Os programas de ensino, a partir da segunda metade do século XIX, indicavam os livros a serem utilizados para cada ano, série e disciplina. Dentre as obras apontadas, também havia livros direcionados à leitura, tais como: Íris Clássico de José Feliciano de Castilho Barreto e Noronha, Poesias Sacras de Padre Caldas,
Seleta Nacional de Francisco Julio e Caldas Aulete, Meandro Poético de Cônego Dr.
J. C. Fernandes, Vida do Padre Vieira de João Francisco Lisboa, Harmonias da
Creação de Caetano Lopes de Moura, Assumpção da Virgem de Frei Francisco de
S. Carlos, Annaes de D. João III do Fr. Luiz de Souza (publicado por Alexandre Herculano), Vida de D. João de Castro por Jacynto Freire de Andrade, Tratado de
educação de Garrett, Lusíadas de Camões (edição de Paulino de Souza), Poesias
de Alexandre Herculano, Literatura Brazileira de Mello Moraes Filho, Seleta Nacional de Caldas Aulete (literatura e poesia), Prosas Seletas de José da Fonseca, Selecção
Theophilo Braga, Anthologia Nacional de Fausto Barreto e C. de Laet e Auctores
Contemporâneos de João Ribeiro. Embora essas obras estivessem no corpo dos
programas de ensino de Língua Portuguesa, esta dissertação contempla apenas o estudo do ensino da gramática por acreditar que seja suficiente para compreender e acompanhar a maneira como esses programas se relacionavam à realidade social, educacional e política, conforme o proposto para esta pesquisa.
Segundo Bittencourt (op.cit.), sendo definida a classe social e os fins do
ensino secundário, programas e compêndios escolares deveriam seguir o padrão internacional, básico para a formação da elite letrada do país... (p.61). Desta forma,
os autores deveriam adequar suas obras aos programas vigentes, ainda que o regimento do Colégio Pedro II previsse que a adoção dos livros didáticos somente fosse autorizada pelo ministro do Império e por comissão designada pelo reitor da instituição. Com relação à produção desses livros no Brasil, no século XIX, adverte a autora que:
Para o estudo de gramática predominavam os autores portugueses e livros franceses para as demais áreas. O incentivo para as obras nacionais foi quase inexistente, limitando-se às matérias como Geografia e História do Brasil. A gramática e a literatura nacionais foram introduzidas com certa relutância no final do século, mas restringiam-se a livros de autores portugueses mais dedicados à produção de obras dessa natureza. (p.62)
O único e aparente incentivo que tinham os autores era o pagamento que recebiam pelas obras, pois ficavam sem a propriedade de sua obra que era transferida para o governo.
As figuras, a seguir, apresentam as obras utilizadas entre os anos de 1882 e 1912, dando uma visão geral do que ocorria no final do século XIX e início do século XX com relação aos programas de Língua Portuguesa do Colégio Pedro II.
Figura 2: A reforma de 1882 vigorou por dez anos, sendo, assim, uma das mais longas do final do Império e a primeira a indicar para seis séries do curso o ensino do vernáculo. Estão presentes, neste caso, as questões da política educacional brasileira, pois, em cumprimento às determinações governamentais, a Língua
Portuguesa passava a ser exigida nos exames de preparatórios; logo, havia necessidade de se transmitir o conteúdo no ensino secundário.
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Figura2: Reforma de 1882 Fonte: A pesquisadora
Figura 3: A reforma de 1892 vigorou por um ano apenas, embora tenha sido totalmente reformulada no que diz respeito aos livros didáticos adotados não só quanto às séries, mas também quanto aos autores. Esta foi a primeira reforma do período republicano. Embora tenha sido proposta em 1890, imediatamente após a proclamação da República, tal proposta entrou em vigor após 2 anos de sua aprovação. ! " # G 88 ! $ B G 88 ! $ 2B #M - 8? ! 3 - 0 $ 4B G 88 ! ! I 8 N ! <B C #M - 88 ! 3 - 0 @ - 3? " ! ! 7 8 7 .% 'B
Figura 3: Reforma de 1892 Fonte: A pesquisadora
Figura 4: Conforme Vechia e Lorenz (1998), a data do plano de reforma para 1893 é 28 de dezembro de 1892; se comparadas as datas do plano e de sua implantação,
pode-se entender que as questões pedagógicas passavam por um momento de inquietude, pois, no mesmo ano em que se implantou a reforma de 1892 já se pensava outra para o ano seguinte.
Não houve quase alteração no programa, visto que a maioria dos livros didáticos adotados na reforma de 1892 permaneceu para as mesmas séries da reforma 1893.
Ano Título da obra Autor Séries
1893
Grammatica
portugueza João Ribeiro 1º.ano
Grammatica João Ribeiro 2º.ano
Noções de grammatica portugueza Pacheco Junior e Lameira de Andrade 3º.ano Grammatica analytica Maximino de
Araújo Maciel 4º.ano
Noções de grammatica portugueza Estudinhos da língua pátria Pacheco da Silva Junior e Limeira de Andrade A. da Silva Túlio 5º.ano
Figura 4: Reforma de 1893 Fonte: A pesquisadora
Figura 5: A reforma de 1895 vigorou por três anos, apresentando diminuição do ensino do vernáculo para as séries, de cinco para três anos e, novamente, uma reformulação na indicação das obras e seus autores.
Ano Título da obra Autor Séries
Noções de grammatica portugueza Pacheco Junior e Lameira de Andrade 3º.ano
Figura 5: Reforma de 1895 Fonte: A pesquisadora
Figura 6: A reforma de 1898 foi aprovada e implantada no mesmo ano, porém com a seguinte indicação: Programmas Provisórios do Gymnasio Nacional para o Ensino
no Anno Lectivo de 1898, organizado de acordo com o Regulamento n. 2857 de 30 de março de 1898 (Vechia e Lorenz, 1998, p.62). Entende-se que pelo fato de ser
provisória, já era prevista nova reforma, a qual ocorreria em 1899, seguida por outra em 1901.
Na reforma, de 1898, o ensino da Língua Portuguesa retornou para seis anos, permanecendo com as obras da reforma anterior, acrescentando duas outras de Felisberto de Carvalho.
Ano Título da obra Autor Séries
1898 Elementos da Grammatica potugueza Exercícios de lingua portugueza correspondente à Grammatica elementar Felisberto de Carvalho Felisberto de Carvalho 1º. ano Grammatica portugueza
Dr. Alfredo Gomes 2º.,3º. e 4º.anos
Grammatica portugueza M. Pacheco da Silva Junior e Lameira de Andrade 5º. e 6º.anos
Figura 6: Reforma de 1898 Fonte: A pesquisadora
Embora as reformas de 1899 e 1901 não tivessem sido localizadas, conforme nos indicam Vechia e Lorenz (op.cit.) na introdução da obra que serviu de base para este estudo, foi possível localizar em Razzini (2000) as seguintes
indicações sobre esses períodos: para as reformas de 1899, de acordo com o Decreto 3.251 de 8 de abril, e a reforma de 1901, Decreto 3.914 de 26 de janeiro, o ensino de Língua Portuguesa foi aplicado para as quatro primeiras séries do curso, não havendo qualquer indicação de livros didáticos.
Constata-se que a primeira reforma proposta para o século XX, a de 1901, foi uma das poucas que permaneceram por uma década, alterando-se em 1912 por reforma que vigorou por três anos.
A reforma de 1912, assim como as anteriores, não apresenta indicação de livro didático, apenas a quantidade de horas destinadas ao estudo de Língua Portuguesa para cada série: 3 horas para a 1ª série, 2 horas para a 2ª. série e 3 horas para as 3ª. e 4ª. séries. Ou seja, permaneceu como as anteriores e vigorou até a reforma de 1915.
Na parte prática da maioria dos programas analisados, há indicação de conversão de trechos do português antigo para o moderno, leitura e recitação de trecho de prosadores e poetas dos séculos XVI e XVII e apreciação do estilo de poetas e prosadores importantes e biografias dos grandes patriotas. Dessa forma, segundo Razzini (op.cit.), os livros de leitura completavam a gramática. A autora indica ainda :
Como tradicionalmente havia a preocupação de se estudar primeiro a gramática normativa e depois a gramática histórica, era natural que os textos mais modernos fossem apresentados em primeiro lugar, enquanto que os textos dos autores mais antigos eram reservados para ilustrar as alterações gramaticais ocorridas por vários ‘períodos’ da língua portuguesa. (p.90)
Assim, caberia ao professor a maestria para utilizar os textos dos livros com o propósito de contemplar os programas, embora, como já mencionado, muitas obras fossem de autoria dos próprios professores ou nelas já virem indicados os métodos a serem aplicados em sala de aula.
A leitura desses quadros possibilita entender que os livros didáticos foram um apoio para o desempenho do professor como facilitador da aprendizagem; um outro aspecto a ser observado, referente aos livros, é que, apesar de terem sido elaborados pelos professores do ensino secundário brasileiro, seguiam os padrões europeus.
Capítulo V - Descrevendo e Comparando os Conteúdos Programáticos: uma Abordagem Cronológica
Este capítulo trata da análise dos programas de Língua Portuguesa, sob o ponto de vista do cientificismo, bem como a comparação entre esses programas, no que diz respeito à verificação dos pontos alterados e dos que não sofreram alterações.
Embora os programas a serem analisados sejam do período entre o final do século XIX e o início do XX, será apresentada a grade curricular que compunha o curso secundário, desde o início do Colégio, a seguir serão abordados alguns aspectos das reformas executadas até o ano de 1878. O objetivo de apresentar dados anteriores aos do período selecionado é possibilitar uma visão global do que foi o ensino no Colégio Pedro II.