• Nenhum resultado encontrado

Os agentes do campo de políticas públicas

3. Contornos gerais do campo de políticas públicas

3.1. Os agentes do campo de políticas públicas

Os participantes dos campos sociais são os agentes e as instituições. Os agentes são os indivíduos, que podem ocupar posições nas instituições ou atuar sem vínculo institucional definido. No campo políticas públicas os principais agentes são o cidadão, o político, o funcionário, o empresário e o especialista.

O cidadão é o indivíduo que integra a sociedade, é a unidade a partir da qual ela se estrutura social e politicamente. É o eleitor a quem os políticos tentam convencer nas eleições. Em sua grande maioria, não ocupam posições nas instituições que fazem parte do campo, muito embora todo o discurso das políticas públicas se remeta aos seus interesses, ou aos interesses “da sociedade”. Os agentes deixam de ser “apenas” cidadãos quando passam a ocupar posições com interesses específicos no campo, tais como os políticos, os funcionários ou os empresários.

O político é agente que tem como modo de vida a representação formal dos interesses dos cidadãos, sendo essa representação obtida por intermédio de eleições. O ideal dos políticos é obter posições eletivas (cargos eletivos) que lhes permitam exercer influência nas decisões e ações do Estado, tais como as posições de vereador, deputado, senador ou prefeito. Essa influência pode se realizar por intermédio das tomadas de posição (p.e. voto no parlamento e articulações políticas), pela influência sobre posições nas organizações de Estado (p.e. indicação de ocupantes de cargos de direção no Poder Executivo) e pela influência nas ações dessas organizações por intermédio de demandas diretas (p.e. solicitação ao Ministro). Ainda que o modo de vida do político seja a ocupação de posições de representação dos interesses dos cidadãos, isso não significa que ele atue comandado por esses interesses. Ele pode agir influenciado por diversos outros interesses, sejam pessoais, de grupos específicos ou de empresas. No entanto, tem consciência de que

47

o que lhe garante sobrevivência e poder sobre o campo são as posições de representação obtidas nas eleições. Daí porque a obtenção e manutenção dessa representação é o modo de vida tradicional do político.

O funcionário é o agente que, mediante um contrato de trabalho, ocupa posições funcionais no interior das organizações e por isso é remunerado. Ele deve realizar as atividades determinadas pela organização, em troca de pagamento. Os funcionários se diferenciam em grande medida pelas características dos seus contratos de trabalho e pelas exigências de qualificação, sendo que no campo de políticas públicas existem basicamente quatro tipos de funcionários: os servidores permanentes do Estado, selecionados por concurso público; os servidores do Estado ocupantes de cargos de confiança e selecionados por critérios variados; os funcionários de diversos tipos de organizações, principalmente as não estatais, com contrato sem tempo determinado, mediante carteira de trabalho assinada; os funcionários de diversos tipos de organizações, desvinculados do sistema de trabalho convencional, que possuem vínculos temporários, precários ou institucionalmente frágeis.

O empresário é o agente que é proprietário de uma empresa e atua para que ela atinja o objetivo de vender com o maior lucro possível os seus produtos e/ou serviços. Como o Estado é um grande comprador, os empresários ficam sempre atentos às oportunidades de atender às suas demandas, mesmo que isso implique criar novas empresas. Além disso, os empresários buscam influenciar as atividades de regulação e normatização realizadas pelo Estado, pois elas podem afetar positivamente ou negativamente os seus negócios.

O especialista, por sua vez, é o agente dotado de capital intelectual em determinada temática de interesse e, por isso, possui a capacidade reconhecida para indicar soluções para os problemas colocados no campo. Para ter validade no campo de políticas públicas, o conhecimento do especialista deve ser reconhecido no âmbito do campo científico, em primeiro lugar, mas também deve ser capaz de ultrapassar suas fronteiras. Um pesquisador que possui alto grau de reconhecimento no campo científico certamente pode ser um agente importante no campo das políticas públicas. Mas se este mesmo pesquisador publica periodicamente artigos em jornal, concede regularmente entrevistas para veículos de mídia e, além disso, detém a confiança de agentes que ocupam posições destacadas no campo, a sua capacidade de influenciar as decisões será muito maior. Os

48

especialistas normalmente são vinculados a universidades ou outras instituições de pesquisa e, nestes casos, atuam quase sempre como agentes independentes e não como representantes das organizações as quais se vinculam. No entanto, os especialistas podem ser ao mesmo tempo funcionários de empresas ou outros tipos de organizações que possuem interesses específicos no campo, casos em que a sua atuação fica vinculada, em maior ou menor grau, aos interesses dessas organizações. Não que este vínculo represente necessariamente algum tipo de “traição ao conhecimento”, em que o especialista usa o prestígio anteriormente alcançado para consagrar a opinião da instituição contratante, mesmo que dela não concorde, apenas para obter como retorno a remuneração prometida. Muito embora isso também ocorra, o mais comum é que as instituições procurem contratar especialistas que tenham demonstrado previamente ter opiniões iguais ou ao menos similares àquelas que a instituição defende. O que não é muito difícil, dada a multiplicidade de opiniões acadêmicas disponíveis.