiar dá-nos calo para a responsabilidade profissional…dou mais importância à família» (E.1, p.83); «A lei limita a profissão» (E.3, p.109). Em certos casos, a carreira profissional é prejudicada: «Somos polícias, somos mães e em primeiro lugar está a vida pessoal e assim não compreendem quando metemos assistência» (E.7, p.144), e, principalmente, quando há filhos: «Logicamente que eu queria concorrer a subchefe, mas enquanto ele for pequenito, vou aguentar mais uns anitos» (E.9, p.164). Conciliar os aspectos negativos com os positivos das várias dimensões aqui apresentadas é um exercício nem sempre fácil de levar a bom fim. Os profissionais, dada a sua função, esperam mais e melhor, mas é no equilíbrio do que é bom e mau na sua profissão que reside o profissionalismo e a qualidade do serviço policial.
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