3 REVISÃO DA LITERATURA
3.12 Os Chamados Custos “Não Caixa”
Pompermayer (1999) considerou que a gestão de custos está além das técnicas tradicionais de contabilidade. Relatando ainda que sob o enfoque contábil, os custos podem ser analisados como custo contábil e gerencial. O custo contábil subordina-se as normas legais técnicas, fiscais e societárias. O custo gerencial, embora não objetive desrespeito as leis, não está vinculado a elas. Compromete-se com a eficiência pela redução dos gastos, através de estudos e análises voltadas para a mudança de processos e gestão financeira.
A estrutura de uma planilha voltada à obtenção dos custos em qualquer sistema de produção, deverá ter como premissa alguns tópicos comuns aos princípios da contabilidade e de maneira geral seriam compostos por custos diretos e custos indiretos. Os custos diretos seriam os valores utilizados com despesas relacionadas diretamente a produção, ou seja, os chamados custos operacionais, resultado de desembolso financeiro imediato. Os custos indiretos seriam os valores utilizados com despesas que não podem ser atribuídos diretamente a atividade, no entanto, estas despesas foram ou serão necessárias para o desenvolvimento da atividade durante vários ciclos, assim como despesas que beneficiam também outras atividades dentro de um mesmo sistema de produção, devendo ser rateada e amortizada durante um tempo maior do que um ciclo produtivo.
Também podem ser denominadas dentro do custo direto e custo indireto as despesas chamadas de “caixa” ou desembolsos em dinheiro, exemplo: compra de medicamentos. E “não caixa”, que seriam valores que necessitam de critérios de mensuração subjetiva, exemplo: depreciações, conforme demonstração na Figura 4.
A importância e diferenciação do uso de pastagens para a pecuária nacional é um fato reconhecido por todos os agentes envolvidos na cadeia mundial da carne bovina, o Brasil ganhou este reconhecimento quando da forte seca que se abateu sobre a Austrália no início deste século, levando este país a perder para a pecuária nacional o posto de maior exportador de carne bovina, esta nova realidade só foi possível devido ao imenso potencial de suporte animal e sua equivalência econômica das pastagens brasileiras, sejam elas cultivadas ou naturais. Por outro lado, as discrepâncias encontradas no tratamento dado na formatação do
custo de produção no tocante as pastagens são significativas, levando a incerteza por parte de gestores sobre a melhor participação destes custos dentro do custo total da atividade.
Figura 4 - Estrutura do custo total.
Fonte: Adaptado de Esperancini, 2009.
*1.Caso haja opção de pagamento de juros sobre capital próprio.
*2.Caso a atividade esteja utilizando benfeitorias e equipamentos em comum com outras atividades.
As dificuldades na mensuração do custo em pastagens são notórias, tornando necessária a criação de modelo que permita monitoramento do custo da atividade, já que a base alimentar são as pastagens e como tal devem contribuir com sua devida significância e a máxima realidade no custo total da atividade de pecuária de corte, para fins de monitoramento econômico da atividade e principalmente possibilitar a tomada de decisões por parte dos gestores. Nos diversos trabalhos analisados anteriormente relacionados a custo de produção com bovinos, não foi possível fazer a verificação sobre o comportamento vegetativo das forragens e sua relação com custos, como também alguma diferenciação provocada pelas qualidades naturais de uma determinada propriedade de exploração, a inexistência destas influências nos trabalhos revisados são oriundas da extrema dificuldade de mensuração do que as pastagens brasileiras apresentam como destaque de competitividade, que é a presença do clima tropical, propício ao desenvolvimento expressivo de forrageiras na maioria de sua extensão territorial.
Os custos com pastagens, segundo a revisão feita, ora são contabilizados como despesas diretas (custeio), ora são contabilizados como despesas indiretas sobre valores referenciais e subjetivos (depreciações). Efetivamente as mensurações dos custos das pastagens em uma planilha de custo de produção com a ótica revista, podem acabar por ficar sub ou super dimensionado, obrigando na criação de uma série de outras despesas, principalmente de cunho não financeiro ou de não-caixa. Na Tabela 4 está disponibilizado resumo sobre a participação dos custos “não caixa”, nos custos totais, segundo seus autores,
em atividades de corte e leite, onde a maior parte destes custos não caixa, foram originadas pela determinação subjetiva dos custos de pastagens utilizados nas atividades.
A gestão das propriedades rurais ainda carece de desenvolvimento de ferramentas mais adequadas as suas especificidades, um dos motivos das dificuldades de desenvolvimento dessas ferramentas que leva a uma carência nessa área, está na heterogeneidade das próprias propriedades de exploração e das formas de gestão por elas adotados, onde o controle de custos poderia representar um importante fator de competitividade, existindo sentimento de que o custo de produção da arroba de carne bovina brasileira representaria aproximadamente 30% do estimado nos Estados Unidos e 50% do custo para a atividade na Austrália (BUAINAIN e BATALHA, 2007).
Tabela 4. Participação dos custos “não caixa”, segundo seus autores.
Pesquisador / ano Custos não caixa Atividade
Arruda et al.,(1992) 59,54% Corte
Arruda et al.,(1992) 62,00% Corte
Costa et al.,(1991) 67,73% Corte
Corrêa et al.,(2001) 33,89% Corte
Gomes et al.,(2004) 25,90% Leite
Gomes (2004) 79,57% Leite
Lopes et al.,(2002) 10,16% Leite
Lopes et al.,(2003) 22,60% Corte
Melo filho et al.,(2005) 61,12% Corte
Memdonça et al.,(1998) 50,40% Leite B
Mendonça et al.,(1998) 44,62% Leite C
Reis et al.,(2001) 23,55% Leite
Média 51,15% CORTE
Média 39,03% LEITE
A falta de ferramentas mais específicas para fins de obtenção do custo de produção em pecuária de corte, pode estar levando a distorção em alguns setores desta cadeia produtiva onde os atores envolvidos diretamente na produção, estariam de alguma forma não especificada e nem muito clara, utilizado modelos que consideraram as variações em alguns itens do custo de produção como seus balizadores. O estabelecimento das relações de troca (Figura 5) e a influência da variação dos preços em determinados insumos da pecuária, chamados de custos operacionais totais (COT), conforme demonstrado na Figura 6. Mecanismos que vem sendo disponibilizados para focar os possíveis aumentos ou recuos nos custos de produção, desconsiderando entre outros o custo das pastagens como um todo, sendo um dos recursos utilizados para balizar junto aos produtores sobre a tendência de seus possíveis custos, diferente das cadeias produtivas da carne de aves e suínos, que conseguem ter domínio real dos custos de produção.
Figura 5 – Relações de troca entre boi gordo X bezerros para engorda
Fonte: CEPEA/ESALQ, 2009.
Figura 6 – Variação dos custos em insumos para pecuária de corte.
Fonte: CEPEA/USP-CNA, 2008. Obs: C.O.T. Custos operacionais totais.
A partir destas entre outras informações disponibilizadas por alguns institutos de pesquisa, os principais agentes do setor começam a poder identificar as possibilidades de fazer gestão sobre seus produtos e preços, principalmente nos momentos em que o mercado se mostra sob transição entre patamares de preços suportáveis pelo momento econômico, sendo repassado em primeira instância para o setor de produção via preço da arroba do boi, as adequações do mercado. Na visão inicial, por ser o elo mais desorganizado da cadeia e em seguida pela consideração que o setor de produção tem muita “gordura para queimar”.
Como pode ser visto na Figura 7, onde Matsunaga et al., (1976) definiram metodologia para custo de produção em bovinos, sendo que chamou de margem bruta a soma dos itens: lucro, remunerações sobre capitais imobilizados (benfeitorias, máquinas e equipamentos, animais e terras), pró-labore e depreciações sobre todos os itens antes citados menos a terra, onde este método poderá ter a representação de valores que podem superar mais de 50% dos custos totais, seria o chamado custo não caixa, acabando por serem mais
significativos do que os custos diretos, confirmando que a produção poderia suportar todos os impactos de ajustes de preços, o que certamente não deve ser realidade, passando entendimento subjetivo que a atividade apresenta significativa robustez para o item preço da arroba do boi, já que em sua estrutura de custos existem significativos percentuais de valores alocados em remuneração de capitais imobilizados.
Figura 7 – Modelo do custo de produção e análise econômica proposta por Matsunaga
et al., (1976).