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Os pressupostos e objetivos do Colégio Allan Kardec

Capítulo II – O vereador, o educador e seu tempo

3. A organização do Colégio Allan Kardec

3.1 Os pressupostos e objetivos do Colégio Allan Kardec

Ao estudar o colégio Allan Kardec e a atuação de Eurípedes como educador, podemos afirmar que sua proposta tem algumas semelhanças práticas com experiências escolares e propostas de renovação escolar existentes no Brasil, como as anarquistas, republicanas, protestantes, mas guardou uma originalidade de proposta e prática em seus pressupostos e objetivos.

Embora não saibamos ao certo de onde retira seu pensamento pedagógico, pois não encontramos documentos em que isso fique claro, como já vimos, ele tinha por base a concepção espírita. Segundo os teóricos da Pedagogia espírita, entre eles Ney Lobo e Dora Incontri, o Colégio Allan Kardec apresenta em suas práticas os princípios básicos da Pedagogia espírita, embora não explicitados como tal. Para eles, esta escola representa o marco fundador da Pedagogia espírita no Brasil, entendida não como educação confessional, mas como prática pedagógica diferenciada, inspirada na idéia da reencarnação. Através dos relatos dos alunos e dos que conviviam com Eurípedes, parece que dois pressupostos no campo educacional davam base ao seu pensamento: a dimensão da transcendência humana e ao mesmo tempo a visão reencarnacionista34. Dentro dessa

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A doutrina da reencarnação tem uma raiz cultural milenar, tanto no Ocidente como no Oriente. Não é como muitos pensadores pensam um sistema de pensamento oriental que veio transportado para o Ocidente. Além das duas principais tradições religiosas do Oriente, o hinduísmo e o budismo, sugerem pesquisadores que a idéia da reencarnação esteve presente no Ocidente desde os celtas e também no sistema religioso órfico, com a crença na transmigração dos seres. Mas ela também se encontra na filosofia ocidental: o filósofo grego Pitágoras, que, segundo Diógenes Laertios, dizia se lembrar de vidas passadas, constrói uma filosofia igualitarista com base reencarnacionista. Na filosofia socrático-platônica fica clara a idéia da reencarnação, basta nos lembrarmos do mito de Er, no livro X da República e da descrição da peregrinação das almas no Fedon. Esse pensamento não era algo exótico no pensamento desses filósofos, mas algo fundamental em suas doutrinas. Platão inclusive extrai uma conseqüência pedagógica da idéia

perspectiva, distancia-se da maioria dos modelos pedagógicos da época, da visão presente nos documentos estaduais e dos textos teóricos que circulavam no Estado de Minas Gerais. Embora pudesse ter práticas semelhantes a certas tendências de então, outras eram inovadoras e tudo parecia estar fundamentado em outras visões e com outras metas pedagógicas.

Enquanto os documentos mineiros trazem implícita a concepção de ser humano como um complexo biopsíquico e social, Eurípedes via o ser humano como um ser biológico, social, psicológico e espiritual. O discurso em voga na época era de que o ser humano é por natureza um organismo com funções biológicas que tem uma série de necessidades a serem atendidas, de acordo com o estágio de desenvolvimento em que se encontra. Possui também características psicológicas e sociais. A educação deveria ser dirigida a esse ser físico, psicológico e social. Vimos que esse discurso era direcionado na verdade para uma padronização das crianças, com vistas a uma escola que preparasse para atender às necessidades, não da própria pessoa, mas da nova sociedade nascente. Mas, para Eurípedes, as potencialidades e as capacidades humanas não se radicam apenas no corpo biológico e não são somente produto da sociedade e da cultura em que vivemos, mas também se radicam na alma humana, que é imortal. E o objetivo da educação não pode ser direcionado para atender a um projeto econômico que instrumentalize o ser humano, mas deve em primeiro lugar ter em vista a realização plena desse ser.

Dessa concepção, Eurípedes extrai uma nova prática pedagógica: a criança traz inatos os germes morais e intelectuais, as potencialidades a serem desenvolvidas. Ele confia nas potencialidades humanas, que devem ser desenvolvidas pela educação, mas que já traz uma bagagem intelectual, moral e cultural, que está criança, mas é um espírito antigo, vivido, uma personalidade com múltiplas experiências vivenciadas, que vai interagir com a hereditariedade, com a sociedade, com a educação, para construir uma nova personalidade e uma nova sociedade. Nesse

reencarnacionista quando afirma que aprender é recordar. Allan Kardec insere o espiritismo dentro dessa tradição ocidental, embora proponha novas interpretações para ela. Alia o processo de reencarnação ao evolucionismo, pois para ele não existe retrocesso na reencarnação como para as outras teorias. Kardec também ressalta o aspecto social do ser encarnado, que se desenvolve em interação com o meio e com outros seres. O ser se desenvolve no coletivo e individualmente, de forma dialética sendo sujeito e ao mesmo tempo recebendo as influências das transformações sociais. Ao contrário do que muitos pensam, nas obras de Kardec, não há a aceitação de um fatalismo social, determinado pela idéia da reencarnação. Sobretudo em O Livro dos Espíritos, aparecem críticas às injustiças sociais, propostas de transformação da sociedade injusta e um apelo constante à transformação do homem. Dentro da perspectiva evolucionista, a evolução social interage dialeticamente com a evolução individual. Como explicaria depois Herculano Pires: “Transformar o mundo pela transformação do homem e transformar o homem pela transformação do

enfoque, o educando dever ter autonomia, a criança pode depender dos adultos, mas é um ser antigo e livre. As relações entre Eurípedes e as crianças era de pouquíssima hierarquia, era como um companheiro que buscasse junto descobrir, conhecer, amar e progredir. Eurípedes entendia que o educando é um espírito imortal com autonomia para construir a si mesmo em sucessivas vidas, portanto deveria respeitar o desenvolvimento dos seus alunos e a sua individualidade.

Mas isso não significava que a criança já nascesse pronta. Ela estava submetida às etapas do desenvolvimento humano e material: biológico, social e psicológico. A educação deve contribuir para o desenvolvimento das potencialidades do ser, contribuir para a sua cultura, respeitar seu desenvolvimento físico e psicológico e orientá-lo para as conquistas das futuras existências. Esses conceitos de ser humano, de criança e das finalidades da existência é que causavam grande impacto, na prática pedagógica de Eurípedes. Através dos documentos e dos estudos, observa-se o compromisso do colégio Allan Kardec com a formação do ser humano autônomo, critico... A educação, no colégio, não estava baseada nos princípios norteadores da sociedade burguesa. Não tinha por objetivo formar e formatar as crianças segundo as exigências do mercado ou meramente formá-las com as competências do mundo capitalista.

Mas vale ressaltar que Eurípedes assumia uma perspectiva espiritualista, não exclusivista e particularista. A sua pedagogia reconhecia o aspecto espiritual do ser humano, mas procurava evitar o proselitismo, o dogmatismo, a doutrinação e a confessionalidade35. Em sua escola, Eurípedes não

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A ligação entre a religião e educação é polêmica e complexa. Aliás, é antiga a relação entre a religião e a educação. As religiões, na maioria das sociedades, sempre foram fonte de valores éticos que fundamentaram as sociedades e a primeira fonte de explicações do mundo, da vida, da existência, do agir. As sociedades transmitiram isso às novas gerações. Nesse sentido, as religiões guardam projetos utópicos para a humanidade, para melhorar o ser humano, realizá-lo, torná-lo mais feliz, leva-lo à transcendência, como bem viu Ernest Bloch. A educação foi um meio para desenvolver esse projeto. Mas também, historicamente as religiões se institucionalizaram, ligando-se aos poderes políticos e econômicos, ficando muitas vezes ao lado das elites dominantes, sendo instrumentos de opressão e controle sobre os dominados. Nesse caso, a educação também foi um meio de manter as estruturas sociais injustas. O processo de laicização no Ocidente, que a princípio era uma busca por desligar a religião da Igreja, acabou por se tornar uma recusa radical da religião e atingiu todos os setores da vida. A religião foi criticada, compreendida como instrumento de poder, renegada como fonte confiável de conhecimento e padrões éticos. Isso ocorreu a partir dos iluministas, passando por Feuerbach, Marx e Comte até Sartre. Deve-se dizer que nem mesmo a escola laica, livre do jugo das Igrejas, ficou sem compromissos com o poder, já que o Estado passou a controlar a educação com sua ideologia. Nesse contexto, toda e qualquer religiosidade foi retirada da educação, pois a desqualificação do pensamento religioso chegou às salas de aula, pela ascensão ideológica da ciência materialista. Mas vale dizer que a Ciência materialista também está assentada num pressuposto filosófico, pois todas as correntes do século XIX que deram força ao materialismo, jamais provaram que a matéria é a única realidade do Universo. Feuerbach combate a religião e procura destruir a idéia da transcendência filosoficamente e não seguindo o método científico. Ainda não se provou peremptoriamente a inexistência de Deus ou de uma dimensão transcendente do homem, por isso esse é um debate em aberto. O espiritismo, assim como outros teóricos espiritualistas entendem que o fenômeno religioso é universal, constituindo-se numa das instâncias mais importantes do psiquismo humano e da cultura de todos os povos. E independemente do embate filosófico, se a religiosidade humana é transcendente ou não, é um verdadeiro crime cultural retirar da educação a cultura religiosa. Dessa forma os educadores espíritas em geral consideram que é preciso superar historicamente na escola essa dicotomia

queria formar espíritas ou religiosos… No Colégio Allan Kardec não havia aulas obrigatórias de espiritismo36, pois não era uma escola confessional, no sentido tradicional do termo. De acordo com o relato de Corina havia no colégio estudos comparados de religião, em que se estudava o espiritismo e todos os sistemas religiosos existentes. Sobre essas aulas no colégio que aconteciam todas as quartas-feiras, diz ela:

“Todos os sistemas religiosos mereciam brilhante apreciação, com riqueza de ilustrações e cores locais. A cultura avançada nas áreas da etnologia permitia-lhe portentosas considerações, em torno das tribos primitivas e de seu habitat bem como dos ritos fetichistas, que manifestam o princípio religioso em latência. Processavam-se assim brilhantes incursões pelos diferentes horizontes da evolução religiosa dos povos, no curso dos séculos (…)” (NOVELINO, 1997:126)

Assim, Eurípedes procurou construir uma prática educativa plural, integrando ciência, filosofia e religião à moda de Kardec. Aceitava que o ser humano tivesse uma essência divina que nele se manifesta e também na cultura e ao mesmo tempo um impulso natural de transcendência que era universal, embora tomasse cores particulares de cada época e culto.

entre a doutrinação confessional e sectária e o esquecimento deliberado a respeito de tema tão essencial na humanidade. E nesse rol está Eurípedes Barsanulfo. Os educadores espíritas têm uma clara preocupação com o aspecto espiritual dos alunos aliada à necessária isenção sectária. São pensadores que buscaram a liberdade de pensamento e foram contrários à imposição dogmática, mas preservaram a visão integral do ser. Em suas práticas, como na de Eurípedes e Anália Franco, há uma tentativa de equilíbrio entre o pluralismo, com o imprescindível respeito às crenças particulares de cada um, e o universalismo, com o reconhecimento de que existe algo em comum a todas as religiões, pois é a mesma essência divina que nelas se manifesta e o mesmo impulso humano de transcendência que se revela, apesar das cores particulares de cada época e de cada culto. Para os educadores espíritas portanto é possível estabelecer diálogo aberto, fraterno e empático, entre os representantes de diferentes crenças, no contexto pedagógico da escola. No entanto, os pensadores espíritas se aliaram às posições filhas do iluminismo, por considerarem um atraso histórico a aliança da escola com qualquer Igreja. No Brasil, por exemplo, tanto Eurípedes Barsanulfo quanto Herculano Pires lutaram por uma escola laica, gratuita e obrigatória. Lembremos da luta de Eurípedes com a Igreja. O professor Herculano Pires, na década de 60 se alinhou na defesa da escola pública, laica, obrigatória e gratuita, embora achasse que a escola deveria ser verdadeiramente plural. Mas era contra uma educação ligada a Igreja e o favorecimento da iniciativa privada. Ver INCONTRI, Dora, BIGHETO, Alessando César. O ensino inter-religioso, como fazer? In Mirandum. Porto/São Paulo: USP, Universidade do Porto v.15, 2003. INCONTRI, Dora, BIGHETO, Alessando César. Ensino religioso sem Proselitismo. É possível? In Videtur. São Paulo/Salamanca: USP, v.13, p.27 - 31, 2002. INCONTRI, Dora, BIGHETO, Alessando César. Ensino Confessional, laico ou inter-religioso? Qual a melhor resposta? In Revista de Educação CEAP. Salvador: Loyola, n.45, junho-ag./2004.

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Como vimos há duas tendências no movimento espírita brasileiro, uma enraizada na tradição francesa de Kardec, que vem de uma vertente mais progressista e se alinha com as posições socialistas, e uma outra mais popular praticada pela maior parte dos centros que tem como principal característica conservadorismo social e político. Realizam inúmeras obras sociais assistencialistas. Os assistencialistas também praticaram obras educacionais. Essa linha é criticada pelos os espíritas do outro grupo, pois além de apresentar traços muito conservadores, guardam muitas heranças do catolicismo. Dentro dessa corrente há as escolas que são assumidamente confessionais e há aquelas que, até certo ponto, se inspiraram nas propostas de vanguarda, defendendo uma pluralidade. Na vertente mais critica é que os educadores como Eurípedes Barsanulfo, Anália Franco, Herculano Pires se encaixam. Essas contradições demonstram