• Nenhum resultado encontrado

1. A DINÂMICA ADMINISTRATIVA E JURISDICIONAL DOS CONCELHOS

1.5 Os concelhos de Alcochete e Aldeia Galega

Alcochete e Aldeia Galega eram povoações do antigo concelho de Ribatejo, e viriam posteriormente a fazer parte do concelho de Sabonha, do qual se desanexaram nos finais do século XV e adquiriram vida municipal própria. A sua autonomia administrativa só viria a ser homologada através da atribuição de carta de foral conjunta para as duas vilas, datada de 17 de Janeiro de 151561, cuja geminação se prolongará até à separação completa em 17 de Novembro de 153962. Contudo, a separação administrativa destes concelhos não impediu que continuassem a usufruir de uma relação de vizinhança privilegiada com reflexos vantajosos para ambas, principalmente para Aldeia Galega que, graças à sua posição estratégica e ao seu porto, viria a polarizar em seu torno uma vitalidade económica de importância relevante.

Ao invés do que se passava no concelho de Alhos Vedros, pelo menos nos finais do século XVII e princípios do século XVIII, em que o juiz de fora raramente assistia às reuniões da Câmara, no concelho de Alcochete a sua presença era muito mais assídua, como se pode observar nas actas das respectivas reuniões. Também aqui o juiz de fora tinha alçada sobre as vilas de Alcochete e Aldeia Galega e, embora não possamos garantir que a sua presença fosse igualmente assídua nas reuniões camarárias de Aldeia Galega pela ausência de actas que o possam testemunhar, estamos convictos que tal acontecia, dada a superior importância que este concelho assumia já neste período no contexto dos concelhos ribeirinhos da margem esquerda do estuário do Tejo. O rigor no tratamento dos assuntos assim como os seus registos em actas, ou noutros livros de registos por si fiscalizados, demonstram um certo cuidado, facto não verificado no concelho de Alhos Vedros neste período.

Em Alcochete, surgiram problemas com os juízes de vintena do lugar de Samouco. Por mais que os oficiais da Câmara se esforçassem no sentido de eleger para o dito lugar pessoa responsável, como se prova na vereação de 17 de Dezembro de 1674

61

Cf. António. J. C. M. Nabais, Foral de Alcochete e Aldeia Galega (Montijo) – 1515, Câmaras Municipais de Alcochete e Montijo, 1995.

62

José Manuel Vargas, Sabonha e S. Francisco, Câmara Municipal de Alcochete, Alcochete, Janeiro de 2005. Cf. Também Mário Balseiro Dias, Monografia do Concelho de Alcochete (séculos XII-

onde “(…) elegerão por juiz da vintena a Cristóvão Rodrigues, por ser pessoa de suficiência e saber ler e escrever, e ter servido já o dito cargo com boa satisfação (…)”63, a verdade é que nem mesmo assim evitaram problemas. Em 17 de Maio de 1679, o senado viu-se na contingência de proceder à substituição do referido juiz de vintena, visto que “(…) o juiz da ventena que servia no luguar do Samouco Diogo Ferreira era pejudicial o servir o dito cargo, por ser homem que tem muitos gados e ser muito daninho, e haver dele muitas queixas no dito lugar pelo, que para evitar estas queixas houveram por suspenso o dito cargo, e logo aí elegeram para juiz de vintena do dito lugar a Mateus Afonso, por ser pessoa suficiente (…)”64.

Como vemos, nem todos estavam preparados para conciliar de forma aceitável o poder e os interesses económicos, levando a situações destas que em nada prestigiavam a autoridade municipal, razão porque os oficiais da Câmara procuravam ser céleres na resolução de problemas desta natureza.

Também o cargo de Alcaide nem sempre foi respeitado na íntegra. Em Março de 1690, foi nomeado Sebastião de Góis para exercer a função de Alcaide Pequeno pelo tempo de um mês65, e em Junho do mesmo ano foi eleito Domingos Pereira para o dito cargo, por 10 meses, visto o alcaide que até ao presente servia por provisão estar suspenso para efeitos de uma sindicância que as autoridades concelhias lhe moveram66.

Em 1703, 7 de Julho, António Cardoso, que servia de Alcaide nesta vila, foi suspenso das suas funções “(…) por queixas que avia dele, e juntamente por desobediente à Câmara e faltas que tinha feito em não acompanhar a elles, oficiais da Câmara, nas ocasiões que iam às procissões a que eram obrigados (…)”67. Dada a importância desta povoação, em 1701, 2 de Novembro, foram eleitos dois quadrilheiros

63

ADS, Fundo da Câmara Municipal de Alcochete – Vereações, cx. 338, liv. 18, fls. 238-238v. Cristóvão Rodrigues voltou a ser eleito no ano seguinte para o mesmo cargo. Ibidem, liv. 19, fl. 17.

64

Ibidem, liv. 19, fls. 148-148v.

65

Ibidem, cx. 339, liv. 21, fls. 23, 23v. Cargo que voltou a ocupar em Outubro do mesmo ano por mais um mês.

66

Ibidem, liv. 21, fl. 26.

67

Ibidem, liv. 22, fls. 89-90. O termo de suspensão está registado no fólio 96v do mesmo livro, datado de 19 de Dezembro do referido ano, sendo nomeado António João, alcaide pequeno, por três meses, em 19 de Dezembro. Em 30 de Janeiro de 1704 elegeram para alcaide pequeno Manuel de Sousa. Ibidem, liv. 22, fls. 101,101v

para o dito lugar, porque “(…) porquanto há muitos anos que os não há e para boa administração. Foram eleitos Manuel Gomes de Carvalho e Manuel Francisco (…)”68.

Como podemos observar, até num território tão diminuto e com características similares como aquele que constituem as balizas espaciais do nosso estudo, não existe uma homogeneidade clara nas formas de governação. Pelo contrário, e para além das diferentes situações resultantes da existência neste espaço de vilas administradas pela coroa e de outras administradas por particulares, as donatarias, são perceptíveis particularismos que denotam estilos diferenciados de governação, em muito contribuindo para o nível de eficácia na gestão local e, consequentemente, interferindo no desempenho concelhio em termos de desenvolvimento económico.

Por outro lado, vistas de forma mais pormenorizada, estas fragilidades ao nível do poder local ajudam-nos a detectar e compreender melhor as debilidades do Estado Absoluto, nomeadamente em cumprir e fazer cumprir as orientações do poder central, quer através da presença dos juízes de fora nos concelhos da coroa, quer através dos senhores donatários das sua vilas. No fundo, é deste pluralismo de formas e estilos de governação, por vezes carregados de antagonismos, que o Estado constrói a sua unidade e o seu poder, funcionando os concelhos como unidade de acção e de concertação dos diferentes grupos oligárquicos de expressão local69.

68

Ibidem, liv. 22, fl. 58v.

69

Luís Vidigal, O Municipalismo em Portugal no século XVIII, Livros Horizonte, Lisboa, 1989. Esta é a opinião do autor, com a qual concordamos, visto encontrar eco nos nossos estudos.

1.6 Uma perspectiva económica espacial dos concelhos ribeirinhos da

Documentos relacionados