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Ver com olhos livres.”

RESPONSABILIDADES LOCAIS

Será que as mesmas responsabilidades apregoadas na carta final da II CNIJMA eram pauta do dia a dia de suas/seus jovens delegadas/os? Uma pesquisa sobre percepção ambiental realizada durante o evento nacional concluiu que sim: nove em cada dez respondentes (89,5%) declararam que todas/ os são responsáveis por cuidar/zelar pelo meio ambiente. Também aqui, é nos detalhes que se enxergam pontos frágeis e fortes, indicadores de caminhos para avançar.

Derivada de uma parceria entre o MEC e o Núcleo de Estudos em Percepção Ambiental da Empresa Brasileira de Ensino e Extensão (Nepa), responsável pelo estudo, e patrocinado pelas empresas Aracruz Celulose e Companhia Siderúrgica Tubarão (CST), a pesquisa também quis saber como esse universo de jovens engajadas/os reagiriam permanente atualização, o texto internacional

ganhou adesões no mundo todo pela proposta de um novo pacto social entre seres humanos. Pacto esse que, como explica o site da fundação, “trata das responsabilidades individuais e coletivas nas inter-relações humanas e com a biosfera, que cidadãos do mundo inteiro, governos e instituições podem adotar, numa perspectiva de construir sociedades sustentáveis”.

Apenas dois parágrafos da apresentação do documento internacional bastam para entender por que ele se tornou uma das referências citadas pelos realizadores da II CNIJMA: “Atualmente, a vida internacional se apóia em duas bases: a Declaração Universal dos Direitos Humanos, que se apóia na dignidade dos indivíduos e na defesa de seus direitos, e a Carta das Nações Unidas, cujos pontos principais são a paz e o desenvolvimento. Graças ao marco que foi criado por essas duas bases, se conseguiu um progresso indiscutível na organização das relações internacionais. Mas os últimos cinqüenta anos viram mudanças globais radicais.

Para enfrentar os grandes desafios do século XXI, é preciso elaborar um novo pacto social entre seres humanos, com o objetivo de assegurar a sobrevivência da humanidade e do planeta. Tal pacto deve assumir a forma de uma carta adaptada por cidadãos do mundo inteiro, e mais tarde por instituições internacionais”142.

Em tempos em que a interatividade abre portas para o mundo, não é de estranhar o que ocorreu em seguida. O processo das conferências infanto-juvenis no Brasil

142 http://www.charte-responsabilites-humaines.net (site mulilingue)

143 O Brasil também defende a promoção de uma 2ª Jornada do Tratado de Educação Ambiental para Sociedades Sustentáveis e Responsabilidade Global. Relatos oficiais do evento, fotografias e a “Declaração de Ahmedabad 2007: Uma chamada para a Ação. Educação para a vida, a vida pela educação”, disponíveis em: http://www.tbilisiplus30.org

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escolas das/os delegadas/os da II CNIJMA (92,8%), abordava os temas ambientais freqüentemente (60,1%) ou eventualmente (32,8%). Resultado parecido ao Censo Escolar de 2004 (94%), que concluiu pela tendência de universalização da EA nas escolas de Ensino Fundamental. Não fica só nisso: mais da metade dessas escolas (51%) também se envolvera na I CNIJMA, e tinha sua Comissão de Meio Ambiente e Qualidade de Vida na Escola, conhecida como Com-vida (43%).

• Ações ambientais. Correspondendo à expectativa, pelo tipo de evento, esmagadora maioria declarou interesse pela temática ambiental (91,2%) e intenção de participar de projeto ou curso na escola nessa área (98,8%). Indo além das intenções, mais de três quartos das/os respondentes disseram realizar ações para cuidar do ambiente (88,2 %), sobretudo na própria comunidade (63,4%). Só que mais da metade confessou ter dificuldades para “convencer” outras pessoas (56,30%). A maioria das famílias (59,7%) contava com o serviço público de coleta de lixo. Mas a queima (12,2%) e jogar/enterrá-lo em terreno baldio (4,2%) foram outras opções mencionados. Em menos de um quarto (23,1%) das residências dessas/es jovens a coleta seletiva era realidade.

• Visão inteira. Mais de dois terços das/ os respondentes definiram meio ambiente como a interação das diferentes formas de vida existentes no planeta, incluindo os seres humanos (66%). E nove em dez respondentes (91,6%) informaram acreditar na possibilidade do desenvolvimento sem agressão ao meio ambiente. Aproximadamente metade apostou ser viável combinar preservação da natureza – total (34,5%) ou parcial (16,8%) – com o uso dos recursos naturais por quem depende disso para garantir a sobrevivência. São dados similares aos apresentados por outro grupo engajado: as/os integrantes dos Coletivos ante um problema ambiental.

O retorno deixou transparecer um variado leque de possibilidades. Entre todas, um quinto das/os respondentes (21,4%) adiantou que buscaria apoio na comunidade. Uma reação coerente com a proposta de repartir responsabilidades, avaliaram as/os analistas. Em seguida, vieram diferentes modalidades de denúncias e manifestos: procurar um órgão ambiental (13,4%), organizar manifestação de rua (12,2%), contatar a imprensa (9,7%) e, em proporção bem menor (5,9%), criar um abaixo-assinado.

Surpreendentemente, só pouco mais de um vigésimo das pessoas (5,5%) avisou que “falaria com meu professor, minha professora”. O que foi entendido como sinal da distância da relação professor-estudante e portanto da relação escola-comunidade. Parcela ainda menor sugeriu que “pediria ajuda a um político” (2,1%). Pelo tipo de evento, não é surpresa que quase ninguém (0,8%) tenha dito que “não daria para fazer nada”. Mas, para ambientalistas, pode surpreender outra informação: em outro ponto da pesquisa, quase três quartos das/os delegadas/os (73,1%) declararam desconhecer ongs que atuam na área ambiental nas suas comunidades. Sinal de distância também desse universo.

Mas quem eram as/os delegadas/os participantes da II CNIJMA?

• Pontos comuns. Majoritariamente foram ao evento em Brasília estudantes de escolas públicas (94,5%), com 13 a 15 anos de idade (78,1%) e já na 8ª. série (67%). Mais da metade eram meninas (57,1%), e mais de três quartos residiam nos municípios do interior do país (80%), em áreas urbanas (76,1%). Para mais de dois terços (68,1%) o tema meio ambiente era discutido sempre ou quase sempre com suas famílias.

Cotidiano e Práticas Sociais, no XI Simpósio Brasileiro de Pesquisa e Intercâmbio Científico da Associação Nacional de Pós-graduação em Psicologia (Anpepp). Em agosto do mesmo ano, foi divulgado em Sorocaba, como documento de livre reprodução, desde que citada a fonte e para fins não comerciais. Em 2007, seria publicado como capítulo de livro.144

O texto parte da avaliação de que historicamente a EA brasileira se destacou pelo “engajamento político na construção de uma sociedade justa, sustentável e democrática”, para então enumerar “uma série de acontecimentos, decisões políticas, eventos, seminários e documentos (...) no sentido contrário ao que tem sido arduamente construído desde o final dos anos 1970”. Entre eles, cita decisões do governo federal, polêmicas do ponto de vista ambiental, sobre as quais “não se ouviram/viram manifestações públicas dos/as educadores/as ambientais, próximos ou no interior dos Ministérios do Meio Ambiente e da Educação”.

Reigota menciona, entre outros, a liberação para exportar e comercializar uma safra de soja transgênica produzida clandestinamente no Rio Grande do Sul; a defesa da transposição do rio São Francisco e da construção da usina nuclear Angra 3 e até a aprovação de lei 4.776/05 (que regulamenta a exploração da madeira em áreas públicas da Amazônia), cuja tramitação começara no governo anterior, já com forte apoio de grupos ambientalistas, como Greenpeace e WWF-Brasil.

O autor não economiza citações para relatar o que chama de “esfacelamento da cidadania no governo Lula”. Qualifica o período 2003-2006 como de “rupturas e Jovens de Meio Ambiente, como vimos na

pesquisa realizada pelo MEC e MMA, em 2005.

• Caminhos para o aprofundamento. No cômputo geral, dois terços das/os estudantes (66,4%) identificaram corretamente o bioma de seu local de moradia. Só que houve casos extremos. Em Tocantins e Santa Catarina, cujas/os delegadas/os confessaram não ter essa informação. Outro indicador de conhecimento da temática ambiental, a relação entre poluição e saúde, foi reconhecido só por pouco mais da metade das/os respondentes. Perto de um quarto das/os jovens (23,1%) afirmou desconhecer problemas ambientais no local onde reside. As/os demais destacaram, como principais dramas, a poluição da água, queimadas e desmatamentos, esgoto e lixo. Numa escala de prioridade, população, indústria e governo foram apontados como principais vilões da degradação. Vale dizer que quando se perguntou qual a primeira palavra que vem à mente ao pensar em “indústria”, quase dois terços (60,5%) mencionaram “poluição”.