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Capítulo III – A vida de Eurípedes e o Colégio Allan Kardec

2. Memórias do Colégio Allan Kardec

2.2 Os castigos e as recompensas

No relato dos alunos, muitos fazem questão de enfatizar que no colégio não havia castigos corporais, como palmatória e nem mesmo Eurípedes era a favor de corretivos morais duros que afetasse a auto-estima dos alunos ou os expusesse ao ridículo. No colégio, os alunos não eram castigados de forma alguma, o mecanismo usado por Eurípedes era a reparação do erro. Ao contrário de boa parte dos colégios desse período, os alunos não eram obrigados a ficar estudando por tempo determinado ou seus pais eram informados da conduta do filho, como forma de castigo. Nos anos de funcionamento do colégio, não há registro de nenhuma expulsão de aluno, por causa de indisciplina. A escola recusava prêmios e castigos, propunha a autodisciplina. Segundo os depoimentos, havia no colégio uma espécie de avaliação contínua. Havia boletins mensais, mas com conceitos, para os pais acompanharem a evolução dos filhos, Segundo Germano, as escolas da região copiavam o modelo. De acordo com Tomás Novelino:

“os professores lidando com os alunos sabiam da capacidade, da assiduidade, do conhecimento, de cada um dos alunos. Era acompanhar o aluno em tudo, em sua capacidade,

em sua instrução (…)” (NOVELINO, 1998:18) Embora, no final do ano os alunos fossem

submetidos aos exames orais e aos debates na frente de uma comissão examinadora, não tinham efeito de aprovação, como diz Tomás Novelino: “Aquela prova final não tinha efeito de

aprovação.” (NOVELINO, 1998:18) Na verdade, os alunos mudavam de ano de acordo com a

observação, ao longo do ano dos professores.

A escola não admitia que o desempenho de um aluno tomasse como parâmetro o de um colega. Levava-se em conta o desenvolvimento dos alunos de forma individual. O aluno podia apresentar rendimento diferenciado ao longo do ano, pois no colégio não havia reprovação. Segundo os alunos isso ajudava na auto-estima. Tomás Novelino, Antenor Germano, Bráulio Alves e Corina Novelino lembram que os alunos não se sentiam diminuídos, pois se passava de ano sem um sistema injusto e comparativo de avaliações. Antenor Germano conta que a falta de castigos foi o motivo pelo qual seus pais o matricularam no colégio Allan Kardec, em 1910:

“Depois de estudar no colégio público do Sr. Tatinho, fui matricular-me no colégio do Sr. Padre Pedro, o vigário da paróquia. Professor bom, mas muito enérgico e adepto do antigo sistema da pancadaria, como da celebre palmatória. Por esse motivo, distribuía ‘bolos’a torto e a

direito, até o aluno ficar com as mãos a ponto de não poder fechá-la. Por esse motivo não fui mais ao colégio e fui matriculado no Colégio Allan Kardec, dirigido por Barsanulfo. Corria o ano de 1910.” (GERMANO, 1918:14)

Segundo Germano, Eurípedes nunca castigava os alunos, mesmo quando os alunos fugiam do colégio durante as aulas e os intervalos. Germano e Nestor nos momentos de distração dos professores ou de Eurípedes aproveitavam para irem brincar no campo e nas matas. Germano diz que quando Eurípedes descobria, era muito difícil enganá-lo, mandava buscá-los e se preocupava em conversar com eles, mas nunca os deixava de castigo. Afirma o ex-aluno e ex-professor:

“Entre alguns fatos vou citar quando os alunos bastante recalcitrantes não faltavam, eu e o Nestor José Soca e outros sempre fugíamos das aulas para nos divertir, era para caçar passarinhos, procurávamos sempre lugares bem distantes e até mesmo nos esconder em chocas ou ramadas bem fechadas para que ninguém nos visse, e quando sem mais nem menos éramos surpreendidos por colegas ou mesmo por professores que a mandado de Eurípedes nos iam buscar para as aulas e nos conduziam de volta até o colégio. Mas ele não nos castigava, nos perguntava o motivo porque assim procedíamos e onde estávamos, e como não adiantava querer mentir ou dar qualquer desculpa o único recurso era falar a verdade. Para depois ouvir um conselho amigo e de moral que por mais recalcitrante que fosse o aluno, ia às lágrimas e logo pedia desculpas do fundo do coração, pois o nosso amor ao Barsanulfo era muito grande. Este conselho e estes pedidos eram mais duros do que as pancadarias usadas pelos outros professores.” (GERMANO, 1918:21)

Germano conta que numa aula de química geral, matéria que era ministrada por Eurípedes, ele e os colegas não sabiam o conteúdo que seria debatido, diz ele:

“(…) então o mestre não querendo nos castigar, porque de antemão já sabia que não tínhamos estudado, resolveu nos fazer algumas perguntas fáceis, afim de prender a nossa atenção sobre o ponto.” (GERMANO, 1918:28)

Tomás Novelino comenta as peraltices de Germano e Nestor:

“Ah, o Sr. Nestor! Sr. Antenor era um pretinho, que dava um trabalho imenso, um pretinho rebelde, era também diferente, fugia muito das aulas(…). Tenho lembranças que eles fugiam do 1ª horário e no recreio, eles corriam sem ninguém ver, o Sr. Eurípedes nunca os castigava, conversava com eles, dizendo: “Olha Sr. Antenor, Sr. Nestor na hora da aula vocês estavam lá na beira do córrego, maltratando uma leitoinha, coitadinha.” (NOVELINO, 1998:38)

Os ex-alunos e ex-professores dizem que Eurípedes achava que os castigos e as recompensas atrapalhavam o clima amistoso e cooperativo do colégio. Os relatos mostram que o professor não premiava ninguém por estudar ou agir moralmente, dizia que isso deveria ser feito por prazer e por dever. No colégio Allan Kardec, os alunos eram envolvidos num clima de ajuda mútua, de colaboração e sentiam-se numa família. Corina diz que as pessoas não entendiam a visão pedagógica de Eurípedes, atrapalhando esse ambiente. Ela narra um desses episódio interessantes:

“Mas, elementos estranhos ao núcleo de auxiliares diretos do estabelecimento, entusiasmados com as provas de fim de ano, ofertavam prêmios a alunos que mais se destacavam nas provas. Certa feita, o Sr. Aristocles Oscar da Mata e Silva ofereceu valiosos prêmios a duas alunas, que indicou nominalmente. Umas das contempladas era a jovem Edalides Millan, irmã de Eurípedes e a outra Basilissa de Oliveira Borges, esta, primeira aluna do colégio. O doador fazia questão de que um belo relógio de ouro fosse entregue à Edalides e um rico estojo de costuras à Basilissa. Edalides recusou-se a aceitar o valioso prêmio, reconhecendo a injustiça da escolha. Ela sabia que outros colegas mais aplicados mereciam o primeiro prêmio, notadamente a jovem Basilissa. (…) Como esse bom amigo, muitos outros aparecerem para ‘atrapalhar’ o programa de Eurípedes” (NOVELINO, 1997:138)