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Os Aspectos Processuais da Usucapião Familiar

3. PROTEÇÃO À MORADIA FAMILIAR À LUZ DOS PRINCÍPIOS

4.5 Os Aspectos Processuais da Usucapião Familiar

A ação de usucapião está disciplinada nos arts. 941 a 945 do CPC( Código de Processo Civil). Como no próprio título referente a essa ação, o legislador delimitou a incidência do referido instituto apenas para os bens particulares, baseando-se na Súmula nº 340 do STF, pois antes da Constituição Federal de 1988, já havia a proibição da usucapião de bens públicos.

Apesar do rito exposto no parágrafo anterior ser comum às espécies de usucapião, as peculiaridades da modalidade pró-família permite o entendimento de que o seu processamento será realizado de forma distinta comparado às outras modalidades. Dessa forma, Roberto Paulino de Albuquerque Júnior e Roberto P. Gouveia Filho corroboram de tal entendimento ao afirmarem:

Explica-se:o rito especial, com toda a sua complexidade, tem uma função particularmente clara, que é a de formalizar uma relação processual que se dá contra todos, para a declaração de que foi adquirido o direito real, cujo exercício se dá erga omnes.10 A especialidade de tal procedimento está no edital convocatório dos réus hipotéticos, fixado no art. 942 do CPC ( LGL 1973\5 ) . Trata-se de uma técnica de sumariedade de cunho pré-processual. Como, de acordo com o exposto acima, não há réus hipotéticos em tal ação, o procedimento especial não tem o menor sentido.

Na nova modalidade de usucapião, este aspecto deixa de ter relevância. Se os cônjuges precisam ser titulares em conjunto do domínio sobre o bem, não há como ferir interesses de terceiros. Nem mesmo os confinantes poderão ser prejudicados, pois o pedido deve se restringir à declaração de aquisição da meação do cônjuge condômino no imóvel, nos estritos limites do direito previamente reconhecido. Por isso, o interesse em contestar a demanda pertence exclusivamente ao cônjuge que se retira do lar, sendo desnecessária a citação dos demais. (ALBUQUERQUE; GOUVEIA, 2011, on-line).

Em relação ao procedimento da usucapião familiar, Maria Aglaé Tedesco Vilardo possui o entendimento de que o rito nas ações de usucapião familiar será o comum ordinário, baseando-se na transcrição legal do art. 271 do CPC (VILARDO, on-line). A transcrição da referida norma é a seguinte:” Aplica-se a todas as causas o procedimento comum, salvo disposição em contrário deste Código ou de lei especial”. Além disso, existem duas espécies de procedimento comum, o ordinário e o sumário, porém no caso do último, há a necessidade de previsão legal para a sua ocorrência, conforme o art. 275 do CPC. Dessa forma, tanto pela incompatibilidade da usucapião familiar com o rito especial da usucapião, como pela ausência de uma regulamentação específica relativa ao

procedimento nessa nova modalidade, entende-se que o rito aplicado será o comum ordinário.

Como em todas as outras modalidades, a sentença na usucapião familiar possui natureza declaratória, ou seja, declara uma situação preexistente, que é a aquisição da propriedade exclusiva pelo usucapiente. A fundamentação legal dessa assertiva encontra-se no caput do art. 1241 do CC/2002. Sendo assim, a propriedade do usucapiente opera os efeitos ex-tunc, atingindo o tempo do início da propriedade, como se o cônjuge residente no imóvel, fosse desde o início o proprietário exclusivo do bem.

Sobre a questão relativa à competência para o julgamento das causas envolvendo a usucapião conjugal, a dúvida dos juristas será entre a competência da Vara Cível ou a de Família. Apesar de ser uma norma de direito real, a mesma atinge principalmente interesses de caráter familiar, por isso o melhor entedimento é que a a Vara de Família possui as melhores condições para a solução dos litígios envolvendo o instituto da usucapião pró-família.

Nesse sentido, Maria Aglaé Tedesco Vilardo entende que a Vara de Família é a que possui as melhores condições para o julgamento de lides envolvendo o patrimônio familiar, e a usucapião conjugal não seria diferente, por isso as peculiaridades das relações familiares deverão ser julgadas em um juízo já acostumado com situações que não são típicas em outras Varas, inclusive a Cível, casos semelhantes à usucapião conjugal, como partilhas de bens e administração dos bens dos filhos menores são julgados pelas Varas de Família. ( VILARDO, on-line).

No Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, houve um julgamento em sede de apelação, admitindo os requisitos da usucapião familiar, dando o seu provimento a um cônjuge que permaneceu no imóvel junto com os filhos, exercendo a função social da posse e da propriedade sobre o mesmo, enquanto o outro consorte já havia saído há mais de 20 anos da residência familiar. O julgamento ocorreu em abril de 2014, ultrapassando o biênio legal, contado a partir da data da entrada em vigor do art.1240-A do CC/2002, que foi no dia 16 de junho de 2011. O referido julgamento está exposto da seguinte forma:

APELAÇÃO. CERCEAMENTO DE DEFESA E AUSÊNCIA DE PRESTAÇÃO JURISDICIONAL. INOCORRÊNCIA. USUCAPIÃO ESPECIAL POR ABANDONO FAMILIAR. RECONHECIMENTO. Ainda que a apelante não tenha tido vista de documentos juntados pelo apelado, não se verifica nisso cerceamento de defesa se os documentos em questão não são acolhidos pela sentença para decidir contra a apelante. Na hipótese, da falta de intimação sobre a juntada dos

documentos não resultou nenhum prejuízo para a apelante. E sem prejuízo não há nulidade. Não há falar que a sentença padeça de ausência de prestação jurisdicional por não ter tratado de questão suscitada pela apelante apenas depois da prolatação da sentença. Caso de réu/apelado que abandonou o lar e a família há mais de 20 anos atrás, deixando a ré/apelante residindo sozinha com os filhos comuns por todo esse tempo. Tratando-se de imóvel com área inferior ao limite legal, reconhece-se o direito à usucapião especial por abandono do lar. Inteligência do art. 1.240-A, do CCB. REJEITADAS AS PRELIMINARES, DERAM PROVIMENTO. (Apelação Cível Nº 70058681693, Oitava Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Rui Portanova, Julgado em 10/04/2014)

(TJ-RS - AC: 70058681693 RS , Relator: Rui Portanova, Data de Julgamento: 10/04/2014, Oitava Câmara Cível, Data de Publicação: Diário da Justiça do dia 23/04/2014)

Atualmente, a usucapião familiar já está inserida há mais de dois anos no ordenamento jurídico brasileiro, isto significa que as suas causas estarão cada vez mais presentes nos juízos e nos tribunais do nosso país. Então, com as reiteradas decisões jurisprudenciais a respeito do tema, a tendência é a uniformização do entendimento jurisprudencial quanto ao procedimento nas ações de usucapião conjugal, pois a atuação dos magistrados será fundamental para compensar as falhas do legislador, adequando o referido instituto à consecução dos seus fins sociais

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Desde a sua entrada em vigor no dia 16 de junho de 2011, a usucapião familiar, a usucapião conjugal, a usucapião por abandono do lar conjugal ou usucapião pró-família, a relevância do nome é secundária, o importante é que esta modalidade está causando polêmica quanto a algumas questões, tanto no Direito das Famílias como em relação a sua adequação aos preceitos constitucionais.

A questão principal sobre o referido tema está relacionada à intenção do legislador em garantir o direito à moradia para as famílias hipossuficientes, porém alguns doutrinadores acreditam, que mesmo com essa “boa intenção” ao criar a referida norma, esta atingiu alguns temas já expurgados do direito das famílias, como a culpa no fim da relação conjugal e a ênfase dada a questão patrimonial da família em detrimento do seu aspecto pessoal, reavivando essas questões, muitos acreditam que a usucapião conjugal está ferindo o princípio constitucional da vedação ao retrocesso social, sendo assim, materialmente inconstitucional. Já outros especialistas do direito acreditam que a norma possui natureza real, ou seja, apenas dá o domínio àquele que cumpre a função social da posse e da propriedade sobre o bem imóvel.

Assim, diante de tal controvérsia no mundo jurídico a respeito da referida espécie de usucapião, o objetivo deste trabalho era a demonstração das várias opiniões sobre o tema, confrontando os posicionamentos divergentes, ao mesmo tempo, averiguando as possíveis falhas do legislador, ressaltando a compatibilidade ou não da usucapião pró-família com outros temas do direito pátrio.

Entretanto, não foi apenas um trabalho comparativo e analítico, também houve uma busca em prol de uma possível solução para que a norma alcance os seus fins sociais, facilitando o trabalho do operador do direito, em cumprimento ao art. 5º da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro (LINDB).

Em relação a sua natureza como instituição jurídica, a usucapião familiar pertence ao Direito das Coisas, apesar de incidir diretamente nas relações familiares, o seu objeto não será a punição do cônjuge ou do companheiro considerado culpado pelo final da relação, mas a garantia do outro consorte ou companheiro que continua a residir no lar conjugal, dando uma destinação útil ao imóvel, assim como ocorre nas outras modalidades de usucapião.

Um estudo preliminar sobre a usucapião em todos os seus aspectos teve uma fundamental importância, pois através dessa análise, houve um entendimento sobre alguns pontos relativos à usucapião familiar que são idênticos aos de outras espécies, como a posse, o lapso temporal, a questão da moradia, como ocorre nas outras modalidades de usucapião especial; ao mesmo tempo, com a análise do clássico instituto do Direito Civil, também encontraram-se algumas distinções da modalidade pró-família quando comparada a outras espécies, como a questão da copropriedade, que não existe nos outros tipos, além disso, a propriedade conjunta deverá ser exercida pelos cônjuges ou companheiros, um requisito que só incide na modalidade conjugal.

Além do estudo da usucapião em seu contexto geral, houve também a análise a respeito de alguns princípios constitucionais que se aplicavam à questão da moradia familiar, pois o direito social à moradia é o bem jurídico protegido nessa nova modalidade de usucapião. Então, alguns princípios constitucionais foram estudados no presente trabalho, relacionando-os à usucapião familiar.

O primeiro princípio que foi objeto de estudo foi o da dignidade humana , pois é o princípio basilar dos demais, a moradia deve servir como um bem jurídico que seja a garantia do mínimo existencial de uma entidade familiar. O princípio da solidariedade também têm uma fundamental importância no estudo da usucapião conjugal, pois os auxílios material e moral entre membros de uma família são um dos preceitos fundamentais do novo direito das Famílias. Outro importante aspecto principiológico relacionado a esse novel instituto , é a sua incidência não apenas na família formada pelo casamento, mas também atinge outras entidades familiares, como a união estável heterossexual e homoafetiva, ratificando a essência do novo Direito das Famílias, que abandonou o exclusivismo do matrimônio como instituição familiar. O princípio da vedação ao retrocesso também têm suas implicações na nova modalidade de usucapião, somente pelo fato da polêmica em relação à volta da culpa no fim das relações conjugais, pois alguns autores entendem que a usucapião familiar trouxe um retrocesso social, algo que, para estes autores, é considerado como uma afronta à Constituição de 1988.

Em relação aos institutos da posse e da propriedade, há os seus princípios constitucionais da função social, ou seja, a norma premiará àquele cônjuge ou companheiro que permanecer na residência, cumprindo a finalidade social sobre o bem imóvel em detrimento daquele que não pratica mais os seus atos possessórios.

No caso da usucapião familiar, as interpretações teleológicas, sociológicas e sistemáticas serão mais importantes do que a gramatical, pois olhando o art. 1240-A do Código Civil de 2002, o artigo que regulamenta a usucapião familiar , nota-se que há algumas falhas no referido dispositivo legal, sendo assim, haverá uma necessidade de analisar a norma sob uma ótica mais ampla do que o sentido literal da mesma. A utilização do referido instituto na prática forense será determinante para que a norma alcance a sua finalidade social, assim sendo, haverá uma adequação da referida norma com os anseios da nossa realidade social.

REFERÊNCIAS

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