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Os Atos Institucionais e a intelectualidade brasileira

No documento DOUTORADO EM SERVIÇO SOCIAL (páginas 98-103)

Capítulo III – A Arte Engajada no Brasil

3.3 Os Atos Institucionais e a intelectualidade brasileira

A Ideologia que direcionava a autocracia burguesa pautava-se na repressão e no controle da população, legitimados na estrutura do Estado, com destaque para o cerceamento da liberdade, principalmente a de pensar e expor suas idéias quando estas ameaçassem a ordem e o progresso capitalista. A cultura e as artes sofreram censuras arbitrárias: a exposição do pensamento criativo dos intelectuais da contra-ordem era ameaçada. Já os intelectuais da ordem, mantinham-se em lugar privilegiado na reprodução da lógica do desenvolvimento dependente e associado.

Os instrumentos legais de cerceamento das liberdades foram os Atos Institucionais, legitimadores das forças repressivas, tendo no 5º o apogeu da violência

contra a intelectualidade brasileira não apenas no âmbito da violência por meio da censura, mas também com práticas institucionalizadas de tortura, que se tornara no Regime Militar “método científico”, disciplina teórico-prática na formação dos militares78.

Historicamente, a censura no país data do primeiro governo ditatorial, o de Getúlio Vargas, estando presente no Código Penal de 1940. Já à época um retrocesso, visto que em 1821, D. Pedro I assegurava a liberdade de imprensa e abolia a censura no país79.

A intensidade da violência deste instrumento militar de cerceamento das liberdades varia conforme a fase do Regime. Como amplamente se sabe, logo após o Golpe de Abril de 1964, os militares, na figura do General Humberto Castello Branco (15/04/1964 a 15/03/1967), decretam o primeiro Ato Institucional, ao nono dia que sucedeu o Golpe.

O presente Ato institucional só poderia ser editado pela revolução vitoriosa, representada pelos Comandos em Chefe das três Armas que respondem, no momento, pela realização dos objetivos revolucionários, cuja frustração estão decididas a impedir. Os processos constitucionais não funcionaram para destituir o governo, que deliberadamente se dispunha a bolchevizar o País. Destituído pela revolução, só a esta cabe ditar as normas e os processos de constituição do novo governo e atribuir-lhe os poderes ou os instrumentos jurídicos que lhe assegurem o exercício do Poder no exclusivo interesse do Pais. (AI nº 1, Introdução)

Àquele instante, os militares queriam, de forma mascarada, ainda mostrarem-se condescendentes, não radicais face ao “processo revolucionário” e mantiveram a Constituição de 1946, limitando-se a “modificá-la apenas”, justamente na parte dos poderes do Presidente da República, para que este pudesse “restaurar no Brasil a

78 Referenciados no livro Brasil: nunca mais, temos algumas das “matérias” dos cursos destinados aos

militares com o tema tortura. Estas aulas de tortura foram denunciadas por “presos-cobaias”, dos quais tem-se alguns relatos na obra citada: “De abuso cometido pelos interrogadores sobre o preso, a tortura no Brasil passou, com o Regime Militar, à condição de ‘método científico’, incluído em currículos de formação de militares. O ensino deste método de arrancar confissões e informações não era meramente teórico. Era prático, com pessoas realmente torturadas, servindo de cobaias neste macabro aprendizado. Sabe-se que um dos primeiros a introduzir tal pragmatismo no Brasil, foi o policial norte-americano Dan Mitrione, posteriormente transferido para Montevidéu, onde acabou seqüestrado e morto. Quando instrutor em Belo Horizonte, nos primeiros anos do Regime Militar, ele utilizou mendigos recolhidos nas ruas para adestrar a polícia local. Seviciados em salas de aula, aqueles pobres homens permitiram que os alunos aprendessem as várias modalidades de criar, no preso, a suprema contradição entre o corpo e o espírito, atingindo-lhes os pontos vulneráveis.” (1985: 32) .

79 DILLON SOARES, ANPOCS associação nacional de pós-graduação e pesquisa em ciências sociais,

ordem econômica e financeira e tomar as urgentes medidas destinadas a drenar o bolsão comunista”, supostamente já infiltrado no governo anterior, de João Goulart. (AI nº 1, Introdução).

Atentemos para o fato de que no âmbito cultural, o Brasil testemunhava a efervescência das práticas artísticas de temáticas sociais, políticas e econômicas, e que com o início da outorga dos Atos sofreria censuras causadoras de danos irreparáveis à cultura brasileira a curto prazo. O fortalecimento do que Gramsci chama de “sociedade política” na esfera o Estado autocrático em detrimento da “sociedade civil” teve rebatimentos diretos na cultura brasileira, como o silenciamento à luz da violência física e moral dos intelectuais que questionavam a ideologia dominante.

Ainda Castello Branco, a 27 de outubro de 1965, impõe o segundo Ato, no qual a medida central foi a dissolução dos partidos políticos, o poder aos militares de cassar mandatos, o estabelecimento de eleições indiretas para Presidente da República, e a emergência de apenas dois partidos políticos, o MDB de oposição, e o ARENA, governista, ou como se dizia, o partido do “sim” (MDB) e o partido do “sim senhor” (ARENA). (VENTURA, 1988).

Em janeiro de 1967 outorga-se a nova Constituição e com ela, contraditoriamente, apesar de em sua letra constar que todos os Atos anteriores (1, 2, 3 e 4) tornavam-se leis, ganham força as manifestações por restaurar a democracia. Nesta Constituição, inclusive, no Artigo 153, parágrafo 8, é assegurada a liberdade de imprensa. O governo do segundo presidente militar, Marechal Arthur Costa e Silva (15/03/1967 a 31/08/1969), é marcado por grande expansão industrial e de exportações. Mas o crescimento das manifestações políticas de movimentos sociais – com evidência para o Movimento Estudantil – ameaçava a ordem e a integridade capitalistas.

Ameaçados por perderem aceitação frente à opinião pública, e por constantes manifestações do Movimento Estudantil articulado aos artistas engajados, em 13 de Dezembro de 1968, Costa e Silva decreta o AI 5, sob a defesa de assegurar a “autêntica ordem democrática, baseada na liberdade, no respeito à dignidade da pessoa humana”, inaugurando o período mais acirrado da Ditadura Militar no Brasil.

Deste momento até a distensão lenta e gradual do governo Ernesto Geisel, os intelectuais brasileiros foram perseguidos, mortos, desaparecidos. E entendamos aqui intelectuais também no sentido amplo do termo gramsciano, não apenas os que tinham vida pública notória, mas também todos os integrantes dos movimentos políticos e sociais, todos os estudantes e trabalhadores que foram presos, torturados, mortos e desaparecidos80 por fazerem parte de organizações sindicais, movimentos sociais ou militância política na clandestinidade e, conseqüentemente, ameaçarem a ordem na figura do inimigo interno. Ressalte-se aqui que esta ordem possui uma centralidade econômica, face à inserção subalterna e necessária do país no capitalismo em nível mundial, para manter os índices de acumulação e liberdade do imperialismo norte- americano.

Com este Ato, o Presidente da República legalmente pode decretar – e o faz posteriormente – o recesso do Congresso Nacional, suspende os direitos políticos, pode confiscar bens de quem – à luz das compreensões militares da época – tenha enriquecido ilicitamente no exercício ou cargo da função pública, suspende a garantia de Hábeas Corpus no caso de crimes políticos. E isto se deve bastante aos movimentos políticos em torno da redemocratização do país, às manifestações culturais – cinema, teatro, música, livros, revistas –, à movimentação dos intelectuais brasileiros progressistas e a direção dada às massas, visto o receio da possibilidade de reversão da lógica militar com a defesa da democratização do Estado.

CONSIDERANDO, no entanto, que atos nitidamente subversivos, oriundos dos mais distintos setores políticos e culturais, comprovam que os instrumentos jurídicos, que a Revolução vitoriosa outorgou à Nação para sua defesa,

80 Ainda com referência ao livro Brasil: nunca mais, tem-se a contagem no Brasil de 125 cidadãos

desaparecidos, mas sabemos que este número chega a muito mais. Sobre estas pessoas, os militares negam veementemente a morte deles. Em relatos no livro, dizem simplesmente que nunca viram ou que a pessoa sumiu. Muitas destes cidadãos desaparecidos, antes do “desaparecimento” ocorrer, tinham geralmente sido vistos nos ou sendo levados para os DOI-CODI. Várias famílias sofrem até hoje com a falta de notícias sobre o paradeiro de seu entes queridos, mesmo sabendo que é muito improvável que não estejam mortos. Além da falta de notícias e do cinismo relatado quando da indagação de onde estaria o ente querido, algumas famílias sofreram extorsão, como o caso da de Ana Rosa Kucinski Silva, professora de Química da Universidade de São Paulo.

Outros casos, como o do deputado federal Rubens Paiva, preso em frente à família, com mulher e filha presas e torturadas, e posteriormente, com o carro entregue à esposa com recibo do DOI-CODI do I Exército, espantam pelo cinismo e por forjar um estado de enlouquecimento dos familiares. No caso citado, após a entrega do carro, a família pediu informações ao comandante do I Exército sobre o paradeiro de Paiva e o comando respondeu que ele não estava detido. De fato, já devia estar “desaparecido”.

desenvolvimento e bem-estar de seu povo, estão servindo de meios para combatê-la e destruí-la;

CONSIDERANDO que, assim, se torna imperiosa a adoção de medidas que impeçam sejam frustrados os ideais superiores da Revolução, preservando a ordem, a segurança, a tranqüilidade, o desenvolvimento econômico e cultural e a harmonia política e social do País comprometidos por processos subversivos e de guerra revolucionária;

CONSIDERANDO que todos esses fatos perturbadores, da ordem são contrários aos ideais e à consolidação do Movimento de março de 1964, obrigando os que por ele se responsabilizaram e juraram defendê-lo, a adotarem as providências necessárias, que evitem sua destruição,

Resolve editar o seguinte

ATO INSTITUCIONAL (...). (Ato Institucional nº 5, 13/12/1068).

Ora, se para Gramsci um grupo para ser dominante deve ser primeiro dirigente, e nisto reside grande parte da luta pela hegemonia, como haveria possibilidade de dar continuidade à efervescência do final dos anos 50 e início dos anos 60 da ideologia crítico-social da arte engajada, se nossos intelectuais – papel central na difusão de ideologias e na construção e legitimação de certa hegemonia – foram calados, silenciados em sua função orgânica de criação, produção e reprodução cultural na perspectiva das classes subalternas.

Ao se utilizar de forças repressivas para manter a ordem burguesa civil-militar, o Estado desarticula a sociedade civil quanto aos ideais de construção de uma sociedade democrática de fato, incorporando em sua autonomia relativa para decisões políticas, sociais e econômicas as camadas subalternas da população brasileira e garantia de participação destas igualmente na socialização das riquezas. O Estado autocrático procura atuar na atomização dos coletivos sociais e na desmobilização das organizações da sociedade civil que visam à democracia.

A solução encontrada pela autocracia burguesa segue a via das transformações “à prussiana”, ou “pelo alto”, de forma “passiva” quanto ao poder de contraposição das camadas subalternas. Coutinho nos mostra que este viés é uma particularidade da formação econômica, social e política do Brasil81.

81 A “via prussiana” é um conceito formulado por Lênin para expressar a passagem para o capitalismo na

Alemanha, de modo a adequar aquela estrutura agrária a este novo modo de produção, configurando-se como um processo desfavorável à emergência da moderna sociedade burguesa. No caso brasileiro, pode ser caracterizada como um caminho estratégico que desde nossa Independência é utilizado como manobra de manutenção das classes dirigentes no poder: “Essa problemática pode ser resumida na idéia de que o processo de modernização econômico-social no Brasil seguiu uma ‘via prussiana’ ou uma ‘revolução passiva’. Recordemos as características centrais do fenômeno: as transformações ocorridas

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