3.3 O PLANO DE AÇÕES ARTICULADAS: DIMENSÕES DE UM
3.3.2 Os Conselhos Escolares no contexto do PAR (2007-2011)
Como um programa do governo federal, o Plano de Ações Articuladas reúne um conjunto de ações orientadoras da política educacional que pressupõe para sua
implementação a descentralização administrativa, regime de colaboração entre os entes federados e participação da sociedade no comprometimento com a elevação da qualidade da educação. Entre as estratégias que podem contribuir para a conscientização e a mobilização social, encontra-se a prática da gestão democrática nas escolas públicas, princípio que se associa à constituição de mecanismos legais e institucionais de participação, entre os quais os conselhos escolares. Em geral, os CE despontam como uma possibilidade de ampliar a participação e envolver os cidadãos cada vez mais na concepção e na elaboração de ações capazes de melhorar a qualidade da educação.
Os conselhos existem nas mais variadas formas, finalidades e com os mais diferentes níveis de participação popular. Para os defensores da escola pública, de acordo com Dourado (2007) e Werle (2003), os Conselhos, de modo geral, são uma forma de gestão organizacional capaz de materializar, por meio da participação e da intervenção, o processo de tomada de decisão compartilhada entre os atores envolvidos no processo educacional.
Essa prática pode abranger tanto Conselhos de regulamentação dos sistemas (Conselhos de Educação), como Conselhos gestores de instituições (Conselhos Escolares), passando pelos conselhos de fiscalização vinculados a programas governamentais específicos (Conselhos do FUNDEB e Conselhos de Alimentação Escolar). Apesar de lacunas e debilidades, todos são de vital importância para o controle social das políticas públicas governamentais voltadas para a área da educação, servindo de canal à manifestação democrática dos cidadãos.
Para explicitar sobre a verdadeira função destes, Werle (2003) afirma que o Conselho Escolar é um espaço aberto, mas não uma área destinada à exposição unilateral de pontos de vista. Trata-se de um espaço no qual nós construímos alguma coisa em comum e não, simplesmente, uma situação em que eu torno públicas as minhas posições, as minhas convicções, os meus interesses e as minhas ideias. Nessa perspectiva, o Conselho Escolar é um campo de construção comunitária, porque nele é construído o nosso. Ele é um espaço de todos e, ao mesmo tempo, para todos, por constituir-se pelo voto e depois pela voz de representantes da comunidade escolar.
Entendendo que esse é um indicador significativo da gestão democrática, neste tópico, buscou-se analisar como o Conselho Escolar é preconizada pelo PAR
(2007-2011), tomando como referência o que está explicitado no Guia Prático de Ações (2007-2011), documento elaborado pelo MEC para auxiliar os estados e municípios brasileiros na definição das ações necessárias para melhorar o desempenho dos indicadores pontuados com 1 ou 2. Evoca-se que, nesse Guia, estão todos os programas disponibilizados pelo MEC, bem como as ações e estratégias de assistência técnica e/ou financeira do próprio ministério, que podem ser solicitados pelos entes federados em seus respectivos planos, constando também subações com execução pelo próprio município.
Tomando como referência a sequência com que os indicadores da área da gestão democrática são apresentados no PAR, observa-se que o diagnóstico situacional dos Conselhos Escolares é a primeira informação que deve ser avaliada pelos entes federados. Assim, para o indicador “Existência e funcionamento dos Conselhos Escolares”, o governo federal, por meio do Guia Prático de Ações, relativiza como critérios de avaliação, basicamente, 03 aspectos, a saber: 1) a quantidade de escolas da rede pública de ensino que possuem CE; 2) a postura das Secretarias Municipais de Educação no que concerne à orientação e ao incentivo para a implantação dos CE; 3) a iniciativa das próprias escolas em formar seu CE. Registra-se que não houve uma preocupação do documento em diagnosticar a efetiva atuação dos conselhos escolares, no que se refere à sua composição, à natureza e ao funcionamento.
Esses critérios demonstram que há, por parte do governo federal, uma preocupação com a institucionalização formal dos Conselhos Escolares, isto é, com sua existência. Essa mesma concepção também é identificada nas ações propostas pelo Guia para a melhoria das situações diagnosticadas como críticas e insuficientes, que, no caso, são: a implantação dos conselhos nas escolas que ainda não possuem e o incentivo para atuação dos conselhos já existentes. Essa preocupação do governo central pode indicar a necessidade de formação de Conselhos, mas não garante o seu efetivo funcionamento, uma vez que as escolas não têm as condições objetivas para o funcionamento pleno dos Conselhos Escolares.
A criação dos Conselhos pelas escolas públicas é, em potencial, uma oportunidade de aproximar a instituição dos interesses e das necessidades formativas da comunidade, considerando que, ao ser inserido como instância que auxilia e apoia a gestão escolar, faz surgir na escola um espaço de construção
coletiva nos seus encaminhamentos. Contudo, é preciso estar atento para um apontamento feito por Werle (2003, p. 60), que afirma que os Conselhos Escolares existem efetivamente, não somente por definições legais:
Mas na medida em que as pessoas dispõem-se a contribuir para o grupo, a (re)construir a proposta da escola pública. Por sua participação no Conselho, pais, alunos professores e funcionários comprometem-se com a gestão da escola, o que não é simplesmente resolver o problema do muro, da caixa d‟água [...], mas comprometer-se com o perfil de pessoas que está sendo formada ali dentro, com os valores que estão sendo passados em sala de aula.
Concorda-se com Werle (2003), pois os Conselhos não existem apenas pelos preceitos legais, mas na medida em que as pessoas se dispõem a participar e a colaborar para a (re)construção da escola pública. Enquanto não for possível trazer essa cultura participativa para dentro da escola, a institucionalização do Conselho será sempre tutelada pela direção da escola. Reconhece-se que há no PAR uma política induzida pelo governo central para a formação dos Conselhos Escolares, isso é evidente nos documentos do Guia Prático que trazem essa ação como fundamental. No entanto, as estratégias oferecidas são insuficientes para garantir que os Conselhos Escolares funcionem adequadamente.
Entre as condições objetivas para o funcionamento pleno dos CE está a participação de pais, alunos, professores e funcionários no Conselho, que devem se dedicar a contribuir com a gestão da escola não apenas na resolução de problemas rotineiros e físicos mas ainda com os valores a ser transmitidos em sala de aula e com o perfil daqueles que estão sendo formados no ambiente escolar.
Os Conselhos Escolares têm como função propiciar a proposta de sugestões, acrescentar, criar e garantir a participação efetiva e democrática de toda a comunidade escolar. Os CE não podem se constituir como um mecanismo para legitimar decisões. Concordando com esse argumento, Lück (2009) afirma que um órgão colegiado escolar constitui-se em um mecanismo de gestão da escola que tem por objetivo auxiliar na tomada de decisão em todas as suas áreas de atuação, procurando diferentes meios para se alcançar o objetivo de ajudar o estabelecimento de ensino, em todos os seus aspectos, pela participação de modo interativo de pais, professores e funcionários. Em sua atuação, cabe a esses órgãos resgatar valores e cultura, considerando aspectos socioeconômicos, de modo a contribuir para que os alunos sejam atendidos em suas necessidades educacionais de forma global.
Por conseguinte, confirma-se que a institucionalização dos Conselhos Escolares tem de ser acompanhada pela conscientização dos seus membros e pela contínua avaliação dos seus processos de funcionamento. Os membros têm de se reconhecer como elementos imprescindíveis no processo de discussão e na tomada de decisão nos aspectos financeiros, pedagógicos e administrativos da escola. Logo, o modo como atuam os conselheiros é que irá determinar se os Conselhos Escolares estão se consolidando como estruturas democratizantes e participativas.
4 O PAR NO MUNICÍPIO DE RIACHUELO/RN: A DIMENSÃO DOS CONSELHOS ESCOLARES E A SUA IMPLEMENTAÇÃO
O Plano de Ações Articuladas vem se consolidando como um tipo planejamento estruturante da gestão da rede pública de ensino nos municípios brasileiros, com a finalidade de concretizar as metas de desenvolvimento da Educação Básica proposta pelo PDE, principalmente, em municípios com baixa capacidade administrativa. Isso se dá porque, ao instrumentalizar os municípios para a organização da rede, o governo federal o faz em uma perspectiva que procura contemplar a maior parte dos fatores que interferem na melhoria da qualidade da educação, como a gestão, as práticas pedagógicas e a avaliação, a formação de professores e a infraestrutura escola.
Ainda que o PAR (2007-2011) restrinja o planejamento aos indicadores que precisam de ações emergenciais, ele permite que o município tenha a oportunidade de superar as tradicionais ações imediatistas que, por vezes, norteiam a trabalho desenvolvido pela Secretaria Municipal de Educação e não conduzem a mudanças amplas e significativas da atividade educacional. Nesse processo, ao considerar características como a plurianualidade e a multidimensionalidade, o PAR tem conduzido a administração municipal a vislumbrar a direção para a qual devem se encaminhar suas ações de curto e médio prazo, colocando em evidência não apenas o planejamento em longo prazo mas também as diferentes dimensões educacionais que repercutem diretamente no sucesso do trabalho educacional desenvolvido pela rede pública de ensino.
Para analisar como o planejamento organizado no município de Riachuelo no âmbito do PAR (2007-2011) foi operacionalizado na prática, no que se refere aos Conselhos Escolares, esta seção se estrutura em quatro tópicos. O primeiro faz uma caracterização do município de Riachuelo/RN e analisa os caminhos percorridos para a construção do seu Plano de Ações Articuladas. O segundo discute o indicador dos Conselhos Escolares no Plano de Ações Articuladas de Riachuelo (2007 a 2011). O terceiro analisa a implantação dos Conselhos Escolares no município de Riachuelo na perspectiva da gestão municipal de educação. O quarto estabelece uma discussão sobre as motivações e as características de implantação do Conselho Escolar na Escola Municipal Francisquinho Caetano.
4.1 PLANO DE AÇÕES ARTICULADAS NO MUNICÍPIO DE RIACHUELO/RN: A