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Dentre sua vasta obra publicada, Cascudo escreveu apenas um romance, Canto de Muro, publicado em 1959. O romance de costumes, como Cascudo o classifica, foi escrito num ímpeto quando, em fins de dezembro de 1956, seu filho adoeceu gravemente e Dália e Anna Maria foram lhe fazer companhia:

Fiquei sozinho e desesperado de angústia. Inexplicavelmente pensei nos meus bichos de outrora e no convívio inesquecido da longínqua Chácara do Tirol.

Escrevi o primeiro capítulo. José Pires de Oliveira tomou-se de amores, contagiando-me o entusiasmo e prestando-se a repetir a experiência. Na ansiedade em que vivia, o esforço foi uma derivação sublimadora e o livro nasceu com violência. [...] Nenhum outro possui como este a totalidade emocional. (CASCUDO, 1959:265).

Segundo Telê Ancona Porto Lopez, predomina no narrador/personagem desse romance:

Um lirismo do olhar que transfigura, através de imagens, comparações, sinestesias, adjetivos precisos, um local desprezado e corroído, ao captar nele a pulsação da vida, a dimensão plástica nas cores da vegetação e dos seres, nas luzes e sombras, nas diversas danças de amor e de morte; a dimensão dos sons da terra, dos chilreios, cantos e guinchos ou dos silêncios ominosos; o alcance dos perfumes e cheiros. (LOPEZ, 2003:25).

Do exposto, observamos na leitura do Canto de Muro que um dos sentimentos mais presentes é a saudade da qual decorre o lirismo apontado por Lopes. Tais características se mostram bastante emblemáticas na frase final do romance “Aqui vou, saudoso e lento, remergulhar no grande mundo, murado pelos horizontes..."

(CASCUDO, 1959:262).

Desde a juventude Cascudo parecia ter uma especial ligação com a arte da escrita. Em correspondência a Mário de Andrade, de setembro de 1925, envia três poemas “flagrantes, autênticos, fiéis” (CASCUDO apud MORAES, 2010:60). Mário de Andrade o responde: “Seus poemas. Bons. Enérgicos retos. Mas tenho umas

observações a fazer” (ANDRADE apud MORAES, 2010:68). Depois de ler as críticas apontadas pelo literato paulista, Cascudo não disfarça sua frustração:

Engoli a inspiração para descomê-la em prosa. V. é um assassino. E inda lhe devo um favor. Foi, como naquela estória persa, o menino que viu o Rei nu. E eu andava certíssimo de estar vestido tão bem. O que me enfureceu foi o conselho de “modificar”. [...] V. ainda apresentou emendas ao projeto... E técnicas.

Bandido complicado em erudito. Fiquei furioso. Aqui pelo Norte nós somos furiosamente liricamente talentosos. Apontar uma falha é desmantelar o castelinho. E o meu veio abaixo como se fosse poeira. Estou desanuviado. Mais lépido. Com a impressão de ter vencido. E venci uma convicção às avessas.

Devo a V. meti o livro de versos [num] envelope e sepultei-o no “inferno” da biblioteca. Creia que estou sinceramente grato. (CASCUDO apud MORAES, 2010:78-79).

Talvez seja possível afirmar que a decepção vivida pela crítica de Mário de Andrade o tenha desanimado a enveredar pelos caminhos literários. Não é possível afirmá-lo com certeza, por outro lado, percebemos que Cascudo não abriu mão de expressar a sensibilidade humana e a sua própria em seus estudos. Para Cascudo o romance é “uma paisagem humanizada pelos diálogos” cuja finalidade, “como prova a sua origem etimológica, é traduzir o cotidiano despercebido na velocidade da vida social” (CASCUDO, 1998a:172). Os fragmentos anteriores, retirados do livro O Tempo e eu escrito em 1967, mesmo ano da publicação do primeiro volume de História da Alimentação no Brasil, apresentam uma perspectiva da leitura que Cascudo faz das obras literárias: o retrato do cotidiano dos personagens. É nesse sentido que faz uso de obras literárias em sua história alimentar. A referência à literatura se faz presente, sobretudo, no capítulo “Ementa Portuguesa”. Assim, lemos logo na abertura deste capítulo:

O que se comia no Portugal quinhentista?

Um informador delicioso e verídico é Gil Vicente, vivo documentário do povo português na naturalidade da expressão reveladora, na convivência direta, na coragem divulgativa. (CASCUDO, 2004a:229).

A partir da leitura das obras completas de Gil Vicente, considerado o primeiro dramaturgo português, Cascudo remonta possíveis cardápios populares do Portugal quinhentista:

Na Farsa dos Físicos, 1519, quando o Brasil ainda indiviso e o povoamento inicial, fortuito, irregular, fala-se em apisto (suco) de pé de boi, manjar branco, perna de veado, pastel de lebre, coelho, porco, trincheiras (queixadas) de vaca, caçapos (laparos), cação, congro, lampreia, tubarão, caldos de peixe. Pão farto, comum, vulgar. (CASCUDO, 2004a: 229).

Cascudo segue citando trechos de autos que fazem referência ao universo alimentar do período. Frisamos o caráter ”verídico” com o qual Cascudo reveste a descrição do cotidiano alimentar presente nas obras literárias referenciadas por ele.

Vale destacar também que a referência a gêneros alimentícios e hábitos alimentares na literatura pode extrapolar o universo material, perspectiva de trabalho da antropóloga Claude Papavero ao analisar os poemas de Gregório de Matos elaborados entre 1638 e 1694 (2007). Podemos dizer que mais do que analisar as fontes, Cascudo busca informações nas fontes. A ele não ocorreu expor, por exemplo, o contexto de produção dos autos de Gil Vicente que estavam relacionados aos “autos de fé”, os quais buscavam reforçar o embasamento da fé católica a partir de peças teatrais, reforçando distinções culturais entre cristãos e cristãos-novos (inclusive na temática alimentar).

Em Gil Vicente, Cascudo busca as raízes da cozinha portuguesa nas quais identifica as raízes da alimentação brasileira. No subcapítulo “Regulamentação do paladar português”, dois poetas são citados para contextualizar a alimentação portuguesa no século XVIII, Nicolau Tolentino e Caldas Barbosa. Do primeiro Cascudo escreve:

Multiplicaram-se os convescotes animados nas quintas aristocráticas e arrebaldes tranquilos ao redor de Lisboa sem o pavor da luneta inquisitorial de Pombal. Domínio dos bolos e dos doces. Dos alimentos de fácil preparo e transportáveis. Perdizes assadas, galinhas, frangos alourados de manteiga, canjas, arroz com açafrão. Licores. Vinho do Porto e da Madeira. Divertimentos familiares, chás e torradas, canto e dança, vítimas do sarcasmo de Nicolau Tolentino, devoto deles.

E vale lembrar a visão satírica do serão humilde, pretensioso, burguês, do lisboeta de 1779 [...] (CASCUDO, 2004a:293).

Caldas Barbosa, poeta e músico mulato do Rio de Janeiro que popularizou nas cortes portuguesas as modinhas portuguesas na década de 1770, é lembrado por Cascudo pelas sátiras que o poeta Bocage fazia dele:

Vem pão, manteiga, e chá, tudo à catinga;

Masca farinha a turba americana; modernidade. Por apresentarem uma posição favorável à alimentação tradicional portuguesa, o jantar de João Semana, personagem do livro As Pupilas do Senhor Reitor de Júlio Dinis, e a ceia da comédia Os Velhos de João da Câmara mereceram um subcapítulo à parte em História da Alimentação no Brasil.

Cascudo justifica a relevância que deu à obra de Júlio Dinis assegurando que o autor, que era médico, se manifesta através do personagem João Semana, cirurgião octogenário que depõe a favor do gosto tradicional, reagindo negativamente aos menus internacionais que invadiam e dominavam as festas, recepções e hotéis no Portugal de D. Luís I (1838-1889). Cascudo expõe uma longa citação do livro, que ocupa duas páginas de sua história alimentar:

A cozinha de João Semana era de um caráter portuguesíssimo, e eu, ainda que me valha a confissão os desagrados de alguma leitora elegante, francamente declaro aqui que, para mim, a cozinha portuguesa é das melhores cozinhas do mundo.

Dou razão nisso a João Semana.

As combinações extravangantes das cozinhas estrangeiras – os galicismos culinários, por exemplo – repugnavam-lhe tanto ao estômago, como aos ouvidos mais pechosamente sensíveis dos nossos severos puritanos, a outra qualidade de galicismos. (DINIS apud CASCUDO, 2004a:330).

Em seguida, Cascudo já apresenta o conteúdo referente à comédia de João da Câmara. Na leitura dessa obra literária, Cascudo se questiona sobre o que “comem aqueles soberbos velhos de 1879, no Alto Alentejo?” (CASCUDO, 2004:332).

Canja. Galinha cozida e arroz. Farinheira com paio, chouriço, toucinho. Cabidela.

Peru ao forno. Carneiro com batatas. Lombo de porco com batatinhas. Leitão assado. Dois pratos de porco, demonstrativos da secularíssima predileção.

Sobremesa: bolo podre, pão-de-ló, arroz-doce. Sabores históricos.

Vinho, vinho velho, guardado desde 1829. Meio século de pipa. Nenhum doce de calda. Nenhuma fruta. Não comparece o café ao final. Copo de vinho fecha a

ágape. A ceia dos velhos de 1879 é uma refeição fiel da saboreada em 1829.

(CASCUDO, 2004:332)

Após expor informações sobre o jantar de João Semana e a ceia d’ Os Velhos, Cascudo (2004a:333) afirma tê-los como “depoimentos da realidade coletiva portuguesa, na segunda metade do século XIX, quando a descaracterização da cozinha tradicional era notória nas cidades de maior acesso exterior”. A grande defesa da cozinha tradicional portuguesa enquanto valor nacional Cascudo vai encontrar no literato Fialho de Almeida:

Pensavam os nacionalistas de 1817 e 1822 quanto Fialho de Almeida proclamaria em 1891: Um povo que defende seus pratos nacionais, defende o território.

O alimento representa o povo que o consome numa imagem imediata e perceptiva. Dá a impressão confusa e viva do temperamento e maneira de viver, de conquistar os víveres, de transformar o ato de nutrição numa cerimônia indispensável do convívio humano. (CASCUDO, 2004a:378).

A relevância do texto é tal que mereceu entrar no apêndice em História da Alimentação no Brasil. Destacamos aproximações de estilo entre Cascudo e Fialho de Almeida. Este literato português, que viveu entre os anos 1857 e 1911, tem um enquadramento literário semelhante ao de Cascudo nas Ciências Humanas, uma vez que incorpora de maneira sui generis diferentes correntes estético-literárias como meio de expressão de uma individualidade artística própria. Pela marca subjetiva de seus textos, sua base inicial romântica nunca desaparece ao longo dos anos, mas atualiza-se (REVEZ, 2011:394). A partir do atualiza-seu romantismo, Fialho de Almeida define o prato nacional como “(...) o romanceiro nacional, um produto do gênio coletivo: ninguém o inventou e inventaram-no todos: vem-se ao mundo chorando por ele, e quando se deixa a pátria, lá longe, antes de pai e mãe, é a primeira coisa que lembra" (apud CASCUDO, 2004a:885).

Conjugando sentimentos de coletividade, alteridade e saudade, o conceito de prato nacional de Fialho de Almeida abarca tanto ideais românticos quanto nacionalistas. No contexto do pensamento do século XIX, a elaboração de discursos em torno de cozinhas nacionais é dada concomitantemente ao processo de construção

simbólica dos Estados Nacionais europeus (LAURIOUX & BRUEGEL, s.d:18).

Aprofundaremos a discussão do nacionalismo de Cascudo no próximo capítulo.

Ressaltamos uma última referência literária em História da Alimentação no Brasil, que remete à cultura brasileira, o livro O tronco do Ipê de José de Alencar, publicado em 1871. Cascudo cita o livro no subcapítulo “Saúdes e cantadas e canções de beber”

como sendo uma fonte documental que evidencia a vulgarização das canções pelo sul e norte do Brasil, mesmo no período em que escreve sua história alimentar (CASCUDO, 2004a:705). Ele torna assim a fazer uso da literatura como fonte descritiva do cotidiano:

No Tronco do Ipê, de José de Alencar, publicado em 1871 e que vive a sociedade rural da província do Rio de Janeiro, é descrito um jantar na propriedade do barão de Espera.

“Foi interrompido pela voz do barão: - Estão todos tão calados? Que é isto, meus senhores? Compadre Domingos Paes, vamos lá, uma saúde cantada!...o Sr.

Domingos Paes, apesar da sua hipocondria, encheu até às bordas de vinho do Porto num copo, e começou com um desenho admirável:

Nossa carne-seca Que vem do sertão, Os paios, presuntos, Melhores não são!

Depois de repetir duas ou três vezes essa cantiga nacional que lhe ensinara um paulista, o compadre proclamou o brinde:

- À saúde do senhor major Tavares e do senhor comendador Matos, ilustres pais de seus filhos!” (CASCUDO, 2004a:708-709).

Depois de citar essa passagem da obra de José de Alencar, Cascudo não faz nenhum comentário em relação ao nacionalismo da canção.

No que se refere ao uso da literatura enquanto fonte por Cascudo, destacamos dois aspectos. Primeiro, é a busca pelo retrato do cotidiano deslocado de seu tempo e espaço que abre espaço para fragmentos literários serem usados como ilustração da alimentação da época. Segundo, é a preferência de Cascudo pela literatura romântica portuguesa e brasileira do século XIX, na qual identifica valores da tradicionalidade alimentar que dão relevância para a mesma na cultura nacional.