Um mês depois de se tornar coordenadora da COEA, coube a Lucila Pinsard também assumir a presidên- cia da Câmara Técnica Temporária de EA do Conselho Nacional do Meio Ambiente - Conama. Para estrear seu mandato de dois anos, uma tarefa em que colocaria em prática seu conhecimento de cientista social, com mestrado em antropologia e especialização em negociação de conflitos socioambientais: conduzir a primeira fase construção da regulamentação da Lei da PNEA.
Houve consultas diretas às instituições representadas no Conama, lembra ela, mas também por e-mail a órgãos como Secretarias Estaduais de Educação, e debates com educadoras/es ambientais através das Re- des de EA45. Representando a sociedade civil nessa CT, estava o Gamba, ong da Bahia que também era elo
da Rebea. Ficou mais fácil acionar as redes de EA através dos elos locais e regionais. Suas sugestões foram trazidas ao debate em Brasília.
Como em todas as situações que envolvem diferentes atores sociais, cada qual com sua visão, não fal- taram pontos polêmicos. Um deles, recorda a ex-presidente da CT, era conseqüência do vazio criado pelo veto presidencial ao artigo 18. Agora, educadoras/es pressionavam pela inclusão de instrumentos que ga- rantissem verbas para EA na regulamentação. Não passou. Seria inviável impor esta regra num decreto regulamentador, avalia Lucila.
Também a composição do órgão gestor da PNEA despertou embates apaixonados. A grande questão era: como inserir na instância superior da Política Nacional de EA os diferentes setores que na prática pro- movem a EA no país? De um lado, argumentava-se que, quanto mais ampla sua composição, menos ágil seria a tomada de decisões e execução das ações. Por outro, sem o envolvimento dos variados segmentos da sociedade, como garantir o cumprimento da Lei, que justamente responsabiliza a sociedade pela implanta- ção da EA?
Também havia detalhes que “emperravam a discussão” do ponto de vista jurídico. Se se queria a Rede Brasileira de EA como representante da sociedade civil, mas pela própria característica de rede ela não é constituída como pessoa jurídica, o que fazer?
Só se passou do impasse para o consenso, frisa Lucila, quando duas Câmaras Técnicas do Conama – a Jurídica e de EA – ficaram frente à frente, em uma longa reunião. Mas ela é crítica quanto aos resultados: “A regulamentação reflete um jogo de forças. Não se pensou no conjunto. O resultado foi uma colcha de retalhos”. Foi assim que o texto seguiu, depois de oito meses, para a aprovação da Plenária do Conama, para depois passar pelo aval das Câmaras de Ensino Básico e Ensino Superior do Conselho Nacional de Educação (CNE).
A saber: no caso do Órgão Gestor da PNEA, o decreto que regulamentou a lei – que só seria assinado em 2002 – definiu um órgão enxuto, composto pelo MEC e MMA. Mas haveria um comitê assessor, com 13 assentos, onde caberia uma variada gama de representações sociais. Nesse comitê, os assentos das “orga- nizações não-governamentais que desenvolvam ações em EA” e do “setor educacional-ambiental” ficaram, respectivamente, para organizações indicadas pela Associação Brasileira de Organizações Não Governa- mentais (Abong) e pelas Comissões Estaduais Interinstitucionais de Educação Ambiental (CIEAs).
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A proposta de formar Comissões Interinstitucionais de EA (CIEAs) foi uma das primeiras a mobilizar a equipe da nova DEA/MMA. Era a única, entre as linhas de ação, exclusivamente embasada no esforço de articulação entre os diferentes atores sociais da EA nas cinco regiões do país. Ainda em 1999, houve reuniões da equipe da Diretoria de EA em todas as unidades da Federação, para incitar a articulação das secretarias estaduais de meio ambiente com representantes de entidades governamentais, não-governamentais, setor acadêmico e produtivo (patronal e laboral).
Esperava-se que, a partir de reflexões sobre a EA e, principalmente, do levantamento de demandas locais e regionais, germinassem as CIEAs. E que cada uma construísse ou atualizasse o programa de EA de seu Estado, além de indicar diretrizes e prioridades para o Programa Nacional. A DEA/MMA participaria do processo, acolhendo e encaminhando as indicações, mas também colaborando na busca de recursos humanos e financeiros necessários ao cumprimento das metas.
No balanço dos resultados, o ministério contabilizou que 17 unidades da Federação formaram suas comissões até o final de 2000. Destes, 16 delinearam os esperados programas estaduais de EA. Outro ganho, entendido como mais um sinal do fortalecimento da EA na esfera governamental, foi a inclusão do Programa Nacional de EA no Avança Brasil, programa do Governo Federal que reunia as principais ações do Plano Plurianual 2000- 200346.
Ao mesmo tempo em que se desenvolvia esse processo de articulações nos estados, outro também começou a tomar forma: a articulação com as redes de EA.
E A EA AVANÇA NOS ESTADOS...
Igualmente no MMA a nova Diretoria de EA (DEA/MMA) planificou linhas de ação, em 1999, para inserir a EA na esfera não- formal:
Implantar o Sistema Brasileiro de •
Informações sobre EA (SIBEA), como integrador das informações de EA no país;
Promover a criação de Pólos de EA e •
Difusão de Práticas Sustentáveis, como meio de irradiar as ações de EA nas diferentes unidades da Federação; Fomentar a formação de Comissões •
Interinstitucionais de EA nos estados (CIEAs), apoiando ainda a elaboração de programas estaduais de EA;
Implantar um curso de EA à distância, •
para capacitar gestoras/es, professoras/ es e técnicos de meio ambiente de todos os municípios do país;
Instituir o projeto Protetores da Vida, •
para sensibilizar e mobilizar jovens para as questões ambientais.
Documentos oficiais da época arrolam os princípios orientadores que estavam por trás da proposta. Eles revelam uma orientação pautada na moderna concepção de EA, que veio crescendo a partir da conferência de Tbilisi, de 1977, e consta da própria legislação brasileira para a EA: 1- o enfoque holístico, democrático e participativo, 2- a descentralização e estabelecimento de parcerias, locais, nacionais e internacionais; 3- respeito à pluralidade e diversidade cultural do país; 4- multi, inter e transdisciplinaridade; 5- enfoque sistêmico; 6- construção de novos valores éticos centrados na valorização da vida.
47 O sítio http://www.protetoresdavida.org.br (acessado em janeiro de 2008) traz informações gerais. 48 Disponível em: http://www.protetoresdavida.org.br/index_carta.htm