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Ao discutirmos o folclore no capítulo anterior, observamos que o alimento enquanto categoria de estudo da história perpassou inicialmente por um apelo sentimental no contexto da produção literária romântica do século XIX europeu. Esse sentimento decorrente das transformações dos hábitos alimentares do contexto despertou a atenção dos historiadores, sobretudo em relação ao universo referente à agricultura.

A Histoire de l'Alimentation Végétale depuis la Préhistorique jusqu'a nos jours [História da alimentação vegetal desde a pré-história aos nossos dias] de Adam Maurizio, publicada em 1926 na Polônia, e traduzida para o francês em 1932, contribuiu significativamente para uma mudança de enfoque nos estudos sobre a alimentação, superando o discurso gastronômico e as histórias ou etnografias de alimentações regionais e/ou nacionais, assim como todo o conhecimento que era produzido sob a inspiração da cultura clássica greco-romana (CARNEIRO, 2003:134). Apesar de não ter sido traduzida para o português, essa obra circulou no Brasil, o próprio Cascudo possuía um exemplar dela em sua biblioteca. Destacamos que essa é uma das obras mais referidas na história alimentar cascudiana em associação ao valor do cultivo agrícola com o qual trabalha o autor. A proposta de Maurizio de trabalhar com as origens da agricultura vai ao encontro do foco de Cascudo, que está sempre em busca

das origens de hábitos “folclóricos”. Assim, o interesse de Cascudo, em sua história alimentar, em identificar origens e continuidades de hábitos alimentares, remontando ao período tido como “pré-histórico” (termo adotado tanto por Cascudo quanto por Maurizio em referência à perspectiva evolucionista com que observam o tema alimentar), encontra informações na obra de Maurizio. Já na introdução, por exemplo, refletindo sobre a alimentação do homem pré-histórico, Cascudo fez uso da pesquisa de Maurizio para afirmar que não haveria provas de que o homem pré-histórico teria sido vegetariano (2004a:19). Para Cascudo (2004a:508), os estudos de Maurizio ensinam que a história da civilização e a história da utilização do mundo vegetal se confundem.

Esse argumento demonstra em certa medida que a necessidade de alimentar-se impulsionou o desenvolvimento da civilização.

Maurizio destacou em sua história da alimentação vegetal uma tendência irreversível no contexto das civilizações modernas no sentido da uniformização e da regulamentação da alimentação. Em diálogo com médicos higienistas, argumentou que tal tendência aproximaria hábitos alimentares de grupos sociais de alto e baixo poder aquisitivo. A partir disso, sugeriu que a grande questão alimentar da modernidade fosse a superabundância de alimentos, fator conversor do foco da relação do homem com o produto agrícola. Se ao longo da história o homem identificou-se enquanto produtor de alimentos, no contexto da modernidade se converte em consumidor (mangeur).

Maurizio (1932:602-603) defendeu por fim o valor da agricultura argumentando que no trabalho com o cultivo dos alimentos está a base do ser do homem.

No prefácio do tradutor da obra de Maurizio para o francês, é revelada a intenção do tradutor ao levar essa pesquisa para a França: por um lado, colocar à disposição dos leitores um tema novo pouco abordado até então na França e, por outro lado, chamar atenção para a interpretação da história a partir de um método naturalista (apud MAURIZIO,1932:7).

Já fizemos referência à pesquisa do historiador Lucien Febvre, apresentada no I Congresso Internacional de Folclore em 1938, sobre os fundos de cozinha franceses.

Como diretor da Encyclopédie Française, Febvre compôs uma comissão de pesquisadores para buscar uma convergência entre a Etnografia e a História, da qual decorreu a pesquisa apresentada no evento citado. A partir do levantamento de

informações sobre a alimentação tradicional francesa, muitas questões foram suscitadas, superando a perspectiva inicial de relação direta entre produção e consumo. Ao contrário do que se supunha, por exemplo, a manteiga não seria a gordura mais consumida em regiões de produção de gado, nem mesmo em regiões de grande produção de manteiga como a Normandia. Essas questões inicialmente abertas por Febvre no tema alimentar foram desenvolvidas somente no contexto da década de 1960 (CARNEIRO, 2003:137).

Ressaltamos a relevância dada por Febvre ao conhecimento geográfico. Em sua obra A terra e a evolução humana – introdução geográfica à história, por exemplo, ele analisou a relação do meio com a sociedade, argumentando uma relação recíproca entre ambas as categorias. Neste sentido, ele discutiu a ideia de que o meio geográfico seria fator determinante nas características das populações, defendendo que o progresso e a ciência cooperavam para vencer os desafios impostos pelo meio (FEBVRE, 1991: 219).

A proposta do historiador Fernand Braudel em sua obra O Mediterrâneo e o mundo Mediterrânico na Época de Felipe II, publicada em 1949, alargou a relação de aspectos geográficos com históricos, dado anteriormente explorado por Febvre (1991).

Para Braudel (1979), o meio geográfico propiciaria uma história quase imóvel, constatação que dialoga com sua definição de diferentes tempos: o histórico, o geográfico, o social e o individual, na linguagem braudeliana tempos de longa, média e curta duração respectivamente. Sua problemática nessa obra se volta, sobretudo, para o meio material em sua relação com aspectos econômicos. Nessa relação histórica e geográfica, a alimentação é entendida como um fator cultural que integra um tempo de longa duração. Assim, no que se refere ao tema alimentar, Braudel conjugou as pesquisas iniciais de Febvre, bem como o conhecimento apresentado por Maurizio (1932), em sua história alimentar natural, na proposição da alimentação como parte da vida material humana.

Na obra Civilização Material e Capitalismo, Braudel fez referência a Maurizio ao explorar aspectos da alimentação cotidiana das sociedades em sua ligação com a prática agrícola. Nessa obra publicada em 1960, ele focou nas estruturas do cotidiano, desvendando o signo da rotina na onipresente, invasora, repetitiva civilização material

(BRAUDEL, 1992:12). Ao entender a alimentação como uma das esferas da vida material, Braudel agregou conhecimento histórico, geográfico, antropológico, sociológico, econômico, demográfico, pensando na vida material como conceito que parte dos objetos para os corpos. Assim, juntamente com o vestuário e a habitação, a alimentação estaria na infra-estrutura da história, onde residiriam hábitos, entendidos como heranças longínquas. Nessa perspectiva, ele entendeu a agricultura como a mais antiga das indústrias humanas. A relevância histórica de alimentos cultivados, tidos como “plantas de civilização” por Braudel, como o trigo, o arroz e o milho, teria por base seu significado social e caráter dominante na cultura alimentar de diferentes povos.

Esta é a perspectiva com que Braudel assumiu a segunda geração da revista dos Annales, publicada pela primeira vez em 1929 e impulsionada inicialmente por Febvre e Marc Bloch.

Na década de 1970, a revista dos Annales incitou debates sobre história da alimentação. Na introdução geral dessa edição, Braudel (1970:18) apresentou Maurizio como uma leitura indispensável para os historiadores por ressaltar práticas antigas na alimentação das diferentes sociedades estudadas. Seguindo uma perspectiva braudeliana, os artigos presentes nessa publicação são ricos em análises quantitativas de rações alimentares, ressaltando o caráter material e econômico da alimentação.

Destacamos, contudo, que apesar dessa tendência, os artigos de Jean Claudian e Yvonne Serville (1970) e de Roland Barthes (1970) expandem as perspectivas do alimento enquanto categoria histórica.

Em “Aspects de l’évolution récente du comportament alimentaire en France:

composition du repas et ‘urbanisation”, Claudian e Serville (1970) dialogam com o sociólogo Maurice Halbwachs para estruturar a proposta de pesquisa: as diferenças alimentares entre grupos rurais e urbanos integrantes de uma mesma cultura nacional.

Estes autores consideram que a geografia alimentar de um país seria determinada por dois tipos de fatores antagônicos: os estáticos, que englobariam gênero de vida, costumes e mentalidade tradicional, e os dinâmicos, que seriam compostos pelas condições técnicas e sócio-econômicas. Uma vez que os autores ponderam o peso que os valores estáticos teriam na cultura alimentar francesa, entendem que a alimentação não acompanha necessariamente o ritmo da economia. Esta constatação deu espaço

para um crescente entendimento do valor cultural da alimentação na história, conferindo ao valor sócio-econômico o segundo plano.

O artigo final da revista, assinado por Roland Barthes, é um texto em defesa de uma sócio-psicologia da alimentação contemporânea. Tal perspectiva toca a antropologia de forma bastante significativa. Numa perspectiva semelhante à proposta da antropologia estruturalista de Lévi-Strauss, Barthes (1970: 309) apresenta os alimentos enquanto um sistema de comunicação, um corpo de imagens, um protocolo de usos, de situações e de condutas.

Considerando o conjunto da revista dos Annales, André Burguière entende sua proposta como um renascimento de uma história antropológica, aos moldes da narrativa iluminista do século XVIII ou da narrativa histórica de Michelet (1990:37-41), já mencionado no segundo capítulo da presente tese. Por antropologia histórica, Burguière entende um estudo que pondera sobre a história dos hábitos físicos, gestuais, alimentares, afetivos, mentais, indicando, como exemplo, a obra Vida Material e Capitalismo de Braudel. Esta obra não se limitaria a enumerar os objetos que povoam o cotidiano, ao apresentar equilíbrios econômicos e o circuito de trocas, a trama da vida biológica e social e os comportamentos que integravam o gosto alimentar.

Na primeira edição dos Annales, Febvre já havia prenunciado que a América Latina era um campo privilegiado para os estudos na perspectiva histórica que propunham. Seguindo essa ideia, os historiadores dos Annales investiram na produção acadêmica brasileira. Em 1947, Febvre e Braudel patrocinaram a criação da Revista de História (ARRUDA; TENGARRINHA, 1999:49-50). Desta forma, observamos a influência dessa linha de pensamento na produção brasileira, ainda que de modo tardio em relação à Europa. Seguindo esta linha citamos o primeiro livro de estudos de história da alimentação: História da Alimentação no Paraná, de Carlos Roberto Antunes dos Santos, que foi publicado em 1995.

A partir do exposto, consideramos que a relação de Cascudo com a perspectiva da alimentação segundo a percepção da cultura material teria somente as raízes na obra de Maurizio. Cascudo não faz referências às produções de Febvre, Braudel ou aos Annales em sua história alimentar, apesar da proximidade do tema e do contexto de produção. Acreditamos que ele não teria tido acesso a essa produção, uma vez que

não encontramos nenhum exemplar de obras desses pensadores no acervo que conserva sua biblioteca. Nesse ponto, é possível afirmar que sua posição marginal, geográfica e academicamente falando, tenha sido o principal fator para tanto.

Pensamos que Cascudo não teve contato com essas obras porque não estava em contato com a produção historiográfica nas universidades, somente com a produção do IHGB. Foi uma decisão pessoal, regida pelo seu posicionamento intelectual que o aproximava mais da produção dos folcloristas e etnógrafos.