Como mencionado antes, desde a promulgação da CF/88 até o presente ano, os argumentos do Congresso Nacional a respeito da redução da maioridade penal e do enrijecimento das medidas socioeducativas permaneceram os mesmos. Podem-se agrupar, basicamente, oito argumentos trazidos pelos parlamentares das duas Casas Legislativas para justificar a propositura das 69 PECs e dos 24 PLs acerca da matéria. Eles podem ser vistos na tabela 4.7 abaixo:
Tabela 4.7: Argumentos favoráveis à redução da maioridade penal e ao enrijecimento do ECA 1) Maioridade Civil VS. Maioridade Penal41.
Diante da obtenção da Maioridade no âmbito civil (com a possibilidade de se adquirir a emancipação aos 16 anos) e político (como o direito de votar a partir dos 16 anos), defende- se que é uma incoerência a previsão de que o jovem é inimputável até os 18 anos de idade. É contraditório permitir que os jovens tenham todas as prerrogativas e direitos sendo que, perante um ato infracional, a responsabilidade penal não é exigida.
2) Aumento da criminalidade juvenil42.
No entendimento dos parlamentares, existe um aumento dos índices de criminalidade juvenil. E, apesar de saberem que a redução da maioridade penal não é a solução do problema da Segurança pública, eles acreditam que estabelecer a inimputabilidade aos 16 anos pode contribuir para coibir novas práticas de infrações pelos adolescentes. Além disso, as medidas socioeducativas são consideradas lenientes e ineficazes no seu papel ressocializador e coibidor de atos infracionais, exigindo medidas mais duras e repressivas. 3) Maturidade VS. Avanço Tecnológico43.
O desenvolvimento dos meios de comunicação e da tecnologia tem proporcionado às crianças e aos adolescentes amplos conhecimentos e uma visão mais precoce da realidade em que vivem. Isso torna-os mais maduros e capazes de avaliar as consequências de seus atos. Portanto, eles possuem condições plenas de discernimento entre o lícito e o ilícito. 4) Conformidade da lei com a evolução da sociedade44.
O desenvolvimento da sociedade e da tecnologia e o acúmulo maior de informação, por sua vez, exige que a CF/88 acompanhe essas mudanças, essa evolução. Deve existir uma
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Argumento trazido por parlamentares, como o deputado Telmo Kirst (do PPR/RS), o deputado Solon Borges dos Reis (PTB/SP) e o deputado Gonzaga Patriota (PSB/PE), nas disposições dos motivos da PEC 37/95, do PLS 484/88 e da PEC 32/15, respectivamente.
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O argumento do aumento da sensação de insegurança é um motivo levantado por quase todos os parlamentares nas formulações de suas PECs ou PLs. Por exemplo, o senador Acir Gurgacz (PDT), na disposição de motivos da PEC 74/11 disponível em: <http://legis.senado.leg.br/mateweb/arquivos/mate-pdf/94219.pdf>.
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O avanço da tecnologia é tido como uma das principais razões para o rápido amadurecimento das crianças e dos adolescentes hoje, o que justifica a redução da maioridade penal ou o enrijecimento das medidas socioeducativas. O deputado federal Silas Brasileiro (PMDB/MG), por exemplo, é um dos adeptos desse entendimento, como pode ser visto nas disposições de motivos da PEC 345/04. Disponível em: <http://www2.camara.leg.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra?codteor=256394&filename=Tramitacao- PEC+345/2004>.
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Esse argumento pode ser visto, por exemplo, na disposição de motivos do deputado federal Andre Moura
(PSC/SE) na PEC 57/11. Disponível em:
<http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra?codteor=899881&filename=Tramitacao- PEC+57/2011>.
“elasticidade interpretativa” na medida em que a CF deve evoluir com a sociedade. 5) Audácia dos adolescentes em conflito com a lei45.
O menores de 18 anos de idade estão envolvidos em infrações cada vez mais graves.
Episódios violentos, como o caso do adolescente “Champinha”46
, evidenciam a ousadia dos adolescentes em relação à Lei. Justifica-se esse comportamento pela impunidade resultante da leniência do sistema socioeducativo do ECA. É uma situação que evidencia, mais uma vez, a ineficácia do ECA para lidar com os adolescentes em conflito com a lei.
6) Inimputabilidade é um facilitador47.
A inimputabilidade é vista como um facilitador para a prática infracional na medida em que tira a responsabilidade penal do adolescente. Ela é vista como um direito “abusivo” que dá
“liberdade” aos menores de 18 anos para cometerem infrações. E mesmo que se contra-
argumente que existe uma responsabilização e punição no sistema de medidas socioeducativas, estas são vistas como ineficazes – pois não “corrigem” e não conseguem obstar a reincidência – e lenientes demais. E a diminuição da idade penal pode ajudar a reduzir as práticas de infrações.
7) Maioridade Penal não é cláusula pétrea48.
Defende-se que não existe cláusula pétrea no art. 228 da CF, não havendo interpretação extensiva do inciso IV, parágrafo 4o., do art. 60 da CF. Ademais, as PECs e os PLs não visam acabar com o instituto da inimputabilidade, o que poderia ser considerado um atentado aos Diplomas internacionais. Além disso, as Propostas e os Projetos objetivam enrijecer a punição pela prática de atos infracionais cometidos por adolescentes, algo não vedado pela Constituição e nem pelos tratados internacionais.
8) Pressão Popular49.
Existe uma pressão e insegurança popular demandando medidas mais punitivas. Ademais, o contexto atual de criminalidade e violência exige a evolução das instituições, inclusive as leis, para lidar com as questões sociais em questão. Toma-se o Código Penal de 1940, por exemplo. Este não é pertinente para atender as demandas da atual sociedade brasileira no âmbito penal, pois foi construída em um contexto que não reflete as necessidades atuais da sociedade brasileira.
Fonte: CÂMARA DOS DEPUTADOS, 2016; SENADO FEDERAL, 2016.
Em contrapartida, existem parlamentares no Congresso Nacional que se opõem às PECs ao artigo 228 da CF/88 e aos PLs que propõem medidas mais repressivas do que as
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Argumento trazido, por exemplo, pelo deputado federal Guilherme Mussi (PP/SP) na disposição de motivos
do PL 7.590/14. Disponível em:
<http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra?codteor=1255306&filename=Tramitacao- PL+7590/2014>.
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A esse respeito, cf. notas 1 e 22. 47
O argumento pode ser visto no PL 3.538/97, do deputado federal Enio Bacci (PDT/RS), na parte das
justificativas. Disponível em:
<http://www2.camara.leg.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra?codteor=1130947&filename=Dossie+- PL+3538/1997>.
48
Argumento trazido, por exemplo, pelo Deputado Federal Nair Xavier Lobo (PMDB/GO) na parte das
justificativas da PEC 426/96. Disponível em:
<http://www2.camara.leg.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra?codteor=1014974&filename=Dossie+- PEC+426/1996>.
49
Argumento visto, por exemplo, na disposição de motivos da PEC 273/13, do deputado Onyx Lorenzini
(DEM/RS). Disponível em:
<http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra?codteor=1095824&filename=Tramitacao- PEC+273/2013>.
previstas pelo ECA. Os argumentos trazidos por esse grupo foram identificados pela análise das discussões ocorridas na CCJC e das sessões deliberativas da Câmara dos Deputados durante a apreciação da PEC 171/9350. E podem ser divididos em quatro justificativas:
Tabela 4.8: Argumentos contrários à redução da maioridade penal e ao enrijecimento do ECA 1) A Maioridade Penal é cláusula pétrea.
Segundo o deputado federal Alessandro Molon (REDE/RJ)51, a diminuição da idade penal vai contra o art. 227 e 228 da CF na medida em que ambos dispositivos preveem garantias individuais que são abarcados pelo art. 60, parágrafo 4o, IV, da CF/88. Os direitos e garantias fundamentais não estão limitados àqueles arrolados no art. 5° da Constituição. O § 2° do art. 5° explicita que há outros direitos materialmente fundamentais, que não se localizam na CF/88, decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados, bem como dos tratados internacionais em que o Brasil faz parte.
2) A solução está na efetivação do ECA.
A resposta para a redução da criminalidade infanto-juvenil não está na mudança da Constituição Federal e no enrijecimento das medidas socioeducativas, mas na efetiva implementação do Estatuto da Criança e do Adolescente - ECA. Como bem explica o prof. Miguel Reale Júnior52: “A falta de aplicação do Estatuto gera uma reincidência que beira os
40%”, o que questiona a eficácia do ECA, mas não sustenta a ideia da redução da idade
penal.
3) A ineficácia das prisões brasileiras53.
A redução da maioridade penal sugere o aumento da aplicação da pena privativa de liberdade. No entanto, a prisão não tem se mostrado como o meio mais eficaz para a ressocialização do indivíduo, pois as penitenciárias brasileiras são associadas a locais que profissionalizam a atividade criminal.
Além disso, deve-se seguir os ditames do ECA: o foco deve estar na priorização de medidas alternativas, sendo a privação de liberdade uma opção em último caso.As primeiras são mais
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A identificação de argumentos desfavoráveis à redução da maioridade penal foi feita apenas na análise da PEC 171/93 porque as demais propostas não tiveram os seus textos deliberados o suficiente pela CCJC e nem mesmo pelo Plenário das Casas. As opiniões e os argumentos dos parlamentares contrários à diminuição da idade penal só foi adquirível nos textos, relatórios e votos elaborados durante o deliberação da PEC 171/93 na Câmara dos Deputados.
51
O argumento do deputado Molon pode ser encontrado em seu discurso na CCJC em 30 de março de 2015.
Disponível em: <http://www.camara.gov.br/internet/sitaqweb/textoHTML.asp?etapa=11&nuSessao=0196/15&nuQuarto=0&n uOrador=0&nuInsercao=0&dtHorarioQuarto=14:30&sgFaseSessao=&Data=30/3/2015&txApelido=CONSTIT UI%C3%87%C3%83O%20E%20JUSTI%C3%87A%20E%20DE%20CIDADANIA&txFaseSessao=Reuni%C 3%A3o%20Deliberativa%20Extraordin%C3%A1ria&txTipoSessao=&dtHoraQuarto=14:30&txEtapa=>. 52
Essa justificativa faz parte do discurso realizado pelo Prof. Miguel Real Júnior em uma das audiências públicas realizadas para a deliberação da PEC 171/93 pelos deputados federais da CCJC. Ademais, o argumento e o trecho do jurista transcrito, especificamente, pode ser localizado no parecer do relator –
deputado Luiz Couto – da Proposta, disponível em:
<http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra?codteor=1309494&filename=Tramitacao- PEC+171/1993>.
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Argumento trazido pelo deputado federal Luiz Carlos Busato (PTB/RS) em seu discurso na CCJC em 30 de
março de 2015. Disponível em:
<http://www.camara.gov.br/internet/sitaqweb/textoHTML.asp?etapa=11&nuSessao=0196/15&nuQuarto=0&n uOrador=0&nuInsercao=0&dtHorarioQuarto=14:30&sgFaseSessao=&Data=30/3/2015&txApelido=CONSTIT UI%C3%87%C3%83O%20E%20JUSTI%C3%87A%20E%20DE%20CIDADANIA&txFaseSessao=Reuni%C 3%A3o%20Deliberativa%20Extraordin%C3%A1ria&txTipoSessao=&dtHoraQuarto=14:30&txEtapa=>.
eficientes no combate à criminalidade juvenil do que o encarceramento de adolescentes. 4) A criminalidade juvenil está associada aos problemas socioeconômicos54.
As crianças e os adolescentes são vítimas de um sistema socialmente desigual que limita o acesso aos seus direitos garantidos pela Constituição Federal – como educação, saúde, lazer. E esse contexto influencia os jovens a buscarem soluções e alternativas no mundo do crime. Sendo assim, uma solução mais eficaz para o problema da violência seria o comprometimento do Estado com políticas públicas que tenham como objetivo a proteção e a inclusão social da infância e juventude.
Fonte: CÂMARA DOS DEPUTADOS, 2016; SENADO FEDERAL, 2016.
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Um dos deputados federais que traz esse argumento é o parlamentar Evandro Gussi em seu discurso na CCJC
em 30 de março de 2015. Disponível em:
<http://www.camara.gov.br/internet/sitaqweb/textoHTML.asp?etapa=11&nuSessao=0196/15&nuQuarto=0&n uOrador=0&nuInsercao=0&dtHorarioQuarto=14:30&sgFaseSessao=&Data=30/3/2015&txApelido=CONSTIT UI%C3%87%C3%83O%20E%20JUSTI%C3%87A%20E%20DE%20CIDADANIA&txFaseSessao=Reuni%C 3%A3o%20Deliberativa%20Extraordin%C3%A1ria&txTipoSessao=&dtHoraQuarto=14:30&txEtapa=>.
5 MAPEAMENTO DA MAIORIDADE PENAL NO CONGRESSO: OS MODELOS