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Uma perspectiva económica espacial dos concelhos ribeirinhos da margem esquerda

1. A DINÂMICA ADMINISTRATIVA E JURISDICIONAL DOS CONCELHOS

1.6 Uma perspectiva económica espacial dos concelhos ribeirinhos da margem esquerda

Pela sua proximidade, desde cedo a margem esquerda do estuário do Tejo foi influenciada pelos impulsos emitidos pela capital, moldando-se em função das necessidades da sua população, cujo crescimento exigia o alargamento do espaço para além do termo.

Desde o século XIII que os esteiros da “outra banda” foram habilmente aproveitados para a edificação de moinhos de maré, aproveitando as condições naturais para a construção das caldeiras, reduzindo substancialmente desta forma os custos de construção. Este fenómeno, que inicialmente não ia muito para além das margens do rio Coina, viria a ampliar-se no espaço e no tempo de tal forma que, em meados do século XVIII, já existiam cerca de 37 estabelecimentos desta natureza, no espaço compreendido entre Mutela70 e Aldeia Galega71, totalizando mais de cento e vinte pedras72.

Posteriormente, a construção do complexo dos fornos de biscoito e moinho de Vale de Zebro, na margem direita do rio Coina, e de um considerável número de fornos de cozer pão nas vilas ribeirinhas, nomeadamente em Coina, levou a que a margem esquerda funcionasse assim como uma espécie de infra-estrutura complementar de retaguarda para abastecimento das armadas e do povo de Lisboa.

A par do desenvolvimento da moagem e panificação, também o sal e o vinho encontraram neste espaço as condições ideais para o seu desenvolvimento. Nos inícios do século XV, já aí encontramos pelo menos três núcleos salineiros de consideráveis dimensões, distribuídos por Alhos Vedros, Aldeia Galega e Alcochete. Muito deste sal

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Mutela corresponde “grosso modo” a Almada.

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Montijo, na actualidade. Por ser considerado depreciativo o nome de Aldeia Galega, este foi substituído por Montijo em 6 de Junho de 1930, nome atribuído a um sítio próximo (Montígio), onde hoje se encontra a Base Aérea, atitude questionável do ponto de vista histórico.

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O termo pedra, moenda ou engenho significa, neste contexto, o conjunto formado pelas duas mós de cada rodízio: a mó fixa e a móvel, podendo um moinho de maré ter várias moendas.

era encaminhado para exportação já nos séculos XIV e XV, conforme nos conta o cronista Fernão Lopes73, enquanto que largas centenas de vinhas invadiam progressivamente a charneca, deixando marcas irreversíveis na floresta aí existente.

Também o combustível e a madeira das charnecas, viriam a merecer uma atenção especial por parte da realeza. As necessidades criadas pela expansão e o aumento do consumo resultante do crescimento da população das vilas e lugares locais e da cidade de Lisboa, viriam a contribuir para a delapidação progressiva da floresta da “outra banda”, encarecendo o produto e obrigando os monarcas a legislarem no sentido da sua protecção e reflorestação, factos nem sempre conseguidos, como a seu tempo veremos.

Embora ainda muito localizados, alguns destes sectores de produção já constituíam um peso relativamente significativo na economia portuguesa, pelo menos a partir do século XIV, nomeadamente o sal e o vinho. A indústria moageira, a panificação, a lenha, carvão e madeira, viram o seu interesse aumentado após o século XV, em consequência das necessidades impostas pela empresa dos descobrimentos, em torno da qual foram depositadas todas as esperanças, especialmente a partir dos anos 30 do referido século74.

A formação dos concelhos, que viemos tratando, através da concessão de cartas de foral ou de vila por D. Manuel I, representam um esforço na tentativa de uma melhor gestão dos recursos deste espaço, onde os prejuízos para a Coroa resultantes dos impostos não cobrados eram significativos por manifesta falta de controlo sobre as actividades económicas aí desenvolvidas. A extensão deste espaço e a sua dispersão ao longo da margem do rio Tejo desde Coina até à Ribeira das Enguias, desde há muito

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Fernão Lopes, Crónica d`El-Rei D. Fernando, Livraria Civilização-Editora, Porto, 1966, pp. 5-6. Segundo o autor, "vijnham de desvairadas partes mujtos navios a ella [ Lisboa ], em guisa que com aquelles que vijnham de fora, e com os que no reino havia, jaziam mujtas vezes ante a çidade quatro çentos e quinhentos navios de carregaçom: e estavom aa carrega no rio de Sacavem e aa ponta do Montijo da parte de ribatejo sesemta e setemta navios em cada logar, carregando de sal e de vinhos; e por a gramde espessura de mujtos navios que assi jaziam ante a çidade, como dizemos, hiam ante as barcas Dalmadaa aportar a Samtos, que he hum grande espaço da çidade, nom podemdo marear perantrelles (...)".

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tinham mostrado quão difícil era o seu controlo pelas autoridades do poder local, mesmo quando ainda era território do concelho de Palmela.

Por volta do século XV, dá-se a primeira tentativa de resolução deste problema das distâncias e estabelece-se uma segunda tentativa de “arrumação” separando este espaço em dois, como nos diz José Estevam: "A Comarca do Ribatejo era constituída no século XV pelo Concelho de São Lourenço de Alhos Vedros e pelo Concelho de Santa Maria da Sabonha, este último composto da Vila de Alcochete e dos lugares de Aldeia Galega, Samouco e Sarilhos"75.

Finalmente, com a atribuição dos forais manuelinos às vilas de Alhos Vedros, Aldeia Galega e Alcochete e ao Barreiro, e com a desanexação posterior das vilas do Lavradio e Moita, estavam criadas as condições, pelo menos teoricamente, para o exercício de uma administração mais rigorosa, pela maior proximidade entre os representantes do poder local e os moradores sob a sua égide concelhia e, por conseguinte, um controlo mais apertado sobre as actividades económicas aí desenvolvidas e pela cobrança dos respectivos impostos.

O estudo por nós realizado sobre os séculos XV e XVI mostrou que o espaço em questão nesta altura apresentava um conjunto de características que lhe conferiam um certo sentido de unidade, nomeadamente a constituição dos solos, aspectos climáticos, cobertura arbória e arbustiva76 e, em consequência de tudo isso, também uma certa

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José Estevam, Anais de Alcochete, Edição de Couto Martins, Lisboa, 1956, p. 7. Segundo o autor, a vereação do concelho de Santa Maria de Sabonha era constituída por dois juízes ordinários, um vereador e um procurador. Um dos juízes residia em Alcochete e o outro em Aldeia Galega. As reuniões eram feitas normalmente debaixo do alpendre da Igreja de Sabonha. Mas existem informações que denunciam a realização de reuniões noutros locais, nomeadamente debaixo do alpendre do quintal do cavaleiro Afonso de Golizo morador, em Alcochete.

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Sobre esta temática, cf. António Gonçalves Ventura, op. cit. p. 19 e segs. Cf. ainda os seguintes autores: Orlando Ribeiro, "Excursão à Arrábida", Finisterra, vol. III, nº 6, Lisboa, 1968, pp. 257-273 e pp. 268-269; Carlos Ribeiro, Estudos Geológicos - Descripção do Solo Quaternário das

Bacias Hidrographicas do Tejo e Sado, Typographia da Academia Real das Sciencias, Lisboa, 1866, pp.

150-151.

Num estudo efectuado pela Comissão Nacional do Ambiente sobre a margem esquerda, concluiu-se que a montante de Cacilhas, as formações predominantes são pliocénicas, cobertas com grandes extensões de formações recentes de areias quaternárias, possivelmente de origem eólica, no Seixal, Ponta dos Corvos, Barreiro, Alcochete e Casa Branca. Em Alcochete existe um afloramento pleistocénico, enquanto que de Cacilhas até à Trafaria, as formações são miocénicas, seguindo-se até à Foz, formações dunares recentes. in Estudo Ambiental do Estuário do Tejo - Povoamentos Bentónicos

unidade económica, pelo menos do ponto de vista dos principais produtos explorados: o sal, a vinha, os produtos da floresta, a moagem e panificação e o peixe do rio.

Contudo, os efeitos da persistente acção humana ao longo dos séculos, aliados a vicissitudes resultantes de mudanças conjunturais, quando não mesmo estruturais, viriam a alterar significativamente aquilo que a Natureza levou milénios a criar.

A vinha, que durante os séculos XIII e XIV proliferou junto de Coina, viria a apresentar sinais de abandono cerca de três séculos depois, enquanto que os concelhos de Alhos Vedros, Moita, Aldeia Galega e Montijo conquistavam um lugar cimeiro na produção do precioso néctar.

O sal, depois de algumas tentativas de exploração junto do rio Coina e do Barreiro, viria a concentrar os principais núcleos de exploração junto de Alhos Vedros, Aldeia Galega e Alcochete.

Os produtos florestais, que inicialmente prosperavam nos concelhos de Alhos Vedros e Coina, apresentavam sinais de escassez logo a partir do século XVI, sendo a sua exploração “empurrada” cada vez mais para Oriente, e para o interior da floresta.

Pelo contrário, por questões de logística, a moagem e panificação encontraram o seu “habitat” preferido nas margens do rio Coina, continuando as margens deste rio a constituir o principal núcleo de produção farineira, para o qual não terá sido alheio o factor proximidade da cidade de Lisboa e do complexo dos fornos de biscoito de Vale de Zebro.

Estas são algumas das alterações que observámos numa primeira abordagem. Saber como evoluiu economicamente ao longo do Antigo Regime o espaço por nós delineado, eis o trabalho que nos propomos fazer.

Intertidais (Substratos Móveis), Ministério da Qualidade de Vida, Comissão Nacional do Ambiente,

Lisboa, 1982, p. 14 e segs.

Também Fernão de Oliveira faz referência às espécies arbóreas da “outra banda”: Liuro da

Fabrica das Naos, Leitura de Lopes de Mendonça, Tradução de Manuel Leitão, Academia de Marinha,

Lisboa, 1991, p. 64.

Sobre aspectos climáticos que justificam o nosso raciocínio, cf. Suzanne Daveau, Mapas

Climáticos de Portugal: Nevoeiro e Nebulosidade, Contrastes Térmicos, Memórias do Centro de Estudos

Geográficos, Lisboa, 1985, e ainda Maria João Alcoforado, in O Clima da Região de Lisboa, Vento,

Um escrito por nós encontrado no Arquivo Distrital de Setúbal, fornece-nos dados preciosos sobre esta matéria, já que nos permite fazer um estudo comparativo, se bem que apenas transversal e muito localizado no tempo, sobre os rendimentos dos diferentes concelhos por nós estudados, através dos valores apurados em 28 de Fevereiro de 1804 para efeitos de pagamento ao provedor da comarca. Permite-nos ainda enquadrar os rendimentos destes concelhos no contexto de toda a comarca, possibilitando-nos assim verificar o seu peso económico no conjunto da mesma.

Gráfico I77

Registo dos ordenados que vence o provedor da comarca e sua distribuição pelos concelhos da sua circunscrição

24% 7% 1% 1% 5% 2% 1% 0% 0% 1% 18% 5% 6% 21% 0% 1% 6% 1%

Setúbal Palmela Azeitão Sesimbra Almada Moita Alhos Vedros Lavradio Coina Barreiro Aldeia Galega Alcochete Samora Correia Benavente Canha Cabrela Alcácer do Sal Grândola

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ADS, Livro de registo de Leis, Provisões, Alvarás e mais ordens, cx. 372, liv. 238, fl. 22v. Trata-se do registo dos ordenados do Provedor da Comarca vencidos pelo lugar que ocupava, repartido pelas Câmaras segundo seus rendimentos, feito anualmente pelo Contador da Correição de Setúbal. Os quantitativos referentes aos restantes concelhos da comarca constam em anexo documental.

Como podemos observar, três dos 18 concelhos que constituem a comarca, ocupam 63% dos rendimentos totais (Setúbal, 24%; Benavente, 21% e Aldeia Galega, 18%). Aos restantes 15 concelhos, cabe apenas 37% dos rendimentos. Se a esses juntarmos os concelhos de Palmela (7%), Samora Correia e Alcácer do Sal (com 6% cada e Alcochete e Almada com 5% cada um), constatamos que 92% dos rendimentos da comarca são provenientes de apenas oito concelhos, enquanto que os restantes dez comparticipam apenas com a insignificante quantia de 8%.

Podemos verificar ainda que o concelho de Aldeia Galega discutia já por esta altura com Setúbal e Benavente, o acesso ao lugar cimeiro, ocupando já o terceiro lugar, muito próximo de Benavente e, apenas a seis pontos percentuais de Setúbal, o que não deixa de ser significativo.

Enquanto isso, os concelhos de Alcácer do Sal, Grândola e Cabrela, por exemplo, têm um peso muito reduzido no cômputo da totalidade da comarca, o que prova que a extensão territorial dos concelhos não bastava para o quadro de valores em termos de rendimento.

Quadro I

Parcelas contributivas comparadas dos concelhos ribeirinhos da margem esquerda do Tejo para o ordenado do provedor da comarca78

CONCELHOS PARCELAS A PAGAR (em réis))

Moita 1.964 Alhos Vedros 568 Lavradio 414 Coina 342 Barreiro 899 Aldeia Galega 19.158 Alcochete 5.247 TOTAL 28.592 78

ADS, Livro de registo de Leis, Provisões, Alvarás e mais ordens, cx. 372, liv. 238, fl. 22v. Dados referentes aos concelhos da margem esquerda do estuário do Tejo.

Gráfico II79

Aspecto grafico do quadro anterior

7% 2% 1% 1% 3% 68% 18% Moita Alhos Vedros Lavradio Coina Barreiro Aldeia Galega Alcochete

Os dados são bastante expressivos das diferenças de rendimentos entre os concelhos ribeirinhos da margem esquerda do Tejo, e até nos permitem elucidar sobre os efeitos das alterações territoriais operadas entre os princípios do século XVI e os finais do Antigo Regime em Portugal no que respeita ao concelho de Alhos Vedros. Este concelho, que durante os primeiros tempos da sua existência cobria toda a extensão territorial entre Sarilhos Pequenos e a margem direita do rio Coina, cerca de metade do território do antigo concelho de Ribatejo, viu-se reduzido no seu rendimento a uma parcela correspondente a cerca de 15% do espaço que outrora ocupava, enquanto que o relativamente recente concelho da Moita arrecadava 54% do rendimento do referido espaço e o Barreiro 23%. O Lavradio, por esta altura, ficava-se pelos 8%.

Do ponto de vista global, o concelho de Aldeia Galega abafava todos os outros, pois sozinho obtinha rendimentos superiores à totalidade dos restantes, atingindo o

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Ibidem, o mesmo documento, referente aos concelhos ribeirinhos da margem esquerda do estuário do Tejo.

elevado valor de 68%. Até mesmo o concelho de Alcochete80 conseguia rendimentos superiores à soma dos concelhos de Alhos Vedros, Lavradio, Moita, Barreiro e Coina (18% contra 14%), facto que demonstra que o centro de gravidade em termos económicos, que durante algum tempo se situou junto do rio Coina, foi-se deslocando progressivamente para Oriente, vindo a centrar-se em Aldeia Galega a partir dos finais do século XVI, aí se mantendo até ser desalojado para o Barreiro na segunda metade do século XIX em consequência da escolha desse local para “terminus” da linha dos Caminhos-de-Ferro do Sul e Sueste.

Apesar da falta de dados que cubram todo o período por nós estudado, é possível, contudo, conhecer a evolução do rendimento das rendas de alguns destes concelhos.

Alcochete, que na década de 80 do século XVII cobrava cerca de 100.000 réis anuais de receita bruta anual81, pouco cresceu nas décadas seguintes (120.428 réis de média anual nos anos 1712-1720)82. A partir da década de 20, os valores médios anuais sofrem um aumento significativo ultrapassando a casa dos 200.000 réis anuais, na qual se manteve por um longo período, atingindo a casa dos 600.000 réis na década de 90, altura em que se verificam grandes oscilações, as quais têm muito a ver com a natureza das rendas, pois uma grande parcela era proveniente dos matos do concelho, cujos rendimentos eram bastante variáveis, visto não dependerem apenas dos matos normais extraídos das limpezas mas também de cortes que esporadicamente faziam para desbastes, preparação de terras para semear ou outras necessidades que pudessem surgir83.

Para além dos matos, tojos e ramas, a maior fonte de rendimentos deste concelho, as cobranças mais significativas eram provenientes das rendas da estalagem e

80

Como a parcela correspondente ao concelho de Alcochete foi acrescentada à soma de todas as outras, acompanhada do seguinte texto: “E vem mais de Alcoxete desde 16 de Abril de 1803 athe o fim do dicto anno três mil e setecentos e trinta réis (…)” pensamos que o rendimento deste concelho poderá ser superior em cerca de 1/5 aos valores apresentados. ADS, Livro de registo de Leis, Provisões, Alvarás

e mais ordens, cx. 372, liv. 238, fl. 22v.

81

A soma das receitas dos anos 1681 1689 totaliza 938.900 réis, equivalendo a uma média anual de cerca de 104.300 réis, da qual era extraída a terça de Sua Majestade. ADS, Fundo da Câmara

Municipal de Alcochete - Receitas e Despesas, livs. 37 e 38.

82

Ibidem, liv. 39.

83

Paço, do ramo do azeite, do verde, das coimas e corridas e, se bem que de pouca monta, de alguns foros do concelho. Em livro à parte constam as receitas do usual da carne e do vinho, muito significativas neste concelho, pois Alcochete era um grande produtor destes bens, parte dos quais era canalizada para Lisboa como a seu tempo veremos84.

As rendas do concelho de Aldeia Galega superavam de longe as de Alcochete. Em 1729, Aldeia Galega cobrou mais de um conto de réis (1.179.730 réis) de rendas85, e embora esta quantia fosse superior à média cobrada por esta altura, os valores eram de facto bastante elevados comparativamente àquele, pois na década de 70 mantinham uma média de 600.000 réis, quase o triplo dos rendimentos de Alcochete86.

No concelho de Aldeia Galega, as principais receitas provinham da renda da palha, a mais importante, cujos valores já atingiam o montante de 836.000 réis em 1729, seguida da renda do cais com 164.000, da renda do verde com 110.000, do Paço com 28.000, do azeite com 25.000, foros, coimas e corridas com valores variáveis mas também significativos87.

No concelho da Moita, as rendas brutas ficavam-se pelos 156.000 réis em média anual na década de 90 do século XVIII, um valor inferior ao que era cobrado cerca de trinta anos antes (202.530 réis)88 e insignificante, se comparado com qualquer dos dois concelhos anteriormente referidos89. Neste concelho, também as principais fontes de receita provinham das rendas do Paço, a mais importante, verde, cais, aferição, azeite, canastras cordas e golpelhas90, “almudagem” e “moiação”91, foros e coimas e corridas92.

84

Os registos do Livro 38, referente ao usual da carne e do vinho no período compreendido entre os anos 1687-1695, são bem reveladores do peso que este concelho tinha no abastecimento de carne e vinho à cidade de Lisboa.

85

AHCMM, Livro de Receitas e Despesas - 1729. 86

Nos anos de 1772, 1773 e 1774, o concelho de Aldeia Galega cobrou de rendas 566.230, 591.170 e 685.120 réis, respectivamente, contra, por exemplo, 233.240 e 289.666 réis no concelho de Alcochete nos anos 1766 e 1767. Ibidem, 1772-1777.

87

Ibidem, 1729.

88

AMM, Receitas e Despesas 1766-1773, fls. 25, 25v.

89

Ibidem -1791-1801.

90

Nos inícios do século XVIII, esta renda atingia o preço de 18.000 réis, valor pelo qual foi arrematada por João Lourenço de Góis, conforme consta na vereação de 3 de Janeiro de 1700, com o compromisso de fazer 40 varas de calçada na vila. AMM, Livro de Actas do Senado da Câmara da

Moita, 1698-1706, fls. 46v, 47. Nos anos seguintes, o valor desta renda foi baixando bastante.

91

Termos utilizados para designar os funcionários nomeados para medirem o vinho e o sal, utilizando para o efeito medidas aferidas pelos aferidores do concelho.

No que respeitas às despesas, raramente estas eram inferiores às receitas, o que significa que, depois de extraída a terça para o rei, o restante mal dava para pagar as despesas do concelho com ordenados, encargos de aposentadoria, obras do concelho e outras miudezas municipais. Sempre que eram necessárias obras de alguma grandeza nas infra-estruturas municipais (pontes, edifícios públicos, etc.), a balança desequilibrava negativamente, criando sérias dificuldades na recuperação posterior.

Em Alcochete, por exemplo, o saldo só começou a ser verdadeiramente positivo lá para os finais do século XVIII, altura em que as receitas chegaram a atingir o dobro das despesas, como se verificou na primeira metade da década de 90. Porém, os gastos do ano de 1793 vieram desequilibrar o orçamento, visto que os 633.213 réis cobrados, sujeitos ainda à terça para Sua Majestade (216.028 réis), não davam para cobrir a despesa de 861.114 réis, valor que se deveu em grande parte à despesa que fez “o sobredito procurador, a quantia de quinhentos e vinte oito mil oito centos e cinquenta réis, que despendeu com o festejo (…) da princesa do Brasil Nossa Senhora (…)”93. De resto, situações destas eram frequentes. Os anos de 1767 e 1768, para receitas brutas inferiores a 300.000 mil réis, este concelho apresentou 404.034 e 564.345 réis, respectivamente, para os referidos anos, em consequência de grandes obras que se fizeram no cais desta vila, deixando as finanças debilitadas por algum tempo.

Na Moita, só chegaram aos nossos dias livros de receitas a partir de 1766, mas uma análise cuidada destes livros de contas, permite-nos observar um maior rigor na fiscalização das contas a partir de 1775, altura em que aparecem muitas despesas glosadas e, por isso mesmo, corrigidas, mostrando que a comarca estava atenta a eventuais gastos menos claros por parte do poder municipal94.

Para além das rendas a que os municípios tinham direito, das quais a terça parte pertencia ao rei, existiam ainda as rendas das correntes para Sua Alteza, a dízima a

92

Ibidem, liv.1, 1766-1773.

93

ADS, Fundo da Câmara Municipal de Alcochete, liv. 42, fl. 196v.

94

Com referência à correição de 1793, e com texto datado de 3 de Fevereiro de 1794, fl. 76, diz-

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